sábado, agosto 1
A famosa rã saltadora do Condado de Calavera
A pedido de um amigo que me escreveu do leste, procurei o velho tagarela Simon Wheeler, para me informar sobre alguém chamado Leônidas W. Smiley. Eis o resultado: concluí que o tal Leônidas W. Smiley não existia e que o meu amigo jamais havia conhecido tal pessoa. Ele apenas imaginou uma armadilha para que o velho Wheeler se lembrasse do nome do notável Jim Smiley, prevendo então que despencaria em cima de mim longas e entediantes histórias. Se foi sua intenção, acertou.
Encontrei Simon Wheeler cochilando junto ao aquecedor da velha taverna no decadente acampamento dos mineiros de Angel. Era gordo e careca, com um sorriso desenhado no semblante tranqüilo. Acordou me dando um bom dia. Então perguntei a ele sobre Leônidas W. Smiley, um reverendo e jovem ministro evangelista, que, segundo informações, havia residido no acampamento. Acrescentei ainda, ser muito importante para mim qualquer informação sobre ele.
Simon Wheeler arrastou uma cadeira para o lado da sua e me fez sentar. Iniciou então a sua monótona narrativa. Nenhuma vez sorriu ou franziu o cenho ou alterou a voz. Falou fluentemente, sempre gentil mas sem nenhum entusiasmo ou emoção. Durante toda a narrativa falou com franqueza e coração aberto, sem deixar vazar qualquer sentido de reprovação em qualquer das histórias sobre seus amigos, demonstrando claramente um grande respeito por eles, elevando-os à condição de gênios. Por mim, deixei que contasse toda a história sem interferir em nada.
“Esse tal Smiley tinha uma égua – que os meninos apelidaram de ‘justos 15 minutos’, mas era só uma gozação, porque, você sabe, ela corria mais do que isso, – e ele costumava ganhar dinheiro com ela; bem, ela era lenta mesmo, tinha asma, diarréia, tuberculose, sei lá o que mais. Todos costumavam levar uma vantagem e ficar na frente pelo caminho, mas sempre no final da corrida a égua ficava excitada, meio desesperada, e disparava dando saltos e coices para todos os lados, levantando mais poeira do que um vendaval, e acabava sempre por passar a linha de chegada pelo menos um nariz à frente dos outros.”
“Ele tinha, também, um buldogue, pequeno, pelo qual ninguém lhe daria um centavo, parecia um vira-lata que só servia para roubar a comida dos menos avisados. Mas era só ouvir o tinir das moedas e o Smiley colocá-lo na rinha, que ele se transformava e ia direto morder as patas traseiras dos adversários e ficava agarrado ali, não mastigava, se me entende, só ficava agarrado até o dono do outro cachorro jogar a toalha, mesmo que demorasse um ano. Smiley sempre ganhou dinheiro com o cachorrinho, até o dia em que encontraram um cachorro que não tinha as pernas traseiras, amputadas por uma serra circular, e quando a briga já estava adiantada e o dinheiro casado é que se viu onde eles tinham se metido; o outro cachorro tinha tudo ao seu gosto e o cachorrinho, assustado e sem poder agir, acabou sofrendo muito com as mordidas do outro cão, que não tinha as pernas de trás. Olhou para Smiley com tristeza como a recriminá-lo por colocá-lo para lutar com um cachorro que não tinha as patas traseiras, exatamente onde sempre se agarrava tenazmente, deitou e morreu. Era um bom cachorro, Andrew Jackson era o seu nome, e ficaria famoso se tivesse vivido mais tempo, porque era gênio. Nem é preciso reforçar essa idéia, porque as lutas que fizera anteriormente demonstrava o seu talento. Sempre fico triste quando penso na última luta e como terminou.”
“Bem, Smiley tinha uns cãezinhos da raça terrier para caçar ratos, galos de briga e gatos selvagens, e tantos outros animais que você não pode imaginar o que ele não tinha para competir numa aposta. Um dia ele arranjou uma rã, levou-a para casa, disse que iria treiná-la e não fez outra coisa senão ensinar aquela rã a saltar pelo seu jardim. E pode apostar que ele ensinou. Bastava dar um toque no traseiro dela e você via aquela rã rodando pelo ar, como uma panqueca, podia vê-la dar saltos mortais, girar, e cair com as quatro patas, como um gato. Também a treinou para pegar moscas, forçando que ela praticasse com tal exagero que pegava as moscas à distância, com a maior facilidade. Smiley insistia em dizer que se podia ensinar qualquer coisa para uma rã que ela aprenderia e eu acredito nisso. Meu amigo, eu vi ele colocar Daniel Webster no chão – Daniel Webster era o nome da rã – e atiçar: ‘Moscas, Daniel, moscas!’, e no mesmo instante, mal dava para ver, ela já tinha pulado para cima do balcão, engolido a mosca, e voltado para a sua posição, já coçando a cabeça com uma das patas traseiras, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo para uma rã fazer. Em lugar nenhum você podia encontrar uma rã tão simples e modesta, apesar do seu talento. Saltar num terreno plano, então, ia mais longe do que qualquer outro animal da sua espécie. Smiley apostaria todo seu dinheiro no salto da sua rã. Ele tinha muito orgulho da sua rã, e podia mesmo ter porque pessoas que haviam viajado pelo mundo estavam de acordo que jamais haviam visto outra igual.”
“Bem, Smiley deixava a rã numa pequena gaiola, onde, de quando em vez, levava à cidade para apostar. Certo dia, um sujeito – desconhecido no acampamento – viu Smiley levando a gaiola e perguntou:
“‘O que leva aí nessa gaiola?'”
“Smiley respondeu, fingindo indiferença: ‘Podia ser um periquito ou um canário, mas não é não… é uma rã’.”
“O estranho pegou a gaiola, examinou-a com cuidado de um lado ao outro e falou: ‘Está certo, parece que é. E para que serve?'”
“‘Bem’, disse Smiley, calmamente. ‘Ela é muito boa em saltos – salta mais alto do que qualquer outra rã no Condado de Calaveras’.”
“O estranho pegou a gaiola de novo e examinou a rã novamente, depois a devolveu para Smiley, com expressão de dúvida: ‘Pelo que vejo essa rã parece igual a todas as rãs’.”
“‘Talvez você não veja,’ disse Smiley. ‘Talvez você entenda de rã, talvez não; talvez até você seja um especialista, talvez um amador. De qualquer jeito eu tenho a minha opinião e estou disposto a bancar 40 dólares que ela é capaz de saltar mais alto do que qualquer outra rã no condado de Calaveras’.”
“O estranho pensou a respeito e disse, com tristeza: ‘Bem, não sou daqui e não tenho uma rã, senão eu apostava’.
“Então Smiley propôs: ‘Tudo bem, tudo bem, você segura minha gaiola que vou arranjar uma rã para você.’ Na hora o estranho casou os seus 40 dólares e ficou esperando por Smiley.”
“Sentado ali um bom tempo, o estranho começou a matutar consigo mesmo e resolveu aproveitar a chance que lhe era oferecida. Sacou a rã da gaiola apertando-a até que abrisse a boca, então recolheu à mão-cheia um punhado de chumbo de caça que enfiou pela boca adentro da rã. Em seguida colocou o animal no chão, que ali ficou estático. Enquanto isso Smiley procurava junto ao brejo uma rã, para que o estranho pudesse apostar. Finalmente conseguiu, levou-a ao estranho, dizendo: ‘Agora, se você está pronto, coloque a sua rã junto ao Daniel, com as patas alinhadas que eu vou dar o sinal. E disse: ‘Um… dois… e… já!’ Cada apostador deu o seu toque por trás da sua rã, mas, enquanto a rã do brejo dava um salto para valer, Daniel apenas levantou os ombros – assim como fazem os franceses – sem conseguir se mover. Ficou plantado como uma igreja; era como se estivesse ancorado. Isso deixou Smiley intrigado e aborrecido, mas não podia imaginar o que estava acontecendo, é claro.”
“O estranho pegou o dinheiro e foi embora feliz, fazendo um sinal de positivo com o polegar. Mais adiante se voltou: ‘Bem’ – repetiu ele. ‘Não vejo nada nessa rã que a faça melhor que as outras’.”
“Smiley coçou a cabeça, procurando uma explicação para o acontecido, olhando Daniel e resmungou: ‘Eu me pergunto o que fez esse animal desistir. Que será que deu nela? O certo é que ela realmente está com um aspecto diferente, parecendo um saco de batatas’. Quando levantou Daniel logo percebeu o excesso de peso: ‘Opa, ela deve estar pesando mais de 5 libras!’ – exclamou, enquanto virava a rã de cabeça para baixo, e viu ela arrotar espalhando um bom punhado de chumbo de caça. Entendendo o que havia acontecido, ele partiu atrás do estranho disposto a tudo, mas não conseguiu encontrá-lo…”
Nesse momento do relato, Simon Wheeler ouviu alguém chamar seu nome lá de fora e se levantou para ver do que se tratava. Afastou-se dizendo: “Oh, amigo, fique onde está que volto num segundo.”
Mas vocês me perdoem, porque achei que as histórias que Simon me contava desse Jim Smiley nada tinha a ver com o reverendo Leônidas W. Smiley, nem me traria informações sobre ele, por isso me levantei para sair.
Na porta, Wheeler, o falante, voltava e me segurou pelo casaco, querendo continuar a contar os casos:
“Bem, esse tal Smiley tinha uma vaca caolha e sem rabo… só um coto, como uma banana…”
Mas aleguei falta de tempo, para não dizer de vontade, e não esperei para ouvir a respeito da pobre vaca e fui embora.
Mark Twain
Encontrei Simon Wheeler cochilando junto ao aquecedor da velha taverna no decadente acampamento dos mineiros de Angel. Era gordo e careca, com um sorriso desenhado no semblante tranqüilo. Acordou me dando um bom dia. Então perguntei a ele sobre Leônidas W. Smiley, um reverendo e jovem ministro evangelista, que, segundo informações, havia residido no acampamento. Acrescentei ainda, ser muito importante para mim qualquer informação sobre ele.
Simon Wheeler arrastou uma cadeira para o lado da sua e me fez sentar. Iniciou então a sua monótona narrativa. Nenhuma vez sorriu ou franziu o cenho ou alterou a voz. Falou fluentemente, sempre gentil mas sem nenhum entusiasmo ou emoção. Durante toda a narrativa falou com franqueza e coração aberto, sem deixar vazar qualquer sentido de reprovação em qualquer das histórias sobre seus amigos, demonstrando claramente um grande respeito por eles, elevando-os à condição de gênios. Por mim, deixei que contasse toda a história sem interferir em nada.
“Reverendo Leônidas W. hum, reverendo Le… – bem, tinha um por aqui que atendia pelo nome de Jim Smiley no inverno de 49, talvez na primavera de 50, não me lembro bem, mas o que me fez pensar que era um ou outro é por me lembrar que o grande canal não estava ainda terminado quando ele chegou no acampamento; mas era um homem dos mais diferentes que já vi, sempre disposto a apostar em qualquer coisa, se conseguisse alguém para apostar contra; e se ninguém estivesse contra, ele ficava a favor. O que ele queria mesmo era apostar. E o incrível era sua sorte, porque mesmo assim ele quase sempre estava ganhando; sempre na espreita, esperando aparecer um motivo para jogar, e como lhe contei, não importava muito para que lado ele estava; nas corridas de cavalos, terminava sempre cheio do dinheiro ou completamente duro. Se tivesse uma briga de cachorros, lá ia ele; de gatos, apostava; de galinhas, também! Amigo, se tivesse dois passarinhos pousados na cerca, queria apostar qual voaria primeiro. Até às reuniões evangélicas ele ia pensando em apostar no pastor Walker, por ser ele o melhor pregador da região. Se visse uma lagarta indo para algum lugar, ia querer apostar com você quanto tempo ela levaria para chegar no seu destino, e se dispunha a seguir o bicho até o México, se fosse o caso, para saber o tempo que levou para chegar. Muitos aqui conheceram o Smiley e podem contar muitas coisas sobre ele. Amigo, não fazia diferença para ele – apostava em qualquer coisa o filho da puta. Quando a mulher do pastor Walker ficou doente, parecia que ia morrer, pois ficou assim muito tempo; numa manhã, dando com o pastor, o Smiley perguntou como ela estava e ele disse que ela estava melhorando – graças ao Senhor e sua infinita misericórdia – e com a benção divina, logo estará completamente sarada. E o Smiley, disse em seguida: ‘Bem, eu arrisco dois dólares e meio como ela não vai ficar’.”
“Esse tal Smiley tinha uma égua – que os meninos apelidaram de ‘justos 15 minutos’, mas era só uma gozação, porque, você sabe, ela corria mais do que isso, – e ele costumava ganhar dinheiro com ela; bem, ela era lenta mesmo, tinha asma, diarréia, tuberculose, sei lá o que mais. Todos costumavam levar uma vantagem e ficar na frente pelo caminho, mas sempre no final da corrida a égua ficava excitada, meio desesperada, e disparava dando saltos e coices para todos os lados, levantando mais poeira do que um vendaval, e acabava sempre por passar a linha de chegada pelo menos um nariz à frente dos outros.”
“Ele tinha, também, um buldogue, pequeno, pelo qual ninguém lhe daria um centavo, parecia um vira-lata que só servia para roubar a comida dos menos avisados. Mas era só ouvir o tinir das moedas e o Smiley colocá-lo na rinha, que ele se transformava e ia direto morder as patas traseiras dos adversários e ficava agarrado ali, não mastigava, se me entende, só ficava agarrado até o dono do outro cachorro jogar a toalha, mesmo que demorasse um ano. Smiley sempre ganhou dinheiro com o cachorrinho, até o dia em que encontraram um cachorro que não tinha as pernas traseiras, amputadas por uma serra circular, e quando a briga já estava adiantada e o dinheiro casado é que se viu onde eles tinham se metido; o outro cachorro tinha tudo ao seu gosto e o cachorrinho, assustado e sem poder agir, acabou sofrendo muito com as mordidas do outro cão, que não tinha as pernas de trás. Olhou para Smiley com tristeza como a recriminá-lo por colocá-lo para lutar com um cachorro que não tinha as patas traseiras, exatamente onde sempre se agarrava tenazmente, deitou e morreu. Era um bom cachorro, Andrew Jackson era o seu nome, e ficaria famoso se tivesse vivido mais tempo, porque era gênio. Nem é preciso reforçar essa idéia, porque as lutas que fizera anteriormente demonstrava o seu talento. Sempre fico triste quando penso na última luta e como terminou.”
“Bem, Smiley tinha uns cãezinhos da raça terrier para caçar ratos, galos de briga e gatos selvagens, e tantos outros animais que você não pode imaginar o que ele não tinha para competir numa aposta. Um dia ele arranjou uma rã, levou-a para casa, disse que iria treiná-la e não fez outra coisa senão ensinar aquela rã a saltar pelo seu jardim. E pode apostar que ele ensinou. Bastava dar um toque no traseiro dela e você via aquela rã rodando pelo ar, como uma panqueca, podia vê-la dar saltos mortais, girar, e cair com as quatro patas, como um gato. Também a treinou para pegar moscas, forçando que ela praticasse com tal exagero que pegava as moscas à distância, com a maior facilidade. Smiley insistia em dizer que se podia ensinar qualquer coisa para uma rã que ela aprenderia e eu acredito nisso. Meu amigo, eu vi ele colocar Daniel Webster no chão – Daniel Webster era o nome da rã – e atiçar: ‘Moscas, Daniel, moscas!’, e no mesmo instante, mal dava para ver, ela já tinha pulado para cima do balcão, engolido a mosca, e voltado para a sua posição, já coçando a cabeça com uma das patas traseiras, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo para uma rã fazer. Em lugar nenhum você podia encontrar uma rã tão simples e modesta, apesar do seu talento. Saltar num terreno plano, então, ia mais longe do que qualquer outro animal da sua espécie. Smiley apostaria todo seu dinheiro no salto da sua rã. Ele tinha muito orgulho da sua rã, e podia mesmo ter porque pessoas que haviam viajado pelo mundo estavam de acordo que jamais haviam visto outra igual.”
“Bem, Smiley deixava a rã numa pequena gaiola, onde, de quando em vez, levava à cidade para apostar. Certo dia, um sujeito – desconhecido no acampamento – viu Smiley levando a gaiola e perguntou:
“‘O que leva aí nessa gaiola?'”
“Smiley respondeu, fingindo indiferença: ‘Podia ser um periquito ou um canário, mas não é não… é uma rã’.”
“O estranho pegou a gaiola, examinou-a com cuidado de um lado ao outro e falou: ‘Está certo, parece que é. E para que serve?'”
“‘Bem’, disse Smiley, calmamente. ‘Ela é muito boa em saltos – salta mais alto do que qualquer outra rã no Condado de Calaveras’.”
“O estranho pegou a gaiola de novo e examinou a rã novamente, depois a devolveu para Smiley, com expressão de dúvida: ‘Pelo que vejo essa rã parece igual a todas as rãs’.”
“‘Talvez você não veja,’ disse Smiley. ‘Talvez você entenda de rã, talvez não; talvez até você seja um especialista, talvez um amador. De qualquer jeito eu tenho a minha opinião e estou disposto a bancar 40 dólares que ela é capaz de saltar mais alto do que qualquer outra rã no condado de Calaveras’.”
“O estranho pensou a respeito e disse, com tristeza: ‘Bem, não sou daqui e não tenho uma rã, senão eu apostava’.
“Então Smiley propôs: ‘Tudo bem, tudo bem, você segura minha gaiola que vou arranjar uma rã para você.’ Na hora o estranho casou os seus 40 dólares e ficou esperando por Smiley.”
“Sentado ali um bom tempo, o estranho começou a matutar consigo mesmo e resolveu aproveitar a chance que lhe era oferecida. Sacou a rã da gaiola apertando-a até que abrisse a boca, então recolheu à mão-cheia um punhado de chumbo de caça que enfiou pela boca adentro da rã. Em seguida colocou o animal no chão, que ali ficou estático. Enquanto isso Smiley procurava junto ao brejo uma rã, para que o estranho pudesse apostar. Finalmente conseguiu, levou-a ao estranho, dizendo: ‘Agora, se você está pronto, coloque a sua rã junto ao Daniel, com as patas alinhadas que eu vou dar o sinal. E disse: ‘Um… dois… e… já!’ Cada apostador deu o seu toque por trás da sua rã, mas, enquanto a rã do brejo dava um salto para valer, Daniel apenas levantou os ombros – assim como fazem os franceses – sem conseguir se mover. Ficou plantado como uma igreja; era como se estivesse ancorado. Isso deixou Smiley intrigado e aborrecido, mas não podia imaginar o que estava acontecendo, é claro.”
“O estranho pegou o dinheiro e foi embora feliz, fazendo um sinal de positivo com o polegar. Mais adiante se voltou: ‘Bem’ – repetiu ele. ‘Não vejo nada nessa rã que a faça melhor que as outras’.”
“Smiley coçou a cabeça, procurando uma explicação para o acontecido, olhando Daniel e resmungou: ‘Eu me pergunto o que fez esse animal desistir. Que será que deu nela? O certo é que ela realmente está com um aspecto diferente, parecendo um saco de batatas’. Quando levantou Daniel logo percebeu o excesso de peso: ‘Opa, ela deve estar pesando mais de 5 libras!’ – exclamou, enquanto virava a rã de cabeça para baixo, e viu ela arrotar espalhando um bom punhado de chumbo de caça. Entendendo o que havia acontecido, ele partiu atrás do estranho disposto a tudo, mas não conseguiu encontrá-lo…”
Nesse momento do relato, Simon Wheeler ouviu alguém chamar seu nome lá de fora e se levantou para ver do que se tratava. Afastou-se dizendo: “Oh, amigo, fique onde está que volto num segundo.”
Mas vocês me perdoem, porque achei que as histórias que Simon me contava desse Jim Smiley nada tinha a ver com o reverendo Leônidas W. Smiley, nem me traria informações sobre ele, por isso me levantei para sair.
Na porta, Wheeler, o falante, voltava e me segurou pelo casaco, querendo continuar a contar os casos:
“Bem, esse tal Smiley tinha uma vaca caolha e sem rabo… só um coto, como uma banana…”
Mas aleguei falta de tempo, para não dizer de vontade, e não esperei para ouvir a respeito da pobre vaca e fui embora.
Mark Twain
Lembranças do futuro
Traz-me lembranças tristes o porvir,
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.
O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.
Rui Knopfli, "Mangas Verdes com Sal"
mais do que as débeis luzes a jusante
acesas por consentidas saudades.
O pranto do homem é o menino perdido,
mas a criança que chora na margem
não se chora. Chora o homem:
só os poetas têm lembranças do futuro.
Rui Knopfli, "Mangas Verdes com Sal"
O desmemoriado de Vigário Geral
Lembrava-se, como se fosse ontem, isto é, há quarenta séculos, que um exército de pirâmides o contemplava. Mas não saberia precisar onde, a que luz ou em que sol de que extinta constelação. Não obstante preferia que fosse na estrela mais branca do cinturão de Órion.
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, "Estrela da manhã"
É verdade: havia uma mulher que telefonava. Mas tão distante, meu Deus, que era como se lhe faltasse a ela e para todo o sempre um atributo humano indispensável.
Se lhe propunham exemplos – o xeque do pastor, o pau de amarrar égua, o mal-assombrado de Guapi, futura cidade, ele dissimulava. Era então horrível de se ver.
Afinal um dia foi encontrado morto e quando já nem tudo era possível, uma aventura banal.
Manuel Bandeira, "Estrela da manhã"
O solitário poeta que passou o fim da vida em hotéis e agora viraliza nas redes sociais
"Todos esses que aí estão/ Atravancando meu caminho,/ Eles passarão.../ Eu passarinho!"
Versos simples, pontiagudos e bem-sacados sobre coisas cotidianas com a habilidade de um cronista. Textos curtos, mas intensos. O estilo marcante da poesia do gaúcho Mario Quintana (1906-1994), nascido há 120 anos, combina tão bem com a lógica das redes sociais que sua poesia acabou ganhando uma nova vida em posts contemporâneos, compartilhada mesmo por quem nem sequer sabe a autoria de tais versos.
"Ele faz parte das referências poéticas das pessoas comuns", diz o professor e escritor Miguel Sanches Neto, reitor na Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Para ele, os textos atribuídos a Quintana, "verdadeiramente ou falsamente", demonstram que seu estilo "se impôs nos frequentadores das redes sociais".
"Dadas as referências ao banal, à experiência humana de renúncia e de amor à vida, sua poesia é um pão e vinho sagrados, que se multiplicam entre os que têm fome de poesia", analisa.
O escritor contemporâneo Saulo Florentino, que tem se debruçado sobre a presença da literatura nas redes sociais, associa essa fama atual de Quintana ao seu jeito de poetizar "sem se distanciar, sem confundir profundidade com complexidade". "Tantas pessoas sentem que ele escreveu algo especialmente para elas", diz.
Florentino concorda que o estilo curto, sintético, do poeta gaúcho parece feito para a era das redes. "A sociedade atual vive da circulação de frases. As pessoas se acostumaram a pequenos comprimidos de poesia", define.
Tal protagonismo digital tem como efeito colateral os versos erroneamente atribuídos a Quintana. "Isso também diz algo interessante", avalia Florentino. "Mostra que existe uma espécie de imaginário coletivo sobre quem foi Mario Quintana e que, quando alguém encontra uma frase melancólica ou delicada, acredita que a mesma foi escrita por ele."
Para o escritor contemporâneo, existe um "reconhecimento involuntário da identidade estética e textual" de Mario Quintana.
Criador do canal no YouTube Elite da Língua, o professor de literatura Emerson Rossetti vê na poética de Quintana uma tríade de elementos que funcionam muito bem na era das redes. "São aspectos convergentes", afirma.
O primeiro é a simplicidade de sua linguagem. "Com grande apelo poético que atrai bastante a atenção", diz. Outro ponto é a escolha dos temas — privilegiando o cotidiano e a busca do sentido para as coisas banais da vida. "A terceira questão, muito importante, é a sua expressão sintética", acrescenta o professor. "Os versos do Quintana são curtos e isso tem a ver com o gosto do leitor de hoje, que procura essa economia de expressão nos tempos da internet."
Em outras palavras, Quintana é o poeta do antitextão.
Para o cantor e compositor Márcio de Camillo, que desde 2018 tem um espetáculo infantil chamado Crianceiras Mario Quintana, a poética do gaúcho ficou pop "porque o verso é uma maneira rápida de leitura".
Para ele, as redes estão "democratizando mais a poesia" e, neste fenômeno, autores "com versos fantásticos" como Quintana acabam funcionando.
E a poética de Quintana se encaixa no universo infantil da adaptação de Camillo. "Crianças e seus pais acabam consumindo poesia de uma maneira divertida", argumenta Camillo.
"Mario Quintana conquistou um lugar especial na literatura brasileira porque soube fazer algo aparentemente simples, mas muito difícil: encontrar poesia nas coisas comuns", contextualiza o linguista Vicente de Paula da Silva Martins, professor na Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA).
"Ele não precisava recorrer a grandes acontecimentos ou a uma linguagem complicada para falar de questões profundas. Uma rua silenciosa, uma lembrança de infância, um objeto antigo ou a passagem do tempo podiam se transformar, em seus versos, em reflexões sobre a vida."
"Além disso, Quintana tinha uma maneira muito própria de brincar com as palavras, criando versos que pareciam conversas, mas que carregavam muita reflexão. Sua poesia consegue unir profundidade e simplicidade, fazendo o leitor sorrir e, ao mesmo tempo, pensar", afirma Martins.
E viraliza nas redes porque "consegue dizer muito usando poucas palavras", destaca Martins. Nada mal para alguém que morreu longe da fama em 1994 — depois de viver o auge aos 60 anos, seis décadas atrás.
Mario de Miranda Quintana nasceu em Alegrete, a mais de 500 quilômetros de Porto Alegre, em 30 de julho de 1906. Era o caçula de três filhos. Aos 13, mudou-se com os pais para a capital gaúcha.
Estudou no Colégio Militar de Porto Alegre e trabalhava na farmácia do pai. Foi na escola que começou a desenvolver seu talento literário, publicando textos em jornalzinho interno e fazendo sucesso entre professores e alunos.
Segundo sinopse biográfica disponibilizada pelo Instituto Moreira Salles (IMS), que desde 2009 abriga o acervo do poeta, na adolescência ele "trocava o estudo de desenho pela leitura" de obras como do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) — e isso teria causado sua reprovação na matéria escolar, em 1921.
O IMS ainda atesta que o jovem Quintana não era dos melhores nem em álgebra nem em geografia, mas "as notas altas em francês eram prenúncio do tradutor que ele seria no futuro".
O caminho das letras começou a ser pavimentado em 1924, quando, aos 18 anos, conseguiu emprego na Livraria do Globo, que depois se tornaria importante editora de livros. Inicialmente, Quintana trabalhava como desempacotador.
Gradualmente passou a integrar o quarteto que faria da livraria a lendária editora — a partir de 1928, Edições da Livraria do Globo; depois de 1956, Editora Globo. Eram eles os amigos Henrique Bertaso (1906-1977), o filho do dono do empreendimento; o escritor Erico Verissimo (1905-1975); e o editor Mauricio Rosenblatt (1906-1988).
Era uma trupe que trabalhava junto durante o dia e se divertia durante a noite. No livro Um Certo Henrique Bertaso, Verissimo conta algumas dessas histórias. Por exemplo, a do jantar organizado na casa de um amigo imigrante italiano que tinha, entre os bibelôs decorativos, um gigantesco ovo de avestruz sobre a mesinha de centro.
"Não sei que demônio me soprou ao ouvido a ideia de começar um jogo, já que aquele 'objeto' oval se parecia um pouco com a bola usada no futebol norte-americano", escreveu. E então ele detalhou que foi um amigo arremessando o gigante ovo para o outro até que alguém "teve a trágica ideia de jogar a improvisada bola para Mario Quintana".
"Ora, o nosso querido poeta, que não é bem deste mundo, ergueu-se de repente, recuando e recusando agarrar aquela coisa branca que arremessavam sobre ele…", relatou Verissimo.
"O ovo caiu sobre a mesa e partiu-se, espalhando sobre a toalha um líquido gosmento, dum amarelo sujo, e dum fedor sulfuroso de podridão milenar — um fedor pré-histórico, que nos entrava pelas narinas, medonho, ácido, apocalíptico, como um resumo de todas as decomposições do mundo através dos séculos… um horror!"
Fato é que Quintana foi crescendo dentro da estrutura da livraria-editora. Atuou como editor, tradutor e, como bem enfatiza o IMS, também se cacifaria como jornalista pois tornou-se renitente "colaborador da Revista do Globo [da mesma casa editorial], que circulou de 1929 e 1967.
Como tradutor, Quintana verteu para o português mais de 130 livros importantes, entre eles Em Busca do Tempo Perdido, do francês Marcel Proust (1871-1922), e Mrs. Dalloway, da britânica Virginia Woolf (1882-1941).
No jornalismo, além da revista da editora, também trabalhou no jornal Correio do Povo, onde mantinha uma coluna na página cultural, aos sábados, de 1953 a 1977.
Mas o que conferiu a Quintana um lugar na história foi mesmo sua produção poética. Seu primeiro livro, A Rua dos Cataventos, saiu em 1940. A produção seguiria até o fim da vida, com obras como Sapato Florido, Espelho Mágico, Quintanares, A Vaca e o Hipogrifo, Esconderijos do Tempo, Da Preguiça como Método de Trabalho, A Cor do Invisível, Velório Sem Defunto, entre outros.
Chamado muitas vezes de "o poeta das coisas simples", foi gigante nessa pequenez. "Quintana foi um dos que modernizou a linguagem poética do Brasil, trazendo-a para mais próxima das pessoas comuns. Esta foi a sua grande modernidade, tirar o ranço acadêmico e lusitano de nosso idioma, o que contribuiu para uma ampliação do público de poesia", avalia Sanches Neto.
"A sua experiência como jornalista e o tom baixo de sua poética fizeram dele um dos poetas mais importantes da língua nacional contemporânea. Em um período em que as vanguardas, a partir dos anos 1950, também tentaram romper com o público, Quintana, um poeta-cronista, aproximou-se dele", completa o professor.
Para muitos críticos, Quintana viveu o auge de sua carreira em 1966. Na época, em celebração ao seus sexagésimo aniversário, foi publicada sua Antologia Poética — 60 poemas em uma seleção cuidadosa organizada pelos escritores Rubem Braga (1913-1990) e Paulo Mendes Campos (1922-1991).
Na comemoração, Quintana foi saudado pela Academia Brasileira de Letras (ABL), com poema em sua homenagem recitado por Manuel Bandeira (1886-1968). Naquele mesmo ano, o poeta foi premiado pela União Brasileira dos Escritores.
A ABL, aliás, é uma cicatriz de sua história. Incentivado por colegas escritores, ele tentou por três vezes uma vaga entre os imortais, mas jamais foi eleito para ocupar a confraria.
"Se Mario Quintana estivesse na ABL, não mudaria sua vida. Mas não estando lá, é um prejuízo para a própria Academia", declarou certa vez o escritor Luis Fernando Verissimo (1936-2025).
Ficou um ranço. Os versos que dizem que "eles passarão… Eu passarinho!", do Poeminho do Contra que abre esta reportagem, teriam sido escritos àqueles que não aceitaram o poeta gaúcho entre os acadêmicos. Em 1980, contudo, a instituição deu a ele o prêmio Machado de Assis, em reconhecimento pelo conjunto da obra.
Para Rossetti, Quintana se tornou parte do cânone da literatura brasileira pelo seu estilo original e pela forma de abordar o cotidiano. "Seu estilo não se inclina a prescrições de nenhuma escola literária. Ele deixou uma obra com alto grau de independência e liberdade estéticas, tanto formais quanto temáticas", diz o professor.
Sanches Neto ressalta que Quintana cultivava um "caráter humano e ético". "Não foi carreirista, não disputou espaços, não buscou nomeada. Era um poeta discreto", ressalta.
Ao mesmo tempo, lembra o professor, sua grande formação literária, "lhe permitiu construir uma poética da humildade alegre, da vida que se realiza na sua plenitude".
"Enquanto a poesia de seus contemporâneos buscava conversar com outros poetas, ele quis se conectar com o leitor comum", diz Sanches Neto. "E ainda com a autoironia e o humor, elementos fundamentais para criar empatia poética."
Sempre solteiro, sem filhos, Quintana era visto como uma pessoa solitária e avessa a exposição pessoal.
A partir do fim dos anos 1960, passou a viver em hotéis. De 1968 até o início dos anos 1980, no Majestic, que funcionava no centro de Porto Alegre e hoje abriga a Casa de Cultura Mario Quintana. Em seguida, foi para o Presidente.
"Ainda passou por outros hotéis, como o Residence, onde sempre obteve carinhosa acolhida", esclarece o músico e compositor Henrique Mann, que foi amigo e parceiro criativo de Quintana, em texto publicado em 2020. Por fim, Quintana se mudaria para o Royal, onde viveria até seus últimos dias.
Se ele se tornou um nome pop nas redes, estas errâncias de hotel em hotel também renderam recente viralização. Tudo porque em 2012 o escritor Roberto Vieira publicou um conto em que retratou Quintana desempregado e sem condições de pagar as contas do hotel Majestic, despejado do mesmo e sem ter para onde ir. Com sua mala na calçada, ele teria sido reconhecido pelo jogador de futebol Paulo Roberto Falcão — na época, ainda na ativa — que o acolhera no hotel Royal, do qual era um dos donos.
Vieira declarou que o texto era fictício, embora recheado de elementos verdadeiros. Na verdade, ele fez uma recriação literária a partir da biografia do poeta. Em texto publicado em suas redes e no blog de Juca Kfouri, Henrique Mann respondeu ao conto que havia viralizado.
Ele confirma que "Falcão acolheu de forma graciosa e vitalícia o poeta em seu hotel Royal", mas enfatiza que "não foi deste modo humilhante descrito". Avalia que o conto é uma versão "romantizada" da "verdade dos fatos".
Segundo Mann, naquela época Quintana estava em busca de outro local para viver, devidamente amparado por amigos e sua sobrinha-neta Elena Quintana (1955-2018). Falcão soube da história e decidiu ajudar — na época ele jogava no Roma, na Itália.
"Eu estava em Roma quando a sobrinha do Mario falou com meu irmão que ele tinha deixado outro hotel e fizemos questão que ele ficasse hospedado conosco", declarou o ex-jogador, ao jornal esportivo Lance!, na época em que essa versão fictícia viralizou.
Assinar:
Postagens (Atom)