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| Decur |
domingo, fevereiro 10
Curtas - e talvez só isso
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O romantismo ainda é uma forma de nos mostrarmos ridículos com certo charme.
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Quem semeia tolices colhe banalidades.
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Descobri, e com atraso, que sou só um homem sensível que tentou aproveitar-se disso para se exibir como um ser especial, usando os mais rasteiros truques poéticos.
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| Anna Parini |
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Escrever todos os dias foi no começo um compromisso e, em seguida, uma obsessão. Tantas décadas depois, é uma tolice.
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Se há alguma coisa a ser louvada em mim é a persistência com que não tenho conseguido ser poeta.
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Todo inimigo figadal tem maus bofes.
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Tudo bem, escrever é uma espécie de jogo, mas quem disse que devemos perder sempre?
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Dão-nos um aplauso ou dois, e lá se vai a modéstia: queremos mais duzentos depois.
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A riqueza de detalhes é às vezes uma pobreza de estilo.
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Uma falha dos provérbios é acreditarem que são infalíveis. Outra é proclamarem que são.
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O ato de burilar, que foi tão caro aos parnasianos mais radicais, parece-me hoje um vício bizarro como o de sentar-se no sofá, apagar a luz e apalpar o sexo de uma boneca.
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Talvez você gostasse de me ver. Estou melhor, acho. Livrei-me do conhaque e dos sonetos.
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Há escritores de dois tipos: os que falam de si mesmos e os que falam de si próprios.
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Eu poderia ser um homem memorável, se os outros se lembrassem de mim.
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Enquanto o escritor decide se coloca uma vírgula, ou duas, o sujeito da frase cria coragem e passa uma cantada no objeto direto.
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Ora essa, os poetas bissextos andam reivindicando aposentadoria integral…
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Perguntam ao filho do escritor o que o pai faz. O menino responde: “Ele mexe com essas coisas de literatura.”
Raul Drewnick
quarta-feira, fevereiro 6
'Em Cuba, tenho muitos leitores, mas poucos livros para esses leitores'
Cuba povoa a literatura de Leonardo Padura. Mesmo que as histórias transitem pela Espanha da guerra civil ou pela Rússia dos soviéticos, a perspectiva cubana segue firme como fio condutor da narrativa. Em A transparência do tempo (Boitempo), novo romance do escritor, isso não é diferente. Dividida em diferentes tempos históricos, a obra acompanha o detetive Mário Conde em mais um caso — o roubo da estátua de uma Virgem negra. Ao longo do livro, os problemas sociais de Cuba não passam despercebidos aos olhos do leitor, algo que, vale dizer, se tornou característico do trabalho de Padura. Ainda que descortinar as contradições do regime não seja exatamente fácil, ele diz não se limitar. “Creio que isso é evidente para qualquer leitor de meus livros, ensaios, roteiros de cinema e reportagens. Claro, arco com as consequências do que digo, mas esse é o preço da liberdade.”
Em A transparência do tempo, o senhor leva o leitor a uma viagem por diferentes momentos históricos, como a guerra civil espanhola e a Idade Média. Que tipo de pesquisa fez para retratar esses períodos?
Faço dois tipos de pesquisa: uma pesquisa de campo e outra bibliográfica. Certamente, a pesquisa feita em livros é a mais importante, pois me permite conhecer mais profundamente esses momentos históricos. No entanto, sempre que possível, gosto de conhecer os lugares em que essas histórias se passaram, os espaços físicos em que os personagens viveram. Assim é possível fazer um relato mais verossímil e impactante, já que essa é a principal exigência do romance, diferentemente da história.
Como ocorre em outros livros escritos pelo senhor, o detetive Mario Conde é protagonista de A transparência do tempo. O que torna o personagem tão central em sua obra?
Já disse muitas vezes que Mario Conde é o melhor veículo que tenho para me cercar da realidade cubana contemporânea, mas ele também me aproxima de elementos da condição humana que são eternos, mas se manifestam de formas peculiares em contextos peculiares. Conde é uma pessoa que busca a verdade, e essa busca, até que chegue ao fim, deve esbarrar em muitas mentiras, e, sobretudo, na realidade e nas atitudes que ele interioriza, vive e expressa a partir da minha perspectiva do cubano atual. Ele não é meu alterego, e sim meu porta-voz.
É possível notar a inquietude de Conde com a proximidade da velhice. O modo como as pessoas envelhecem é um assunto que lhe desperta interesse?
Bem, acho que esse assunto que desperta interesse em todo mundo, principalmente quando se chega a uma certa idade e o joelho dói quando levantamos da cama, ou levamos mais tempo para nos recuperarmos de uma noite regada a vinho. A velhice é um estado lamentável, porque sempre a comparamos com a juventude e seus vigores. De alguma forma, nos dá um alívio pensar que somos mais sábios, mas nem sempre isso é verdade. E, no caso do escritor, a velhice pode gerar a perda da lucidez, e um excesso de confiança na experiência e no “ofício” que atrapalha o funcionamento daquilo que Hemingway chamava de “detector de merda”, que deve estar sempre ligado. Além disso, escrever um romance é um desafio que leva dois ou três anos, e, quando se tem mais de 60 anos, demora cada vez mais tempo.
A estrutura narrativa de seu último lançamento é bastante elaborada. Poderia contar como foi o processo de construção dela?
A questão é que estruturas lineares não me satisfazem mais. Por essa razão, em meus últimos livros, sobretudo a partir de La novela de mi vida (O romance da minha vida, em tradução livre), tenho buscado estruturas mais complexas. Neste livro, alterno o presente, que vai em sentido linear, com a trama histórica, que vai em sentido inverso. Dessa forma, crio não só uma expectativa no leitor, mas também vou avançando em direção à origem de tudo o que conto. Ao mesmo tempo, uso a história para demonstrar que vivenciamos desafios similares, com respostas muito parecidas.
Lançado em 2009, O homem que amava os cachorros (Boitempo) é um romance cuja narrativa também apresenta certa complexidade, principalmente em torno dos três personagens centrais. Quais foram os cuidados que o senhor teve ao criar essa trama?
Ao escrever esse livro, esbarrei em um problema muito grave. Antes de começar a leitura, todo mundo sabe o que acontece no clímax: Ramón Mercader assassina Troski no México, em 1940. Era preciso, então, criar recursos narrativos, de composição, de ritmo que permitissem estimular o interesse do leitor. E as linhas dramáticas que se cruzam, se complementam e se separam serviram para atingir esse objetivo. Boa parte dos três anos que levei para escrever o livro foi gasta apenas na montagem dessas três linhas narrativas..
O senhor se notabilizou por escrever histórias ligadas à literatura policial. O que o atrai no gênero?
Gosto da capacidade que o romance noir tem de contar qualquer história, de passar por cima das convenções e ser uma literatura de alta elaboração estética. Gosto do romance policial por sua vocação de ser uma literatura social e por contar uma história com princípio e fim, como toda boa ficção deve fazer. Atrai-me também o modo como o romance policial fala de uma realidade a partir de seus recantos mais obscuros, que em geral são os lugares mais reveladores. E, como leitor, gosto de ler bons romances policiais.
Em A transparência do tempo, o senhor leva o leitor a uma viagem por diferentes momentos históricos, como a guerra civil espanhola e a Idade Média. Que tipo de pesquisa fez para retratar esses períodos?
Faço dois tipos de pesquisa: uma pesquisa de campo e outra bibliográfica. Certamente, a pesquisa feita em livros é a mais importante, pois me permite conhecer mais profundamente esses momentos históricos. No entanto, sempre que possível, gosto de conhecer os lugares em que essas histórias se passaram, os espaços físicos em que os personagens viveram. Assim é possível fazer um relato mais verossímil e impactante, já que essa é a principal exigência do romance, diferentemente da história.
Como ocorre em outros livros escritos pelo senhor, o detetive Mario Conde é protagonista de A transparência do tempo. O que torna o personagem tão central em sua obra?
Já disse muitas vezes que Mario Conde é o melhor veículo que tenho para me cercar da realidade cubana contemporânea, mas ele também me aproxima de elementos da condição humana que são eternos, mas se manifestam de formas peculiares em contextos peculiares. Conde é uma pessoa que busca a verdade, e essa busca, até que chegue ao fim, deve esbarrar em muitas mentiras, e, sobretudo, na realidade e nas atitudes que ele interioriza, vive e expressa a partir da minha perspectiva do cubano atual. Ele não é meu alterego, e sim meu porta-voz.
Livros não são importados no país e seriam muito caros para os leitores cubanos. Então, são feitos por volta de 3, 4 mil exemplares para
circular na ilha
É possível notar a inquietude de Conde com a proximidade da velhice. O modo como as pessoas envelhecem é um assunto que lhe desperta interesse?
Bem, acho que esse assunto que desperta interesse em todo mundo, principalmente quando se chega a uma certa idade e o joelho dói quando levantamos da cama, ou levamos mais tempo para nos recuperarmos de uma noite regada a vinho. A velhice é um estado lamentável, porque sempre a comparamos com a juventude e seus vigores. De alguma forma, nos dá um alívio pensar que somos mais sábios, mas nem sempre isso é verdade. E, no caso do escritor, a velhice pode gerar a perda da lucidez, e um excesso de confiança na experiência e no “ofício” que atrapalha o funcionamento daquilo que Hemingway chamava de “detector de merda”, que deve estar sempre ligado. Além disso, escrever um romance é um desafio que leva dois ou três anos, e, quando se tem mais de 60 anos, demora cada vez mais tempo.
A estrutura narrativa de seu último lançamento é bastante elaborada. Poderia contar como foi o processo de construção dela?
A questão é que estruturas lineares não me satisfazem mais. Por essa razão, em meus últimos livros, sobretudo a partir de La novela de mi vida (O romance da minha vida, em tradução livre), tenho buscado estruturas mais complexas. Neste livro, alterno o presente, que vai em sentido linear, com a trama histórica, que vai em sentido inverso. Dessa forma, crio não só uma expectativa no leitor, mas também vou avançando em direção à origem de tudo o que conto. Ao mesmo tempo, uso a história para demonstrar que vivenciamos desafios similares, com respostas muito parecidas.
Lançado em 2009, O homem que amava os cachorros (Boitempo) é um romance cuja narrativa também apresenta certa complexidade, principalmente em torno dos três personagens centrais. Quais foram os cuidados que o senhor teve ao criar essa trama?
Ao escrever esse livro, esbarrei em um problema muito grave. Antes de começar a leitura, todo mundo sabe o que acontece no clímax: Ramón Mercader assassina Troski no México, em 1940. Era preciso, então, criar recursos narrativos, de composição, de ritmo que permitissem estimular o interesse do leitor. E as linhas dramáticas que se cruzam, se complementam e se separam serviram para atingir esse objetivo. Boa parte dos três anos que levei para escrever o livro foi gasta apenas na montagem dessas três linhas narrativas..
O senhor se notabilizou por escrever histórias ligadas à literatura policial. O que o atrai no gênero?
Gosto da capacidade que o romance noir tem de contar qualquer história, de passar por cima das convenções e ser uma literatura de alta elaboração estética. Gosto do romance policial por sua vocação de ser uma literatura social e por contar uma história com princípio e fim, como toda boa ficção deve fazer. Atrai-me também o modo como o romance policial fala de uma realidade a partir de seus recantos mais obscuros, que em geral são os lugares mais reveladores. E, como leitor, gosto de ler bons romances policiais.
terça-feira, fevereiro 5
Passou bem?
Os encontros e as despedidas portuguesas são difíceis. Já não me queixo apenas do «tudo bem?». Quando é que tudo está bem? Nunca.
Gosto da economia e da beleza de "então?" mas quase ninguém gosta de usar uma só palavra.
As pessoas da minha geração perguntam "como está?" ou "está boa?" ou "está bom?".
Todas estas expressões são frustrantes e suspeitas, já que não escondem o automatismo da boa educação.
Para a geração dos meus pais era mais simples e mais bonito. Quando se encontravam, perguntavam "passou bem?" e, quando se despediam, exortavam "passe bem!".
Nesses tempos que até agora (por alguma razão muito boa) até um aperto de mãos, entendido como a garantia de uma amizade ou de um contrato, era conhecido como um "passou bem".
Passar e andar eram – e continuam a ser – os verbos da vida boa e bem vivida.
Quando alguém se atreve (com razão) a responder ao "passou bem?" com um "mal..." recebe logo a resposta certa: "isso é que é pior..."
Se responder (com ou sem razão) que «se vai andando», é imediatamente recompensado com um «isso é que é preciso».
"Passou bem?/passe bem!" é a melhor e a mais elegante combinação de verbos e advérbios.
Os encontros e as despedidas portugueses, à medida que vamos envelhecendo e vão nascendo e morrendo mais pessoas próximas de nós, vêem-se brutalmente acompanhadas pelas mais básicas, ordinárias e vulgarmente entediantes expressões.
"Passou bem?" e "passe bem" são, com certeza, a nossa mais simples salvação.
Sim. São.
Miguel Esteves Cardoso
Gosto da economia e da beleza de "então?" mas quase ninguém gosta de usar uma só palavra.
As pessoas da minha geração perguntam "como está?" ou "está boa?" ou "está bom?".
Todas estas expressões são frustrantes e suspeitas, já que não escondem o automatismo da boa educação.
Para a geração dos meus pais era mais simples e mais bonito. Quando se encontravam, perguntavam "passou bem?" e, quando se despediam, exortavam "passe bem!".
Nesses tempos que até agora (por alguma razão muito boa) até um aperto de mãos, entendido como a garantia de uma amizade ou de um contrato, era conhecido como um "passou bem".
Passar e andar eram – e continuam a ser – os verbos da vida boa e bem vivida.
Quando alguém se atreve (com razão) a responder ao "passou bem?" com um "mal..." recebe logo a resposta certa: "isso é que é pior..."
Se responder (com ou sem razão) que «se vai andando», é imediatamente recompensado com um «isso é que é preciso».
"Passou bem?/passe bem!" é a melhor e a mais elegante combinação de verbos e advérbios.
Os encontros e as despedidas portugueses, à medida que vamos envelhecendo e vão nascendo e morrendo mais pessoas próximas de nós, vêem-se brutalmente acompanhadas pelas mais básicas, ordinárias e vulgarmente entediantes expressões.
"Passou bem?" e "passe bem" são, com certeza, a nossa mais simples salvação.
Sim. São.
Miguel Esteves Cardoso
segunda-feira, fevereiro 4
A livraria
A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às imundices das irmãs da Penitência de Jesus Cristo. A loja situava-se sob o arco que abria para o Quai de Conti e, para entrar, era necessário bater na vitrina. Isto se ele desse pelo sinal, o que não era garantido. Naquele domingo, o livreiro cego dirigiu-se ao recesso mais escuro da livraria e sentou-se à escrivaninha. O tampo estava vago, apenas papéis dispersos, uma telefonia a pilhas e um rosto num passe-partout, o rosto de Fidelia.
Estavam juntos havia quatro anos e ele lembrava-se da apoteose dos primeiros tempos: descontando as raras e breves ocasiões em que a rapariga visitava a mãe, nunca acordara sozinho. Como qualquer velho, invejava a imaturidade e embriagava-se com a juventude da amante. E depois Fidelia lia-lhe a todas as horas do dia. Imprevisíveis, as palavras da jovem surgiam-lhe de lugares distintos, adocicadas pelo sotaque platense, dando voz à multidão de livros que o rodeavam desde sempre como um coro de mudos. Na verdade, sempre escolhera as mulheres pelos olhos que não tinha. Só deixava que o aceitassem como amante se lhe prometessem maratonas de leitura. Nunca se despedira de nenhuma com um livro a meio e só por uma vez deixara que o convencessem na hora de escolher o que ler. Fora Azurine, uma argelina de meia-idade, cuja paixão obcecada por Zola lhe adiara Lolita pela semana que levara a terminar Germinal - um ultraje! Houvera ainda Apolline, Doriane e Madalena. Apolline, a primeira, que se punha a arder quando o romance aquecia e o fizera devolver os Henry Miller que tinha na livraria; Doriane, a atriz, que invadia a imaginação do livreiro, arquejando como Desdémona às mãos de Otelo ou rindo-se da morte como a Bovary - outro ultraje, «os grandes livros dispensam essas coisas», dissera-lhe ele tantas vezes; e Madalena, filha de um português e de... Apolline, que, trinta anos depois, aquecia o lugar que fora da mãe, embora com mais equilíbrio entre as páginas e os lençóis. É claro que a vida dele não fora só romances, também a abrira a contos lidos numa noite, literatura de cordel que esquecia sem desgosto. Nunca cuidara das razões daquelas mulheres, porque o procuravam, porque se deixavam ficar. Talvez preferissem não ser vistas ao acordar, talvez adorassem ouvir-se com a voz dos livros.
Estavam juntos havia quatro anos e ele lembrava-se da apoteose dos primeiros tempos: descontando as raras e breves ocasiões em que a rapariga visitava a mãe, nunca acordara sozinho. Como qualquer velho, invejava a imaturidade e embriagava-se com a juventude da amante. E depois Fidelia lia-lhe a todas as horas do dia. Imprevisíveis, as palavras da jovem surgiam-lhe de lugares distintos, adocicadas pelo sotaque platense, dando voz à multidão de livros que o rodeavam desde sempre como um coro de mudos. Na verdade, sempre escolhera as mulheres pelos olhos que não tinha. Só deixava que o aceitassem como amante se lhe prometessem maratonas de leitura. Nunca se despedira de nenhuma com um livro a meio e só por uma vez deixara que o convencessem na hora de escolher o que ler. Fora Azurine, uma argelina de meia-idade, cuja paixão obcecada por Zola lhe adiara Lolita pela semana que levara a terminar Germinal - um ultraje! Houvera ainda Apolline, Doriane e Madalena. Apolline, a primeira, que se punha a arder quando o romance aquecia e o fizera devolver os Henry Miller que tinha na livraria; Doriane, a atriz, que invadia a imaginação do livreiro, arquejando como Desdémona às mãos de Otelo ou rindo-se da morte como a Bovary - outro ultraje, «os grandes livros dispensam essas coisas», dissera-lhe ele tantas vezes; e Madalena, filha de um português e de... Apolline, que, trinta anos depois, aquecia o lugar que fora da mãe, embora com mais equilíbrio entre as páginas e os lençóis. É claro que a vida dele não fora só romances, também a abrira a contos lidos numa noite, literatura de cordel que esquecia sem desgosto. Nunca cuidara das razões daquelas mulheres, porque o procuravam, porque se deixavam ficar. Talvez preferissem não ser vistas ao acordar, talvez adorassem ouvir-se com a voz dos livros.
João Pinto Coelho, "Os Loucos da Rua Mazur"
'Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa'
Esta é uma confissão de amor: amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
Às vezes ela reage diante de um pensamento mais complicado. Ás vezes se assusta com o imprevisível de uma frase. Eu gosto de manejá-la — como gostava de estar montada num cavalo e guiá-lo pelas rédeas, às vezes lentamente, às vezes a galope.
Eu queria que a língua portuguesa chegasse ao máximo nas minhas mãos. E esse desejo todos os que escrevem têm. Um Camões e outros iguais não bastaram para nos dar para sempre uma herança de língua já feita. Todos nós que escrevemos estamos fazendo do túmulo do pensamento alguma coisa que lhe dê vida.
Essas dificuldades, nós as temos. Mas não falei do encantamento de lidar com uma língua que não foi aprofundada. O que recebi de herança não me chega.
Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse virgem e límpida.
Clarice Lispector, "A Descoberta do Mundo"
domingo, fevereiro 3
O livro novo
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| Susa Monteiro |
(julgo sempre que a torneira se fechou para sempre)
os dias começaram a arrastar-se como lesmas, passava-os sentado à mesa, de caneta na mão, a olhar o papel vazio numa paciência imóvel que me doía, a perder esperança e hoje, de súbito, a frase que citei acima escancarou a porta e eis o livro à minha frente, à espera, dava ideia que a olhar-me, quer dizer não bem o livro, apenas o material inteiro do livro amontoado em desordem como um modelo para armar, com as suas inúmeras peças apesar de dispersas, prontas a encaixarem umas nas outras e eu com medo de tocar-lhes e cheio de vontade de principiar a utilizá-las, ainda incrédulo com esse favor dos deuses. Agora tenho que dar-lhe uma estrutura antes de principiar a construir, há imensos ocos aqui e ali, inúmeros problemas técnicos ainda sem solução, montes de direções enganosas. Mas tenho-o e isso provoca-me um alívio difícil de exprimir. Eu pensava acabar o meu trabalho com dois livros, o primeiro dos quais agora à minha frente, depois espero que o outro e pronto. Mas este já está. Quer dizer espero que já esteja. É apenas necessário estruturar o material, ajeitar aquilo tudo, principiar, cheio de medo, a compô-lo. Eu funciono por aperfeiçoamentos sucessivos, corrigindo, corrigindo. É um livro difícil de fazer mas que livro até hoje não foi difícil de fazer? E depois gosto de desafios. O pior, o nada que existia em mim, já passou. E aí vou eu, tem-te não caias, páginas fora. Que trabalho tão estranho escrever. Chama-se “Pássaros Quase Mortais Da Alma”, vamos ver o que consigo com ele. Mas hei-de ganhar nem que deixe lá os ossinhos todos. Possuo uma dúzia vozes, faltam-me outras que é necessário colocar nos buracos respectivos. Estes “Pássaros” hão-de voar porque eu quero. Um livro não é uma prenda que cai do céu, é uma coisa conquistada migalha a migalha, o resultado, pelo menos para mim, de uma paciência infinita, um
– Anda lá rapaz
sem termo à vista. E o rapaz lá vai, cheio de cuidado com os sítios onde pôr os pés, dado que tudo escorrega à minha volta. Ao mesmo tempo gosto destes desafios, desta luta. Lembra-me a guerra e eu não gosto de perder, não me resigno a perder. Daqui a não sei quanto tempo ficará pronto, como os restantes. Mas deixa-se a pele
(e um bom bocado de carne)
nisto. De resto por que motivo me lamento se não trocava a minha vida por nada? Acho que não escolhi este caminho, limitei-me a aceitá-lo, respondi
– De acordo
a uma qualquer voz desconhecida que me propôs este pacto, uma espécie de encontro entre duas solidões. Olho para a janela, é noite agora. Tudo preto. Casas ao longe. E eu, sei lá porquê, a pensar nos meus pais. Gostava que me houvessem dado colo, nunca me deram. Sou tão pequeno às vezes, sabiam? É verdade: sou tão pequeno às vezes. Onde pára o meu aviãozito de madeira? Apetece-me fazer
– Vvvvvvvv
com ele até sair pela janela a caminho de mim.
sábado, fevereiro 2
Poetas e mais uma porção de coisas
Os que depois cometerão os maiores crimes contra a literatura costumam começar com uma inofensiva quadrinha.
Não conseguirmos mais escrever talvez seja um sinal de que os deuses se cansaram de se divertir conosco.
O amor é aquela lagartixa agonizante que finge morrer aqui para ressuscitar ali adiante.
Escândalo na gramática: reformaram a acentuação sem abrir licitação.
Quando você estiver comigo, pense em alguém assim como Tom Cruise ou George Clooney. Talvez minha poesia lhe soe melhor.
Sei sorrir, mas não é o que faço de melhor. Sinto-me mais à vontade com a tristeza.
Assim como a poesia, a tristeza é uma conquista do talento e da persistência.
O melhor que um sofá costuma ter não se encontra na loja: o gato.
É aos domingos, ao cair da tarde, sozinho, que você pode avaliar se sua tristeza foi regada com as lágrimas certas.
Os filósofos podem não resolver problemas, mas são generosos. Mesmo que não os leiamos com atenção, acabam compartilhando suas dúvidas conosco.
Certos poetas são tão ardilosos que algumas de suas vítimas só descobrem o que está acontecendo no momento fatal em que eles sacam o papel do bolso e anunciam: é um soneto.
Um poeta só precisa de uma coisa: ser amado – de preferência mal.
Querer ser poeta é uma tola mania. Onze de cada dez pessoas vivem muito bem sem poesia.
O poema concreto mais simples e completo é o paralelepípedo.
É um homem modesto e atualizado. Quando lhe dizem que é brilhante, comenta que já foi mais.
Há muito tempo estou a serviço da poesia. Sou um mau funcionário.
Às vezes gostaria de ter uma tristeza menos sofisticada, que não exigisse Chopin e se contentasse com Benito di Paula.
O lirismo no qual quase me afoguei, como Alice em suas próprias lágrimas, hoje não daria para aliviar a sede de um periquitinho de realejo.
Nem aqueles versinhos tão agradavelmente consumidos na hora do chá os poetas conseguem fazer mais.
Raul Drewnick
***
Não conseguirmos mais escrever talvez seja um sinal de que os deuses se cansaram de se divertir conosco.
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Frustração das frustrações: deram-lhe a bengala sem o manual de instruções.
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O amor é aquela lagartixa agonizante que finge morrer aqui para ressuscitar ali adiante.
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Escândalo na gramática: reformaram a acentuação sem abrir licitação.
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Quando você estiver comigo, pense em alguém assim como Tom Cruise ou George Clooney. Talvez minha poesia lhe soe melhor.
***
Sei sorrir, mas não é o que faço de melhor. Sinto-me mais à vontade com a tristeza.
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Assim como a poesia, a tristeza é uma conquista do talento e da persistência.
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O melhor que um sofá costuma ter não se encontra na loja: o gato.
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É aos domingos, ao cair da tarde, sozinho, que você pode avaliar se sua tristeza foi regada com as lágrimas certas.
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Os filósofos podem não resolver problemas, mas são generosos. Mesmo que não os leiamos com atenção, acabam compartilhando suas dúvidas conosco.
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Certos poetas são tão ardilosos que algumas de suas vítimas só descobrem o que está acontecendo no momento fatal em que eles sacam o papel do bolso e anunciam: é um soneto.
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Um poeta só precisa de uma coisa: ser amado – de preferência mal.
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Querer ser poeta é uma tola mania. Onze de cada dez pessoas vivem muito bem sem poesia.
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O poema concreto mais simples e completo é o paralelepípedo.
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Há muito tempo estou a serviço da poesia. Sou um mau funcionário.
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Às vezes gostaria de ter uma tristeza menos sofisticada, que não exigisse Chopin e se contentasse com Benito di Paula.
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O lirismo no qual quase me afoguei, como Alice em suas próprias lágrimas, hoje não daria para aliviar a sede de um periquitinho de realejo.
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Nem aqueles versinhos tão agradavelmente consumidos na hora do chá os poetas conseguem fazer mais.
Raul Drewnick
As livrarias estão desaparecendo do Brasil
Em outubro de 2016, a editora Martins Fontes decidiu interromper o fornecimento de livros para um de seus principais revendedores, a Livraria Cultura. Tratava-se de um movimento ousado, dado o peso dessa rede no mercado. Porém, o risco assumido pela empresa, motivado por uma dívida de 500 mil reais, acabou por salvá-la de um colapso que assombra o setor editorial brasileiro. Hoje, o passivo da Cultura com apenas uma editora, a Companhia das Letras, alcança os 18 milhões de reais.
Grandes redes do setor livreiro, Cultura e Saraiva entraram em recuperação judicial em dezembro do ano passado e fecharam dezenas das megalojas espalhadas em capitais de todo o Brasil. O impacto sobre as editoras é profundo, principalmente porque o mercado opera, há duas décadas, no modelo de consignação. Ou seja, as livrarias só repassam às editoras o pagamento pelos livros fornecidos após a revenda ao público – com prazos de até um ano.
A derrocada dessas empresas gerou surpresa entre o público, mas parece ter sido pavimentada ao longo dos últimos anos, confirmando a impressão de que as livrarias estão desaparecendo das ruas e centros comerciais do país. Evandro Martins Fontes, sócio da editora e livraria que leva o nome da família, além de criticar o modelo de expansão adotado pelas duas redes, aponta uma conivência das grandes editoras, que não reagiram ao acúmulo crescente de dívidas das quais eram credoras.
"Essas redes optaram pelo modelo das megalojas, que envolvem altos custos de operação, inclusive os aluguéis. A Cultura só tinha uma loja em São Paulo, que era referência, mas começou a expandir em 2004. Já era um momento delicado, pois a venda digital se expandia. Com a crise, elas sofreram um forte baque, e esse modelo se tornou ainda mais insustentável. Elas foram vítimas da ganância”, diz o empresário.
"O negócio do livro sempre foi de margens pequenas, mas todos pudemos crescer aos poucos, honrando nossos compromissos. Por ser uma empresa de capital aberto, a Saraiva tinha que divulgar os balanços financeiros. Houve um ano em que o faturamento anual deles ultrapassou 1 bilhão de reais, mas o lucro foi de apenas 3 milhões. Eu faturo muito menos e tenho margem de lucro igual ou maior”, explica.
Embora seja possível apontar eventuais escolhas equivocadas nas estratégias adotadas pelas empresas que abriram pedidos de recuperação judicial no fim do ano passado, o negócio do livro já vem sentindo, há alguns anos, os efeitos de mudanças tecnológicas que afetam diversas atividades econômicas. Mesmo que os e-books e dispositivos para leitura digital ainda não tenham força expressiva no Brasil, o tempo dedicado à leitura passou a dividir espaço com a oferta interminável de conteúdo nas redes sociais e plataformas de streaming.
Além disso, novos canais de venda se abriram na internet. Com isso, editoras passaram a ter a opção de vender diretamente para seus clientes, empresas estrangeiras passaram a atuar no mercado nacional sem o custo de lojas físicas – caso da Amazon – e plataformas que não se dedicam exclusivamente à venda de livros passaram a competir com as livrarias.
Se as mudanças foram sentidas pelas principais empresas do setor, o resultado sobre as menores foi devastador. Em condições mais desfavoráveis de negociação, devido ao menor volume de vendas, fechar as portas virou a única saída. Com a possibilidade de encontrar o melhor preço na internet, a livraria do bairro deixou de ser a opção natural para comprar livros.
Dessa forma, a concentração de mercado se aprofundou nos últimos anos, a ponto de Saraiva e Cultura responderem, juntas, por 40% do mercado varejista. Desde 2012, o número de lojas no Brasil caiu de 3.481 para 2.500. É um número bem abaixo da recomendação da Unesco, 20 mil, pela taxa de uma para 100 mil habitantes.
Cenário habitual em obras de Machado de Assis, a mítica Rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, mantém uma tradição de abrigar livrarias históricas desde o século 19, como a Garnier, Universal e José Olympio. Hoje, além de uma megaloja da Saraiva, está ali a Folha Seca, uma sobrevivente do processo de desaparecimento das lojas de rua.
O site da livraria está permanentemente em manutenção. Para comprar livros, ligados a temas afro-brasileiros, samba e futebol, somente in loco. Seus clientes sabem que os preços são mais altos do que nas grandes livrarias, mas fazem questão de prestigiar o lugar que é ponto de encontro de artistas e escritores. Entre eles, Luiz Antonio Simas, vencedor do Prêmio Jabuti em 2016.
"Eu prefiro não comprar em megalivrarias, não compro livros pela internet e sou cliente de uma pequena/imensa livraria de rua. É o que está ao meu alcance fazer como um sujeito que preza os livros, as amizades, as esquinas”, escreveu no Jornal do Brasil. "Fica minha sugestão simples: escolham as suas livrarias de rua e sejam, na medida do possível, fiéis a este amor cotidiano e necessário.”
A comemoração dos 21 anos de funcionamento, no último dia 20 de janeiro, ajuda a explicar como a Folha Seca conseguiu chegar até aqui. Fãs da livraria se amontoavam na rua em torno de um piano de cauda, encomendado para a festa. Entre um copo de cerveja e outro, compravam livros. Não se trata de uma exceção pela data comemorativa. Rodas de samba acontecem com regularidade ali.
Mesmo em dias de semana, é comum encontrar Rodrigo Ferrari, dono do espaço, confraternizando com clientes na Toca do Baiacú, bar vizinho à Folha Seca. Ele acredita que esse atendimento, impensável nas grandes livrarias, possibilitou a sobrevivência do estabelecimento.
"Se for pelo preço, a gente sabe que ninguém vai vir comprar aqui, porque é só você fazer uma pesquisa de dois minutos na internet. Nós fomos criando identidade e estabelecemos outros laços que não são os comerciais, embora sejamos um comércio".
Foi na mesma Rua do Ouvidor que a Livraria Travessa teve sua primeira loja. Gradualmente, filiais foram abertas em outros bairros da cidade e, neste ano, será a vez de São Paulo e Lisboa receberem a livraria. Fundador da empresa, Rui Campos rejeita a ideia de um "plano de expansão”. Em sua visão, foi justamente o crescimento desenfreado que levou suas concorrentes à situação desfavorável que vivem hoje.
"Ao mergulharmos na crise sem precedentes que o Brasil enfrentou nos últimos anos, as nossas principais redes revelaram as estratégias equivocadas em que se envolveram. Encontrando financiamento fácil característico dos anos Dilma, usaram e abusaram de busca desenfreada por aumento de faturamento visando ‘abertura de capital', sem nenhuma preocupação com margens e resultados”, diz.
"Conduziram uma abertura acelerada de megalojas, enxugamento de quadros com a demissão dos livreiros históricos e um forte investimento em livros eletrônicos e em e-readers para leitura de e-books que não performaram nem perto do que se apregoava. Sendo as livrarias criadoras de demanda, nunca essa demanda será totalmente atendida por outras livrarias. Muito irá se perder com consequências ruins para nossas editoras e para o mercado livreiro”, avalia.
Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) divulgada em maio do ano passado, o mercado editorial encolheu 21% de 2006 a 2017, com perdas que somam R$ 1,4 bilhão. Sônia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record – que tem 22 milhões de reais a receber de Saraiva e Cultura –, lembra que a venda de livros cresceu em 2018 na comparação com 2017. Logo, afirma, a crise seria pontual dessas grandes redes, e não refletiria um desinteresse generalizado pela leitura no Brasil.
"Para tentar amenizar esse impacto financeiro, o Grupo Editorial Record voltou a investir na venda direta ao leitor, atividade que já teve uma participação importante em termos de venda no passado. Lançamos um clube de assinatura, estamos no marketplace da Amazon e participando de mais feiras. Estamos atentos a toda iniciativa que possa contribuir para aproximar o livro do leitor, porque esse interesse não diminuiu”, afirma.
Essa visão é compartilhada por Ivana Jinkins, fundadora da Boitempo, que publica, há 23 anos, obras de autores ligados ao pensamento crítico internacional. Com um crescimento anual que varia entre 20% e 30%, o grupo se soma a outras editoras independentes que vêm ganhando cada vez mais espaço. Na Feira Literária de Paraty (Flip) de 2018, quase um terço dos 33 convidados era publicado por editoras independentes.
"Desde 2014, viemos investindo na venda direta em nosso site, mas um canal direto muito forte com os clientes são os seminários e eventos que organizamos, nos quais o público pode ter contato direto com o autor”, explica Ivana. "Na Feira da USP do ano passado, vendemos mais que em todos os anos. As pessoas não perderam o interesse pela leitura, precisam ser estimuladas de outro modo”, afirma.
Ela também comenta que a venda para livrarias independentes aumentou após as editoras suspenderem vendas para as empresas em recuperação judicial, o que pode dar sobrevida a este combalido modelo de negócio. A crise também favoreceu a Estante Virtual, plataforma que conecta sebos e compradores de livros usados. Em 2018, 3 milhões de obras foram comercializadas no portal – quase o dobro da média anual de vendas.
"Acreditamos que o livro impresso nunca vai morrer. Há sensações geradas em uma leitura de um livro digital que jamais serão equiparadas à leitura de um livro físico. Dados do mercado também mostram que o crescimento nas vendas de e-books ainda não chegam perto da venda de impressos”, comenta Sérgio Ciglione, CEO da empresa.
Embora os novos canais de vendas de livros atraiam o interesse do público, Bernardo Grubanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias, teme os efeitos de uma desregulamentação ainda maior do mercado. Ele defende a divisão de tarefas entre editores, distribuidores e livrarias para formar uma capilaridade que permita o escoamento dos livros em todo o país.
"Originalmente, o sistema é previsto com funções diferentes, do autor, editor, diagramador e distribuidor. As coisas mudaram com a tecnologia, o que não é necessariamente ruim. Assim como todo mundo é fotógrafo, todos vendem livros pela internet. Nunca houve tanta promiscuidade quanto à circulação comercial do livro quanto hoje”, critica.
"Uma das consequências perversas desse modelo é que o livreiro perde seu cliente para seu próprio fornecedor. Nessa época do ano, as editoras de livros didáticos abrem sites especiais para a venda direta para pais de colégios com 25% de desconto nos preços de capa. Para as livrarias, oferecem 27%. Isso é muito danoso para o sistema. Os livros didáticos representam pelo menos 50% do faturamento anual de algumas livrarias”, complementa.
No segundo semestre do ano passado, o governo federal organizou um grupo de trabalho para implementar, via medida provisória, a Lei do Preço Fixo. O projeto original, parado no Senado, é de autoria da ex-senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e estabelece um desconto máximo de 10% pelas livrarias em cada obra durante um ano após o lançamento de um título. Depois, elas ficam livres para dar o desconto que quiserem.
É o mesmo modelo que a maior parte dos países europeus adota. Trata-se de uma demanda antiga de pequenas e médias livrarias, apoiada pela maioria das editoras. Até o fim do governo Temer, a proposta não saiu do papel. Críticos do projeto apontam que poderia levar a um encarecimento dos livros.
Deutsche Welle
Grandes redes do setor livreiro, Cultura e Saraiva entraram em recuperação judicial em dezembro do ano passado e fecharam dezenas das megalojas espalhadas em capitais de todo o Brasil. O impacto sobre as editoras é profundo, principalmente porque o mercado opera, há duas décadas, no modelo de consignação. Ou seja, as livrarias só repassam às editoras o pagamento pelos livros fornecidos após a revenda ao público – com prazos de até um ano.
Desde 2012, o número de lojas no Brasil caiu de 3.481 para 2.500 - bem abaixo do que a Unesco recomenda
A derrocada dessas empresas gerou surpresa entre o público, mas parece ter sido pavimentada ao longo dos últimos anos, confirmando a impressão de que as livrarias estão desaparecendo das ruas e centros comerciais do país. Evandro Martins Fontes, sócio da editora e livraria que leva o nome da família, além de criticar o modelo de expansão adotado pelas duas redes, aponta uma conivência das grandes editoras, que não reagiram ao acúmulo crescente de dívidas das quais eram credoras.
"Essas redes optaram pelo modelo das megalojas, que envolvem altos custos de operação, inclusive os aluguéis. A Cultura só tinha uma loja em São Paulo, que era referência, mas começou a expandir em 2004. Já era um momento delicado, pois a venda digital se expandia. Com a crise, elas sofreram um forte baque, e esse modelo se tornou ainda mais insustentável. Elas foram vítimas da ganância”, diz o empresário.
"O negócio do livro sempre foi de margens pequenas, mas todos pudemos crescer aos poucos, honrando nossos compromissos. Por ser uma empresa de capital aberto, a Saraiva tinha que divulgar os balanços financeiros. Houve um ano em que o faturamento anual deles ultrapassou 1 bilhão de reais, mas o lucro foi de apenas 3 milhões. Eu faturo muito menos e tenho margem de lucro igual ou maior”, explica.
Embora seja possível apontar eventuais escolhas equivocadas nas estratégias adotadas pelas empresas que abriram pedidos de recuperação judicial no fim do ano passado, o negócio do livro já vem sentindo, há alguns anos, os efeitos de mudanças tecnológicas que afetam diversas atividades econômicas. Mesmo que os e-books e dispositivos para leitura digital ainda não tenham força expressiva no Brasil, o tempo dedicado à leitura passou a dividir espaço com a oferta interminável de conteúdo nas redes sociais e plataformas de streaming.
Além disso, novos canais de venda se abriram na internet. Com isso, editoras passaram a ter a opção de vender diretamente para seus clientes, empresas estrangeiras passaram a atuar no mercado nacional sem o custo de lojas físicas – caso da Amazon – e plataformas que não se dedicam exclusivamente à venda de livros passaram a competir com as livrarias.
Se as mudanças foram sentidas pelas principais empresas do setor, o resultado sobre as menores foi devastador. Em condições mais desfavoráveis de negociação, devido ao menor volume de vendas, fechar as portas virou a única saída. Com a possibilidade de encontrar o melhor preço na internet, a livraria do bairro deixou de ser a opção natural para comprar livros.
Dessa forma, a concentração de mercado se aprofundou nos últimos anos, a ponto de Saraiva e Cultura responderem, juntas, por 40% do mercado varejista. Desde 2012, o número de lojas no Brasil caiu de 3.481 para 2.500. É um número bem abaixo da recomendação da Unesco, 20 mil, pela taxa de uma para 100 mil habitantes.
Cenário habitual em obras de Machado de Assis, a mítica Rua do Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, mantém uma tradição de abrigar livrarias históricas desde o século 19, como a Garnier, Universal e José Olympio. Hoje, além de uma megaloja da Saraiva, está ali a Folha Seca, uma sobrevivente do processo de desaparecimento das lojas de rua.
O site da livraria está permanentemente em manutenção. Para comprar livros, ligados a temas afro-brasileiros, samba e futebol, somente in loco. Seus clientes sabem que os preços são mais altos do que nas grandes livrarias, mas fazem questão de prestigiar o lugar que é ponto de encontro de artistas e escritores. Entre eles, Luiz Antonio Simas, vencedor do Prêmio Jabuti em 2016.
"Eu prefiro não comprar em megalivrarias, não compro livros pela internet e sou cliente de uma pequena/imensa livraria de rua. É o que está ao meu alcance fazer como um sujeito que preza os livros, as amizades, as esquinas”, escreveu no Jornal do Brasil. "Fica minha sugestão simples: escolham as suas livrarias de rua e sejam, na medida do possível, fiéis a este amor cotidiano e necessário.”
A comemoração dos 21 anos de funcionamento, no último dia 20 de janeiro, ajuda a explicar como a Folha Seca conseguiu chegar até aqui. Fãs da livraria se amontoavam na rua em torno de um piano de cauda, encomendado para a festa. Entre um copo de cerveja e outro, compravam livros. Não se trata de uma exceção pela data comemorativa. Rodas de samba acontecem com regularidade ali.
Mesmo em dias de semana, é comum encontrar Rodrigo Ferrari, dono do espaço, confraternizando com clientes na Toca do Baiacú, bar vizinho à Folha Seca. Ele acredita que esse atendimento, impensável nas grandes livrarias, possibilitou a sobrevivência do estabelecimento.
"Se for pelo preço, a gente sabe que ninguém vai vir comprar aqui, porque é só você fazer uma pesquisa de dois minutos na internet. Nós fomos criando identidade e estabelecemos outros laços que não são os comerciais, embora sejamos um comércio".
Foi na mesma Rua do Ouvidor que a Livraria Travessa teve sua primeira loja. Gradualmente, filiais foram abertas em outros bairros da cidade e, neste ano, será a vez de São Paulo e Lisboa receberem a livraria. Fundador da empresa, Rui Campos rejeita a ideia de um "plano de expansão”. Em sua visão, foi justamente o crescimento desenfreado que levou suas concorrentes à situação desfavorável que vivem hoje.
"Ao mergulharmos na crise sem precedentes que o Brasil enfrentou nos últimos anos, as nossas principais redes revelaram as estratégias equivocadas em que se envolveram. Encontrando financiamento fácil característico dos anos Dilma, usaram e abusaram de busca desenfreada por aumento de faturamento visando ‘abertura de capital', sem nenhuma preocupação com margens e resultados”, diz.
"Conduziram uma abertura acelerada de megalojas, enxugamento de quadros com a demissão dos livreiros históricos e um forte investimento em livros eletrônicos e em e-readers para leitura de e-books que não performaram nem perto do que se apregoava. Sendo as livrarias criadoras de demanda, nunca essa demanda será totalmente atendida por outras livrarias. Muito irá se perder com consequências ruins para nossas editoras e para o mercado livreiro”, avalia.
Segundo pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) divulgada em maio do ano passado, o mercado editorial encolheu 21% de 2006 a 2017, com perdas que somam R$ 1,4 bilhão. Sônia Machado Jardim, presidente do Grupo Editorial Record – que tem 22 milhões de reais a receber de Saraiva e Cultura –, lembra que a venda de livros cresceu em 2018 na comparação com 2017. Logo, afirma, a crise seria pontual dessas grandes redes, e não refletiria um desinteresse generalizado pela leitura no Brasil.
"Para tentar amenizar esse impacto financeiro, o Grupo Editorial Record voltou a investir na venda direta ao leitor, atividade que já teve uma participação importante em termos de venda no passado. Lançamos um clube de assinatura, estamos no marketplace da Amazon e participando de mais feiras. Estamos atentos a toda iniciativa que possa contribuir para aproximar o livro do leitor, porque esse interesse não diminuiu”, afirma.
Essa visão é compartilhada por Ivana Jinkins, fundadora da Boitempo, que publica, há 23 anos, obras de autores ligados ao pensamento crítico internacional. Com um crescimento anual que varia entre 20% e 30%, o grupo se soma a outras editoras independentes que vêm ganhando cada vez mais espaço. Na Feira Literária de Paraty (Flip) de 2018, quase um terço dos 33 convidados era publicado por editoras independentes.
"Desde 2014, viemos investindo na venda direta em nosso site, mas um canal direto muito forte com os clientes são os seminários e eventos que organizamos, nos quais o público pode ter contato direto com o autor”, explica Ivana. "Na Feira da USP do ano passado, vendemos mais que em todos os anos. As pessoas não perderam o interesse pela leitura, precisam ser estimuladas de outro modo”, afirma.
Ela também comenta que a venda para livrarias independentes aumentou após as editoras suspenderem vendas para as empresas em recuperação judicial, o que pode dar sobrevida a este combalido modelo de negócio. A crise também favoreceu a Estante Virtual, plataforma que conecta sebos e compradores de livros usados. Em 2018, 3 milhões de obras foram comercializadas no portal – quase o dobro da média anual de vendas.
"Acreditamos que o livro impresso nunca vai morrer. Há sensações geradas em uma leitura de um livro digital que jamais serão equiparadas à leitura de um livro físico. Dados do mercado também mostram que o crescimento nas vendas de e-books ainda não chegam perto da venda de impressos”, comenta Sérgio Ciglione, CEO da empresa.
Embora os novos canais de vendas de livros atraiam o interesse do público, Bernardo Grubanov, presidente da Associação Nacional de Livrarias, teme os efeitos de uma desregulamentação ainda maior do mercado. Ele defende a divisão de tarefas entre editores, distribuidores e livrarias para formar uma capilaridade que permita o escoamento dos livros em todo o país.
"Originalmente, o sistema é previsto com funções diferentes, do autor, editor, diagramador e distribuidor. As coisas mudaram com a tecnologia, o que não é necessariamente ruim. Assim como todo mundo é fotógrafo, todos vendem livros pela internet. Nunca houve tanta promiscuidade quanto à circulação comercial do livro quanto hoje”, critica.
"Uma das consequências perversas desse modelo é que o livreiro perde seu cliente para seu próprio fornecedor. Nessa época do ano, as editoras de livros didáticos abrem sites especiais para a venda direta para pais de colégios com 25% de desconto nos preços de capa. Para as livrarias, oferecem 27%. Isso é muito danoso para o sistema. Os livros didáticos representam pelo menos 50% do faturamento anual de algumas livrarias”, complementa.
No segundo semestre do ano passado, o governo federal organizou um grupo de trabalho para implementar, via medida provisória, a Lei do Preço Fixo. O projeto original, parado no Senado, é de autoria da ex-senadora Fátima Bezerra (PT-RN) e estabelece um desconto máximo de 10% pelas livrarias em cada obra durante um ano após o lançamento de um título. Depois, elas ficam livres para dar o desconto que quiserem.
É o mesmo modelo que a maior parte dos países europeus adota. Trata-se de uma demanda antiga de pequenas e médias livrarias, apoiada pela maioria das editoras. Até o fim do governo Temer, a proposta não saiu do papel. Críticos do projeto apontam que poderia levar a um encarecimento dos livros.
Deutsche Welle
sexta-feira, fevereiro 1
Cem anos de perdão
Havia em Recife inúmeras ruas, as ruas dos ricos, ladeadas por palacetes que ficavam no centro de grandes jardins. Eu e uma amiguinha brincávamos muito de decidir a quem pertenciam os palacetes. "Aquele branco é meu." "Não, eu já disse que os brancos são meus." Parávamos às vezes longo tempo, a cara imprensada nas grades, olhando.
Começou assim. Numa dessas brincadeiras de "essa casa é minha", paramos diante de uma que parecia um pequeno castelo. No fundo via-se o imenso pomar. E, à frente, em canteiros bem ajardinados, estavam plantadas as flores.
Então não pude mais. O plano se formou em mim instantaneamente, cheio de paixão. Mas, como boa realizadora que eu era, raciocinei friamente com minha amiguinha, explicando-lhe qual seria o seu papel: vigiar as janelas da casa ou a aproximação ainda possível do jardineiro, vigiar os transeuntes raros na rua. Enquanto isso, entreabri lentamente o portão de grades um pouco enferrujadas, contando já com o leve rangido. Entreabri somente o bastante para que meu esguio corpo de menina pudesse passar. E, pé ante pé, mas veloz, andava pelos pedregulhos que rodeavam os canteiros. Até chegar à rosa foi um século de coração batendo.
Eis-me afinal diante dela. Para um instante, perigosamente, porque de perto ela é ainda mais linda. Finalmente começo a lhe quebrar o talo, arranhando-me com os espinhos, e chupando o sangue dos dedos.
E, de repente - ei-la toda na minha mão. A corrida de volta ao portão tinha também de ser sem barulho. Pelo portão que deixara entreaberto, passei segurando a rosa. E então nós duas pálidas, eu e a rosa, corremos literalmente para longe da casa.
O que é que fazia eu com a rosa? Fazia isso: ela era minha.
Levei-a para casa, coloquei-a num copo d'água, onde ficou soberana, de pétalas grossas e aveludadas, com vários entretons de rosa-chá. No centro dela a cor se concentrava mais e seu coração quase parecia vermelho.
Foi tão bom.
Foi tão bom que simplesmente passei a roubar rosas. O processo era sempre o mesmo: a menina vigiando, eu entrando, eu quebrando o talo e fugindo com a rosa na mão. Sempre com o coração batendo e sempre com aquela glória que ninguém me tirava.
Também roubava pitangas. Havia uma igreja presbiteriana perto de casa, rodeada por uma sebe verde, alta e tão densa que impossibilitava a visão da igreja. Nunca cheguei a vê-la, além de uma ponta de telhado. A sebe era de pitangueira. Mas pitangas são frutas que se escondem: eu não via nenhuma. Então, olhando antes para os lados para ver se ninguém vinha, eu metia a mão por entre as grades, mergulhava-a dentro da sebe e começava a apalpar até meus dedos sentirem o úmido da frutinha. Muitas vezes na minha pressa, eu esmagava uma pitanga madura demais com os dedos que ficavam como ensanguentados. Colhia várias que ia comendo ali mesmo, umas até verdes demais, que eu jogava fora.
Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem 100 anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.
Clarice Lispector
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