quinta-feira, janeiro 10
Que mais irá acontecer?
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| Wil Freeborn |
Em mais ou menos dez anos, os Estados Unidos perderam quase metade dos seus pontos de venda de livros. Entre a crise financeira chegada em 2008 e o ano de 2017, despareceram também milhares de empregos em todos os ramos de negócio que talvez nunca venham a ser repostos; mas, se a indústria do tabaco acusou uma queda respeitável (sem dinheiro, as pessoas não podem ter vícios, donde passam a ser necessários menos funcionários nas tabaqueiras), esta foi bastante menos acentuada do que a verificada na indústria editorial e gráfica e também no retalho. Porém, todo o sector ligado às publicações entrou verdadeiramente em colapso com a chegada ao poder de Donald Trump (que prefere o Twitter, já sabemos, e cortou apoios sem fim à cultura), pelo que os estabelecimentos que vendem, além de livros, revistas e jornais perderam mais de 43% dos postos de trabalho que detinham em 2007, e todas as actividades ligadas aos livros – encadernadores, gravadores, etc. – mais de 44%. O pior é que os ordenados dos que ainda têm emprego não aumentaram (menos gente a fazer o trabalho de mais gente poderia implicar um salário melhor); e, com o desdém mostrado pelo Presidente relativamente à informação e à leitura, não sabemos o que o futuro reserva a todas estas pessoas e empresas. Suponho que más notícias, para variar.
quarta-feira, janeiro 9
Assim começa o livro...
Hoje, quando acordei de um cochilo, o Homem Sem Face estava à minha frente. Sentado na poltrona, diante do sofá onde eu dormia, ele me fitava fixamente com os olhos imaginários de quem não tem face.
O homem era alto e usava as mesmas roupas da última vez em que o encontrei. Trazia na cabeça um chapéu preto de abas largas, que escondia metade do seu rosto sem face, e vestia um sobretudo comprido e também de cores escuras.
— Vim para que você pinte meu retrato — disse ele com voz seca, sem entonação, depois de se certificar de que eu estava completamente desperto. — Você me prometeu que faria isso, lembra?
— Sim, lembro. Naquele dia não pude fazer o desenho, porque não tinha papel — respondi, também com voz seca e sem entonação. — Então, em vez de um retrato, lhe entreguei um amuleto no formato de pinguim.
— Verdade. Estou com ele aqui.
Ao fim dessas palavras, ele esticou o braço, que era muito comprido, e abriu a mão direita. Na palma, havia um pequeno pinguim de plástico. Era o pingente para celular usado como amuleto. O Homem Sem Face largou o amuleto sobre o tampo de vidro da mesa, com um pequeno ruído seco.
— Pode ficar com ele. Talvez você esteja precisando. Com certeza, servirá como amuleto para você proteger as pessoas queridas ao seu redor. Só que em troca quero que você faça o meu retrato.
Fiquei desnorteado.
— Mas… assim, de repente?… Nunca retratei uma pessoa sem rosto.
Minha garganta estava seca.
— Ouvi dizer que você é um excelente retratista. Além disso, para tudo há uma primeira vez — afirmou o Homem Sem Face.
Em seguida, riu. Ao menos, tive a impressão de que riu. Escutei um som parecido com um riso, como o eco vazio do vento no fundo de uma caverna. Ele tirou o chapéu que cobria metade do seu rosto. No lugar da face, havia apenas um redemoinho de névoa leitosa, girando lentamente.
Me levantei e trouxe do ateliê um caderno de esboços e um lápis macio. Depois me sentei no sofá e tentei retratar o Homem Sem Face. No entanto, não sabia por onde começar, nem como buscar um ponto de partida. Afinal, o que havia ali era apenas o nada. Como eu poderia dar forma à ausência de qualquer coisa? Além do mais, a névoa leitosa que envolvia esse nada se modificava o tempo todo.
— É melhor você se apressar — disse o Homem Sem Face. — Não posso demorar aqui.
Meu coração batia com um som seco. Não tenho muito tempo. Preciso ser rápido. Ainda assim, os dedos que seguravam o lápis estavam paralisados no meio de um gesto e não queriam se mover de jeito nenhum, como se tudo abaixo do meu pulso estivesse dormente. Ele estava certo, eu tinha pessoas para proteger e, de resto, desenhar era a única coisa que eu sabia fazer. Apesar disso, não conseguia de jeito nenhum desenhar o rosto daquele Homem Sem Face. Fiquei encarando, impotente, a névoa que se agitava.
— Sinto muito, mas o tempo acabou — observou o Homem Sem Face depois de um momento, antes de soltar um longo suspiro pela boca da sua face inexistente, exalando o ar como a neblina que paira sobre um rio.
— Espere, por favor! Só mais um pouco e eu…
O homem colocou o chapéu preto de volta na cabeça, escondendo mais uma vez metade do rosto.
— Qualquer dia, farei uma nova visita. Quem sabe então você seja capaz de me desenhar. Até lá, guardarei este amuleto de pinguim.
Assim, o Homem Sem Face desapareceu, em um piscar de olhos, como o nevoeiro varrido subitamente por uma rajada de vento. Restaram apenas a poltrona vazia e a mesa, já sem o amuleto de pinguim sobre o tampo de vidro.
O homem era alto e usava as mesmas roupas da última vez em que o encontrei. Trazia na cabeça um chapéu preto de abas largas, que escondia metade do seu rosto sem face, e vestia um sobretudo comprido e também de cores escuras.
— Vim para que você pinte meu retrato — disse ele com voz seca, sem entonação, depois de se certificar de que eu estava completamente desperto. — Você me prometeu que faria isso, lembra?
— Sim, lembro. Naquele dia não pude fazer o desenho, porque não tinha papel — respondi, também com voz seca e sem entonação. — Então, em vez de um retrato, lhe entreguei um amuleto no formato de pinguim.
— Verdade. Estou com ele aqui.
Ao fim dessas palavras, ele esticou o braço, que era muito comprido, e abriu a mão direita. Na palma, havia um pequeno pinguim de plástico. Era o pingente para celular usado como amuleto. O Homem Sem Face largou o amuleto sobre o tampo de vidro da mesa, com um pequeno ruído seco.
— Pode ficar com ele. Talvez você esteja precisando. Com certeza, servirá como amuleto para você proteger as pessoas queridas ao seu redor. Só que em troca quero que você faça o meu retrato.
Fiquei desnorteado.
— Mas… assim, de repente?… Nunca retratei uma pessoa sem rosto.
Minha garganta estava seca.
— Ouvi dizer que você é um excelente retratista. Além disso, para tudo há uma primeira vez — afirmou o Homem Sem Face.
Em seguida, riu. Ao menos, tive a impressão de que riu. Escutei um som parecido com um riso, como o eco vazio do vento no fundo de uma caverna. Ele tirou o chapéu que cobria metade do seu rosto. No lugar da face, havia apenas um redemoinho de névoa leitosa, girando lentamente.
Me levantei e trouxe do ateliê um caderno de esboços e um lápis macio. Depois me sentei no sofá e tentei retratar o Homem Sem Face. No entanto, não sabia por onde começar, nem como buscar um ponto de partida. Afinal, o que havia ali era apenas o nada. Como eu poderia dar forma à ausência de qualquer coisa? Além do mais, a névoa leitosa que envolvia esse nada se modificava o tempo todo.
— É melhor você se apressar — disse o Homem Sem Face. — Não posso demorar aqui.
Meu coração batia com um som seco. Não tenho muito tempo. Preciso ser rápido. Ainda assim, os dedos que seguravam o lápis estavam paralisados no meio de um gesto e não queriam se mover de jeito nenhum, como se tudo abaixo do meu pulso estivesse dormente. Ele estava certo, eu tinha pessoas para proteger e, de resto, desenhar era a única coisa que eu sabia fazer. Apesar disso, não conseguia de jeito nenhum desenhar o rosto daquele Homem Sem Face. Fiquei encarando, impotente, a névoa que se agitava.
— Sinto muito, mas o tempo acabou — observou o Homem Sem Face depois de um momento, antes de soltar um longo suspiro pela boca da sua face inexistente, exalando o ar como a neblina que paira sobre um rio.
— Espere, por favor! Só mais um pouco e eu…
O homem colocou o chapéu preto de volta na cabeça, escondendo mais uma vez metade do rosto.
— Qualquer dia, farei uma nova visita. Quem sabe então você seja capaz de me desenhar. Até lá, guardarei este amuleto de pinguim.
Assim, o Homem Sem Face desapareceu, em um piscar de olhos, como o nevoeiro varrido subitamente por uma rajada de vento. Restaram apenas a poltrona vazia e a mesa, já sem o amuleto de pinguim sobre o tampo de vidro.
terça-feira, janeiro 8
Só qualidades
Livro, além de modesto, é prático. Livro não precisa de baterias ou de energia elétrica, livro não enguiça, livro não tem luzinhas, livro não faz barulho, livro pode ser levado para o banheiroMoacyr Scliar
O almuadem
Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada, o almuadem acordou. Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que fosse verão como inverno, e não precisava de qualquer artefacto de medir o tempo, nada mais que uma mudança infinitesimal na escuridão do quarto, o pressentimento da luz apenas adivinhada na pele da fronte, como um ténue sopro que passasse sobre as sobrancelhas ou a primeira e quase imponderável carícia que, tanto quanto se sabe ou acredita, é arte exclusiva e segredo até hoje não revelado daquelas formosas huris que esperam os crentes no paraíso de Maomé. Segredo, e também prodígio, se não mistério intransponível, é a virtude que elas têm de refazer a virgindade tão-logo a perdem, pelos vistos suprema bem-aventurança na vida eterna, o que definitivamente vem provar que não se acabam com esta os trabalhos próprios e alheios, outrossim os sofrimentos imerecidos. O almuadem não abriu os olhos. Podia continuar deitado algum tempo ainda, enquanto o sol, muito devagar, se vinha acercando do horizonte da terra, porém tão longe de chegar que nenhum galo da cidade levantara a cabeça para indagar dos movimentos da manhã. É certo que ladrou um cão, sem resultado, que os mais dormiam, talvez a sonhar que em sonhos estavam ladrando. É um sonho, pensavam, e deixavam-se dormir, rodeados por um mundo povoado de cheiros sem dúvida estimulantes, mas nenhum tão urgente que os fizesse despertar em sobressalto, o odor inconfundível da ameaça ou do medo, para não dar senão estes exemplos elementares. O almuadem levantou-se tacteando no escuro, encontrou a roupa com que acabou de cobrir-se e saiu do quarto. A mesquita estava silenciosa, só os passos inseguros ecoavam sob os arcos, um arrastar de pés cautelosos, como se temesse ser engolido pelo chão. A outra qualquer hora do dia ou da noite nunca experimentava esta angústia do invisível, apenas no momento matinal, este, em que iria subir a escada da almádena para chamar os fiéis à primeira oração. Um escrúpulo supersticioso representava-lhe na imaginação a sua grave culpa de continuarem os moradores a dormir quando já o sol estivesse sobre o rio, e acordando de repelão, aturdidos pela luz clara, perguntassem, aos gritos, onde estava o almuadem que não chamara à hora própria, alguém mais caridoso diria, Por seu mal estará doente, e não era verdade, desaparecera, sim, levado para o interior da terra por um génio das trevas maiores. A escada, em caracol, era trabalhosa de subir, de mais sendo este almuadem já velho, felizmente não precisava que lhe vendassem os olhos como às mulas das atafonas se faz para que lhes não dê o mareio. Quando chegou acima sentiu na cara a frescura da manhã e a vibração da luz alvorecente, ainda cor nenhuma, que a não pode ter aquela pura claridade que antecede o dia e vem tanger na ele um arrepio subtil, como de uns invisíveis dedos, impressão única que faz pensar se a desacreditada criação divina não será, afinal, para humilhação de cépticos e ateus, um irónico facto da história. O almuadem correu a mão, lentamente. ao longo do parapeito circular até encontrar, insculpida na pedra, a marca que apontava a direcção de Meca, cidade santa. Estava preparado. Uns instantes ainda para dar tempo ao sol de assomar aos balcões da terra a sua primeira aura, e também para tornar clara a voz, porque a ciência proclamativa de um almuadem há-de ficar patente logo ao primeiro grito, e nele é que tem de demonstrar-se não quando a garganta já se dulcificou com o trabalho da fala e o consolo da comida. Aos pés do almuadem há uma cidade, mais abaixo um rio, tudo dorme ainda, mas inquietamente. A manhã começa a mover-se sobre as casas, a pele da água torna-se espelho do céu, e então o almuadem inspira fundo e grita, agudíssimo, Allahu akbar, apregoando aos ares a sobre todas grandeza de Deus, e repete, como gritará e repetirá as fórmulas seguintes, em extático canto tomando o mundo por testemunha de que não há outro Deus senão Alá, e que Maomé é o enviado de Alá, e tendo dito estas verdades essenciais chama à oração, Vinde ao azalá, mas sendo o homem de natureza preguiçoso, ainda que crente no poder Daquele que nunca dorme, o almuadem repreende caridosamente esses outros a quem as pálpebras ainda pesam, A oração é melhor que o sono, As-salatu jayrun min an-nawn, para os que nesta língua o entendem enfim concluiu clamando que Alá é o único Deus, La ilaha illa llah, mas agora só uma vez, que é quanto basta quando se trate de verdades definitivas. A cidade murmura as orações, o sol apontou e ilumina as açoteias, não tarda que nos pátios apareçam os moradores. A almádena está em plena luz. O almuadem é cego. José Saramago, "História do cerco de Lisboa"
segunda-feira, janeiro 7
Assim começa o livro....
Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenétis Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador. Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados. Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para a toda restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região. Mas, não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilómetros de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos lembraremos mais tarde, bastou que a mulher chamada Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para que todos os cães de além saíssem à rua vociferantes, eles que, repete-se, nunca tinham ladrado. Se a Joana Carda alguém vier a perguntar que ideia fora aquela sua de riscar o chão com um pau, gesto antes de adolescente lunática do que de mulher cabal, se não pensara nas consequências de um acto que parecia não ter sentido, e esses, recordai-vos, são os que maior perigo comportam, talvez ela responda, Não sei o que me aconteceu, o pau estava no chão, agarrei-o e fiz o risco, Nem lhe passou pela ideia que poderia ser uma varinha de condão, Para varinha de condão pareceu-me grande, e as varinhas de condão sempre eu ouvi dizer que são feitas de ouro e cristal, com um banho de luz e uma estrela na ponta, Sabia que a vara era de negrilho, Eu de árvores conheço pouco, disseram-me depois que negrilho é o mesmo que ulmeiro, sendo ulmeiro o mesmo que olmo, nenhum deles com poderes sobrenaturais, mesmo variando os nomes, mas, para o caso, estou que um pau de fósforo teria causado o mesmo efeito, Por que diz isso, O que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, não se pode resistir -lhe, mil vezes o ouvi à gente mais velha, Acredita na fatalidade, Acredito no que tem de ser.
domingo, janeiro 6
Utilidade pública e...
UTILIDADE PÚBLICA
Se um furacão
ou ventania
causar confusão
e correria
não há um minuto a perder:
no mesmo momento
abra o seu PC
e clique em e-tempo.
COMPARAÇÃO
Se um furacão
ou ventania
causar confusão
e correria
não há um minuto a perder:
no mesmo momento
abra o seu PC
e clique em e-tempo.
COMPARAÇÃO
Não adianta chorar
ir à sacada e bradar
oh tempora, oh mores!
Não somos maus
só temos o azar
de os outros serem melhores.
IDEIA DE BELEZA
Sou outro agora
Não me inquieta mais
a palpitação dos frutos
nem me instiga
a cobiça dos usufrutos
Minha ideia de beleza
é casta como uma flor
ainda não lambida pelo vento
e assim me basta
e há de sempre bastar
Ideias são sonhos
essência
Ideias o vento
não comete a indecência
de meter a mão e despetalar.
LIMIAR
Vivemos já o bastante.
Agora já tanto faz
Se dermos um passo adiante
Ou se dermos dois atrás.
CHAMADA
Na missa de corpo presente
quando o padre pronunciou
o nome do morto
ele inadvertidamente
seu estado esqueceu
e disse educadamente
fulano sou eu.
OPÇÃO
Direito de escolha
para quê,
e com qual fundamento?
Que importa à folha
saber qual será o vento
que a levará ao esquecimento?
O SALTEADOR
Digam o que disserem
o amor é o que é:
um salteador
Segue-nos
persegue-nos
assalta-nos
mata-nos
E se não faz isso
nós nos pomos a perguntar
que droga é essa
de salteador
se não sabe seguir
nem perseguir
nem assaltar
nem matar?
WEB
A amores tolos, virtuais,
E a coisas do mesmo naipe,
Não dê atenção demais,
Fuja logo, corra, skype.
HISTÓRIA
Eu em história sou fraco:
O que fazia um eunuco,
O que fazia um calmuco,
O que fazia um cossaco?
RESERVA
Que outros se matem por ti.
Quando não sobrar nenhum
E te servir um comum,
Eu estarei por aqui.Raul Drewnick
ir à sacada e bradar
oh tempora, oh mores!
Não somos maus
só temos o azar
de os outros serem melhores.
IDEIA DE BELEZA
Sou outro agora
Não me inquieta mais
a palpitação dos frutos
nem me instiga
a cobiça dos usufrutos
Minha ideia de beleza
é casta como uma flor
ainda não lambida pelo vento
e assim me basta
e há de sempre bastar
Ideias são sonhos
essência
Ideias o vento
não comete a indecência
de meter a mão e despetalar.
LIMIAR
Vivemos já o bastante.
Agora já tanto faz
Se dermos um passo adiante
Ou se dermos dois atrás.
CHAMADA
Na missa de corpo presente
quando o padre pronunciou
o nome do morto
ele inadvertidamente
seu estado esqueceu
e disse educadamente
fulano sou eu.
OPÇÃO
Direito de escolha
para quê,
e com qual fundamento?
Que importa à folha
saber qual será o vento
que a levará ao esquecimento?
O SALTEADOR
Digam o que disserem
o amor é o que é:
um salteador
Segue-nos
persegue-nos
assalta-nos
mata-nos
E se não faz isso
nós nos pomos a perguntar
que droga é essa
de salteador
se não sabe seguir
nem perseguir
nem assaltar
nem matar?
WEB
A amores tolos, virtuais,
E a coisas do mesmo naipe,
Não dê atenção demais,
Fuja logo, corra, skype.
HISTÓRIA
Eu em história sou fraco:
O que fazia um eunuco,
O que fazia um calmuco,
O que fazia um cossaco?
RESERVA
Que outros se matem por ti.
Quando não sobrar nenhum
E te servir um comum,
Eu estarei por aqui.Raul Drewnick
sábado, janeiro 5
Poucos mas necessários
É preciso estar muito entorpecido pela quantidade e pelo curto prazo para não observar que há livros necessários dos quais, no entanto só se vendem 700 ou 800 exemplares. Ainda que não sejam negócio para ninguém, o mundo seria pior sem elesJuan José Millás
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