sexta-feira, abril 4

Leitura em companhia

 


Os dias felizes

Os dias felizes estão entre as árvores, como os pássaros:

viajam nas nuvens,
correm nas águas,
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis,
desde que se olha para o céu.

A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos,
no largo círculo dos dias sossegados.

Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:
formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar,
ao longo desses dias felizes,
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza.

Cecília Meireles

Tull

Anse continua a esfregar os joelhos. Seu poncho está desbotado; em um joelho, um remendo de sarja cortado de uma calça domingueira já está reluzente de tanto uso. “Não gosto disto, nem um pouco”, ele diz.

“É preciso a gente antecipar as coisas”, eu digo. “Mas, de qualquer forma, não haverá mal algum.” “Ela quer partir imediatamente”, ele diz. “E Jefferson não fica nada perto.” “Mas as estradas estão boas agora”, eu digo. Além disso, vai chover esta noite. E os parentes dele estão enterrados em New Hope, a menos de cinco quilômetros de distância. Mas é próprio dele ter casado com uma mulher que nasceu a um dia inteiro de viagem e que morre antes dele.

Ele olha a plantação, esfregando os joelhos. “Não gosto nada disso”, diz. “Voltarão com tempo de sobra”, eu digo. “Se fosse você, não me preocuparia.” “Serão três dólares”, diz. “Talvez não precisem voltar a toda pressa”, eu digo. “Espero que não.” “Ela está se acabando”, diz. “Não pensa em outra coisa.” Sem dúvida, a vida das mulheres é dura. De algumas mulheres. Lembro que mamãe chegou até os setenta e poucos. Ocupada o dia inteiro, chovesse ou fizesse sol; não caiu de cama um só dia, desde que lhe nasceu o último filho, até que, um dia, pareceu olhar em volta, foi apanhar a camisola rendada que tinha há quarenta e cinco anos e nunca havia tirado da arca, vestiu-a, estirou-se na cama e, puxando o cobertor, fechou os olhos. “Agora vocês todos cuidem de Pai o melhor que puderem”, disse ela. “Não aguento mais.” Anse esfrega as mãos nos joelhos.

“Deus provê”, diz. Podemos ouvir a serra e o martelo de Cash, no oitão da casa, É verdade. Nunca ninguém disse nada mais verdadeiro. “Deus provê”, repito. O rapaz sobe a colina. Traz um peixe quase tão comprido quanto ele. Atira-o ao chão e resmunga: “Ahn”, e cospe, por cima do ombro, como um homem. Um peixe quase do seu tamanho. “Que diabo é isto?”, digo. “Um peixe-porco? Onde o pegou?” “Perto da ponte”, ele diz. Vira o peixe, e a parte de baixo está grudada de poeira, e o olho fechado intumesceu sob a poeira. “Pretende deixá-lo aí mesmo?”, diz Anse. “Vou mostrar a Mãe”, diz Vardaman. Olha para a porta. Podemos ouvir a conversa trazida pela corrente de ar. Também ouvimos Cash, batendo nas tábuas. “Agora ela tem visitas”, diz. “É o meu pessoal”, digo. “Também gostarão de ver o peixe.” Ele não diz nada, observando a porta. Depois, volta a olhar o peixe tombado no pó. Vira-o com o pé e, com o dedo grande do pé, comprime o olho saltado. Anse mira a plantação. Vardaman olha o rosto de Anse, depois a porta.
Volta-se, avançando para o canto da casa, quando Anse e chama sem olhar ao redor. “Limpe o peixe”, diz Anse.

Vardaman para. “E por que Dewey Dell não o limpa?” “Limpe o peixe, você”, diz Anse.

“Ora, Pai”, diz Vardaman.

“Limpe-o, você mesmo”, diz Anse. Não olha ao redor. Vardaman volta e apanha o peixe. O peixe escorrega-lhe das mãos, sujando-o de lama, e cai ao chão, emporcalhando-se novamente; de boca aberta, olhos protuberantes, esconde-se no pó, como se tivesse vergonha de estar morto, como se tivesse pressa de ocultar-se outra vez. Vardaman pragueja contra ele. Pragueja como um adulto, em pé, com o peixe entre as pernas. Anse não olha ao redor. Vardaman apanha novamente o peixe. Rodeia a casa, levando-o nos braços como quem carrega uma braçada de lenha, e a cabeça e o rabo do peixe saem pelos lados. Quase do tamanho de Vardaman.

Os punhos de Anse ultrapassam as mangas: nunca o vi, em toda a minha vida, com uma camisa que parecesse sua. Parece até que Jewel lhe dá as camisas que vão ficando velhas. Mas a camisa não é de Jewel. Ele tem os braços compridos e o corpo espigado. E. além do mais, não há mancha de suor. Pode-se dizer, sem medo de errar, que elas não pertenceram a mais ninguém, salvo Anse. Seus olhos, estendidos além da plantação, parecem dois carvões queimados fixos no rosto.

Quando a sombra da tarde atinge os degraus, ele diz: “São cinco horas.” Assim que me levanto, Cora aparece à porta: diz que chegou a hora de irmos embora. Anse procura os sapatos. “Ora, Mr. Bundren”, diz Cora, “não se levante agora.” Ele calça os sapatos, com dificuldade, o que sempre lhe acontece, pois pensa que não tem forças para nada, mas, assim mesmo, insiste. Quando entramos no corredor, ouvimos os sapatos arrastarem-se no chão como se fossem de ferro. Dirige-se à porta do quarto onde ela está, piscando os olhos, como quem espera encontrá-la de pé, talvez numa cadeira ou talvez varrendo o chão, e olha, porta adentro, com aquela sua atitude de surpresa com que sempre a olhou, e sempre a encontra na cama, todas as vezes, e Dewey Dell ainda maneja o leque. Ele para ali, como se não quisesse mover-se, ou coisa que o valha.

“Bem, acho que é melhor a gente se apressar”, diz Cora. “Tenho de dar de comer às galinhas.” Além disse, vai chover. Nuvens como essas não enganam, e o algodão recebe todos os dias as bênçãos do Senhor. Mais um problema para ele. Cash ainda aplaina as tábuas. “Se é que não precisam de nós...”, diz Cora.

“Anse nos conhece”, eu digo. Anse não nos olha. Olha ao redor, piscando, naquela sua maneira surpreendida, como se fosse a primeira vez, e, ainda mais, como se a sua surpresa o assombrasse. Ah, se Cash trabalhasse com o mesmo empenho no meu celeiro. “Eu disse a Anse que provavelmente não haverá necessidade de nada”, digo. “Pelo menos, espero que não.” “Ela não pensa em outra coisa”, diz ele. “Acho que está decidida a ir.” “É o que nos espera, a todos nós”, diz Cora. “Que Deus não nos abandone.” “Eu me referia àquele milho”, digo. E volto a garantir-lhe que o ajudarei, estando ela doente e tudo isso. Como a maior parte das pessoas desta região, já o ajudei tanto que não posso parar agora. “Queria colher o milho hoje”, ele diz. “Mas parece que não consigo pensar em nada.” “Talvez ela aguente até você recolher o milho”, cru digo. “Deus queira”, diz Cora, Ah, se Cash trabalhasse assim, com todo o cuidado, no meu celeiro. Ele ergue a vista quando passamos. “Não sei se posso trabalhar para você esta semana”, diz. “Não há pressa”, digo. “Vá quando puder.” Subimos na carroça. Cora põe a caixa com os bolos no colo. É certo que vai chover. “Não sei o que vai ser dele”, diz Cora. “Juro que não sei.” “Pobre Anse”, digo. “Ela forçou-o a trabalhar durante trinta anos. Acho que está cansada.” “E tenho a impressão que ela o perseguirá por mais trinta anos”, diz Kate. “Se não for ela, Anse arranjará outra - antes da colheita do algodão.” “Creio que, agora, Cash e Darl podem casar”, diz Eula. “Esse pobre rapaz”, diz Cora. “Esse pobrezinho.” “E que me diz de Jewel?”, diz Kate. “Também pode casar”, diz Eula. “Uhm”, diz Kate. “Acho que ele quer. Acho que sim. Mas existem por aqui muitas moças que não gostariam de ver Jewel amarrado. Bem, elas não precisam se preocupar.” “Puxa, Kate”, diz Cora. A carroça começa a chiar. “O pobrezinho”, diz Cora.

Sem dúvida vai chover esta noite. Sim, senhor. Uma carroça que chia é sinal de tempo excessivamente seco. Especialmente quando se trata de uma Birdsell. Mas dá-se um jeito. Tenho certeza.

“Ela devia ficar com os bolos, já que fez a encomenda”, diz Kate.
William Faulkner, "Enquanto agonizo"

O poder da poesia

Tem sido privilégio de nossa época – entre guerras, revoluções e grandes movimentos sociais – desenvolver a fecundidade da poesia até limites insuspeitados. O homem comum tem podido confrontá-la de maneira que fere ou é ferida, seguramente na solidão, seguramente na massa montanhosa das reuniões públicas.

Nunca pensei, quando escrevi meus primeiros livros solitários, que com o passar dos anos me encontraria em praças, ruas, fábricas, salas de aula, teatros e jardins, dizendo meus versos. Percorri praticamente todos os rincões do Chile, derramando minha poesia entre a gente de meu povo.


Contarei o que me aconteceu na Vega Central, o mercado maior e mais popular de Santiago do Chile. Chegam ali ao amanhecer os infinitos carros, carretas, carroças e caminhões que trazem os legumes, as frutas, os comestíveis, de todas as chácaras que rodeiam a capital devoradora. Os carregadores – uma comunidade numerosa, mal paga e em geral descalça – pululam pelos cafés, albergues noturnos e tascas dos bairros próximos à Vega.

Alguém veio me buscar um dia em um automóvel e entrei nele sem saber exatamente aonde nem para o que ia. Levava no bolso um exemplar de meu livro España en el corazón. Dentro do carro me explicaram que estava convidado para dar uma conferência no sindicato de carregadores da Vega.

Quando entrei na sala desarrumada senti o frio do Nocturno de José Asunción Silva, não só pelo avançado do inverno como também pelo ambiente que me deixava atônito. Sentados em caixotes ou em improvisados bancos de madeira, uns cinquenta homens me esperavam. Alguns levavam à cintura um saco amarrado à maneira de avental, outros se cobriam com velhas camisetas remendadas e outros desafiavam o frio mês de julho chileno com o torso nu. Sentei-me detrás de uma mesinha que me separava daquele estranho público. Todos me olhavam com os olhos negros e estáticos do povo de meu país.

Lembrei-me do velho Lafferte. A esses espectadores imperturbáveis que não movem um músculo da cara e olham de forma constante, Lafferte designava com um nome que me fazia rir. Certa vez no pampa salitreiro me disse:

– Olha lá no fundo da sala, apoiados na coluna, os muçulmanos estão nos olhando. Só lhes falta o albornoz para serem iguais aos impávidos crentes do deserto.

Que fazer com este público? De que podia lhes falar? Que coisa de minha vida poderiam lhes interessar? Sem conseguir decidir nada e escondendo a vontade de sair correndo, tomei o livro que levava comigo e disse:

– Há pouco tempo estive na Espanha. Havia ali muita luta e muitos tiros. Ouçam o que escrevi sobre aquilo.

Devo explicar que meu livro España en el corazón nunca me pareceu um livro de compreensão fácil. Tem uma aspiração à claridade mas está empapado pelo torvelinho daquele grande e múltiplo sofrimento.

O certo é que pensei ler umas poucas estrofes, acrescentar umas poucas palavras e me despedir. Mas as coisas não aconteceram assim. Ao ler um poema atrás do outro, ao sentir o silêncio como de água profunda em que caíam minhas palavras, ao ver como aqueles olhos e sobrancelhas escuras seguiam intensamente minha poesia, compreendi que meu livro estava chegando a seu destino. Continuei lendo mais e mais, comovido eu mesmo pelo som de minha poesia, sacudido pela magnética relação entre meus versos e aquelas almas abandonadas.

A leitura durou mais de uma hora. Quando estava para me retirar, um dos homens se levantou. Era dos que levavam o saco amarrado ao redor da cintura.

– Quero lhe agradecer em nome de todos – disse em voz alta. – Quero lhe dizer, além disso, que nunca nada nos impressionou tanto.

Ao terminar estas palavras explodiu num soluço. Outros vários também choravam. Saí à rua entre olhares úmidos e apertos de mãos rudes.

Pode um poeta ser o mesmo depois de ter passado por estas provas de frio e fogo?

Pablo Neruda, "Confesso que vivi"

Penélope

Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.

Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba.

Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do marido, ela traz um osso ao cão vagabundo que cheira o portão. Engorda uma galinha, logo se enternece, incapaz de mata-la. O homem desmancha o galinheiro e, no lugar, ergue-se caco feroz. Arranca a única roseira no canto do jardim. Nem a uma rosa concede o seu resto de amor.

Além do sábado, não saem de casa, o velho fumando cachimbo, a velha trançando agulhas. Até o dia em que, abrindo a porta, de volta do passeio, acham a seus pés uma carta. Ninguém lhes escreve, parente ou amigo no mundo. O envelope azul, sem endereço. A mulher propõe queimá-lo, já sofridos demais. Pessoa alguma lhes pode fazer mal, ele responde.

Não queima a carta, esquecida na mesa. Sentam-se sob o abajur da sala, ela com o tricô, ele com o jornal. A dona baixa a cabeça, morde uma agulha, com a outra conta os pontos e, olhar perdido, reconta a linha. O homem, jornal dobrado no joelho, lê duas vezes cada frase. O cachimbo apaga, não o acende, ouvindo o seco bater das agulhas. Abre enfim a carta. Duas palavras, em letra recortada de jornal. Nada mais, data ou assinatura. Estende o papel à mulher que, depois de ler, olha-o . Ela se põe de pé, a carta na ponta dos dedos.

—Que vai fazer?

—Queimar.

Não, ele acode. Enfia o bilhete no envelope, guarda no bolso. Ergue a toalhinha caída no chão e prossegue a leitura do jornal.

A dona recolhe a cestinha, o fio e as agulhas.

—Não ligue, minha velha. Uma carta jogada em todas as portas.

O canto das sereias chega ao coração dos velhos? Esquece o papel no bolso, outra semana passa. No sábado, antes de abrir a porta, sabe da carta à espera. A mulher pisa-a, fingindo que não vê. Ele a apanha e mete no bolso.

Ombros curvados, contando a mesma linha, ela pergunta:

—Não vai ler?

Por cima do jornal admira a cabeça querida, sem cabelo branco, os olhos que, apesar dos anos, azuis como no primeiro dia.

—Já sei o que diz. —Por que não queima?
Dalton Trevisan

quinta-feira, abril 3

Aproveite o balanço

 


Vontade de içar a bandeira branca


4 de Setembro


Às vezes, entra-me a vontade de içar a bandeira branca, subir às ameias e dizer: “Rendo-me.” Não que eu me veja como uma fortaleza, bem pelo contrário, mas sei, como se ela fosse ou nela estivesse, que me andam cercando dois cercos: um, já se sabe, é o dos ódios, invejas e mesquinhices que vou aguentando; o outro, que se vai sabendo, é o dos afectos de muitos que me leem, e esse é o que me derrota. Se este tempo da minha vida tivesse de levar um título, bem poderia ser o do filme de Pedro Almodovar: “Que fiz eu para merecer isto?” Dir-me-ão os mais simpáticos: “Bom, alguma coisa fizeste...” Mas isso, uns quantos livros, valerá tanto que mereça a quadra que me foi dedicada por um pastor de ovelhas (seiscentas parece que tem o rebanho) do Alentejo? Esta, lida ontem na Festa do Avante! e que reza assim:

Tem em conta a luz da mente.
Cada um é como é.
E não pode ser toda a gente
Aquilo que cada um é.

E, como se não fosse bastante, como se não transbordasse já, estava eu depois a assinar livros (três horas ininterruptas de dedicatórias...), aproximam-se duas pessoas, marido e mulher, que colocam diante de mim, com o livro que tinham comprado, um caderninho, um corta-papel e uma nota onde um e outro estavam explicados... O livrinho, feito de papel de sacas de cimento, havia sido escrito por Silvino Leitão Fernandes Costa no campo de concentração do Tarrafal e estava dedicado nestes termos: “Ofereço, ao camarada e amigo T., como prova de consideração.” “T.” era a abreviatura de Teixeira, apelido do homem que estava na minha frente, de seu nome completo José de Sousa Teixeira, preso também, como ele, no Tarrafal. Quanto ao corta-papel, fizera-o Hermínio Martins, ex-marinheiro de um dos barcos que se revoltaram em 8 de Setembro de 1936. Foi ajudante de serralharia do Bento António Gonçalves e morreu antes do 25 de Abril, num sanatório da metrópole. Pensei que tudo isto estava simplesmente a ser-me mostrado, e, ao devolver o livro assinado, restituí também os objectos. Que não, disseram-me, que eram para mim, como lembrança e prova de amizade... Imagine-se como fiquei eu. Agradeci como pude, rodeado pelas dezenas de pessoas que esperavam a sua vez para me pedirem uma assinatura e, com palavras ou sem elas, dizerem que me querem bem.

O livrinho tem dois títulos e compõe-se de quatro partes. O primeiro título, na capa, é “O que será? ...”, o segundo título, na folha seguinte, anuncia “Coisas da vida e próprias dos homens”. A primeira parte transcrevo-a hoje, as outras nos próximos dias (é o mínimo que posso fazer em sinal de gratidão e para que não se perca — se algum dia estes cadernos vierem a ser publicados — a lembrança de um conflito entre amigos e a sua algo extraordinária resolução). Actualizo a ortografia e a pontuação:

“Os livros são coisas preciosas tanto por aquilo que dizem como pelo esforço de raciocínio necessário para os fazer.

“Depois de feitos, servem de auxílio ao desenvolvimento cerebral do homem.
“Conclui-se, pois, que é nos livros onde nós aprendemos tudo quanto desejamos. Tudo depende daquilo que mais nos interessar.

“São ainda eles que trazem até nós, duma forma concreta e abreviada, toda a experiência vivida pelos nossos antepassados, da qual nos servimos e serviremos sempre para encarar o futuro.

“Quando possuímos um ou mais livros, significa isso que se encontram ao nosso dispor e certamente lê-los-emos tantas quantas vezes quisermos ou necessitarmos para a compreensão do sentido que encerram.

“Entretanto, mesmo àqueles que às vezes lemos, embora o seu conteúdo pouco nos interesse, — quer dizer, romances de 4.50 a dúzia, ou coisa semelhante, — alguma coisa nos fica gravada na mente, apesar disso.

“Todos nós sabemos que é verdade tal facto.

“Bem, mas já vai sendo tempo de mudar de “disco”. “O meu objectivo não é falar sobre livros. Nem sequer fazê-los ou ainda discutir.

“Até aqui, simplesmente, pretendo salientar o valor das coisas escritas.

“Porém, para melhor concretização, farei um paralelo entre a escrita e a palavra.

“Supõe que eu percebo de electricidade a “Potes” e estive durante duas horas a falar-te do assunto. De certo não poderias ter apreendido tudo quanto disse. Mas se escrevesse ficaria ao teu alcance o assunto e dar-lhe-ias as voltas que precisasses.

“Agora dirás tu:

“— Mas a que propósito vem isto, não me dizem?

“Depois acrescentarás:

“Sempre há cada maduro!...

“Que mal fiz eu?...

“Calma... o resto vai já a seguir.”
José Saramago, "Cadernos de Lanzarote"

O navio branco

Eu sou Basil Elton, responsável pelo farol de North Point, o mesmo deixado aos cuidados de meu pai e meu avô antes de mim. Distante da costa e acima de rochas escorregadias e submersas que podem ser vistas quando a maré está baixa, mas são imperceptíveis quando ela está alta se encontra o farol cinzento. Por ele passaram navios majestosos vindos dos sete mares. No tempo de meu avô eles eram muitos, no tempo de meu pai nem tantos, e agora eles são tão poucos que às vezes sinto-me estranhamente sozinho, como se eu fosse o último homem na Terra.


De terras distantes vinham aqueles antigos navios mercantes de velas brancas; de terras Orientais distantes onde sóis quentes brilham e doces aromas se perpetuam em estranhos jardins e graciosos templos. Os velhos capitães do mar geralmente vinham até meu avô e contavam-lhe sobre essas coisas que por sua vez ele contou ao meu pai, e meu pai contou-me nas longas tardes de outono quando o vento vindo do Leste soprava de forma assustadora. E eu lia mais sobre essas coisas, e sobre muitas outras também, nos livros que os homens me davam quando eu era jovem e maravilhado com elas.

Porém mais maravilhosa que a sabedoria de velhos homens e a sabedoria dos livros é a sabedoria secreta do mar. Azul, verde, cinza, escuro ou límpido; calmo, agitado ou turbulento; o mar não é silencioso. Durante toda a minha vida eu o observei e o escutei, e eu o conheço bem. De início ele me contou somente histórias simples e pequenas sobre praias tranqüilas e portos vizinhos, mas com o passar dos anos ele ficou mais amistoso e falou-me sobre outras coisas; sobre coisas mais estranhas e mais distantes no tempo e no espaço. Às vezes, no crepúsculo, os vapores acinzentados do horizonte começavam a me oferecer visões de caminhos distantes; e às vezes à noite as águas profundas do mar ficavam cada vez mais claras e fosforescentes, concedendo-me visões de seus caminhos. E essas visões eram tantas quanto os caminhos eram, podiam ser ou ainda são; pois o mar é mais velho que as montanhas, e repleto de memórias e sonhos de muitas Eras.

Do longínquo Sul era de onde o Navio Branco costumava vir quando a lua estava cheia e alta nos céus. Do longínquo Sul ele deslizava bem suave e silenciosamente sobre o mar. E o mar estando calmo ou agitado, ou o com o vento amistoso ou desfavorável, ele sempre conseguia deslizar suave e silenciosamente; com suas velas estáticas e suas longas e estranhas fileiras de remos movendo em perfeito ritmo. Uma noite eu espiei um homem sobre o convés, barbas e túnica longas, e ele pareceu acenar para que eu embarcasse rumo a terras longínquas e desconhecidas. Muitas vezes depois eu o vi sob a lua cheia, e ele não mais voltou a me acenar.

A lua brilhava profundamente na noite em que eu respondi ao chamado, e caminhei sobre as águas em direção ao Navio Branco sobre uma ponte de luar. O homem que me convidara agora me dava as boas vindas em uma língua suave que eu parecia conhecer bem, e as horas foram preenchidas por doces cantigas dos remadores à medida que deslizávamos rumo ao misterioso Sul, dourado pelo brilho daquela delicada lua cheia.

E quando o dia amanheceu cor de rosa e radiante, eu avistei as verdes planícies das terras distantes, ensolaradas e belas e desconhecidas para mim. Acima do oceano surgiam gigantescas fileiras de vegetação, ornadas com árvores, e mostrando aqui e lá telhados de um branco brilhante e colunas de templos estranhos. Ao nos aproximarmos da verde planície o homem de longas barbas contou-me sobre aquela terra, a terra de Zar, onde habitavam todos os sonhos e pensamentos belos que vêem aos homens e depois são esquecidos. E olhamos para a vegetação novamente e vi que o que ele disse era verdade, pois entre a paisagem diante de mim estavam muitas coisas que eu vira apenas através das brumas, além do horizonte e dos abismos fosforescentes do oceano. Havia também formas e fantasias mais esplêndidas que qualquer homem já conhecera; as visões de jovens poetas que morreram antes que o mundo pudesse aprender o que eles haviam sonhado ou visto. Mas nós não colocamos nossos pés sobre as encostas verdes de Zar, pois se diz que aquele que nelas pisa talvez nunca mais retorne a sua terra natal.

À medida que o Navio Branco se distanciava silenciosamente da planície repleta de templos de Zar, observamos no horizonte, a nossa frente, as torres de uma imponente cidade; o homem de longas barbas me disse “Esta é Thalarion, a Cidade das Mil Maravilhas, onde residem todos aqueles mistérios que o homem tem tentado, em vão, compreender”. E eu olhei novamente, a uma distância menor, e vi que a cidade era maior que qualquer cidade com a qual eu sonhara ou já vira. As torres de seus templos alcançavam os céus, assim nenhum homem seria capaz de alcançar as suas pontas; e bem distante, além do horizonte, estendia-se uma muralha cinza e lúgubre sobre a qual se poderiam espiar somente alguns telhados, estranhos e sinistros, adornados com ricos beirais e esculturas. Eu estava ainda mais ansioso para entrar nessa fascinante ainda que repelente cidade e implorei ao homem de barbas longas que me deixasse aportar naquele píer de pedra próximo ao enorme portal esculpido de Akariel; mas ele gentilmente negou o meu pedido dizendo, “Em Thalarion, a Cidade das Mil Maravilhas, muitos entraram, mas ninguém retornou. Em seu interior somente caminham demônios e criaturas loucas que há muito deixaram de ser humanas, e as ruas ficaram brancas com os ossos não-sepultados daqueles que olharam sobre o espectro de Lathi, aquele que reina sobre a cidade”. Assim o Navio Branco continuou sua viagem navegando ao lado da muralha de Thalarion, e seguiu por muitos dias um pássaro que voava rumo ao sul, cuja lustrosa plumagem se confundia com o céu de onde ele surgira.

Chegamos então a uma agradável costa que se mostrava atraente com suas flores de todas as tonalidades possíveis; tanto quanto nossa vista permitia alcançar seu interior podíamos ver bosques adoráveis e árvores radiantes repousando sob o sol do meridiano. À sombra além de nossa vista vinham trechos de música e canções líricas, entrecortados por gargalhadas tão deliciosas que eu instiguei os remadores a seguirem adiante no meu afã de alcançar aquela cena. E o homem de barbas longas não disse uma palavra, mas observou-me à medida que nos aproximamos da margem de terra ladeada por lírios. De repente um vento soprou vindo do prado e dos bosques frondosos trazendo um cheiro que me fez estremecer. O vento ficou mais forte, e o ar foi tomado pelo odor letal e pútrido de cidades devastadas pela peste e cemitérios descobertos. E quando navegamos como loucos para nos afastar daquela costa amaldiçoada o homem de barbas longas finalmente se pronunciou, dizendo: “Esta é Xura, a Terra dos Prazeres Inalcançados”.

Então mais uma vez o Navio Branco seguiu o pássaro do céu, sobre os mares quentes e abençoados, embalados por brisas aromáticas e acariciantes. Dia após dia, noite após noite navegamos, e quando a lua ficava cheia ouvíamos as suaves cantigas dos remadores, doces como naquela noite distante quando partimos para longe da nossa terra natal. E foi sob a luz do luar que ancoramos finalmente no porto de Sona-Nyl, que é protegida por dois promontórios de cristal que surgem do oceano e se encontram em um esplêndido arco. Essa é a Terra da Imaginação e nós seguimos a sua costa verdejante sob uma ponte dourada de luz do luar.

Em Sona-Nyl não há nem tempo nem espaço, nem sofrimento nem morte, e lá eu fiquei por muitíssimo tempo. Verdes são os bosques e pastos, brilhantes e perfumadas as flores, azuis e musicais os riachos, límpidas e frescas as fontes, e impressionantes e maravilhosos os templos, castelos e cidades de Sona-Nyl. Naquela terra não há fronteira, pois para cada visão bela surge uma outra ainda mais bela. Por toda a paisagem campestre e em meio ao esplendor das cidades o povo pode se locomover à vontade, de quem tudo é ofertado com uma graça intocada e uma felicidade genuína. Durante o longo tempo em que lá permaneci, perambulei extasiado por jardins onde pagodes pitorescos nos observam por de trás de agradáveis arbustos, e onde as calçadas brancas são ladeadas por flores delicadas. Escalei suaves colinas de cujos cumes eu podia ver paisagens extasiastes, com cidades verticais como torres de igrejas aconchegando-se em vales verdejantes, e as abóbadas douradas das cidades brilhando no horizonte infinitamente distante. E eu vi sob a luz do luar o mar cintilante, os promontórios de cristal, e o porto tranqüilo onde ficava ancorado o Navio Branco.

Foi numa noite, contra a lua cheia no imemorável ano do Tharp que eu vi a silhueta do pássaro celestial, e senti os primeiros indícios de inquietação. Falei então para o homem de barbas longas, e contei-lhe sobre a minha nova ânsia em partir rumo à remota Cathuria, aquela que nenhum homem jamais vira, mas que todos acreditavam encontrar-se além dos pilares de basalto do Oeste. Trata-se da Terra da Esperança, e nela brilha os ideais perfeitos de tudo que se conhece em todos os lugares, ou pelo menos é o que dizem. Mas o homem de barbas longas me disse: “Seja cauteloso com aqueles oceanos perigosos onde os homens dizem se encontrar Cathuria. Em Sona-Nyl não há nem dor nem morte, mas quem pode dizer o que jaz além dos pilares de basalto do Oeste?” Todavia, na lua cheia seguinte eu embarquei no Navio Branco, e com o relutante homem de barbas longas, eu deixei com alegria o porto para viajar por mares desconhecidos.

E o pássaro dos céus voou a nossa frente, e nos guiou em direção ao pilares de basalto do Oeste, mas desta vez os remadores não cantaram melodias doces sob a lua cheia. Na minha cabeça eu geralmente desenhava a Terra de Cathuria com seus palácios e caminhos esplêndidos, e me perguntava que novos deleites me aguardavam. “Cathuria” eu dizia a mim mesmo “é a morada dos deuses e terra das inumeráveis cidades de ouro. Suas florestas são de aloé e sândalo, mesmo os bosques de Camorin, e entre as árvores voam pássaros alegres cantando doces canções. Nas verdes e floridas montanhas de Cathuria encontram-se templos de mármore róseo, adornados com entalhes e pinturas que representam glórias, e em seus pátios há fontes de prata, onde as águas perfumadas que vem do rio Narg, cuja nascente se encontra em uma gruta, bramem encantadoras canções. E as cidades de Cathuria são cercadas por muralhas douradas, e seu calçamento também é de ouro. Nos jardins dessas cidades encontram-se estranhas orquídeas, e lagos perfumados cujos leitos são de coral e âmbar. À noite as ruas e os jardins são iluminados com lanternas vistosas feitas com casco de tartarugas de três cores, e lá ecoam as doces notas de um cantor e um tocador de alaúdes. E todas as casas das cidades de Cathuria são palácios, cada um deles construído sobre um perfumado canal que conduz as águas do sagrado Narg. De mármore e alabastro são feitas as casas, e cobertas com telhados de ouro brilhante que refletem os raios de sol e aumentam o esplendor das cidades como se os deuses jubilosos as observassem dos picos distantes. O mais belo de todos é o palácio do grande monarca Dorieb, aquele que alguns afirmam ser um semi-deus enquanto outros um deus. Sublime é o palácio de Dorieb, e muitas são as pequenas torres de mármore sobre suas muralhas. Em seus amplos salões multidões se reúnem, e lá pendem troféus conquistados há eras. E o teto é inteiramente feito de ouro, sustentado por altos pilares de rubi e lápis-lazúli, entalhados com imagens de deuses e heróis que faz com que aquele os fita tenha a impressão de estar contemplando o próprio Olimpo. E o piso do palácio é feito de vidro, sob o qual corre as iluminadas águas do Nargh, alegre com os pomposos peixes por ninguém conhecidos além da fronteira da amável Cathuria.”

Assim eu falava para mim mesmo sobre Cathuria, mas o homem de barbas longas sempre me alertava para voltarmos à afortunada Sona-Nyl; pois Sona-Nyl é conhecida pelos homens, enquanto ninguém conseguira chegar a Cathuria. E no trigésimo primeiro dia, guiados pelo pássaro alcançamos os pilares de basalto do Oeste. Envolvidos pela neblina estavam eles, assim nenhum homem podia espiar além ou ver o seu ponto mais alto – que na verdade alguns dizem chegar aos céus. E o homem de barbas longas mais uma vez implorou-me que voltássemos, mas eu não lhe dei atenção; pois da neblina além dos pilares de basalto eu imaginei que viriam as notas dos cantores e tocadores de alaúdes; mais doces que as mais doces canções de Sona-Nyl, e parecendo-se com meus próprios louvores; eu que viajara para longe da lua cheia e morara na Terra da Fantasia. Assim ao som da melodia o Navio Branco navegou pela neblina entre os pilares de basalto do Oeste. Então quando a música cessou e a neblina se dissipou, vimos que não havíamos chegado a Terra de Cathuria, mas sim a um mar revoltoso e indominável, sobre o qual nosso navio já sem esperanças era levado rumo a algum objetivo desconhecido. Logo chegaram aos nossos ouvidos o trovejar distante de quedas d’água, e aos nossos olhos apareceu, no horizonte distante a nossa frente, a rajada titânica de uma catarata monstruosa, onde os oceanos do mundo se encontram e deságuam em um abismo do nada. Então o homem de barbas longas me disse, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, “Nós rejeitamos a bela Terra de Sona-Nyl, à qual jamais retornaremos. Os deuses são maiores que os homens, e eles venceram.” E eu fechei meus olhos antes da queda que eu sabia que viria, impedindo a visão do pássaro celestial que batia suas asas azuis e orgulhosas sobre a correnteza.

Com a queda veio a escuridão, e eu ouvi os gritos de homens e de coisas que não eram humanas. Dos ventos tempestuosos do Leste eles surgiram, e deram-me calafrios como se eu me curvasse sobre uma laje de pedra que surgira sobre meus pés. Então eu ouvi mais uma batida e abri os olhos e me encontrei sobre a plataforma daquele farol de onde eu partira há muitos e muitos anos. Na escuridão abaixo surgiam os vastos contornos embaçados de um navio despedaçado sobre as rochas cruéis, e quando fitei os destroços vi que a luz havia se extinguido pela primeira vez desde que meu avô assumira o seu posto.

E nas tardes horas noturnas, quando eu fui para o interior da torre, vi que no calendário pregado na parede continuava lá como eu deixara na hora em que partira. Com o amanhecer eu desci a torre e olhei para os destroços sobre o rochedo, mas o que encontrei foi somente o seguinte: um estranho pássaro morto cujo tom era de um azul celeste, e um único mastro, de uma brancura maior que a da espuma do mar ou de uma montanha de neve.

E desde então o mar nunca mais me contou seus segredos; e embora muitas vezes a lua cheia tenha brilhado e se erguido nos céus, o Navio Branco do Sul nunca mais voltou.

H. P. Lovecraft

33 livros

1

Aquele livro de uma editora descolada e moderna, que a gente pega no balcão da livraria e leva alguns minutos tentando entender as letras do título.

2
Aquele livro grosso, caro, de texto cerrado em fonte pequena, que a gente compra sem folhear e guarda na estante sem abrir.

3
Aquele romance estrangeiro de capa instigante, contracapa cheia de fragmentos elogiosos, que a gente compra, começa a ler, e por volta da página 50 percebe que se trata do volume 3 de uma série cujos dois primeiros ninguém se lembrou de publicar aqui.

4
Aquele livro de contos de um dos seu autores preferidos, projeto gráfico sedutor, preço caríssimo, mas você acaba comprando porque dos quinze contos incluídos tem dois que você não tem ainda.

5
Aquele livro chato pra caramba que você devolveu à prateleira várias vezes, e quando abre agora encontra dentro dele a conta de luz que acabou não pagando e que resultou naquela tremenda confusão do ano passado, a festa-de-aniversário com energia cortada.

6
Aquele livro de Fantasia Heróica, com 500 páginas, que você estava lendo no maior entusiasmo, mas precisou fazer uma viagem, a viagem se prolongou, na volta teve problemas de saúde, a vida veio em ondas como o mar, e agora você percebe que tinha parado na página 322... e agora não lembra nem como é o nome do rei.

7
Aquele livro que você tem, mas nenhuma bio-bibliografia do autor registra; e agora?


8
Aquele romance de um autor de quem você já leu (e gostou de) todo o resto, menos este, cuja leitura até hoje não engatou.

9
Aquele livro lido, querido e amado na infância, que você reencontrou na idade adulta, e guardou sem ler, para não estragar tudo.

10
Aquele livro estrangeiro que veio com muitas páginas faltando, você mandou um email com foto para o autor, explicando, e recebeu um exemplar perfeito, com dedicatória.

11
Aquele livro cuja sinopse é até promissora, mas você não se anima a ler porque o autor é um chato.

12
Aquele livro cuja prosa é tão energética que você lê meia página e corre para o teclado, com a cabeça a mil.

13
Aquela coletânea enorme, bem produzida, futura referência para muitos anos, e para a qual você foi convidado a contribuir... mas não levou fé.

14
Aquele livro que você comprou por engano, leu por uma questão de amor-próprio, e gostou por mera teimosia.

15
Aquele livro que qualquer frase, de qualquer página aberta ao acaso, serve de oráculo.

16
Aquele livro que, pela data anotada com sua letra na página de rosto, é o que está com você há mais tempo, na vida inteira.

17
Aquele livro todo sublinhado e anotado com sua letra, e que você não lembra de ter lido.

18
Aquele livro que alguém lhe emprestou há 25 anos, e que você ainda guarda, com a firme intenção de devolver.

19
Aquele livro precioso e insubstituível, mas já esbagaçado de tanto manuseio, e que você não manda pro encadernador com medo que ele suma.

20
Aquele livro que você já leu e releu sem compreender muito bem, mas sente ali verdade, sente ali grandeza, sai dali fortificado.

21
Aquele livro onde o autor não é ninguém, o texto não é nada, mas o que a dedicatória diz é tudo.

22
Aquele livro que você comprou num sebo por curiosidade, leu, guardou, se desfez dele numa mudança, precisa dele agora para um trabalho, e não anotou nem o título nem o autor.

23
Aquele livro que foi seguro a quatro mãos, lido a quatro olhos, recitado baixinho a duas bocas.

24
Aquele romance que é até legal, mas você acha os nomes dos personagens totalmente equivocados.

25
Aquele livro que, mal começa a ler, você tem a sensação de que já tinha lido antes, e que o autor dele também.

26
Aquele livro que por alguma razão misteriosa você leu e releu e não teve coragem de sublinhar.

27
Aquele livro que, a cada vez que você pega para ler, a lombada se quebra mais um pouco, e mais páginas se soltam.

28
Aquele romance cujo enredo, antes de chegar na metade, já deu três vezes a impressão de que estava acabando.

29
Aquela 1ª. edição raríssima que você achou por 10 reais na lona da calçada.

30
Aquele volume bobinho que você comprou somente pelo hábito de trazer um livro de cada cidade que visitava.

31
Aquele livro obscuro que um amigo lhe presenteou há dez anos, e toda vez que você o encontra ele pergunta: “E aí, leu?... Não é genial?...”

32
Aquele livro que só presta a capa.

33
Aquele livro de lombada à base de cola, que precisa ser sujeitado com as duas mãos para ser lido, porque se você o larga ele dá um pulo, feito menino birrento, e volta a se fechar.

quarta-feira, abril 2

Escolha!

 


O abrigo misterioso

Levava consigo para as árvores todos os livros que fugiam à conduta daquilo que então se podia esperar de uma futura mulher. Ainda era só menina, pensava. Nos verões era mais fácil esconder estes livros da família. Como não chovia, deixava-os pendurados como frutos sob os ramos e sonhava com uma árvore real que amadurecesse as histórias. Semeava palavras e delas crescia a natureza das cabeças. Que bom seria ter a liberdade de plantar pensamentos. Maria Teresa sonhava com essa possibilidade tão remota de liberdade. Liberdade das meias esticadas até ao joelho e das cuecas que lhe faziam comichão. Liberdade suja e sem horas. Mas rapidamente ouvia as vozes que a traziam de volta à prisão dos dias.

"Maria Teresa, vai tomar banho, que hoje vem cá jantar o senhor padre!" E, assim, deixava as histórias a pernoitar nas árvores para enfrentar aquela realidade menos aventureira e esperançosa.

Sara Duarte Brandão, "Quem Tem Medo dos Santos da Casa"

Frutos

A bondade da mangueira

não é o fruto.

É a sombra.

A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.

Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.

Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.

A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.

O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore

A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.

Para o homem
vale a polpa.

Para a terra
só a semente conta.
Mia Couto, "Tradutor de chuvas"

A moralista

Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mamãe em minha ideia. Mamãe — não. O pescoço de Mamãe, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe café no pires. Essas risadas ela dava principalmente à noite, quando — só nós três em casa — vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, tão perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera própria, eram mais leves e delicados. Ela não se pintava nunca, mas não sei como fazia para ficar com aquela lisura de louça lavada. Nela, até a transpiração era como vidraça molhada: escorregadia, mas não suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miserável e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo físico, pequenos subterrâneos nos poros escuros e profundos, ou vulcõezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mamãe era um “muito obrigada” a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porém, ele mascarava essa adulação brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma espírita dissera a Mamãe algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha:

— Procure impressionar o próximo. A senhora tem um poder extraordinário sobre os outros, mas não sabe. Deve aconselhar... Porque... se impõe, logo à primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos não falharão nunca. Eles vêm da sua própria mediunidade...

Mamãe repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra.


Se alguém ia fazer um negócio, lá aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasiões Mamãe, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mamãe a respeito de política, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, começaram a mandar-lhe também pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberrão incorrigível. Lembro-me de que Mamãe disse coisas belíssimas, a respeito da realidade do Demônio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E não apenas ela explicou a miséria em que o moço afundava, mas o castigo também com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaçador, e toda ela tremia de justa cólera, porém sua voz não subia do tom natural. O moço e a senhora choravam juntos.

Papai ficou encantado com o prestígio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patrão e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mamãe ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negócio, sentia afluir a confiança que se espraiava até seus domínios.

Foi nessa ocasião que Laterra ficou sem padre, porque o vigário morrera e o bispo não mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antônio. Mas, para suas novenas e seus terços, contavam sempre com minha Mãe. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de véu de renda, tão cheirosa e lisinha de pele, tão pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa não daria aquelas risadinhas, uma santa não se divertia, assim. O divertimento é uma espécie de injúria aos infelizes, e é por isso que Mamãe só ria e se divertia quando estávamos sós.

Nessa época, até um caipira perguntou na feira de Laterra:

— Diz que aqui tem uma padra. Onde é que ela mora? Contaram a Mamãe.

Ela não riu:

— Eu não gosto disso. — E ajuntou: — Nunca fui uma fanática, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao próximo. Se continuarem com essas histórias, eu nunca mais puxo o terço.

Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada:

— Já estão me chamando de “padra”... Imagine!

Ela havia achado sua vocação. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversário de um compadre, Mamãe disse palavras tão belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu:

— Por que a senhora não faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigário, e essa mocidade precisa de bons conselhos... Todos acharam ótima a ideia. Fundou-se uma sociedade: “Círculo dos Pais de Laterra”, que tinha suas reuniões na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mamãe falar.

Diziam todos que ela fazia um bem enorme às almas, que a doçura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Várias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ninguém, nela. Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que até sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava:

— Que significam estes escrúpulos? Ela não une casais que se separam, ela não consola as viúvas, ela não corrige até os aparentemente incorrigíveis?

Um dia, Mamãe disse ao meu Pai, na hora do almoço:

— Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou.., contando a sua miséria. É um desgraçado!

Um sonho de glória a embalou:

— Sabe que os médicos de Santo Antônio não deram nenhum jeito? Quero que você me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. Não é sacrifício para você, porque ele diz que quer trabalhar para nós, já que dinheiro eu não aceito mesmo, porque só faço caridade!

O novo empregado parecia uma moça bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e às vezes os recitava baixinho, limpando o balcão. Quando o souberam empregado de meu Pai — foram avisá-lo: — Isso não é gente para trabalhar em casa de respeito!

— Ela quis — respondeu meu Pai.

— Ela sempre sabe o que faz!

O novo empregado começou o serviço com convicção, mas tinha crises de angústia. Em certas noites não vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos.

Muitas vezes, Mamãe se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreensão. Ela o censurava, também, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porém sorrindo de bondade:

— Tire a mão da cintura. Você já parece uma moça, e assim, então...

Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir:

— Não há ninguém melhor do que você, nesta terra! Por que é que tem medo dos outros? Erga a cabeça... Vamos!

Animado, meu Pai garantia:

— Em minha casa ninguém tem coragem de desfeitear você. Quero ver só isso!

Não tinha mesmo. Até os moleques que, da calçada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam sérios e fugiam, mal meu Pai surgisse à porta. E o moço passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mamãe. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papéis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o quê. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ninguém. Dava opinião sobre os meus vestidos. à hora da reza, ele, que era tão humilhado, de olhar batido, já vinha perto de Mamãe, de terço na mão. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele não se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranquilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, também, à sua modificação. Menos tímido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos já eram confiantes, suas atitudes menos ridículas. Mamãe, que policiava muito seu modo de conversar, já se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito à vontade, suas gostosas e trêmulas risadinhas. Parece que não o doutrinava, não era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que não estava no balcão. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moças que por namoradeiras tinham raiva da Mamãe, já diziam, escondidas atrás da janela, vendo-a passar:

— Você não acha que ela consertou... demais?

Laterra tinha orgulho de Mamãe, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeição que pendia para o lado cômico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moço, atrás, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com unção, como se fora um pálio. Um franco mal-estar dominava a cidade. Até que num domingo, quando Mamãe falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeças se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malícia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu coração em expectativa. Mamãe foi a última a notar a paixão que despertara:

— Vejam, eu só procurei levantar seu moral... A própria mãe o considerava um perdido — chegou a querer que morresse! Eu falo — porque todos sabem — mas ele hoje é um moço de bem!

Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou:

— Acho melhor que ele vá embora. Parece que o que você queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mandá-lo para casa. Você é extraordinária!

— Mas — disse Mamãe admirada. — Você não vê que é preciso mais tempo... para que se esqueçam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, até é um pecado! Um pecado que eu não quero em minha consciência.

Houve uma noite em que o moço contou ao jantar a história de um caipira, e Mamãe ria como nunca, levantando a cabeça pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora — seu pescoço — naquele gorjeio trêmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai não riu. Eu me sentia feliz e assustada. Três dias depois o moço adoeceu de gripe. Numa visita que Mamãe lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mamãe vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho.

Ela disse a meu Pai:

— Você tem razão. É melhor que ele volte para casa.

À hora do jantar, Mamãe ordenou à criada:

— Só nós três jantamos em casa! Ponha três pratos...

No dia seguinte, à hora da reza, o moço chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mamãe:

— Saia!... — disse ela baixo, antes de começar a reza.

Ele ouviu — e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos.

Todas as cabeças o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, já perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colégio, desembocar pela noite. — Padre Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome... Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos últimos dias.

Ele não voltou para a sua cidade, onde era a caçoada geral. Naquela mesma noite, quando saía de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balançando de uma árvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. 
Descobriu o moço. Fomos chamados. Eu também o vi. Mamãe não. À luz da lanterna, achei-o mais ridículo do que trágico, frágil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multidão enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora não transigira, sua moralista não falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade. Em casa não falamos no assunto, por muito tempo. Porém Mamãe, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convicção — eu o sabia — a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoço.
Dinah Silveira de Queiroz, "Os cem melhores contos brasileiros do século"

Crianças ...

Senhoras e senhores: há quinhentas razões pelas quais eu comecei a escrever para crianças, mas para economizar tempo irei mencionar somente dez delas. 

Número 1) Crianças leem livros e não resenhas. Elas não dão a mínima para a crítica. 

Número 2) Crianças não leem para buscar sua identidade. 

Número 3) Elas não leem para se ver livres de culpa, para saciar sua sede de rebelião, ou para se desembaraçar da alienação. 

Número 4) Elas não veem utilidade na psicologia. 

Número 5) Elas detestam sociologia. 

Número 6) Elas não tentam entender Kafka ou o Finnegans Wake. 

Número 7) Elas ainda creem em Deus, na família, anjos, demônios, bruxas, gnomos, lógica, claridade, pontuação, e outras coisas obsoletas. 

Número 8) Elas amam histórias interessantes, não comentários, guias ou notas de rodapé. 

Número 9) Quando um livro é chato, elas bocejam descaradamente, sem qualquer vergonha ou medo da autoridade. 

Número 10) Elas não esperam que seu bem amado escritor redima a humanidade. Jovens como são, elas sabem que isso não está sob o poder dele. Apenas adultos possuem tais ilusões infantis. 
Isaac Bashevis Singer, em discurso pelo Nobel de 1978

terça-feira, abril 1

No chá da manhã

 


A bordo do cargueiro

O passageiro tinha subido, já noite fechada, das entranhas da carvoeira, para se esconder numa clarabóia do convés, sob a qual havia espaço suficiente para um homem se deitar, como num esquife. (Já ali tinham viajado outros, durante dias e até semanas, e um deles, por sinal, apanhado pela dura invernia do Norte – os cordames eram estendais de gelo! – com as roupinhas leves em que vinha do Brasil, ficara tolhido para o resto dos seus dias.) Não comia desde que, manhã cedo, lhe tinham levado o café amargoso e a bucha de pão; a fome roía-o, e, depois do calor abafante das caldeiras, o frio húmido da noite inteiriçou-o. Ali encaixado, ouviu vozes de comando, risos, passos de homens que desciam a prancha, os ecos de ferro do navio despejado. Esperou que, tudo sossegado, o viessem pôr em liberdade. Mas o tempo corria, naquela imobilidade, e a impaciência dele cresceu: Que raio esperavam eles para o tirar da toca? Iriam esquecê-lo, deixá-lo a bordo sozinho, metido naquela urna, a morrer de fome e frio?... Haveria dificuldades imprevistas ao seu desembarque?... A noite avançava com um vagar exasperante, e ele tinha pressa. Apertava ao corpo, para se aquecer, o saco onde encerrava os parcos haveres. Tinha entrevisto na noite, ao chegar ali, os perfis dos barracões do porto, mais longe fábricas, prédios, o clarão mortiço da cidade. Estava na América, a dois passos do trabalho e do pão, a um salto do seu destino. E o coração batia-lhe de anseio. Já tinha regularizado contas com os marujos que o tinham posto a bordo, escondido e alimentado. Se havia mais alguém por trás deles, isso não era da sua conta. Restava-lhe algumas dolas no fundo de um bolso das calças. Junto delas, retinha na palma da mão suada um papel puído, com um endereço, esse ponto perdido na imensidade da América desconhecida: Patchogue ou coisa assim, para lá de Nova Iorque, em Long Island, a quantas léguas seria aquilo de Baltimore, e quanto teria ele de palmilhar às cegas, para alcançar o seu destino?! (Se lá chegasse...) E uma data de números, de portas e ruas, isso ele não entendia, não entendia nada, não sabia patavina de inglês, só sabia que estava ali à espera que dispusessem dele, para começar vida nova, ou então... Sozinho, diante do desconhecido. Não conhecia ninguém, nesta terra envolta em noite e humidade. Inquietava-o pensar em tudo isso, ali imóvel, impotente, com o coração do tamanho dum feijão a zumbir-lhe no peito apertado.

Sonhava com a América havia muitos anos. Vinha em busca dela como, quatrocentos anos antes, e mais, os seus antepassados (isto é um modo de falar) tinham andado em demanda da Terra Firme, do El Dorado e do Xipango. Esses porém eram felizes, não precisavam de passaporte, o mundo era então um mistério aberto à curiosidade e ambição de todos! Ele viajava escondido, embora não buscasse oiro nem prata nem pimenta. Tinha dois braços, sabia pegar numa enxada ou picareta, queria trabalhar. E se o oiro não andava agora a pontapés, quem caminhasse de olhos no chão ainda podia topar aqui e ali com algum penny perdido – assim tinha ouvido dizer a um trangalhadanças dum alemão que da América voltara com dois patacos, e ele conhecera algures. A lenda do Novo Mundo ainda não tinha morrido no coração, ou seria no estômago?, dos homens. Para alcançá-lo, tomara pelo caminho mais curto, que é quase sempre o mais arriscado: a clandestinidade. Assim viera meter-se a bordo deste cargueiro de má - morte, um calhambeque a desfazer-se em ferrugem, asmático e claudicante.
José Rodrigues Miguéis, "O Passageiro Clandestino"

Bons livros ruins

Não faz muito tempo, uma editora me incumbiu de escrever a introdução para a reimpressão de um romance de Leonard Merrick. Essa editora, ao que parece, vai relançar uma série de romances menores e até certo ponto esquecidos do século xx. Trata-se de um serviço valioso nestes tempos carentes de livros, e invejo muito a pessoa cujo trabalho será vasculhar as caixas de livros, baratos, à caça de seus exemplares preferidos da meninice.

Um tipo de livro que dificilmente produzimos nos dias de hoje, mas que floresceu com enorme riqueza no fim do século XIX e início do século XX, é o que Chesterton chamou de “bom livro ruim”: ou seja, o tipo de livro sem pretensões literárias, mas que continua legível depois de obras mais sérias terem perecido. Com certeza, livros notáveis nessa linha são Raffles [nome do ladrão “cavalheiro”, personagem de uma série de romances de Ernest William Hornung] e as histórias de Sherlock Holmes, cujos lugares foram preservados, enquanto inúmeros “romances desajustados”, “documentos humanos” e “denúncias terríveis” disso e daquilo caíram no merecido esquecimento. (Quem envelheceu melhor: Conan Doyle ou George Meredith?) Quase na mesma classificação coloco os primeiros contos de Richard Austin Freeman — “The singing bone” [O osso canoro] e “The eye of Osiris” [O olho de Osíris], entre outros —, Max Carrados, de Ernest Bramah, e, baixando um pouco o nível, o thriller tibetano de Guy Boothby, Dr. Nikola, uma espécie de versão escolar de Travels in Tartary [Viagens na Tartária], de Evariste-Regis Huc, que provavelmente faria de uma visita real à Ásia Central um anticlímax desolador.

Mas, afora thrillers, havia os escritores bem-humorados menores do período. Por exemplo, Pett Ridge — embora eu reconheça que seus livros já não pareçam de todo legíveis —, Edith Nesbit (The treasure seekers [Os caçadores de tesouro]), George Birmingham, que foi bom enquanto permaneceu longe da política, o pornográfico Arthur Binstead (o “Pitcher” de Pink ’Un and the pelican [O rosado e o pelicano]) e, se livros americanos podem ser incluídos, as histórias do menino Penrod, de Newton Booth Tarkington. Superior a esses era Barry Pain. Creio que ainda se encontram alguns dos escritos bem-humorados de Pain, mas, para quem topar com ele, recomendo um livro que hoje deve ser raríssimo: The octave of Claudius [A oitava de Cláudio], um brilhante exercício do macabro. De uma época um pouco posterior, houve Peter Blundell, que escreveu na veia de William Wymark Jacobs sobre cidades portuárias do Extremo Oriente e que de forma inexplicável parece bastante esquecido, apesar de ter recebido um elogio de H. G. Wells em texto publicado.

No entanto, todos os livros a que me referi são abertamente literatura de “escapismo”. Constituem agradáveis refúgios em nossa memória, cantos sossegados por onde a mente pode vagar curiosa de vez em quando, mas que quase não pretendem ter algo a ver com a vida real. Existe outro tipo de bom livro ruim com intenções mais sérias que acho que nos fala alguma coisa sobre a natureza do romance e os motivos de sua decadência atual. Durante os últimos cinquenta anos, houve uma série de escritores — alguns deles continuam a escrever — que é totalmente impossível chamar de “bons” de acordo com qualquer padrão literário, mas que são romancistas genuínos e parecem alcançar sinceridade em parte por não se deixarem inibir pelo bom gosto. Nessa categoria coloco o próprio Leonard Merrick, W. L. George, John Davys Beresford, Ernest Raymond, May Sinclair e — num nível um pouco mais baixo, mas ainda essencialmente semelhante — Arthur Stuart-Menteith Hutchinson.

Muitos deles foram escritores prolíficos, com uma produção de qualidade certamente variada. Em cada caso, penso em um ou dois livros excepcionais: por exemplo, Cynthia, de Merrick; A candidate for truth [Um candidato à verdade], de John Davys Beresford; Caliban, de W. L. George; The combined maze [O labirinto combinado], de May Sinclair; e We, the accused [Nós, os acusados], de Ernest Raymond. Em cada um desses, o autor foi capaz de se identificar com os personagens que imaginou, sentir com eles e solicitar compreensão em nome deles, com uma espécie de abandono que pessoas mais hábeis teriam dificuldade de alcançar. Eles ressaltam o fato de que o refinamento intelectual pode ser uma desvantagem para um romancista, assim como seria para um comediante do teatro de variedades.

Tomemos, por exemplo, We, the accused, de Ernest Raymond — uma história de homicídio estranhamente sórdida e convincente, baseada talvez no caso Crippen [médico londrino que em 1910 matou a mulher, Cora Crippen]. Acho que se beneficia bastante do fato de que o autor capta apenas em parte a patética vulgaridade das pessoas sobre quem escreve e por isso não as despreza. Talvez até — como An american tragedy [Uma tragédia americana], de Theodore Dreiser — se beneficie um pouco da forma canhestra e prolixa como é escrito; detalhes se acumulam sobre detalhes, quase nem há uma só tentativa de seleção, e com isso se constrói pouco a pouco um efeito de crueldade terrível e excruciante. O mesmo ocorre em A candidate for truth. Nesse caso não há mesmo caráter canhestro, mas há a mesma capacidade de encarar com seriedade os problemas das pessoas comuns. O mesmo ocorre em Cynthia e na primeira parte de Caliban. Grande parte do que W. L. George escreveu eram tolices da pior qualidade, mas neste livro específico, baseado na carreira do britânico Alfred Northcliffe, conseguiu fazer algumas descrições memoráveis e verdadeiras da vida da classe média baixa de Londres. Partes do livro são provavelmente autobiográficas, e uma das vantagens dos bons escritores ruins é não terem vergonha de escrever autobiografia. O exibicionismo e a autocomiseração são as perdições do romancista, mas se ele tiver muito medo disso o talento criativo pode sofrer.

A existência da boa literatura ruim — o fato de podermos nos entreter, ficar irrequietos ou mesmo emocionados com um livro que nosso intelecto simplesmente se recusa a levar a sério — é um lembrete de que arte não é a mesma coisa que cerebração. Imagino que, por qualquer critério que se possa conceber, Carlyle seria considerado mais inteligente do que Trollope. No entanto Trollope continua legível, e Carlyle não: apesar de toda a sua engenhosidade, não teve sequer a perspicácia de escrever num inglês direto e de fácil compreensão. Nos romancistas, quase tanto quanto nos poetas, é difícil identificar a ligação entre inteligência e força criativa. Um bom romancista pode ser um prodígio de autodisciplina como Flaubert ou um intelectual disperso como Dickens. Talento suficiente para originar dezenas de escritores comuns foi despejado nos pretensos romances de Wyndham Lewis, por exemplo Tarr ou Snooty baronet [O baronete arrogante]. No entanto, exigiria um esforço enorme ler um desses livros do começo ao fim. Falta-lhes uma qualidade indefinível, uma espécie de vitamina literária que existe até num livro como If winter comes [Se o inverno chegar, de Hutchinson].

Talvez o exemplo máximo do bom livro ruim seja A cabana do pai Tomás [de Harriet Beecher Stowe]. É um livro risível sem essa intenção, cheio de incidentes melodramáticos absurdos; é também profundamente emocionante e essencialmente verdadeiro; difícil dizer qual qualidade pesa mais do que a outra. Mas A cabana do pai Tomás tenta, afinal, ser sério e tratar do mundo real. Que tal os escritores francamente escapistas, os fornecedores de sensações fortes e humor “leve”? Que tal Sherlock Holmes, Vice-versa [de F. Anstey], Drácula [de Bram Stoker], Helen’s babies [de John Habberton] ou As minas do rei Salomão [de Henry Rider Haggard]? São todos livros absurdos, é indiscutível, livros que nos predispõem a caçoar deles, e não a nos entreter com eles, e que mal foram levados a sério mesmo pelos autores; mas sobreviveram e talvez continuem a sobreviver. Tudo o que podemos dizer é que, enquanto a civilização permanecer de tal forma que precisemos de distração de vez em quando, a literatura “leve” tem lugar reservado; e também podemos dizer que existe a pura habilidade, ou graça inata, que pode ter mais valor de sobrevivência do que a erudição ou o poder intelectual. Existem canções do teatro de variedades que são poemas melhores do que a quase totalidade do conteúdo que integra as antologias:

Vem pra onde beber custa quase nada,
Vem pra onde a caneca é quase uma tina,
Vem pra onde o patrão é mais camarada,
Vem pro bar que fica logo ali na esquina!


Ou também:

Dois olhos bem roxinhos —
Oh, mas que maçada!
Só por falar com a pessoa errada,
Dois olhos bem roxinhos!


Eu preferiria ter escrito um desses versos a, digamos, “The blessed damozel” [A donzela abençoada, de Dante Gabriel Rossetti] ou “Love in the valley” [Amor no vale, de George Meredith]. E como prova do que digo, aposto que A cabana do pai Tomás sobreviverá às obras completas de Virginia Woolf ou de George Moore, embora não conheça critério estritamente literário que mostre onde reside a superioridade.

Tribune, novembro de 1945.
George Orwell, "Dentro da baleia e outros ensaios"

Aconteceu na ilha de Cat

Conversa de mulher que diz que vem, mas não vem, e talvez ainda venha, deixa um homem completamente no ora-veja, olhando a cara preta do telefone, sem cabeça para trabalhar nem coragem de sair. Liguei o rádio, coisa que raramente faço. Numa estação qualquer, um sujeito com voz de evangelista se dirigia a mim, querido irmão, e tomava intimidades, dizia que eu estava atolado em pecados, principalmente em concupiscência. Ah, quem me dera! Quem me dera concupiscenciar a esmo nesta sexta-feira chuventa e quase fria. Será que o telefone não vai tocar? Abri a carta de uma leitora. Ela me perguntava se resolver palavras cruzadas era bom para enriquecer o vocabulário. Não sei; também não sei se vale a pena enriquecer o vocabulário, talvez seja melhor a gente reduzi-lo, usar somente poucas palavras e usá-las muito pouco. Mas a carta me deu uma inspiração doentia: matar o tempo com palavras cruzadas. Fui à esquina, comprei três revistinhas especializadas. Quando eu ia chegando de volta, o telefone estava tocando.

Quando consegui abrir a porta e corri para atender, ele parou de tocar; bolas! Peguei um dicionário, entreguei-me de corpo e alma às palavras cruzadas.


Enfrentei cerca de 20 problemas; isto não é vantagem, porque as tais revistinhas trazem no fim, para ajudar a gente, uma lista de palavras difíceis. Estimada leitora: decifrar palavras cruzadas ajuda muito a enriquecer o vocabulário... de decifrador de palavras cruzadas.

Explico-me: as pessoas que fazem palavras cruzadas têm um vocabulário especial, e não apenas um vocabulário como uma História, uma Geografia e todo um tipo de cultura. Para elas as palavras não têm o sentido comum que nós, os leigos, entendemos, mas um sentido especial, cavado no dicionário, de preferência em um dicionário especializado em palavras cruzadas. A princípio a gente acha difícil — antigo navio de combate é ram; arrieira é má; filho de Jacó é Gad; rio da Sibéria é Om; da Polônia é Ros; da Holanda é Aa; afluente do Reno é Aar; 10? letra do alfabeto árabe é ra; medida de Amsterdã para líquidos é aam; medida sueca é só am; e — coisa espantosa! — luz que emana da ponta dos dedos é od; dificílimo, como se vê. Mas não tanto: porque os rios são sempre aqueles mesmos, o cabo do Canadá, Or, a cidade da Caldéia é sempre Ur, a antiga cidade da ilha de Creta é sempre Aso, por mais cretinizante que isto possa parecer. Em matéria de tecidos, tudo o que você precisa saber é que um tecido fino como escumilha chama-se ló; provavelmente você sabe que pedra de moinho é mó, mas esta palavra só aparece nos problemas mais fáceis, nos outros o que se usa é cano de moinho, cal. No terreno da coreografia, não quebre a cabeça: espécie de dança é sempre ril; e porco é sempre to, uma das ilhas Lucaias é exatamente, infalivemente, Cat. Imagino que haja outras Lucaias, mas só aquela é usada, assim como do calendário hebreu só usamos o derradeiro mês, Adar, e de todo o material de guerra antigo dos turcos só enfrentamos uma flecha denominada oc; o único abrigo para o gado é ramada; gato selvagem é marisco; nadar é remar; e folha de palma é ola. Enfim, adquiri preciosos conhecimentos e pensei mesmo em escrever um conto começando assim: “Na ilha de Cat, vestida de ló, ela dançava o ril, e das pontas de seus dedos emanava o od, quando chegou um ram vindo de Or com turcos atirando ocs...” Mas felizmente o telefone tocou.
Rubem Braga, "Recado de primavera"

Guardador

A rua ruim de novo.

Abafava, de quente, depois de umas chuvadas de vento, desastrosas e medonhas, em janeiro. Desregulava. Um calorão azucrinava o tumulto, o movimento, o rumor das ruas. Mesmo de dia, as baratas saíam de tocas escondidas, agitadas. Suor molhava a testa e escorria na camisa dos que tocavam pra baixo e pra cima.

O toró, cavalo do cão, se arrumava lá no céu. Ia castigar outra vez, a gente sentia. Ia arriar feio.

Dera, nesse tempo, para morar ou se esconder no oco do tronco da árvore, figueira velha, das poucas ancestrais, resistente às devastações que a praça vem sofrendo. Tenta a vida naquelas calçadas.

Pisando quase de lado, vai tropicando, um pedaço de flanela balanga no punho, seu boné descorado lembra restos de Carnaval. E assim sai do oco e baixa na praça.

Só no domingo, pela missa da manhã, oito fregueses dão a partida sem lhe pagar. Final da missa, aflito ali, não sabe se corre para a direita ou para a esquerda, três motoristas lhe escapam a um só tempo.

Flagrado na escapada, um despachou paternal, tirando o carro do ponto morto:

— Chefe, hoje estou sem trocado.

Disse na próxima lhe dava a forra.

Chefe, meus distintos, é o marido daquela senhora. Sim. Daquela santa mulher que vocês deixaram em casa. Isso aí — o marido da ilustríssima. Passeiam e mariolam de lá pra cá num bem-bom de vida. Chefe, chefe... Que é que vocês estão pensando? Mais amor e menos confiança.

Mas um guardador de carros encena bastante de mágico, paciente, lépido ou resignado. Pensa duas, três vezes. E fala manso. Por isso, Jacarandá procura um botequim e vai entornando, goela abaixo, com a lentidão necessária à matutação. Chefe... O quê? Estão pensando que paralelepípedo é pão-de-ló? — Assim não dá.

Havia erro. Talvez devesse se valer de ajudante, um garoto molambento mas esperto dos descidos das favelas, que mendigam debaixo do sol da praça, apanham algum trocado, pixulé, caraminguá ocioso e sem serventia estendido pela caridade, inda mais num domingo.

Que dão, dão. Beberica e escarafuncha. Difícil saber. Por que as pessoas dão esmola? Cabeça branquejando, o boné pendido do lado reflete dúvidas. Três tipos de pessoas dão. Só uma minoria — ninguém espere outro motivo — dá esmola por entender o miserê. Há a maior parte, no meio, querendo se ver livre do pedinte. O terceiro grupo, otários da classe média, escorrega trocados a esmoleiros já que, vestidos direitinhamente, encabulariam ao tomar o flagra em público — são uns duros, uns tesos. Para eles, não ter cai mal. Se é domingo, pior. Domingo é ruim para os bem-comportados. Apesar da pinga, esses pensamentos não o distraem de suas necessidades cada vez mais ruças, imediatas. Se trabalhou, guardando-lhes os carros, por que resistem ao pagamento da gorjeta? Eles rezando na Catedral e, depois, saindo para flanar. Teriam dois jeitos de piedade — um na Catedral, outro cá fora? Chamou nova uca para abrir o entendimento.

Muita vez, batalhando rápido nas praças e ruas, camelando nos arredores dos hotéis e dos prédios grandes do centro, no aeroporto, na rodoviária, notou. Ele era o único que trabalhava.

Muquiras, muquiranas. Aos poucos, ondas do álcool rondando a cabeça, capiscou. Os motoristas caloteiros e fujões, bem-vestidinhos, viveriam atolados e amargando dívidas de consórcio, prestações, correções monetárias e juros, arrocho, a prensa de taxas e impostos difíceis de entender. Mas tinham de pagar e não lhes sobrava o algum com que soltar gorjeta ao guardador. Isso. O automóvel sozinho comia-lhes a provisão. Jacarandá calculou. Motorista que faça umas quatro estacionadas por dia larga, picado e aí no barato, um tufo de dinheiro no fim do mês.

Vamos e venhamos. Se não podiam, por que diabo tinham carro? O portuga diz que quem não tem competência não se estabelece. Depois, a galinha come é com o bico no chão.

Tomar outra, não enveredar por esses negrumes. Nada. Corria o risco de desistir de guardador. Ele sabia, na pele, que quem ama não fica rico. E, se vacilar, nem sobrevive. Para afastar más inclinações, pediu outra dose. À tarde, houve futebol; suaram debaixo de um sol sem brisa. Ele mais um magrelo de uns oito anos, cara de quinze. A sorte lhes sorriu um tanto; guardando uma fileira de carros no estádio, levantaram uns trocos, o crioulinho vivaço levou algum e o homem foi beber. Havia se feito um ganho.

Quando a peça não tem o que fazer, não tem nada o que fazer. Já não tem gana, gosto. E nem capricho; acabou a paciência para amigo ou auditórios. Distrações suas, se há, vêm da necessidade e dos apertos. Não que o distraiam; certo é que o aporrinham. Depois, não é de lamentações; antes, de campanar. Nem joga dominó ou dama, a dinheiro, com os outros, enfiados na febre dos tabuleiros da praça na sombra das mangueiras. Mas que espia, espia, vivo entendedor. Goza com os olhos os lances errados dos parceirinhos bobos.

Nem sustentava a vitalidade dos guardadores. Bebia, lerdeava, e depois da hora do almoço largava-se cochilando no oco da figueira. Era acordado pela molecagem de motoristas gritalhões. Nada de grana e ainda desciam a língua: -Pé-de-cana! Velho vagabundo!

Os cabelos pretos idos e, de passagem, a vivacidade, a espertice, o golpe de vista, o parentesco que guardadores têm com a trucagem dos camelôs e dos jogadores de chapinha, dos ventanistas, dos embromadores e mágicos, dos equilibristas e pingentes urbanos. Surgir nos lugares mais insuspeitados e imprevistos, pular à frente do motorista no momento em que o freguês não espera. Miraculosamente, como de dentro de um bueiro, de um galho de árvore, de dentro do chão ou do vão de alguma escadaria. Saltar rápido e eficiente, limpando com flanela úmida o pára-brisa, impedindo a escapada e cobrando com cordialidade. Ironizar até, com humildade e categoria, tratando o cara de doutor. E de distinto.

Aos trompaços dos anos e minado pelo estrepe dos botequins, ele emperrara a sua parte dessa picardia levípede.

Havia cata-mendigos limpando a cidade por ordem dos mandões lá de cima. Assim, no verão; os majorengos queriam a cidade disfarçada para receber turistas e visitantes ilustres. Os jornais, as rádios e a televisão berravam e não se sabia se estavam denunciando ou atiçando os assaltantes e a violência das ruas. Quando em quando, o camburão da polícia cantava na curva da praça e arrastava o herói, na limpeza da vagabundagem, toda essa gente sem registro. A gente do pé inchado. Ele seguia, de cambulhada, em turminha. Lá dentro do carrão, escuro e mais abafado.

Cambaio, sapatos comidos, amuava e já se achava homem que não precisava de leros, nem tinha paciência para mulher, patrão ou amizadinha. De bobeira, tomava cadeia; saía, de novo bobeava, o metiam num arrastão. Lá vai para o xilindró. — Chegou o velho chué.

No chiqueiro da polícia mofava quinze dias, um mês. Velho conhecido e cadeeiro, sim, era salvado com zombaria que parecia consideração na fala dos freges e dos cafofos. Banguelê: — Chegou o velho cachaça!

Se entre o pessoal, se os mais moços, se os mais fortes não o aporrinhavam com humilhações, desintoxicava ali, quieto nos cantos que lhe permitiam.

E tem que, não bebido, volta. E outro. Os movimentos do seu corpo ainda magro de agora lembram os movimentos do corpo antigo. O verde das árvores descansa, ah, assobia fino e bem, ensaia brincar com as crianças da praça. Dias sem cachaça, as cores outra vez na cara, concentra um esforço, arruma ajudante, junta dinheiro. Quando quer, ganha; organizado, desempenha direitinho. Nas pernas, opa, uma agilidade que lembra coisa, a elegância safa de um passista de escola de samba. Vem carro acolá: — Deixa comigo.

Mas na continuação, nem semana depois, derrapava. A cana, à uca, ao mata-bicho. Ao pingão. Fazia um carro; molhava o pé. Fazia mais, bebia a segunda e demorava o umbigo encostado ao balcão. Dia depois de dia entornando, perdia fregueses e encardia, não tomava banho. Ia longe o tempo em que dormia em quarto de pensão. E nem se lembrava de olhar o mar. Enfiava-se, se encafuava no oco do tronco da árvore velha, tão esquecida de trato. Fizera o esconderijo e, então, o mulherio rezadeiro das segundas e sextas-feiras ia acender suas velas para as almas e para os santos ao pé de outras árvores. E xingavam quem lhes tomara o espaço. Dizia-se. Miséria pouca é bobagem.

A praça aninhava um miserê feio, ruim de se ver. A praça em Copacabana tinha de um tudo. De igreja à viração rampeira de mulheres desbocadas, de ponto de jogo de bicho a parque infantil nas tardes e nas manhãs. Pivetes de bermudas imundas, peitos nus, se arrumavam nos bancos encangalhados e ficavam magros, descalços, ameaçadores. Dormiam ali mesmo, à noite, encolhidos como bichos, enquanto ratos enormes corriam ariscos ou faziam paradinhas inesperadas perscrutando os canteiros. Passeavam cachorros de apartamento e seus donos solitários e, à tarde, velhos aposentados se reuniam e tomavam a fresca, limpinhos e direitos. Também candinhas faladeiras, pegajosas e de olhar mau, vestidas fora de moda, figuras de pardieiro descidas à rua para a fuxicaria, de uma gordura precoce e desonesta, que as fazia parecer sempre sujas e mais velhas do que eram, tão mulheres mal amadas e expostas ao contraste cruel do número imenso das garotinhas bonitas no olhar, na ginga, nos meneios, passando para a praia, bem dormidas e em tanga, corpos formosos, enxutos, admiráveis no todo... também comadres faladeiras, faziam rodinhas do ti-ti-ti, do pó-pó-pó, do diz-que-diz-que novidadeiro e da fofocalha no mexericar, à boca pequena, chafurdando como porcas gordas naquilo que entendiam e mal como vida alheia, falsamente boêmia ou colorida pelo sol e pela praia, tão aparentemente livre mas provisória, precária, assustada, naqueles enfiados de Copacabana. Rodas de jogadores de cavalos nas corridas noturnas se misturavam a religiosos e a cantarias do Nordeste. Muito namoro e atracações de babás e empregadinhas com peões das construtoras. Batia o tambor e se abria a sanfona nas noites de sábado e domingo. Ou o couro do surdo cantava solene na batucada, havia tamborim, algum ganzá e a ginga das vozes mulatas comiam o ar. Aquilo lhe bulia — se a gente repara, a batida do pandeiro é triste. Ia-lhe no sangue. Os niquelados agitavam o ritmo, que o tarol e o tamborim lapidam na armação de um diálogo.

O vento vindo do mar varria a praia e chegava manso ao arvoredo noturno. Refrescava.

Os olhos brilhavam, quanto, ficavam longe, antigos e quase infantis numa lembrança ora peralta, ora magnífica. O samba. Era como se ele soubesse. Lá no fundo. O que marca no som e o que prende e o que importa é a percussão. Mas meneava a cabeça, como se dissesse para dentro: “deixa pra lá”.

Outra vez. Na noite, o bacana enternado, banhado de novo, estacionou o carro importado, desceu. Entrou na boate ali defronte, ficou horas. Saiu, madrugada, lambuzado das importâncias, empolado e com mulher a tiracolo.

Jacarandá, bebido e de olho torto, vivia um momento em que fantasiava grandezas, tomando um ar cavalheiresco. O rico, no volante, lhe estendeu uma moeda. A peça, altaneira no porre, nem o olhou:

— Doutor, isso aí eu não aceito. Trabalho com dinheiro; com esse produto, não.
Avermelhado, fulo, o homem deu partida, a mulher a seu lado sacudiu, o carrão raspou uma árvore e sumiu. Pneus cantaram.

O menino já tinha se mandado, pegara o rumo do morro e, não estivesse no aceso de um pagode, sambando, estaria dormindo no barraco. Era hora. Jacarandá, cabeça alta, falou-lhe como se ele estivesse:

— Xará, eu ganho mais dinheiro que ele. É que não saio do botequim. Aí, foi para dentro do oco da árvore, encostou a cabeça e olhou a lua.
João Antônio, "Os cem melhores contos brasileiros do século"