sábado, janeiro 3

Porque hoje é sábado

 


Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"

Aqui e agora

Perdi a agenda de 2025 durante a mudança para São Paulo e nunca mais a encontrei. Era meu guia, meu mapa, com aniversários dos parentes e amigos, compromissos de toda ordem, lembretes preciosos.

Sobrevivi, envolvida com a arrumação do novo ninho, as novidades a cada dia, as pessoas que me acolheram de forma tão inesperada.

Então percebi que nada do que a agenda guardava era tão importante quanto o aqui e agora. O virar a página começara ali, com o sumiço que, a princípio, me desamparou.

Agora estreio agenda nova, tão inédita quanto minha vida atual, sonho acalentado há pelo menos 60 anos e enfim realizado.

Uma alegria adolescente se reflete em tudo, inclusive no apartamento onde o amarelo, minha cor preferida, impera. É uma alegria desconfiada, que ainda duvida ser real, mas é.

Agradeço a cada instante a oportunidade que a vida hoje me oferece. Quem diria que, meses atrás, eu decidiria meu próximo destino com sabor de realização. Estou inteira aqui, amando tudo que deixei e pronta para o novo. E o novo sempre vem.

Feliz 2026 para todos vocês!

Mar

A primeira vez que vi o mar eu não estava sozinho. Estava no meio de um bando enorme de meninos. Nós tínhamos viajado para ver o mar. No meio de nós havia apenas um menino que já o tinha visto. Ele nos contava que havia três espécies de mar: o mar mesmo, a maré, que e menor que o mar, e a marola, que é menor que a maré. Logo a gente fazia ideia de um lago enorme e duas lagoas. Mas o menino explicava que não. O mar entrava pela maré e a maré entrava pela marola. A marola vinha e voltava. A maré enchia e vazava. O mar às vezes tinha espuma e às vezes não tinha. Isso perturbava ainda mais a imagem.

Três lagoas mexendo, esvaziando e enchendo, com uns rios no meio, às vezes uma porção de espumas, tudo isso muito salgado, azul, com ventos.

Fomos ver o mar. Era de manhã, fazia sol. De repente houve um grito o mar! Era qualquer coisa de larga, de inesperado. Estava bem verde perto da terra, e mais longe estava azul. Nós todos gritamos, numa gritaria infernal, e saímos correndo para o lado do mar. As ondas batiam nas pedras e jogavam espuma que brilhava ao sol. Ondas grandes, cheias, que explodiam com barulho. Ficamos ali parados, com a respiração apressada, vendo o mar…

Depois o mar entrou na minha infância e tomou conta de uma adolescência toda, com seu cheiro bom, os seus ventos, suas chuvas, seus peixes, seu barulho, sua grande e espantosa beleza. Um menino de calças curtas, pernas queimadas pelo sol, cabelos cheios de sal, chapéu de palha. Um menino que pescava e que passava horas e horas dentro da canoa, longe da terra, atrás de uma bobagem qualquer – como aquela caravela de franjas azuis que boiava e afundava e que, afinal, queimou a sua mão… Um rapaz de quatorze ou quinze anos que nas noites de lua cheia, quando ~a maré baixa e descobre tudo e a praia é imensa, ia na praia sentar numa canoa, entrar numa roda, amar perdidamente, eternamente, alguém que passava pelo areal branco e dava boa-noite… Que andava longas horas pela praia infinita para catar conchas e búzios crespos e conversava com os pescadores que consertavam as redes. Um menino que levava na canoa um pedaço de pão e um livro, e voltava sem estudar nada, com vontade de dizer uma porção de coisas que não sabia dizer – que ainda não sabe dizer.

Mar maior que a terra, mar do primeiro amor, mar dos pobres pescadores maratimbas, mar das cantigas do catambá, mar das festas, mar terrível daquela marte que nos assustou, mar das tempestades de repente, mar do alto e mar da praia, mar de pedra e mar do mangue… A primeira vez que sai sozinho numa canoa parecia ter montado num cavalo bravo e bom, senti força e perigo, senti orgulha de embicar numa onda um segundo antes da arrebentação. A primeira vez que estive quase morrendo afogado, quando a água batia na minha cana e a corrente do “arrieiro” me puxava para fora, não gritei nem fiz gestas de socorro; lutei sozinho, cresci dentro de mim mesmo. Mar suave e = oleoso, lambendo o batelão. Mar dos peixes estranhos, mar virando a canoa, mar das pescarias noturnas de camarão para isca. Mar diário e enorme, ocupando toda a. vida, uma vida de bamboleio de canoa, de paciência, de força, de sacrifício sem finalidade, de perigo sem sentido, de lirismo, de energia; grande e perigoso mar fabricando um homem…

Este homem esqueceu, grande mar, muita coisa que aprendeu contigo. Este homem tem andado por aí, ara aflita, ora chateado, dispersivo, fraco, sem paciência, mais corajoso que audacioso, incapaz de ficar parado e incapaz de fazer qualquer coisa, gastando-se como se gasta um cigarro. Este homem esqueceu muita coisa mas há muita coisa que ele aprendeu contigo e que não esqueceu, que ficou, obscura e forte, dentro dele, no seu peito. Mar, este homem pode ser um mau filho, mas ele é teu filho, é um dos teus, e ainda pode comparecer diante de ti gritando, sem glória, mas sem remorso, como naquela manhã em que ficamos parados, respirando depressa, perante as grandes ondas que arrebentavam – um punhado de meninos vendo pela primeira vez o mar…
Rubem Braga, “200 crônicas escolhidas”

sexta-feira, janeiro 2

Ano novo

 


Jogando com o tempo

O presente ameaça
o futuro não chega
o passado não passa

o passado não passa
o futuro não chega
e o presente ameaça

o passado trespassa
o futuro não chega
o presente escorraça.

O tempo é trapaça?

tempo:
fogo-fátuo
na veia e na praça
floresta
onde o caçador é caça
labirinto
onde mais se perde
quanto mais se acha.
Affonso Romano de Sant’Anna

Escutar os sons do mundo

Lembro-me do livro de contabilidade do meu pai. Ao lado esquerdo ficava a página do “Deve”, onde ele anotava os pagamentos feitos, dinheiro que não era mais seu. Ao lado direito estava a página do “Haver”, onde se registravam as entradas, sua pequena riqueza.

Na alma também se encontra um livro de contabilidade. Tanto assim que o Vinicius escreveu um poema com o título “O haver”. Ele já estava velho e fazia um balanço final do que restara. “Resta”: é assim que cada verso se inicia.
.
Resta […]
Essa intimidade perfeita com o silêncio […]
Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado […]
Resta essa vontade de chorar diante da beleza […]
Resta essa comunhão com os sons […]
Resta […]
essa súbita alegria

Ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…

Quem diria que o som de passos na madrugada poderia ser parte da herança de felicidade de um poeta! Os poetas são seres muito estranhos. Ficam felizes com nada. A poesia se faz com nadas… Bem disse o Manoel de Barros:

Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia. […]
As coisas que não servem para nada têm grande importância…

Fernando Pessoa sofria da mesma peculiaridade auditiva do Vinicius. Lembro-me de um verso seu que não consegui encontrar, que é mais ou menos assim: “Por esse barulho do vento nos meus ouvidos valeu a pena eu ter nascido”. Se o verso não foi dele, fica sendo meu, porque eu já tive a mesma experiência várias vezes. Caminhando sozinho no silêncio das árvores, o vento me sussurra segredos de felicidades, como revela Fernando Pessoa:

Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa
Coisa feliz.


Ouvir os sons do mundo é uma felicidade que somente os artistas recebem por nascimento. Os outros têm de aprender. Para isso há de haver os mestres da escuta. Como John Cage que compôs uma curiosa peça para piano. É assim: o pianista faz precisamente o que fazem todos os pianistas. Entra no palco, encaminha-se para o piano, assenta-se, regula a distância do banco, concentra-se – e não faz o que todo pianista faz. Ele não toca! Não, não! Não está certo! Eu errei! O pianista toca, sim. Ao piano ele executa o silêncio. O piano toca uma grande pausa! Cage faz o piano tocar silêncio para que se ouçam os delicados sons do mundo que não seriam ouvidos se o piano tocasse: as batidas do coração, a respiração, o ranger de uma cadeira, uma tosse, um sussurro… “Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas”, disse Lichtenberg. O não fazer é a forma suprema de fazer, afirma a filosofia tao. Fazer nada é estar à espera. Por isso se aconselha meditação, que nada tem a ver com a meditação ocidental. A meditação ocidental é falar baixo os próprios pensamentos de uma forma metódica. O piano toca. Mas a meditação oriental é silenciar os próprios pensamentos para que os sons do mundo possam ser ouvidos. O piano não toca. Pra que serve isso? Pra nada. Não é ferramenta. Não tem utilidade. É coisa da caixa de brinquedos. Só dá felicidade.

O mundo está cheio de música. Há os sons que não existem mais, que estão perdidos na memória. Meu amigo Severino Antônio, poeta de voz mansa, sugeriu aos seus alunos que um passo primeiro para a poesia seria chamar do esquecimento os sons que um dia ouviram e que não se ouvem mais. A música do realejo, o canto do carro de bois, o apito das fábricas, das locomotivas, o “din-din” dos bondes, o canto dos galos, o repicar fúnebre dos sinos, o crepitar do fogo nos fogões de lenha, a gaita do sorveteiro, a buzina das charretes… Parece que a poesia fica guardada nos sons que não mais se ouvem. Há também os sons da cidade, os gritos dos vendedores, o vozerio nas feiras, a algazarra das crianças ao sair das escolas, os bate-estacas das construtoras, o canto dos pardais, os rádios ligados dos trabalhadores, o latido ardido dos poodles… E há os sons da natureza: o assobio do vento, o barulho da chuva, os mantras das cachoeiras, o canto dos pássaros, dos sapos, dos grilos (tantos haicais sobre os grilos…), dos galos, o barulho das ondas…

Todo homem – até mesmo o rico – é poeta entre os quinze e os vinte anos. A nova educação deverá fazer do homem um poeta em todas as idades, sem que lhe seja necessário escrever versos. Viver a poesia é muito mais necessário e importante do que escrevê-la, assim disse Murilo Mendes. Poesia é música. A primeira poesia que se ouve é uma canção de ninar. Depois, é a música do mundo…

“Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram”, escreveu Cummings. Acordar os ouvidos! Não me consta que essa tarefa tenha sido jamais mencionada em tratados sobre a educação. É compreensível. Para isso os professores teriam que ser artistas, pianos que não tocam nada e que só fazem ouvir. Quando isso acontecer, quem sabe, os nossos jovens aprenderão a identificar o canto dos pássaros e ficarão subitamente alegres “ao ouvir na madrugada passos que se perdem sem memória…”
R
ubem Alves, "A educação dos sentidos"

Aqueles olhos azuis

Quando me vejo hoje, antigo e amargo, o que vou dizer agora parece imaginação. Mas, na longínqua manhã que a memória traz de volta, tenho certeza: eu estava com 5 anos e era véspera de Natal. Minha mãe me encheu a caneca de leite, preparou meu pão e, como se fosse revelar o maior segredo da história da humanidade, cochichou:

— Esta noite nós vamos poder ver Papai Noel aqui em casa.

Eu, que já era um menino de poucas palavras, fiquei sem nenhuma. Perplexo não é um termo simpático, nem eu conhecia na época, mas foi perplexo que eu me senti. Sabia que era o velhinho de roupa escarlate e barbas brancas quem recebia os pedidos das crianças. Sabia também que era ele quem fazia os brinquedos e ele mesmo, com seu trenó e suas renas, quem os entregava. Mas jamais, na plenitude dos meus 5 anos, tinha ouvido alguém dizer que em qualquer uma dessas atividades a incansável e eterna criatura se deixava surpreender por olhos mortais. Lembrava-me de ter consultado uma vez minha mãe sobre essa capacidade do santo homem de fazer tantas coisas sem ser visto por ninguém. A resposta havia sido convincente: ele, além de tímido, tinha o dom da invisibilidade. Só aparecia quando queria mesmo aparecer.

No instante em que me recordei dessa conversa sobre os poderes do bom velhinho, eu já não estava só perplexo. Estava também atônico, estupefato e aparvalhado. Se Papai Noel se mostrava apenas onde e quando bem entendia, como é que minha mãe podia garantir que ele viria à nossa casa naquela noite?

Quando recuperei a voz, quis saber mais sobre a inacreditável notícia. Supliquei, pedi, implorei. Invoquei os sagrados direitos da infância e os incontestáveis privilégios de filho caçula. Esperneei, fingi um ataque de asma, ameacei chorar. Tudo que consegui extorquir com a encenação foi um agradinho em meus cabelos encaracolados – eu tinha cabelos nessa manhã distante! Sobre a visita anunciada, minha mãe só fez duas recomendações: que eu tivesse paciência de esperar a noite e mantivesse segredo. Papai Noel era arisco e, se notasse algum movimento, por menor que fosse, não viria.

Eu, que até aquele momento só tinha em meu currículo vítimas sem importância, como besouros e formigas, fui para a rua com a missão de matar nada mais nada menos do que o tempo. Procurei o amigo Jorge, com a esperança de que ele me ensinasse a rodar pião, mas a única lição que aprendi naquela manhã longa e naquela tarde arrastada foi a de que nem sempre os dias têm 24 horas.

Quando finalmente anoiteceu, não vacilei. Tomei posição na mesa da sala, bem ao lado da árvore de Natal, e avisei à minha mãe: não sairia dali enquanto Papai Noel não aparecesse com a bicicleta que eu tinha pedido. Dali a pouco meu pai chegou do trabalho e, muito camarada, resolveu me ajudar. Ficou de prontidão ali comigo. Na cozinha, mamãe cuidava do jantar. Nossa vigília deve ter durado dez minutos. No décimo primeiro, minha mãe nos chamou.

— Acho que ele está aqui no quintal – disse, agitada.

Meti a mão no trinco, ansioso, mas meu pai recomendou calma. Se não, o bondoso velhinho poderia levar um susto e fugir. Apesar de toda minha impaciência, aceitei a sugestão de contar até 20 antes de abrir a porta. Quando eu ia pronunciar o 14, ouvi gritos na sala. Minha mãe, que tinha saído da cozinha sem eu perceber, estava dando o alarme:

— Corre, menino! Ele está aqui!

Cheguei a tempo de ver, pela ampla janela escancarada, uma cintilação rubra de cetim no céu estrelado. Junto à árvore, havia uma reluzente bicicleta.

Durante dois ou três anos censurei minha mãe pelo que aconteceu naquele 24 de dezembro. Achava que, se ela não tivesse sido tão espalhafatosa ao me chamar, eu poderia ver algo além da fulguração grená. Hoje, lembrando o esforço que ela sempre fazia para tirar de meu pai o dinheiro para uma boa ceia de Natal, lamento não haver entendido, naquela noite, que devia minha bicicleta e minha alegria não à centelha escarlate que imaginava ter visto, mas aos olhos azuis que já não posso ver.
Raul Drewnick, “Antes de Madonna” 

Mulheres leem mais e compram mais livros: protagonismo das leitoras mudou o mercado editorial

Vice-presidente do Grupo Editorial Record, Roberta Machado trabalha com livros há duas décadas e se lembra de quando o leitor hipotético que orientava o trabalho das editoras era do sexo masculino. Era o leitor de John le Carré, fã de romances de espionagem. Toda as decisões eram tomadas com esse leitor em mente: a ilustração da capa, a campanha de divulgação, como apresentar a obra para os livreiros. Já se supunha que as mulheres liam mais (afinal, elas sustentavam best-sellers como Danielle Steel e Sidney Sheldon). Porém, na falta de pesquisas, entre uma onda e outra do feminismo, o protagonista era o leitor. Agora, é a leitora.

— Hoje a gente já imagina a leitora, a mulher que frequenta livrarias, gosta de capas bonitas para postar nas redes sociais e participa de clubes de leitura. Tudo o que a gente faz é pensando no que ela vai gostar — afirma Roberta.


Segundos os Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro (IPL), publicados em 2024, 49% das mulheres e 44% dos homens são leitores. E as pessoas que mais influenciam o gosto pela leitura são as mães ou responsáveis do sexo feminino. Divulgado em 2025, o Panorama do Consumo de Livros, da Nielsen BookData, revelou que as mulheres são 62% daqueles que compraram mais de dez livros nos últimos 12 meses. Segundo os números, 41% dessas mulheres pertencem à classe B e 39%, à classe C.

A supremacia das leitoras se manifesta nos catálogos das editoras, cada vez mais femininos e atentos a temas como menopausa e parentalidade. Entre os best-sellers do momento, destacam-se autoras como Carla Madeira, Conceição Evaristo, Socorro Acioli e as americanas Colleen Hoover e Freida McFadden. Clarice Lispector é outra que anda frequentando as listas de mais vendidos. Diante desse cenário, entende-se o espanto com os indicados ao Prêmio Jabuti de melhor romance este ano: os cinco finalistas eram homens.

— Autores homens sempre definiram o que deveria ser considerado literatura legítima. Mas vemos sinais concretos de mudança e não pode ser coincidência que isso ocorra num momento em que a presença feminina no mercado editorial se tornou incontornável — diz Rafaela Lamas, editora da Autêntica. — Pautamos nossas estratégias em números, é natural que estejamos num movimento de responder a um público que já existe, já compra, já sustenta e já movimenta o catálogo.

Socorro Acioli lembra que, quando lançou seu primeiro romance, “A cabeça do santo”, em 2014, “os homens estavam na crista da onda”: eram eles os best-sellers e quem “pensava a literatura brasileira”. Em 2023, ela lançou seu best-seller “Oração para desaparecer”, e o cenário já era outro.

— Nos meus lançamentos, as filas se estendem por duas, três horas, e eu chutaria que uns 90% do público é de mulheres. Quando tem homem, está acompanhando a mãe, a namorada, a esposa. Eu converso com essas mulheres e a maioria participa de um clube de leitura — diz Socorro, cuja avaliação é que as mulheres estão “abordando com mais profundidade as questões da subjetividade de que trata a boa literatura”. — Os autores homens continuam olhando para o macro e as mulheres estão se aprofundando no micro. Todo dia, recebo mensagens de leitores que querem publicar o próprio livro. As mulheres perguntam se posso indicar um curso de escrita para elas fazerem. Os homens querem que eu envie o original deles direto para a Companhia das Letras!

A decisão de publicar um livro e não outro depende de múltiplas variáveis, mas apelar ao público leitor feminino aumenta as chances de um título chegar às livrarias.

— Ele ganha uns pontinhos na nossa avaliação — diz Amanda Orlando, head editorial de obras adultas da Globo Livros, acrescentando que até gêneros tradicionalmente associados aos homens estão de olhos nas leitoras. — Temos visto mais livros de negócios que ensinam a equilibrar a vida pessoal e profissional, o que é muito importante para as mulheres, que ainda enfrentam dupla ou tripla jornada. Livros sobre transição de carreira também conversam bem com as mulheres, porque muitas delas enfrentam esse processo depois da maternidade.

A consolidação do público leitor feminino tem provocado transformações importantes no mercado editorial. A Bazar do Tempo estreou em 2015 publicando livros de fotografia, as letras de Adriana Calcanhotto e um ensaio do filósofo Eduardo Jardim sobre literatura e música na ditadura. Foi a crítica literária Heloisa Teixeira quem sugeriu uma coleção sobre pensamento feminista. Diante de volumes que beiravam as 400 páginas, a diretora editorial Ana Cecília Impellizieri Martins pensou: “Ou dá muito certo ou vamos à falência!” Deu muito certo. Ana Cecília percebeu que havia um público, composto majoritariamente por leitoras, ávido por consumir livros de mulheres. E assim a Bazar do Tempo passou de uma editora de “interesse geral” à casa de autoras como Audre Lorde, Donna Haraway e Cristina Peri Rossi.

Em 2020, a editora criou o Clube F., voltado à criação de uma biblioteca feminista, tanto com obras teóricas quanto de ficção. Hoje, há cerca de 500 assinantes (a imensa maioria é mulher). O clube obrigou a Bazar do Tempo a se “profissionalizar”, recorda Ana Cecília.

— A gente passou a ter um compromisso que não tinha antes, de publicar um livro por mês, de seguir cronogramas rigorosos para o livro sair no dia 15 e chegar rápido para os assinantes do Brasil todo — diz ela. — Em 2025, publicamos 20 livros: 17 de mulheres. Em 2026, a proporção deve ser a mesma.

O mercado editorial ficou mais atento ao poder das leitoras a partir de meados da década passada, com o advento da quarta onda do feminismo. Em 2018, a Record ressuscitou o selo Rosa dos Ventos, dedicado a elas. Diretora executiva editorial da Companhia das Letras, Julia Moritz Schwarcz aponta que não só a ficção literária escrita por mulheres ganhou mais espaço na casa, mas também os selos comerciais, como a Paralela (literatura de entretenimento) e a Fontanar (bem-estar), que visavam um público mais amplo, foram remodelados por influência das leitoras.

— No caso da Paralela, fomos vendo cada vez mais romances eróticos e romantasias nas listas de mais vendidos. A Fontanar, no início, era para todos os públicos, mas percebemos que quem consome nossos livros é a mulher entre 30 e 60 anos à procura de olhar holístico para a vida — diz Julia.

A Companhia das Letras, aliás, confeccionou um boné em homenagem às leitoras, distribuído a escritoras e influenciadoras junto com o romance “O tempo das cerejas”, da catalã Montserrat Roig (1946-1991).

Às vezes, até a tiragem de livros com potencial de cair nas graças das leitoras podem ser maiores. Ana Cecília Impellizieri Martins, da Bazar do Tempo, diz que livros de autoria feminina costumam sair com tiragem maior. Roberta Machado, da Record, dá um exemplo: se uma obra pode interessar ao público de autoras boas de venda, como Andréa Del Fuego, Natalia Timerman ou Giovana Madalosso (ou de autores que agradam às leitoras, como Itamar Vieira Junior e Sandro Veronesi), é natural que a tiragem seja mais ambiciosa.

No mundo dos livros, o entusiasmo com o protagonismo das leitoras convive com uma preocupação: como trazer os homens de volta para a literatura? Em junho, o New York Times publicou uma reportagem sobre o sumiço do leitor de ficção e aventou uma hipótese alarmante: em vez de ler, homens jovens têm desperdiçado seu tempo com videogames, apostas on-line e conteúdo misógino na web.

Os entrevistados concordam que atrair os homens para os livros tem sido um desafio. As editoras têm penado para encontrar livros que cativem os rapazes. Na infância, os índices de leitura de meninos e meninas não variam muito. A diferença começa a se acentuar na adolescência, depois que os garotos terminam séries como “Diário de um banana”. Antes, a fantasia costumava mantê-los interessados em literatura, mas até esse gênero, outrora tão popular entre os leitores homens, conquistou as mulheres. Nas listas de mais vendidos, multiplicam-se obras que unem mundos fantásticos, magia e romance, as “romantasias”.

— Talvez pelo fato de serem estimulados desde cedo a competir, a ficção pode parecer uma atividade improdutiva para muitos homens — especula Roberta Machado, da Record. — Trazê-los de volta para a literatura é muito importante. Ler mais ficção poderia, inclusive, melhorar a safra masculina.

terça-feira, dezembro 30

Ilha flutuante

 


Ramo em flor

Para cá e para lá
sempre se enclina ao vento o ramo em flor,
para cima e para baixo
sempre meu coração vai feito uma criança
entre ambições e renúncias.
Até que as flores se espalham
e o ramo se enche de frutos,
até que o coração farto de infância
alcança a paz
e confessa: de muito agrado e não perdida
foi a inquieta jogada da vida.
Hermann Hesse

Intervalo doloroso

Tudo me cansa, mesmo o que me não cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.

Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.

Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.

Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? E quem é triste não pode esforçar-se.

Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me.
Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! Qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia!

Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um todo não me esmagaria os ombros do pensamento.

Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e de actos.

Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.

Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge, então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de que me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro.

A minha vida é como se me batessem com ela.
Fernando Pessoa, "Livro do Desassossego"

Leitura na intimidade

É verão. Mergulhada na cama macia, entre travesseiros de plumas, o rumor inconstante dos carros passando sobre as pedras arredondadas da rue de l'Hospice, na aldeia cinzenta de Saint-Sauveur-en-Puisaye, uma menina de oito anos lê em silêncio Os miseráveis de Victor Hugo. Ela não lê muitos livros; relê os mesmos sem parar. Adora Os miseráveis, com algo que mais tarde chamará de "paixão raciocinante"; sente que pode se aninhar entre as páginas dele "como um cão em seu canil". Todas as noites, anseia por seguir Jean Valjean em suas torturantes peregrinações, encontrar Cosette outra vez, encontrar Marius e até mesmo o temível Javert. (Na verdade, a pequena Gavroche, dolorosamente heroica, é a única personagem que não suporta.) Lá fora, no quintal, entre as árvores e flores plantadas em vasos, ela tem de competir pelo material de leitura com o pai, um militar que perdeu a perna esquerda nas campanhas da Itália. A caminho da biblioteca (seu recinto privado), ele pega seu jornal – Le Temps – e sua revista – La Nature – e, com "os olhos de cossaco brilhando sob as sobrancelhas grisalhas, varre das mesas quaisquer materiais impressos, que então o seguirão até a biblioteca e jamais verão de novo a luz do dia". A experiência ensinou a menina a manter seus livros fora do alcance dele.

A mãe não acredita em ficção: "Tanta complicação, tanto amor apaixonado nesses romances", diz ela para a filha. "Na vida real, as pessoas têm outras coisas com que se preocupar. Julgue você mesma: ouviu-me alguma vez gemer e choramingar por causa de amor como as pessoas fazem nesses livros? E olhe que eu teria direito a um capítulo inteiro! Tive dois maridos e quatro filhos!" Se encontra a filha lendo o catecismo para a próxima comunhão, fica imediatamente exasperada: "Ah, como odeio esse detestável hábito de fazer perguntas! O que é Deus? O que é isso? O que é aquilo? Esses pontos de interrogação. esse exame obsessivo, essa inquisição, acho tudo isso terrivelmente indiscreto! E todo esse controle por todos os lados, o que é isso! Quem transformou os Dez Mandamentos nesse palavrório horroroso? Ah, eu com certeza não gosto de ver um livro como este nas mãos de uma criança!".

Ameaçada pelo pai, controlada amorosamente pela mãe, a menina encontra seu único refúgio no quarto, na cama, à noite. Pelo resto de sua vida adulta, Colette buscaria esse espaço de leitura solitário. Fosse en ménage ou sozinha, em pequenos alojamentos ou em grandes vivendas campestres, em quarto-e-salas alugados ou em amplos apartamentos parisienses, ela reservaria (nem sempre com sucesso) uma área na qual as únicas intromissões seriam daqueles que ela mesma convidasse. Esticada na cama acolchoada, segurando o querido livro com ambas as mãos e apoiando-o no estômago, ela estabeleceu não apenas seu espaço, mas também sua medida de tempo. (Ela não sabe, mas a menos de três horas de distância, na abadia de Fontevrault, a rainha Eleanora da Aquitânia, que morreu em 1204, jaz esculpida em pedra na tampa de seu túmulo, segurando um livro exatamente da mesma maneira.) Eu também leio na cama. Na longa sucessão de camas em que passei as noites da minha infância, em quartos de hotel estranhos onde as luzes dos carros que passavam na rua atravessavam misteriosamente o teto, em casas cujos odores e sons não me eram familiares, em chalés de verão grudentos de borrifos do mar, ou onde o ar da montanha era tão seco colocavam uma bacia de água fervendo com eucalipto ao meu lado para me ajudar a respirar, a combinação de cama e livro concedia-me uma espécie de lar ao qual eu sabia que podia voltar noite após noite, sob qualquer céu. Ninguém me chamaria e pediria para fazer isso ou aquilo; meu corpo não precisava de nada, imóvel sob os lençóis. O que acontecia, acontecia no livro, e eu era o narrador. A vida acontecia porque eu virava as páginas. Acho que não posso me lembrar de nenhuma alegria mais compreensiva do que a de chegar às últimas páginas e pôr o livro de lado, para que o final ficasse pelo menos para o dia seguinte, e mergulhar no travesseiro com a sensação de ter realmente o tempo.


Eu sabia que nem todos os livros eram adequados para ler na cama. Romances policiais e contos do sobrenatural eram os que tinham mais probabilidade de me dar um sono tranquilo. Para Colette, Os miseráveis, com suas ruas e florestas, descidas a esgotos escuros e barricadas em luta, era o livro perfeito para a tranquilidade do quarto. W. H. Auden concordava. Ele sugeria que o livro que a pessoa está lendo deveria de alguma forma estar em desacordo com o lugar onde ela o lê. “Não posso ler Jefferies no Wiltshire Downs, nem poeminhas humorísticos numa sala de fumar", queixava-se ele. Isso talvez seja verdade: Pode haver um sentimento de redundância ao se explorar na página um semelhante ao que nos circunda no exato momento da leitura. Penso em André Gide lendo Boileau enquanto descia o rio Congo, e o contraponto entre a vegetação luxuriante e emaranhada e os versos cinzelados e formais do século XVII parece perfeito.

Mas, como descobriu Colette, não somente determinados livros exigem um contraste entre conteúdo e ambiente; há os que parecem exigir determinadas posições de leitura, posturas do corpo do leitor que, por sua vez, exigem locais de leitura apropriados a essas posturas. (Por exemplo, ela não conseguia ler a Histoire de France de Michelet enquanto não se enrodilhava na poltrona do pai com Fanchette, "o mais inteligente dos gatos".) Com frequência, o prazer derivado da leitura depende em larga medida do conforto corporal do leitor.

'Tenho procurado a felicidade em toda parte", confessou Thomas Kempis no início do século XV, mas não a encontrei em nenhum lugar, exceto num pequeno canto, com um pequeno livro." Mas qual cantinho? E qual livrinho? Quer escolhamos primeiro o livro e depois o cantinho apropriado, quer encontremos o canto e depois decidamos qual o livro adequado ao clima do lugar não há dúvida de que o ato de ler no tempo requer um correspondente ato de ler no espaço, e a relação entre os dois atos é inextrincável. Há livros que leio em poltronas e livros que leio em escrivaninhas; há livros que leio em metrôs, bondes e ônibus. Acho que livros lidos em trens têm algo da qualidade dos que leio em poltronas, talvez porque em ambos os casos posso me abstrair facilmente do ambiente. Diz o romancista inglês Alan Sil itoe: “O melhor momento para ler uma história bem escrita é, na verdade, quando se está viajando sozinho em um trem. Com estranhos em volta e um cenário desconhecido passando pela janela (ao qual você lança um olhar de vez em quando). a vida cativante e intrincada que sai das páginas possui seus próprios efeitos peculiares e inesquecíveis." Os livros lidos numa biblioteca pública jamais têm o mesmo sabor daqueles lidos no sótão ou na cozinha. Em 1374, o rei Eduardo III pagou 66 libras, 13 xelins e 4 pence por um livro de romances "para deixar em seu quarto de dormir", onde ele obviamente achava que tal livro deveria ser lido. Em A Vida de são Gregório, escrita no século XII, o banheiro é descrito como "um lugar de retiro onde as tabuletas podem ser lidas sem interrupção". Henry Mil er concordava, tendo confessado certa vez: "Todas as minhas boas leituras eram feitas no banheiro. Há trechos do Ulisses que só podem ser lidos no banheiro – se você quiser extrair todo o sabor de seu conteúdo". Na verdade, a pequena dependência "destinada a um uso mais especial e mais vulgar" era para Marcel Proust um lugar "próprio a todas as minhas ocupações que exigiam uma solidão inviolável: leitura, devaneio, lágrimas e prazer sensual".

O epicurista Omar Khayyam recomendava ler versos ao ar livre, sob uma árvore; séculos depois, o meticuloso Sainte-Beuve aconselhava ler as Memórias de Mme. de Staël "embaixo das árvores de novembro." "Meu costume", escreveu Shel ey; "é despir-me, sentar-me nas rochas e ler Heródoto, até que a transpiração tenha cessado. Mas nem todos são capazes de ler a céu aberto. Marguerite Duras confessou: "Raramente leio em praias e jardins. Não se pode ler com duas luzes ao mesmo tempo, a luz do dia e a luz do livro. Deve-se ler à luz elétrica. a sala nas sombras e somente a página iluminada".

Pode-se transformar um lugar ao ler nele. Durante as férias de verão, Proust voltava sorrateiramente para a sala de jantar, depois que o resto da família saía para o passeio matinal, confiante em que seus únicos companheiros, "muito respeitosos da leitura", seriam "os pratos pintados pendurados na parede, o calendário em que a página do dia anterior acabara de ser arrancada, o relógio e a lareira, que falam sem esperar resposta e cujo balbuciar, ao contrário das palavras humanas, não tenta substituir o sentido das palavras que se está lendo por outro sentido, diferente". Duas horas inteiras de felicidade antes que a cozinheira aparecesse, "cedo demais. para pôr a mesa; se ao menos o fizesse sem falar! Mas ela se sentia obrigada a dizer: 'Você não pode estar confortável assim. E se eu lhe trouxesse uma mesa?'. E apenas por ter de responder: "Não, muito obrigado" era-se forçado a parar completamente e trazer de muito longe a própria voz, que, escondida atrás dos lábios. repetia muda, e rápido, todas as palavras lidas pelos olhos. Tinha-se de fazer a voz parar, trazê-la para fora e, a fim de dizer corretamente: 'Não, muito obrigado', dar a ela uma aparência cotidiana, uma entonação de resposta que ela havia perdido. Somente muito mais tarde – à noite, depois do jantar –' e quando já não faltavam senão umas poucas horas para terminar o livro, reacendia ele sua vela, arriscando-se a ser punido, caso fosse descoberto, e a ter insônia, porque, uma vez ter a leitura, a paixão com que seguira a trama e seus heróis tornaria impossível para ele pegar no sono, e ele andaria de um lado para o outro no quarto ou ficaria deitado ofegante, desejando que a história continuasse ou querendo pelo menos saber um pouco mais sobre as personagens que amara tanto.

Perto do final da vida, preso a um quarto forrado de cortiça, o que lhe trazia algum alívio para a asma, apoiado numa cama acolchoada e trabalhando à luz de uma lâmpada fraca, Proust escreveu: "Os livros verdadeiros não deveriam nascer da luz brilhante do dia e de conversas amigáveis, mas da sombra e do silêncio". À noite, na cama, com a página iluminada por um fraco brilho amarelo, eu, leitor de Proust, reenceno aquele misterioso instante de nascimento.

Geoffrey Chaucer — ou antes, sua insone dama em The book of the duchesse (O livro da duquesa) – considerava ler na cama um divertimento melhor do que um jogo de tabuleiro:

Então, quando vi que não dormiria,
Até tarde, naquela noite,
Em minha cama sentei-me ereto,
E pedi que me trouxessem um livro,
Um romance, que me atraiu e me levou
A ler e passar toda a noite;
Pois penso ser melhor isso
Do que jogar xadrez ou gamão.


Mas há algo mais do que entretenimento no ato de ler na cama: uma qualidade especial de privacidade. Ler na cama é um ato autocentrado, imóvel, livre das convenções sociais comuns, invisível ao mundo, e algo que, por acontecer entre lençóis, no reino da luxúria e da ociosidade pecaminosa, tem algo da emoção das coisas proibidas. Talvez seja a lembrança dessas leituras noturnas que empresta aos romances policiais de John Dickson Carr, Michael Innes, Anthony Gilbert – todos lidos durante as férias de verão da minha adolescência – um certo colorido erótico. A expressão trivial "levar um livro para a cama" sempre me pareceu carregada de expectativa sensual.

O romancista Josef Skvorecky descreveu suas leituras de menino na Tchecoslováquia comunista, "numa sociedade governada por regras rígidas e obrigatórias, onde a desobediência era punida no bom e velho estilo pré-Spock. Uma dessas regras: a luz do quarto deve ser apagada às nove em ponto. Os meninos devem levantar às sete e precisam de dez horas de sono todas as noites". Ler na cama tornava-se então a coisa proibida. Depois que as luzes eram apagadas, diz Skvoreckv "aninhado na cama, eu me cobria (inclusive a cabeça) com um cobertor, pescava debaixo da cama uma lâmpada elétrica e então me entregava aos prazeres de ler, ler, ler. Por fim, com freqüência depois da meia-noite, acabava dormindo de uma exaustão muito prazerosa".

A escritora Annie Dil ard recorda como os livros de sua infância americana conduziram-na para longe da cidade natal, no meio-oeste, "de modo que eu podia inventar uma vida entre livros em qualquer outro lugar. [...] E assim corríamos para o quarto e líamos febrilmente, e adorávamos as grandes árvores de madeira de lei do lado de fora das janelas, e os terríveis verões do meio-oeste, e os terríveis invernos do meio-oeste". Ler na cama fecha e abre ao mesmo tempo o mundo ao nosso redor.

A noção de ler na cama não é antiga. A cama grega, a kline, era uma moldura de madeira colocada sobre pés torneados, retangulares ou em forma de animal, decorada com ornamentos preciosos, não muito prática para ler. Nas reuniões sociais, somente os homens e as cortesãs podiam usá-la. Tinha uma cabeceira baixa, mas nenhum apoio para os pés: tinha colchão e travesseiros, e era usada tanto para dormir como para reclinar-se em descanso e lazer. Nessa posição, era possível ler um rolo segurando uma ponta com a mão esquerda, desenrolando a outra ponta com a mão direita, enquanto o cotovelo direito sustentava o corpo. Mas o procedimento, desajeitado de início, tornava-se depois de algum tempo francamente desconfortável e, por fim, insuportável.

Os romanos tinham uma cama (lectus) para cada finalidade, inclusive camas para ler e escrever. O formato dessas camas não variava muito, os pés eram torneados e, em sua maioria, decorados com incrustações e engastes de bronze. No escuro do quarto (no cubiculum, geralmente no canto mais afastado da casa), a cama de dormir romana, servia às vezes de cama de leitura não muito conveniente; à luz de uma vela feita de pano ensopado em cera, o lucubrum, os romanos liam e "elucubravam " em relativa tranquilidade. Trimalcião, o parvenu do Satyricon de Petrônio, é levado à sala de banquetes numa liteira e num leito "guarnecido por pilhas de pequenas almofadas" que preenche várias funções. Jactando-se de que não pode ser menosprezado em termos de cultura - tem duas bibliotecas, "uma grega, outra latina" –, oferece-se para compor alguns versos de improviso, lê para os convidados reunidos. Tanto ao escrever como ao fazer a leitura Trimalcião permanece deitado no mesmo lectus ostentatório.

Nos primeiros anos da Europa cristã e até o século XII, as camas comuns eram objetos simples, descartáveis, deixadas amiúde para trás durante as retiradas forçadas pelas guerras e pela fome. Uma vez que somente os ricos tinham camas mais sofisticadas e poucos além deles possuíam livros, camas e livros ornamentados tornaram-se símbolos da riqueza de uma família. Eustácío Boilas, um aristocrata bizantino do século XI, deixou em seu testamento uma Bíblia, vários livros de hagiografia e história, uma Chave dos Sonhos, um exemplar do popular de Romance de Alexandre e uma cama dourada.

Os monges tinham catres simples nas celas e ali podiam ler com um pouco mais de conforto do que o oferecido por seus bancos duros e suas escrivaninhas. Um manuscrito iluminado do século XIII mostra um jovem monge barbudo no catre, vestido com hábito, um travesseiro branco nas costas e as pernas enroladas no cobertor cinza. A cortina que separa o leito do resto da cela foi levantada. Em uma mesa sobre cavaletes estão três livros abertos e outros três repousam sobre as pernas dele, prontos para consulta, enquanto em suas mãos vemos uma tabuleta de cera dupla e um estilete.

Aparentemente, ele buscou refúgio do frio metendo-se na cama; suas botas estão sobre um banco pintado e ele se dedica à leitura numa tranquilidade aparentemente feliz.
Alberto Manguel, "Uma História da Leitura"

Entre patas e palavras – os gatos na vida dos escritores

Fui criado por uma gata. Não é metáfora, é memória. A minha mãe contava que, no berço, uma felina vadia vinha todas as noites, pousava uma patinha sobre o meu peito e adormecia comigo. Guardava-me como quem guarda um segredo. Talvez tenham sido elas as primeiras professoras de ternura e bondade, talvez tenham sido elas a ensinar-me que o silêncio também é linguagem.

Depois, vieram muitos outros encontros felinos que marcaram a minha vida: a Vadia, o Pipoca. Lembro-me também de um gato nas ruínas de Cartago — um magnífico felino de pêlo dourado e olhos verdes como o mar mediterrânico que beija aquelas pedras antigas. Aproximou-se com a graça de um verso esquecido, esfregou o queixo nas minhas pernas como quem assina um pacto silencioso e, por instantes, o tempo parou entre colunas romanas e o eco de civilizações desfeitas. Naquele encontro breve, senti que Cartago me acolhia não através dos homens, mas através de um gato que parecia guardião dos segredos do lugar. Chamei-lhe Aníbal.

E recordo, com ternura que ainda me aquece o peito, a gata persa de Sidi Bou Said. Todas as tardes, ao regressar a casa, depois das aulas aos meus alunos do Instituto de Línguas de Tunes, ela lá esperava empoleirada no muro azul-celeste que ladeava o caminho — imóvel, elegante, como uma estátua viva bordada a seda branca e cinza. O seu olhar, âmbar e sereno, parecia saber mais de mim do que eu próprio sabia. Nunca me seguiu, nunca pediu nada; apenas me recebia com a quietude de quem compreende que existem chegadas que são rituais. Nos dias em que o cansaço solitário me pesava nos ombros, bastava vê-la ali — recortada contra o céu do Mediterrâneo, entre jasmim e azulejos — para que o mundo voltasse a fazer sentido.

Lembro-me também de todos e tantos gatos da Tunísia, que exalavam perfume de jasmim, como se a brisa do Mediterrâneo lhes tivesse emprestado a fragrância. E lembro-me, com emoção contida, de que fui acariciado por Gli, em 2019, antes que morresse — sim, por ela, a célebre gata da Hagia Sophia, em Istambul.

Gli não era apenas um felino: era uma instituição viva. Nascida por volta de 2004, fez da basílica-mesquita a sua casa e do mundo inteiro o seu público. Dormia sobre tapetes otomanos, repousava junto aos vitrais bizantinos e recebia turistas com a dignidade de quem habita a história. Quando, em 2020, a Hagia Sophia deixou de ser museu para voltar a ser mesquita, houve temores de que os gatos fossem expulsos. Mas Recep Tayyip Erdoğan, então presidente da Turquia, tranquilizou o mundo: “Os gatos da Hagia Sophia ficam. Sem eles, o lugar não seria o mesmo.” Gli, a gata-imperatriz acariciada por Barack Obama, morreu poucos meses depois, com cerca de dezasseis anos, e foi enterrada nos jardins do monumento, com honras de guardiã eterna. Hoje, os seus descendentes — e os outros felinos da Hagia — continuam a circular entre os fiéis e os visitantes, como se o espírito de Gli ainda ali ronronasse, entre o sagrado e o profano.

Istambul, afinal, é conhecida como a “cidade dos gatos”: ali, os felinos reinam livres, alimentados e acarinhados pelos habitantes, numa cultura muçulmana que os venera pela sua limpeza e lhes abre as portas das mesquitas.

Desde então, os gatos são para mim mais do que animais: são companheiros de sombra, cúmplices de solidão, mestres da pausa. E não estou sozinho nesta devoção. A literatura está cheia de gatos que se aninham nas páginas, que ronronam nos versos, que saltam para os ombros dos poetas como quem reivindica um lugar na eternidade.

O meu querido amigo Eugénio de Andrade sabia disso. No seu texto “Acerca dos gatos”, recorda o “pequeno tigre” da infância, a gata livre de Coimbra, o persa azul que reinava na casa e a rafeira negra que lhe fazia companhia aos domingos. Muitas vezes fui acariciado pela belíssima gata negra. No poema “Gatos”, evoca-os vindos “da Índia, da Pérsia, de Nínive, Alexandria”, como se fossem ecos de civilizações antigas, elegantes e eternos.

Ary dos Santos, irreverente e apaixonado, também lhes dedicou versos: chamou-lhes “animais irracionais de fino gosto”, celebrando a independência felina como quem celebra a liberdade humana. Porque um gato é isso: um manifesto silencioso contra todas as prisões.

Maria Teresa Horta, musa da poesia erótica, escreveu um poema chamado “Os Gatos”, musicado nos anos 60, onde o felino surge como metáfora de sedução e segredo. Também o amigo Joaquim Pessoa, por sua vez, confessou: “Não sei falar com os gatos, mas adoraria trocar por miados o carinho que em mim despertam.” Palavras que soam como um ronronar poético.

Manuel António Pina não se limitou a escrever sobre gatos: acolhia-os. Chamava-lhes Hugo, Chico, Adelaide, Ronaldo, transformando cada gato num poema vivo, uma história que se aninhava no seu colo. Eugénio Lisboa foi mais longe: dedicou um livro inteiro aos gatos, com 31 poemas, — “Manual Prático de Gatos para Uso Diário e Intenso” com fotografias recolhidas, explicadas e legendadas pela minha ex-Professora da Universidade de Lisboa, a Otília Pires Martins—, onde cada verso é uma carícia, cada palavra um miado cúmplice. “Começar a gostar de gatos é como entrar para a máfia: uma vez dentro, não há como sair?” E dela não quero sair…

Mas esta paixão não é só nossa, lusitana. Do outro lado do Atlântico, Mark Twain vivia rodeado de gatos com nomes extravagantes. Hemingway colecionava gatos polidáctilos, que viviam na sua antiga casa em Key West, Flórida, descendentes do mítico Snowball. Borges escreveu sobre Beppo, o gato branco que lhe ensinou a filosofia do silêncio. Bukowski, sempre cru, confessou que os gatos lhe davam coragem para enfrentar a vida.

No Egito Antigo, os gatos eram divinos. Bastet, a deusa com cabeça de felino, simbolizava proteção, fertilidade e a graça da casa. Matar um gato era crime punido com a morte. Os faraós dormiam sob o olhar vigilante destes guardiões, e quando um gato morria, a família raspava as sobrancelhas em sinal de luto. Talvez seja por isso que ainda hoje os gatos carregam uma aura sagrada, como se cada passo fosse um rito.

Em Roma, os gatos eram símbolo de liberdade. A palavra “libertas” era associada ao felino, vigilante da Roma Antiga, que caminhava entre templos e praças como quem reivindica o direito de existir sem correntes. Essa herança atravessou séculos e chegou à literatura: um gato é sempre metáfora de independência, um poema que se escreve com patas leves.

Na Idade Média, porém, a sombra caiu sobre os gatos. Acusados de bruxaria, agentes de Satanás, perseguidos e queimados, tornaram-se símbolos de medo. Mas sobreviveram, como sobrevivem os poetas, escondendo-se nos cantos, aguardando o regresso da luz. E regressaram com força, para se tornarem companheiros de reis, artistas e sonhadores, ao longo dos tempos.

Com a modernidade, os gatos conquistaram as cidades. Paris, Madrid, Londres, Lisboa: nos cafés parisienses, inspiravam Baudelaire, que lhes chamou “tigres domésticos”. Em Lisboa, vagueiam pelos miradouros, como sentinelas da saudade, guardando segredos entre azulejos e colinas.

Hoje, os gatos são símbolos literários universais. De Edgar Allan Poe a T. S. Eliot, de Sophia de Mello Breyner Andresen a Pablo Neruda, atravessam páginas e séculos com a mesma elegância. Cada olhar felino é uma metáfora, cada salto é um verso. Talvez porque, como escreveu Robertson Davies, “os escritores gostam de gatos porque são criaturas quietas, adoráveis e sábias, e os gatos gostam deles pelas mesmas razões.”

E quando a noite desce sobre as páginas, vejo-os: gatos que caminham entre livros como sombras líquidas, olhos acesos como faróis de um porto secreto. São eles que guardam as palavras quando nós dormimos, são eles que sopram metáforas para dentro dos sonhos. Talvez a literatura seja, afinal, um imenso jardim onde os gatos passeiam livres, deixando pegadas invisíveis na neve das ideias. E nós, pobres aprendizes, seguimos-lhes o rasto, tentando escrever com a mesma leveza com que eles caminham sobre o silêncio.

E esta crónica é, acima de tudo, um tributo — não só aos gatos que cruzaram a minha vida, mas àquilo que eles representam: a graça do acaso, o luxo da presença, a sabedoria da espera. Em cada patinha silenciosa, um verso que a humanidade ainda não soube escrever — mas que, todos os dias, os gatos nos ensinam a sentir.
José Paulo Santos

segunda-feira, dezembro 29

É Verão

 


Em pé feito homens

Eles levantaram feito homens. Eu vi. Feito homens, ficaram em pé.

A gente não devia estar nem perto daquele lugar. Como quase todas as fazendas em volta de Lotus, Geórgia, essa aí tinha uma porção de placas que assustavam. As ameaças penduradas nas cercas de alambrado com um mourão a cada quinze metros mais ou menos.

Mas quando a gente viu um espaço pra rastejar que algum bicho tinha cavado — um coiote, quem sabe, ou um guaxinim —, não deu pra resistir. A gente era só criança. Naquela época, a grama batia no ombro pra ela e na cintura pra mim; então, vigiando se não tinha cobra, a gente passou rastejando de barriga. A recompensa valia a dor do sumo da grama e das nuvens de mosquitinhos nos olhos, porque bem ali na nossa frente, a uns quinze metros, eles estavam em pé feito homens. Os cascos erguidos batendo com estrondo, as crinas sacudindo por cima dos olhos brancos enlouquecidos. Eles se mordiam feito cachorros, mas quando levantavam, erguidos nas patas de trás, as da frente em volta do cangote um do outro, a gente ficava sem ar de emoção. Um era cor de ferrugem, o outro muito preto, os dois brilhando de suor. Os relinchos não assustavam tanto quanto o silêncio depois de um coice na boca do oponente. Ali perto, os potros e as éguas, indiferentes, mascavam a grama, olhavam pro outro lado.

Então eles pararam. O cor de ferrugem baixou a cabeça e bateu o casco no chão, enquanto o vencedor saiu trotando num arco, empurrando as éguas na frente dele.

Engatinhando pela grama, procurando o buraco cavado, evitando a fila de caminhões estacionados adiante, a gente se perdeu. Mesmo demorando uma eternidade pra ver de novo a cerca, nenhum de nós dois entrou em pânico quando ouviu vozes, aflitas, mas falando baixo. Agarrei o braço dela e pus um dedo nos meus lábios.

Sem erguer a cabeça, só espiando pela grama, nós vimos eles puxarem um corpo de um carrinho de mão e jogar dentro de um buraco que já estava esperando. Um pé ficou espetado pra fora na beirada e tremeu, como se conseguisse sair, como se com um pequeno esforço pudesse escapar da terra que jogavam por cima. Não dava pra ver a cara dos homens que enterravam o corpo, só as calças; mas a gente viu a ponta de uma pá empurrar pra baixo o pé que tremia pra se juntar com o resto. Quando ela viu aquele pé preto com a sola clara e rosada riscada de lama empurrado pra dentro do túmulo, o corpo dela inteiro começou a tremer. Abracei os ombros dela com força e tentei puxar o seu tremor pros ossos do meu corpo porque, como irmão quatro anos mais velho, achei que eu aguentava. Os homens já tinham ido embora fazia tempo e a lua era um melão quando a gente sentiu que não tinha perigo mexer a grama e continuar saindo de barriga, procurando a parte cavada debaixo da cerca. Chegando em casa, a gente achou que ia levar uma surra ou pelo menos uma bronca por ficar fora até tão tarde, mas os adultos nem ligaram pra nós. Estavam ocupados com alguma perturbação.

Como você está querendo escrever a minha história, pense o que for pensar e escreva o que escrever, fique sabendo de uma coisa: eu esqueci mesmo o enterro. Só lembrava dos cavalos. Eram tão bonitos.

Tão brutos. E em pé feito homens.
Toni Morrison, "Voltar para casa"

Ultimatum


Mandado de despejo aos mandarins do mundo:
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu,
da juba socialista, e tu qualquer outro.

Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.

Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
que nem te queria descobrir.

Ultimatum a vós que confundes o humano com o popular.

Que confundes tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
para quererem deixar de trabalhar.

Sim, todos vos que representais o mundo,
homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!

Quem acredita neles?

Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e coloquem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.

Deixem-me respirar!

Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.

Nenhuma idéia grande,
nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!

E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida,
quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.

Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores,
desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.

Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), "Poesia Completa"

Na Tijuca

Ui! lá me ia a pena a escorregar para o enfático. Sejamos simples, como era simples a vida que levei na Tijuca, durante as primeiras semanas depois da morte de minha mãe.

No sétimo dia, acabada a missa fúnebre, travei de uma espingarda, alguns livros, roupa, charutos, um moleque, – o Prudêncio do capítulo 11, – e fui meter-me numa velha casa de nossa propriedade. Meu pai forcejou por me torcer a resolução, mas eu é que não podia nem queria obedecer-lhe.

Sabina desejava que eu fosse morar com ela algum tempo – duas semanas, ao menos; meu cunhado esteve a ponto de me levar à fina força. Era um bom rapaz este Cotrim; passara de estroina a circunspecto. Agora comerciava em gêneros de estiva, labutava de manhã até à noite, com ardor, com perseverança. De noite, sentado à janela, a encaracolar as suíças, não pensava em outra coisa. Amava a mulher e um filho, que então tinha, e que lhe morreu alguns anos depois. Diziam que era avaro.

Renunciei tudo; tinha o espírito atônito. Creio que por então é que começou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitária e mórbida, de um cheiro inebriante e sutil. – “Que bom que é estar triste e não dizer coisa nenhuma!” – Quando esta palavra de Shakespeare me chamou a atenção, confesso que senti em mim um eco, um eco delicioso. Lembra-me que estava sentado, debaixo de um tamarineiro, com o livro do poeta aberto nas mãos, e o espírito ainda mais cabisbaixo do que a figura, – ou jururu, como dizemos das galinhas tristes. Apertava ao peito a minha dor taciturna, com uma sensação única, uma coisa a que poderia chamar volúpia do aborrecimento. Volúpia do aborrecimento: decora esta expressão, leitor; guarda-a, examina-a, e se não chegares a entendê-la, podes concluir que ignoras uma das sensações mais sutis desse mundo e daquele tempo.

As vezes caçava, outras dormia, outras lia, – lia muito, – outras enfim não fazia nada; deixava-me atoar de ideia em ideia, de imaginação em imaginação, como uma borboleta vadia ou faminta. E as horas iam pingando uma a uma, o sol caía, as sombras da noite velavam a montanha e a cidade.

Ninguém me visitava; recomendei expressamente que me deixassem só. Um dia, dois dias, três dias, uma semana inteira passada assim, sem dizer palavra, era bastante para sacudir-me da Tijuca fora e restituir-me ao bulício. Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu.

Reagia a mocidade, era preciso viver. Meti no baú o problema da vida e da morte, os hipocondríacos do poeta, as camisas, as meditações, as gravatas, e ia fechá-lo, quando o moleque Prudêncio me disse que uma pessoa do meu conhecimento se mudara na véspera para uma casa roxa, situada a duzentos passos da nossa.

– Quem?

– Nhonhô talvez não se lembre mais de Dona Eusébia...

– Lembra-me... E ela?

– Ela e a filha. Vieram ontem de manhã.

Ocorreu-me logo o episódio de 1814, e senti-me vexado; mas adverti que os acontecimentos tinham-me dado razão. Na verdade, fora impossível evitar as relações Intimas do Vilaça com a irmã do sargento-mor; antes mesmo do meu embarque, já se boquejava misteriosamente no nascimento de uma menina. Meu tio João mandou-me dizer depois que o Vilaça, ao morrer, deixara um bom legado a Dona Eusébia, coisa que deu muito que falar em todo o bairro. O próprio tio João, guloso de escândalos, não tratou de outro assunto na carta, aliás de muitas folhas. Tinham-me dado razão os acontecimentos. Ainda porém que ma não dessem, 1814 lá ia longe, e, com ele, a travessura, e o Vilaça, e o beijo da moita; finalmente, nenhumas relações estreitas existiam entre mim e ela. Fiz comigo essa reflexão e acabei de fechar o baú.

– Nhonhô não vai visitar sinhá Dona Eusébia? perguntou-me o Prudêncio. Foi ela quem vestiu o corpo da minha defunta senhora.

Lembrei-me que a vira, entre outras senhoras, por ocasião da morte e do enterro; ignorava porém que ela houvesse prestado a minha mãe esse derradeiro obséquio. A ponderação do moleque era razoável; eu devia-lhe uma visita; determinei fazê-la imediatamente, e descer.
Machado de Assis, "Memórias Póstumas de Brás Cubas"

Menino de ilha

Às vezes, no calor mais forte, eu pulava de noite a janela com pés de gato e ia deitar-me junto ao mar. Acomodava-me na areia como uma cama fofa e abria as pernas aos alíseos e ao luar: e em breve as frescas mãos da maré cheia vinham coçar meus pés com seus dedos de água.

Era indizivelmente bom. Com um simples olhar podia vigiar a casa, cuja janela deixava apenas encostada; mas por mero escrúpulo. Ninguém nos viria nunca fazer mal. Éramos gente querida na ilha, e a afeição daquela comunidade pobre manifestava-se constantemente em peixe fresco, cestas de caju, sacos de manga-espada. E em breve perdia-me naquela doce confusão de ruídos... o sussurro da maré montante, uma folha seca de amendoeira arrastada pelo vento, o gorgulho de um peixe saltando, a clarineta de meu amigo Augusto, tuberculoso e insone, solando valsas ofegantes na distância. A aragem entrava-me pelos calções, inflava-me a camisa sobre o peito, fazia-me festas nas axilas, eu deixava a areia correr de entre meus dedos sem saber ainda que aquilo era uma forma de cortar o tempo. Mas o tempo ainda não existia para mim; ou só existia nisso que era sempre vivo, nunca morto ou inútil.

Quando não havia luar era mais lindo e misterioso ainda. Porque, com a continuidade da mirada, o céu noturno ia desvendando pouco a pouco todas as suas estrelas, até as mais recônditas, e a negra abóbada acabava por formigar de luzes, como se todos os pirilampos do mundo estivessem luzindo na mais alta esfera. Depois acontecia que o céu se aproximava e eu chegava a distinguir o contorno das galáxias, e estrelas cadentes precipitavam-se como loucas em direção a mim com as cabeleiras soltas e acabavam por se apagar no enorme silêncio do Infinito. E era uma tal multidão de astros a tremeluzir que, juro, às vezes tinha a impressão de ouvir o burburinho infantil de suas vozes. E logo voltava o mar com o seu marulhar ilhéu, e um peixe pulava perto, e um cão latia, e uma folha seca de amendoeira era arrastada pelo vento, e se ouvia a tosse de Augusto longe, longe. Eu olhava a casa, não havia ninguém, meus pais dormiam, minhas irmãs dormiam, meu irmão pequeno dormia mais que todos. Era indizivelmente bom.

Havia ocasiões em que adormecia sem dormir, numa semiconsciência dos carinhos do vento e da água no meu rosto e nos meus pés. É que vinha-me do Infinito uma tão grande paz e um tal sentimento de poesia que eu me entregava não a um sono, que não há sono diante do Infinito, mas a um lacrimoso abandono que acabava por raptar-me de mim mesmo. E eu ia, coisa volátil, ao sabor dos ventos que me levavam para aquele mar de estrelas, sem forma e corpo e ouvindo o breve cochicho das ondas que vinham desaguar nas minhas pernas.

Mas – como dizê-lo? – era sempre nesses momentos de perigosa inércia, de mística entrega, que a aurora vinha em meu auxílio. Pois a verdade é que, de súbito, eu sentia a sua mão fria pousar sobre minha testa e despertava do meu êxtase. Abria os olhos e lá estava ela sobre o mar pacificado, com seus grandes olhos brancos, suas asas sem ruído e seus seios cor-de-rosa, a mirar-me com um sorriso pálido que ia pouco a pouco desmanchando a noite em cinzas. E eu me levantava, sacudia a areia do meu corpo, dava um beijo de bom-dia na face que ela me entregava, pulava a janela de volta, atravessava a casa com pés de gato e ia dormir direito em minha cama, com um gosto de frio em minha boca.

Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"

quarta-feira, dezembro 24

Lembrancinha natalina


O amor por sua natureza não é mundano, e é por isso — não por raridade — que é não apenas apolítico, mas antipolítico, talvez a mais poderosa de todas as forças antipolíticas humanas.

Hannah Arendt, "A Con­dição Hu­mana”