sexta-feira, julho 11

O velho Judas

Impressionante região aquela, com um caráter de grandeza quase religiosa e de desolação sinistra.

Em meio de um vasto circulo de colinas nuas, onde só cresciam juncos e, a espaços um estranho carvalho torcido pelo vento, estendia-se um vasto pantanal de água negra e dormente, onde fremiam milhares de caniços.

Apenas uma casa solitária à margem daquele lago sombrio, uma pequena casa baixa habitada pelo velho barqueiro Joseph, que vivia do produto de sua pesca. Cada semana levava o seu peixe às aldeias vizinhas e voltava com as simples provisões de que necessitava para viver.


Um dia fui visitar esse solitário, que me convidou para assistir à retirada das redes.

E eu aceitei.

O seu barco era velho, carunchoso e grosseiro. E ele, ossudo e magro, remava com um movimento monotono e suave que embalava o espirito, envolvido já na tristeza do horizonte.

Eu me supunha transportado aos primeiros tempos do mundo, em meio daquela paisagem antiga naquele barco primitivo conduzido por um homem de uma outra idade.

Ele levantou as redes, e lançava os peixes a seus pés, com gestos de pescador bíblico. Depois me levou até aos confins do pântano, e de súbito avistei, na outra margem, uma ruina, uma cabana esburacada em cuja parede havia uma cruz, uma cruz enorme e vermelha que dir-se-ia traçada a sangue, aos ultimos clarões do crepúsculo.

Eu perguntei:

— O que é aquilo?

O homem em seguida se benzeu e depois explicou:

— Foi lá que morreu Judas.

Não senti surpresa alguma, como se já devesse esperar essa estranha resposta.

No entanto, insisti:

— Judas? Que Judas?

Ele acrescentou:

— O Judeu Errante, senhor.

Pedi-lhe que me contasse essa lenda. Mas era mais do que uma lenda; era uma história, e quase recente, pois o velho Joseph tinha conhecido o homem.

Outrora aquela cabana fora ocupada por uma mulher magra e alta, uma espécie de mendiga, que vivia da caridade pública.

De quem tinha ela herdado a sua cabana era coisa de que o tio Joseph não se lembrava mais. Ora, uma tarde, um velho de barba branca, um velho que parecia duas vezes centenário e que a custo se arrastava, pediu, de passagem, uma esmola àquela miseravel.

Ela respondeu:

— Sente-se, meu velho, tudo o que está aqui é de toda a gente, pois vem de toda a gente.

Ele sentou-se numa pedra diante da porta. Partilhou do pão da mulher, do seu leito de folhas e de sua casa.

Não a deixou mais — tinha acabado as suas viagens.

O velho Joseph acrescentava:

— Foi Nossa Senhora quem permitiu aquilo, senhor, pois foi uma mulher que abriu a sua porta a Judas. Pois aquele velho vagabundo era o Judeu Errante.

Não o souberam em seguida na região, mas logo desconfiaram, porque ele estava sempre a caminhar, de tal modo se habituara a isso.

Uma outra razão fizera nascer as suspeitas. Aquela mulher que asilava em sua casa o desconhecido passava por judia, pois nunca a tinha visto na igreja.

Dez léguas ao redor, só a chamavam “a judia”.

Quando as crianças a viam aproximar-se para mendigar gritavam:

— Mamãe, mamãe, é a judia!

O velho e ela puseram-se a errar pelas localidades vizinhas, estendendo a mão a todas as portas, balbuciando súplicas nas costas de todos os passantes. Foram vistos a todas as horas do dia, pelos caminhos perdidos, pelas aldeias, ou então comendo um pedaço de pão à sombra de uma árvore solitaria, ao forte calor do meio-dia.

E começaram a chamá-lo “o velho Judas”.

Ora, um dia, ele trouxe no seu saco dois leitõzinhos vivos que lhe tinham dado numa granja, por haver ele curado o granjeiro de certa moléstia.

E em breve cessou de esmolar, ocupadissimo em guiar seus porcos para alimentá-los, passeando-os à margem do pantanal, ou sob os carvalhos isolados, ou nos pequenos vales vizinhos. A mulher, pelo contrario, errava sem cessar à cata de esmolas, mas vinha ter com ele todas as noites.

Também ele nunca ia à igreja, e nunca o tinham visto fazer o sinal da cruz ante os oratórios. Tudo isso dava muito o que falar.

Sua companheira, uma noite, foi atacada de febre e pôs-se a tremer como um lençol ao vento. Ele foi até à povoação em busca de remédios, depois encerrou-se com ela e durante seis dias, não o viram mais.

Mas o cura, tendo ouvido falar que a judia estava para morrer, foi levar os conselhos de sua religião à moribunda e ministrar-lhe os últimos sacramentos. Era judia? Ele o ignorava. Queria, em todo o caso, tentar salvar-lhe a alma.

Mal bateu à porta, o velho Judas apareceu no umbral, arquejante, os olhos acesos, toda a sua longa barba agitada como água que jorrasse e gritou, numa língua desconhecida, palavras de blasfemia, estendendo os braços magros para vedar a entrada do padre.

O cura quis falar, oferecer a sua bolsa e os seus cuidados, mas o velho continuava a injuriá-lo, fazendo com a mão o gesto de atirar-lhe pedras.

E o padre retirou-se, perseguido pelas maldições do mendigo.

No dia seguinte, a companheira do velho Judas morreu. Ele próprio a enterrou diante da sua porta. Eram gente tão sem importancia que ninguém se preocupou com isso.

E tornaram a ver o homem com os seus porcos por diante, à margem do pantanal ou descendo e subindo os montes. Muitas vezes também, ele recomeçava a mendigar para alimentar-se. Mas não lhe davam quase mais nada, tais as historias que corriam a seu respeito. E também não havia quem não soubesse a maneira como ele tinha acolhido o cura.

Um dia, desapareceu. Era durante a Semana Santa. Ninguem se importou com a coisa.

Mas na segunda-feira de Páscoa, alguns rapazes e moças que tinham ido passear à margem do pântano, ouviram barulho na cabana. A porta estava fechada; os rapazes a arrombaram e os dois porcos fugiram, saltando como bodes. Nunca mais foram vistos.

Então, tendo todos entrado, avistaram por terra alguns velhos trapos, o chapéu do mendigo, alguns ossos, sangue coalhado e restos de carne numa caveira.

Seus porcos o haviam devorado.

E o velho Joseph acrescentou:

— Isto aconteceu, senhor, na sexta-feira santa, às três da tarde.

Eu indaguei:

— Como sabe?

Ele respondeu:

— Não pode haver dúvida.

Não tentei fazer-lhe compreender como era natural que os animais esfomeados tivessem comido o seu dono subitamente morto na cabana.

Quanto à cruz sobre a parede, aparecera certa manhã, sem que o soubessem que mão a tinha traçado daquela estranha cor.

Desde então, não mais se duvidou de que o Judeu Errante houvesse morrido naquele local.

E eu próprio acreditei durante uma hora.

Guy de Maupassant

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