Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.
Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.
Nenhum comentário:
Postar um comentário