sábado, agosto 15

Jardineiros

Tenho especial carinho pelos profissionais da área, desde que, na adolescência, acompanhei na extinta TV Tupi a novela “O jardineiro espanhol”, em que o protagonista sofria toda sorte de injustiças, mas não deixava de amar seu ofício. Anos mais tarde, conheci um jardineiro da Prefeitura e com ele conversava sobre plantas e livros, porque ambos gostávamos de ler. Era um homem doce e tinha orgulho de exibir sua obra anônima nos jardins e praças municipais, cuidando do verde como filho. Também gostava de poesia, e me presenteou com um livro de bolso de Casimiro de Abreu, bastante usado e já sem capa, por certo de tanto ser manuseado.

Agora moro numa torre cuja entrada conta com um jardim encantador, com folhagem farta e muitas flores. Estão sempre bonitas, graças ao trato cuidadoso do zelador, que quase todas as tardes as rega e livra de eventuais parasitas. Num desses dias de sol, elogiei sua dedicação. Mas através dele descobri que, além dos canteiros floridos da frente, o prédio guarda surpresas para os mais atentos.

Satisfeito com meu interesse, levou-me até o pomar: outro pequeno gramado nos fundos do edifício, onde discretamente crescem árvores frutíferas. Ali voltei à infância, porque fui apresentada a uma amoreira ainda jovem, entre várias outras. Viajei até o quintal da tia Carlota, onde colhia e comia amoras, além de imaginar que eram os cachos de uva das bonecas. Penso que, logo, haverá borboletas e passarinhos por aqui, atraídos pelos frutos.

Mas o melhor ainda estava por vir. “Tenho um segredo”, revelou o amigo zelador. E me mostrou um cantinho discreto onde cultiva pimenta-de-janela e alecrim em vasos. Esfregamos nas mãos um ramo do condimento, e elas ficaram imediatamente perfumadas. Como é bom estreitar laços com a natureza, tão presente e tão esquecida em nossas vidas… E como é bom saber que ainda existem pessoas sensíveis, que se deixam tocar pelos jardins, seus perfumes e cores, suas histórias de ontem e de hoje. Jardineiros que resistem à frieza da cidade e do concreto. Poetas modestos, que talvez nem saibam que fazem brotar poesia da terra.

Nenhum comentário:

Postar um comentário