terça-feira, janeiro 6

Algumas palavras

Quando o sol se põe, as luzes se apagam e nossos olhos se fecham, somos lançados num outro mundo, o mundo dos sonhos, um reino de absurdos povoados por seres que não conhecemos, onde se passam acontecimentos incontroláveis, alguns líricos, outros bárbaros, hediondos ou depravados, um pouco parecido com o mundo da arte, em que amamos sem amar, matamos sem matar, morremos sem morrer. A nossa percepção nos comprova, nesse momento, que há outros mundos diferentes de nossa “realidade”, poderosos, capazes de mudar nosso comportamento e nos levar a gestos que não compreendemos. A mente humana, mesmo a daquelas pessoas que não se dão conta disso, é uma trama de mundos que se influenciam, numa obsessiva continuidade. Ao raiar da manhã saímos desse lugar obscuro, inconsciente, deixamos que fique adormecido, passamos a ter controle sobre ele, e habitamos um mundo exterior legível, porém inexorável. Assim vivemos um pouco cegos, distantes da inquietação da loucura. Mas quando a noite retorna, somos novamente tragados pelos mundos irreais, parecidos com a morte e com a infância.

Aprendemos muito cedo a conviver com a angustia noturna. A noite é traiçoeira. Os livros infantis e as babás contam histórias atemorizantes, vivemos entre perpétuas e invisíveis ameaças. Quando pequena, eu tinha receio de ficar acordada, porém sentia ainda mais medo dos sonhos. Guardava na minha lembrança o horror de meu primeiro pesadelo, aos seis, ou sete anos de idade, em que uma sósia caminhava por uma estrada deserta, na minha direção. Tive tanto medo da aproximação da múmia que acordei suada e com o coração palpitante. Eu usava erradamente a palavra sósia, sem saber o significado, pensava que era múmia. Já tinha pavores secretos de encontrar a mim mesma.

No entanto, logo ao entrar na adolescência, passei a observar os sonhos com interesse literário, e a anotá-los. Não lembro como isso começou, nem os motivos que me levaram a escrevê-los. Talvez precisasse de ajuda, talvez quisesse me livrar de minha assustadora personalidade noturna. Havia alguém no meu interior diferente de quem eu acreditava ser, do que eu conhecia de mim. Sei que foi uma decisão intuitiva, porém mais tarde descobri que essa era uma antiga prática literária, há escritores de sonhos, como o norte-americano Van Dusen; ou o próprio Freud, que anotou e interpretou clássicos da literatura onírica, sonhos seus, como o da garganta de Irma, e sonhos de seus pacientes, como o dos lobos na árvore; ou, ainda, Jung, que tinha um sonho recorrente de portas que davam num laboratório zoológico onde ficava, atrás de uma cortina, a cama de sua mãe, vazia. A literatura é repleta de menções a sonhos, quando não por eles constituída. Há obras literárias escritas por visionários sonhadores, como William Blake, ou Goethe, que, com o Romantismo, rejeitaram o pensamento racionalista em favor do poder criativo da imaginação. Assim, à medida que eu me interessava pela literatura, me interessava pelos sonhos, e quanto mais me envolvia com os sonhos, mais era absorvida pela literatura.

O sonho é uma espécie de experiência literária. Quando ele acontece, sabemos que nosso corpo está dormindo mas a mente fica acordada. Sentimo-nos imóveis, tomados de uma sensação de impotência, massacrados por questões pequenas que parecem imensas. Os sentidos também estão adormecidos, não temos tato, não ouvimos o que se passa em torno, não percebemos cheiros, nem sabores, e não vemos com os olhos que estão fechados. Mas, incrivelmente, mesmo com os olhos fechados, vemos. Vemos a imaginação, uma ficção alucinada cheia de significados ocultos, que nos desperta sentimentos e lembranças dos sentidos.
Como não podemos reagir aos sinais do cérebro, usamos a imaginação. Parece simples, mas é um dos mais antigos, subjetivos e profundos mistérios da mente. E como na literatura, a linguagem dos sonhos é o que mais importa.

O ser humano sempre teve a ânsia de compreender os sonhos, uma proeza que nem a ciência nem a arte conseguem realizar. Soam um pouco pueris as tentativas dos cientistas, com fios e eletrodos medindo as intensidades das ondas do cérebro ou dos rápidos movimentos dos olhos, tentando relacioná-las com os sonhos de uma maneira racional. Parecem um tanto fantásticas as associações feitas por Freud entre os sonhos e os danos emocionais causados, na infância, pelas repressões e distorções do instinto da vida, especialmente o instinto sexual. A interpretação de Artemidoro, em sua fabulosa compilação, Oneirocrítica, que tanta influência teve nas interpretações posteriores, serve mais como um retrato da mentalidade de sua época. E embora Borges costume nos surpreender com a revelação dos significados, suas observações acerca dos sonhos os tornam ainda mais enigmáticos. O sonho é um mundo imperioso. As palavras parecem inadequadas para explica-lo. Talvez fosse preciso se inventar um outro sistema, tão fabuloso quanto o alfabeto o é para a transmissão de pensamento; um sistema mais próximo do ideograma. Tentamos entrar no mundo dos sonhos, relatando-os, e assim percebemos que as palavras não são uma linguagem adequada nem mesmo à anotação onírica, assim como não são adequadas à poesia. Além disso, não é possível escrevermos enquanto dormimos, embora possamos sonhar que estamos escrevendo. Porém o exercício de escrever os sonhos na flagrância, um ato quase irracional, permite se revelar um pouco desse mundo secreto, mesmo sabendo-se que a memória do sonho é apenas uma recriação desse lugar intransponível, o qual não se pode penetrar a não ser pelos valores das metáforas, pela aceitação do absurdo, ou seja, uma libertação da mente.

Escrevi diversos Cadernos de Sonhos. Eram cadernos, mesmo, de folhas pautadas, presas por um espiral metálico, nas quais eu fazia anotações noturnas, ou matinais, em algumas vezes longos relatos, noutras apenas frases rascunhadas ou simplesmente palavras soltas, telegráficas, que serviam de senha para que, ao despertar, eu pudesse me lembrar do episódio sonhado. Em alguns casos eu desenhava os seres oníricos: pequenos e estranhos animais peludos, felinos com asas, pássaros de fogo, homens com rabo e chifres, mulheres de dentes vermelhos. Com as anotações nos cadernos passei aos poucos a lembrar de sonhos mais distantes, e mais imaginativos. Às vezes de manhã me recordava não de um, mas de uma série deles. Conseguia capturar alguns, por palavras, outros escapuliam. E quanto mais profundos os sonhos, mais misteriosos eram os seres e os acontecimentos.

Os Cadernos de Sonhos se perderam. Este foi o único que restou. Escrevi-o quando estava grávida de meu filho, durante seu nascimento, e seus primeiros tempos de vida. Eu tinha vinte e um anos.

Ana Miranda, "Caderno de Sonhos"

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