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Balzac dizia que a felicidade, numa história, não merece mais do que um parágrafo, o último, aquele no qual, sem detalhes, se conta que todos viveram bem para sempre. A felicidade é monótona, cansativa, tediosa: mel escorrendo sobre mel, todo dia, toda noite, sempre, como um suplício chinês.
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Seríamos felizes e não estaríamos importunando com lamúrias nossos amigos, que trocam de calçada quando nos veem, e não pararíamos na banca para ler notícias de desgraças e calamidades, e não teríamos tempo para ver os meninos pedindo moedas para o pãozinho, porque a felicidade nos manteria sempre deliciosamente ocupados.
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A tristeza me parece bem mais espontânea que a felicidade. Há sempre, em qualquer grande ou pequena livraria do mundo, pelo menos uma estante apinhada de manuais que se dispõem a definir a felicidade e a ensinar os caminhos para atingi-la. Já a tristeza – como apregoariam os camelôs – não requer prática nem habilidade.
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Farei de conta que esta é outra tarde, antiga. Uma cuja lembrança me faça sorrir. Serei ficcionista em meu próprio benefício. Me imaginarei escrevendo um daqueles poemas que a alma me ditou, garantindo poderem fazer por mim o que acabaram não fazendo. Farei de conta que estou na estação Vergueiro, naquela tarde em que inventei uma estúpida esperança. Não estará chovendo, ainda, e eu ficarei, como fiquei, no topo da escadaria, ouvindo os passos subindo, adivinhando em cada par deles o anúncio da felicidade. Não haverá um final feliz nesta tarde imaginada. Começará a chover, como choveu naquela, e eu me deixarei encharcar como me deixei naquela. Há tipos inexplicáveis de felicidade – como o alívio que senti ao misturar as lágrimas com a chuva, naquela tarde. Chorar foi, em mim, a confirmação de algo precioso. Pergunto-me como posso ser assim tolo. E respondo-me com outra pergunta: e como posso deixar de ser? Pode o amor ser encarado como um fato cientificamente avaliável? Boa tarde.

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