Viajara de jeep, em ermas etapas, e essa rapidez fora do comum dava para desentender-se um tanto o monótono redor, os conduzidos caminhos campeiros. Ia chegar à Casa, tardio mas enfim, noite sobre. Parara, para jantar, no mesmo ponto em que da primeira vez: perto duma funda grota — escondido muito lá em baixo um riachinho bichinho, bem um fiapo, só, só, que fugia no arrepiado susto de por algum boi de um gole ser todo bebido; um riinho, se recobrindo com miúdas folhagens, quase subterrâneas, sem cessar trementes e lambidas, plantinhas de floricas verdes, muito mais modestas que as violetas.
Sentados no barranco de beira da estrada, úmidos de sereno os capins, Miguel e o rapaz comeram seu farnel, já no sufusco e tempo fresco, já anoitecendo, enquanto ouviam o cucubo da coruja e o regougo da raposinha. Entrementes ocorria também o vozejo crocaz do socó: — Cró, cró, cró… — membranoso. Miguel acendeu cigarro; o rapaz mastigava uns restos. Não dilatava, bastando a gente guardar um pouco o silêncio, e o confuso de sons rodeava, tomava conta. Como a infância ou a velhice — tão pegadas a um país de medo. Miguel, sem o saber, sentia afastadas coisas, que se ocultavam de seu próprio pensamento. Levantou-se, caminhou uns passos, até ao jeep, apanhou a lanterna. Andou mais, na direção de onde tinham vindo. Como parou, dali o sipipilo do regato não se suspeitava. Só os grilos, por todo o campo, toda qualidade deles, sempre surgindo.
Tudo como da primeira vez, quando viera, a cavalo, por acaso em companhia de dois moços caçadores e, depois, de nhô Gualberto Gaspar, com quem quase mesmo no chegar tinham feito conhecimento. Da treva, longe submúsica, um daqueles acreditava perceber também, por trás do geral dos grilos, os curiangos, os sapos, o último canto das saracuras e o belo pio do nhambú. Devia de ser. Em parte, o outro caçador confirmou. Miguel assestara o ouvido. Orgulhava-se de ainda entender o mundo de lá: o quáah! quáah!, como risada lonjã, tinha de ser de um socó, outrossim, que ia voar do posto. — “E é…” — nhô Gualberto Gaspar aprovou — “Aí, menos longe, tem uma lagôa.” Um perguntara: — “Bom lugar, para se atirar em pato? Muito junco?” Mas, aquela hora, falava-se menos, em voz baixa, mesmo sem ser de propósito. Estavam fatigados. O certo, que todos ficavam escutando o corpo de noturno rumor, descobrindo os seres que o formam. Era uma necessidade. O sertão é de noite. Com pouco, estava-se num centro, no meio de um mar todo. — “A gente pode aprender sempre mais, por prática” — disse o primeiro caçador. Discorria da dificuldade em separarem-se sons, de seu amontoo contínuo. — “Só por precisão” — completou o segundo, o setelagoano. E mais disse: que dirá, então, os bichos, obrigados a constante defesa ou ataque? O lobo, o veado. O rato. O coelho, que, para melhor captar os anúncios de perigo, desenvolveu-se um pavilhão tão grande? Principal, na jungla, não é tanto a rapidez de movimentos, mas a paciência dormida e sagaz, a arma da imobilidade. À cabecinha de um coelho peludo, sentado à porta de sua lura, no fim da tarde, devem chegar mais envios sonoros que a uma central telefônica. — “Pois, p’ra isso, p’ra se conhecer o que está longe e perto…” — o setelagoano continuou. E, daí, silenciaram, depois falaram mais, desse e de outros assuntos. Falou-se no Chefe Zequiel.
Na última noite passada no Buriti Bom, Miguel tinha conversado a respeito de coisas assim. O que fora:
Na sala-de-jantar. A lamparina, no meio da mesa. Nos consolos, os grandes lampeões. O riso de Glória. Iô Liodoro jogava, com Dona Lalinha. Glória falava. Ele, Miguel, ouvia.
De repente, reconheceu, remoto, o barulhinho do monjolo. De par em par de minutos, o monjolo range. Gonzeia. Não se escuta sua pancada, que é fofa, no arroz. Ele estava batendo, todo o tempo; eu é que ainda não tinha podido notar. Dona Lalinha é uma linda mulher, tão moça, como é possível que o marido a tenha abandonado? Nela não se descobre tristeza, nem sombra de infelicidade. Parece uma noiva, à espera do noivo. Vê-se, é pessôa fina, criada e nascida em cidade maior, imagem de princesa. Cidade: é para se fazerem princesas. Sua feição — os sapatinhos, o vestido, as mãos, as unhas esmaltadas de carmesim, o perfume, o penteado. Tudo inesperado, tão absurdo, a gente não crê estar enxergando isto, aqui nas brenhas, na boca dos Gerais. Esta fazenda do Buriti Bom tem um enfeite. Dona Lalinha não é de verdade. No primeiro dia, pensei que ela não tivesse o juizo normal, e por ser louca a deixavam assim. Será que os roceiros de perto não vão dando notícia de ali haver aquela diferente criatura, e o caso não corre distâncias, no sertão? Uns devem de vir, com desculpa qualquer, mas só para a ela assistir, no real, tomarem a certeza de que não é uma invenção formada. Não entendem. Se, em desprevenido, ela surgisse, a pé, numa volta de estrada ou à borda de um mato, os capiaus que a avistassem faziam enorme espanto, se ajoelhavam, sem voz, porque ao milagre não se grita, diante. Sobre o delicado, o vivo do rosto, tão claro, os lindos pés, a cintura que com as duas mãos se abarca, a boca marcada de vermelho forte. Comigo, ela quase não fala. Evita conversar, está certo, na situação dela. Tem de ser mais honesta do que todas. Todo o mundo tem de afirmar que ela é honesta, direita. Sempre uma mulher casada. Mulher de iô Irvino, cunhada de Glória, de Maria Behú. O ranger do monjolo é como o de uma rede. O rego está com pouca água, daí a lentidão com que ele vai socando. E o outro gemer? — “Esse outro, é de bicho do brejo…” — Glorinha disse. Decidida. Glorinha é loura — ou, ou, alourada. Mais bonita do que ela, dificilmente alguma outra poderá ser. Bonita não dizendo bem: ela é bela, formosa. Quanto tudo nela respira saúde. Natural, como Dona Lalinha. Mas, tão desiguais. Glória: o olhar dado brilhante, sempre o sem-disfarce do sorriso como se abre, as descidas do rosto se assinalando — uma onçazinha; assim tirando às feições do pai, acentuados aqueles sulcos que vêm do nariz para os cantos da boca. Dona Lalinha, os cabelos muito lisos, muito, muito pretos; e o rosto a maior alvura. Ela tem um modo precioso de segurar as cartas, de jogar, de fumar, de não sorrir nem rir; e as espessas pálpebras, baixadas, os lábios tão mimosamente densos: será capaz de preguiça e de calma. Como há de ser a outra, a mulher por causa de quem iô Irvino a deixou? Faz tanto tempo, isso, e iô Liodoro ainda teima em conservar a nora aqui, à espera de que um dia o filho volte? Será que iô Liodoro a retém prisioneira, à força? Glorinha disse que iô Irvino é o filho de que iô Liodoro mais gosta. Iô Liodoro se fecha, sobre sério, calado com tanto poder. Não se sabe o que ele entende. Todo modo de Glorinha, o que move e dá, é desembaraçado. Ninguém diria que ela é irmã de Maria Behú. Desditosa, magra, Maria Behú, parecendo uma velha. Para ela, ter de viver com a cunhada e a irmã, na mesma casa, deve ser um martírio. Maria Behú reza, quase todo o tempo. Agora mesmo, de certo está rezando, recolhida no quarto. Bicho do brejo… — “Bicho do brejo? Não, dona Glória. Eu acho que é pássaro…” “— Deixa ele. Pássaro, guinchando? A esta hora…” “— E sei? Sapo?” “— O senhor está falando numa coisa, mas está com a ideia apartada…” “— Estou não. Meu jeito é mesmo assim.” “— O senhor está querendo aprender o que é da cidade?” “— Nasci no mato, também. Sei a roça.” “— Aonde? Aqui no sertão?” “— No meio dos Gerais, longe, longe. Transforma-se noutra tristeza, de tanto tempo. Mas de tudo me lembro bem.” Glorinha está querendo me compreender, saber tudo de mim, mal atenta no que falo. Mas nem sabe que, só na feição do meu pensamento, eu a trato de “Glorinha”. Até assenta melhor. Porque ela ainda oferece sua natureza, tem a fraqueza da força. É pura, corada, sacudida. Tão sem arrebiques nem convencimento, com faceirice de mulher, mas para agradar diretamente; outras vaidades não mostra. Perto dela, a gente vai sentindo a precisão de viver apenas o momento. Quase por acaso foi que descobri que ela esteve em colégio, isso nem menciona. — “Saí ao Papai…” — ela mesma diz. Ao contrário de Maria Behú — de perdida fisionomia. Maria Behú amarra esticados os cabelos, num coque, sem nenhuma graça, se desfaz. Iô Liodoro não dá aparência de mais de cinquenta anos. Ele joga a bisca, como se cuidasse negócios de gravidade. Só tem atenção para as cartas. Acho que ele mesmo não quer se fixar em outras coisas, nas pessôas. — “Ele gostou de você, mas demais!” — Glorinha disse. (“— … Vou falar ‘você’; não é melhor? O senhor é muito moço…”) Deve ser, ele simpatizou comigo, quis que eu ficasse mais três dias, depois de vacinados os bezerros, visto o gado. E bem, se eu disser: — Iô Liodoro, quero casar com sua filha Maria da Glória? — que é que ele me responde? Fantasia. Iô Liodoro é um dos homens mais ricos deste sertão do rio Abaeté, dono de muito. Fantasia? Nem sei se gosto de Maria da Glória, se um encantamento assim, mesmo crescente, quer dizer amor. Sei que desejaria parar, demorado, perto dela. Da alegria. — “Conte alguma coisa, do que está sonhando, pensativo?” “— De minha terra?” “— Lá tinha pássaros cantando de noite?” “— Sério. O mutúm. De dia, ele fica atoleimado, escondido em oco de pau, é fácil de se pegar à mão. Mas, à noite, sai para caçar comida. Canta, antes da meia-noite e do romper da aurora. Chega dá as horas. É grande e formoso, como as penas dele brilham, feito um pavão.” “— E como canta?” “— No meio do mato, de madrugada, ele geme: — Hu-hum… Uhu-hum… Não se parece com nenhum.” “— Aqui não tem.” “— É um pássaro tristonho…” “— Você teve namorada, lá, em sua terra?” Dona Lalinha deve de ter ouvido, olhou para cá, sorriu para Glorinha. O nome de Dona Lalinha é Leandra. — “Não tive. De lá saí muito menino…” — respondi. “— E que mais?” “— É um lugar que nem sei se ainda existe, lá. Minha gente se mudou…” “— Você é ingrato? Vai voltar aqui algum dia, para rever a gente?” “— Gostei muito daqui. De todos…” “— Você é noivo? Se casar, traz sua mulher, também…” “— Não sou, não. Tenho cara de noivo, assim?” “— Para mim, tem.” Glorinha é afirmativa. Mas uma moça, mesmo por assim ser, engana. Às vezes dizem coisas, por desempeno, desenleadas — querendo ver o embaraço do homem, só por experimentar. Não vou ser acanhado. — “Está certo. Se eu casar, venho…” Eu disse. Estou arrependido de dizer. O que estou pensando, tenho de calar. Eu teria receio de gostar de Glorinha. Ela é franca demais, vive demais, abertamente; é uma mulher que deve desnortear, porque ainda não tem segredos. E eu já gosto dela? Mas tenho de ir-me embora, amanhã. Ela pôs os olhos em mim, tão declarados, com um querer que me enfrenta. — “O senhor não gosta de ninguém?” Ela disse muito “o senhor”; e eu respondi: — “Não.” Com o que estou sendo covarde, porque logo ri — imediatamente, que ela não tome a sério a minha resposta. Glorinha amuou, um nada, mas em seguida se conteve, e sorriu, riu também, com exagero, para aceitar a ideia de gracejo meu e bravata. Segura. E aprecio seu manejo reto, teimoso. Não gostaria que isso me envaidecesse. — “Volto, sim. Hei-de voltar aqui.” “— É promessa?” Agora ela sorriu sem manobra, falou: — “Por que você não vem caçar? Sabe, eu não disse a verdade, de propósito: por aqui também tem mutúm. Mutúm no mato, ronca cismado, que até enjôa a gente… Se caça. A carne é muito gostosa… Você não gosta de caçada?” Fugi de responder. O que devia ter dito: que odeio, de ódio. Assoante, pobre do tatú, correndo da cachorrada. O tatú-peba gorduchote, anda depressa, vai e volta, dá seu rosno baixo, quer traçar no chão uma cruz. — “Você pensa muito, demais. Que é, então?” “— Se eu dissesse, você ia achar tolice. Podia parecer até ofensa…” “— Pois diz, para eu não achar que é, uai!” “— Uma cachorra. Uma cachorrinha. Ela dava saltos, dobrada, e rolava na folhagem das violetas, e latia e ria, com brancos dentes, para o cachorrinho seu filhote… Ela estava quase cega…” Glória sorri, um pouco descorçoada. Pudesse, dizer a ela que penso com amor nas filas de maminhas de uma cachorra. Espera que, no fim, eu lhe explique alguma coisa. Agora, sei, estou-me defendendo dela, o que procuro nesta conversa é um campo branco, alguma surdina. Eu gosto de Glorinha. Seja, eu não quereria magoá-la. Glorinha, Glória, Maria da Glória. Mas ela é ainda sadia, simples, ainda nem pecou, não começou. Sempre se vê: se não, seus olhos trariam também alguma sombra, sua voz. Seu rosto guardaria uma expressão própria, remarcada. Seus gestos revelariam uma graça não gratuita, mas conseguida. Maria da Glória é inocente, de uma inocência forte, herdada, que a vida ainda irá desmanchar e depois refazer. A gente pode amar, de verdade, uma inocência? — “Sabe, você tem muito de parecido com o Irvino meu irmão, o modo…” Irvino, o que amou e depois abandonou Dona Lalinha… Eu podia gostar de Dona Lalinha? De Glorinha, eu sei. Imagino Glorinha casada comigo, no mesmo quarto, na mesma cama. Simples, como será, um corpo formoso. Dona Lalinha, não. Se Dona Lalinha se despisse, não sonho como seria. Um corpo diferente de todos, mais fino, mais alvo, cor-de-rosa uma beleza que não se sabe — como uma riqueza inesperada, roubada, como uma vertigem… Despir Dona Lalinha será sempre um pecado. Eu teria de ter vivido para a merecer — desde a hora do meu nascimento. — “Mas você deve de ter gostado de alguém. Você é bandoleiro?” Ao perguntar, ela terá pensado no irmão. Assim uma dúvida percorreu seu rosto, vibrou até nas asas do nariz. Glorinha é bela. Dona Lalinha é bonita. Mas as palavras não se movem tanto quanto as pessôas: um podia, não menos verdade, dizer — Dona Lalinha é bela, Glorinha é bonita… — “Dizem, de quem nasceu nos campos-gerais: que, ou é muito bandoleiro, ou em amor muito leal…” Não respondi. — “Você pensa demais.” Por um instante, deixou de mirar-me. — “Você tem irmãos?” Sei, Glorinha pode já estar no meu destino. Que é que a gente sabe? — “Tive um irmão, mais moço do que eu, morreu ainda menino… Um irmãozinho” — eu digo. Eu queria levar Glorinha comigo, às maiores distâncias de minha vida. — “… Até hoje, não posso demorar o pensamento nele. Tenho medo de sofrer. Você acha que sou fraco?” — “Acho não. Por quê? Fraqueza não é ter sentimento.” Eu queria que Glória me chamasse, me ensinasse lugares que fossem dela só — nós dois, sob sombra de uma antiga árvore, no centro de um bosque, rodeados de uma outra luz. — “E você, Glória? Você teve meninice?” “— Tive não. Pescaram um surubim, abriram, e me tiraram de dentro dele, já grande assim, sabendo falar, dansar valsa… E ih? Valeu a pena?” A alegria dela se estende, linda. Tenho de ter mão em mim. — “Viver sempre vale a pena…” Respondi. Foi como uma desfeita, eu tudo tivesse repelido. Maria da Glória resumiu um estremecimento, recuou o busto, se desempinando. Não escondeu o desapontamento, quase um dissabor. E, em mim, isso recebo como um desânimo, um cansaço, a necessidade de desistir? Com a mãozinha, ela tapou um bocejo. Eu mesmo, entendo, quase com um susto. Não vai acontecer mais nada. Não vamos namorar, falar de amor. Escuto o monjolo, azenho, fácil, meus ouvidos já sabem, já chegam ao lugarzinho dele no espaço, sem procura. E é tarde, daqui a pouco mais nos vamos separar, todos a dormir. Como será o quarto de Dona Lalinha? Caçam. Dona Lalinha pode ser que aprecie a carne do mutúm, que é branca, mais gostosa que a de perú. — “Você estranhou, o que eu falei, por brincadeira? Do peixe surubim?” “— Não, Maria da Glória. Mas você devia de ter nascido era no cacho de flores do buriti mais altaneiro, trazida por uma garça-rosada…” “— É bobo!” Sorrimos um sorriso. Iô Liodoro disse baixo qualquer coisa. Vão talvez jogar a derradeira mão. Dona Lalinha não respondeu, só parece, sempre, uma grande boneca, a mais de valor que existe. Iô Liodoro dá cartas. Este homem tudo faz comedido tão forte, acho que ele mesmo receia os estouvamentos de que é capaz. Não olha para Dona Lalinha. Dona Lalinha, de se jurar, está aqui forçada, presa, nesta fazenda. Iô Liodoro sabe que Irvino não vai voltar nunca mais, mas ele guarda a nora em sujeição, para garantir, mesmo assim, a honra do filho? E Dona Lalinha não vai poder sair, jamais, até que envelheça, ou que o carcereiro um dia morra. Será que ela não tem pais, irmãos, parentes? Saísse daqui, voltasse para a cidade, logo atraía outros homens, com tanta beleza, quem por ela não se apaixonaria? Um namoro, um amante, e o filho de iô Liodoro, e iô Liodoro mesmo, estariam infamados. Ainda que iô Irvino tenha repudiado a mulher, e esteja a viver com outra, Dona Lalinha tem de conservar sua solidão, não pode receber o prazer de outro homem. São casos, no sertão, se ouvem contar. Maria da Glória não pensa nisso, ou sabe, e ainda assim é capaz de variar sua alegria? Mas Maria Behú reza, sente as crueldades da vida. E esse bicho-do-brejo, que dá o outro som, que ranhe? É o socó. — “Você reparou, Maria da Glória? Socó ou o socó-boi? Ele vigia é de noite, revôa para ir pegar piabas nas lagôas…” “— Mas, agora, foi o monjolo.” “— Não: agora. Ele canta longe. Estou reconhecendo…” O monjolo é humano, reproduz a vontade de quem o fez e de quem o botou para trabalhar as arrobas de arroz. Maria da Glória ri. — “Que é que tem? Deixa esse…” Começou e conteve um espreguiçamento. Seus braços. Pudesse, amanhã, com ela sair a cavalo, ao Brejão, abraçá-la. Ao Buriti grande. Não escuto mais o “bicho-do-brejo”, mas me lembro dele. — “É o socó. Voou para mais longe…” “— Sabe, você está aprendendo com o Chefe?” O Chefe Zequiel, ele pode dizer, sem errar, qual é qualquer ruido da noite, mesmo o mais tênue. — “É bem. Ele há-de estar ouvindo, está lá no moinho, deitado mas acordado, a noite inteira, coitado, sofre de um pavor, não tem repouso. Quem sabe, na cidade, algum doutor não achava um remédio para ele, um calmante?” Aziago, o Chefe Zequiel espera um inimigo, que desconhece, escuta até aos fundos da noite, escuta as minhocas dentro da terra. Assunta, o que tem de observar, para ele a noite é um estudo terrível. — “E faz tempo que ele tem essa mania?” “— Figuro que de muito. Mas só de uns dois anos é que veio em piorar…” O que o Chefe devassou, assim, encheria livros. Iô Liodoro e Dona Lalinha se levantaram. Maria da Glória se põe triste, dando bôa-noite? Toma a benção ao pai. Dona Lalinha caminha serenamente. — “Não vá sonhar com o socó, nem com o mutúm…” — baixinho Glorinha disse. Sim, não. Não sonhar com Dona Lalinha… Pudesse sonhar com Maria da Glória, sonsa, risonha, sob o Buriti grande, encostada no Buriti grande. O monjolo trabalha a noite inteira…
Assim o que fora. Aquele serão de despedida, no Buriti Bom.
João Guimarães Rosa, “Noites do sertão“
Nenhum comentário:
Postar um comentário