E, contudo, na semana passada, deixei-me persuadir por dois amigos meus, Henry Salt e sua mulher, que não se cansavam de insistir para eu ir passar um fim de semana com eles, nas colinas de Surrey. Salt, um homem de inteligência excepcional em muitos assuntos, é um maníaco pelo campo e possui uma moradia num buraco chamado Tilford, perto de Farnham, para a qual ele se retira, de tempos a tempos, alimentando-se dos fungos da vizinhança e escrevendo artigos a proclamarem o benefício da dieta e do ar puro. Sem dúvida, o meu amigo nutria a esperança de que Tilford me convertesse da rurofobia à rurolatria, e sendo uma companhia agradável para um passeio e uma conversa, consenti, por fim, na experiência, e acedi, mesmo, em ser transito ao cume de uma impostura cênica, designada Hindhead, para dali avistar as planuras da Costa do Sul, a estrada de Portsmouth e, principalmente, o lugar onde três homens foram forçados por terem assassinado alguém que os induzira a dar um passeio campestre em sua companhia.
Londres estava fresca, limpa e seca quando me dirigi para a estação de Waterloo, após ter saído da cama, às sete horas de uma manhã de domingo. Abrindo um livro, esforcei-me por não olhar para a janela, entre as estações. Depois de termos atravessados um cemitério enorme e um campo imenso, chegamos finalmente a Farnham. Como é vulgar no campo, chovia a cântaros. Consultei o caminho para Tilford, e fui informado de que estavam quatro milhas na linha reta. Como não quisera de forma alguma ofender os sentimentos de Sal, mostrando-lhe a minha suspeita pelo seu paraíso rústico, não trouxera guarda-chuva, e aquele paraíso, é claro, tirou a máxima vantagem de tal omissão. Não sei o que são as planuras da Costa do Sul, mas posso garantir as subidas e descidas das estradas de Surrey. Entre Farnham e Tilford, há, pelo menos, meia dúzia de colinas e nem um só viaduto. Subi as suas vertentes nas pontas dos pés e amassei os calcanhares, ao descê-las, fazendo, a cada passo, um charco de lama pegajosa. À medida que a paisagem se tornava menos hospitaleira, a chuva aumentava a sua violência, diminuindo o meu livro a uma polpa e transferindo o vermelho da capa para o meu já saturado casaco cinzento. Pássaros à prova de água, soltaram de uma colocação, trinados de troça, fazendo-me compreender melhor do que até então, o motivo porque é permitido caçá-los a tiro. Em determinado momento, a estrada passava por um pinheiral, com um tapete de musgo úmido, e um aviso proibindo o estacionamento ali, sob pena de proteção para os transgressores. Vale bem a pena caminhar trinta milhas, para ter de voltar para trás comparecer a mesquinhez de um proprietário rural. Já tinha os punhos da camisa colados aos pulsos. Deixando pender os braços, com desconsolo, afim de minorar a excitação sensação, olhei para as joelheiras das calças e, imediatamente, as abas do meu chapéu despejaram meio litro de água da chuva tingida de preto. Então não me contive mais e soltei uma daquelas gargalhadas que os condenados ao martírio da roda largaram ao segundo golpe do martelo. Uma milha ou duas mais de marcha forçada por caminhos lamacentos, levou-me aos subúrbios de uma vila, com um rio correndo sobre um leito pedregoso e atravessado por uma ponte construída sob o princípio da arquitetura gótica, isto é: de forma a exigir dos cavalos o máximo esforço, quer a puxar as carroças de um lado, quer a impedir de serem atropelados por elas, quando em sentido contrário, roçam, precipitadamente, uns pelos outros.
Chegara a Tilford, habitada pelo que pude ver, por um único homem e em cujo olhar espantado pude ler, melhor do que o faria num livro, a sua admiração por mim ver ali. Após ter ultrapassado uma nova colina, palmilhei uma estrada onde a chuva e o vento desencadearam um último e violento ataque contra mim. Salt está enganado ao pensar que vive em Tilford, pois, de fato, vive muito para além da vila. Eu já estava a ponto de voltar para trás afim de aproveitar o resto da resistência de que ainda dispunha, para regressar a Londres, quando ouvi um grito de Sal “Ele aí vem!”, e o meu amigo veio me receber, satisfeitíssimo, como se eu tivesse surgido fresco e sorridente. Em menos tempo do que leva a descrever, as minhas roupas fumegavam na cozinha e eu, metido numa roupa pertencente ao cunhado de Sal, um poeta promessa cuja figura é um tanto ou quanto diferente da minha, enchia o estômago com as últimas descobertas do meu hospedeiro, na fungologia local.
As minhas roupas secaram rapidamente. De tarde, ao envergá-las de novo, observei que embora fossem escolhidos uns dois ou três centímetros, estavam quentes e enxutas. Apesar disso, posso-me de espirrar e o Sr.ª Sal, na mais amável das intenções, foi buscar uma garrafa de essência de cânfora. Não conheço a natureza violenta deste remédio, engolir, descuidado, uma colher de sopa cheia. Senti-me morrer, mas tive a alegria, depois de ter sentido a respiração, de saber que, certamente, o bacilo da gripe não sobrevivera. Como a chuva já cessara de cair, fomos dar um passeio e seguimos por uma estrada que serpenteava por umas colinas lembrando montões de turfa úmida, sob o céu cinzento. De vez em quando, atravessávamos planaltos onde a lama era substituída por areia movida e tojo, já seca pelo vento agreste que soprava do mar do Norte. O Lago Frensham, como um enorme reservatório de abastecimento público de água, desnudado de maquinaria, jazia ao sotavento e sua superfície enrugava-se de um extremo a outro, a cada aguaceiro. Simpatizei com ele e olhei furtivamente para Salt para ver se a tristeza inefável espetáculo não o envergonhava. Mas o meu amigo já estava habituado a tudo aquilo e quando chegamos a casa, começou um passeio planejado para a manhã seguinte, até Hindhead. Só uma simples sugestão de novo passeio me trouxe um desejo irreprimível de espirrar. Não obstante, neguei-me com firmeza, a tomar mais cânfora, e a Sr.ª Salt ministrou-me nas suas substituições, uma postura vulgar preta com água a ferver que eu ingeri de boa vontade.
Na manhã seguinte, levantei-me às oito horas, na intenção de ver o nascer do sol e de ouvir o chilrear dos passarinhos. Percebi, contudo, que me levantei antes deles, pois não vi o nascer do sol nem ouvi os pássaros, senão quando regressei à cidade. O sal estava radiante porque o vento soprava do nordeste, o que tornava a chuva impossível. Assim, após o café-da-manhã, pusemo-nos no caminho de Hindhead, através de um nevoeiro que faz as vacas parecerem mamutes e os espinhaços, a cordilheira dos Alpes. Quando não se avistava um único abrigo, a chuva começou a cair. Sal assegurou-me que não seria nada, pois a chuva não poderia se aguentar contra um vento nordeste. No entanto, tal não aconteceu. Quando, após termos subido e descido por lugares que Salt denominava atalhos, mas que eram, de facto, leitos de torrentes de lama, chegamos por fim a Hindhead (que era igual às outras colinas) onde mal nos podíamos distinguir um ao outro e muito menos a Costa do Sul, em virtude das nuvens cerrado que fazia. Vi o lugar onde os três homens foram forçados e não posso negar que senti uma certa satisfação vingativa ao pensar que alguém foi assassinado, por induzir semelhantes aos seus passeios campestres.
Quando regressamos, Salt não estava no auge da paixão. A descoberta de um dia chuvoso com um vento nordeste alegrava-o tanto como a descoberta de um cometa alegraria um astrônomo. Quanto à Sr.ª Salt, a conclusão de que ela tirou de tudo aquilo, foi que eu devia voltar. A chuva incomodava-a tanto, como se em vez de mulher, fosse um, e não pude deixar de pensar se o seu vestido de passeio não seria na realidade, um traje de banho habilmente confeccionado.
Ela parecia felicíssima, embora os carneiros balissem tristemente para o céu e uma vaca, a quem eu dei uma palmada amigável nos flancos, estava tão saturada em água, que fiquei com o braço encharcado até ao sovaco. O tema principal do Sr. Salt, enquanto estivemos nas colinas, era a doçura do seu cão de guarda, cujos movimentos na direção do rebanho eram cuidadosamente frustrados pelo meu amigo. Antes de chegarmos a casa, as minhas roupas continham três vezes o volume de água do dia anterior. Foram postadas novamente a seca e quando voltei a envergá-las, sugerem ter sido emprestadas, numa emergência, por um irmão muito mais novo.
Não preciso descrever o meu regresso a Farnham, após o jantar. Choveu todo o caminho. Mas, pelo menos, eu me aproximo de Londres. Mudara de ares e estou certo de que eliminei os seus efeitos dentro de quinze dias. Se a minha experiência puser de sobreaviso algum incauto londrino, tentado a gozar os prazeres vernais nas colinas de Surrey, então nem todo o meu sofrimento terá sido em vão.
Bernard Shaw

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