sábado, março 14

Primeiras impressões

Um minuto antes das 18 horas, a igreja começa a tocar os sinos, que não sei se reais ou uma gravação. O sol ainda ilumina os prédios, então, a obra lá adiante não para. Dois homens estão, desde a manhã, lidando com tijolos, cimento, canos… Parecem ter urgência.

Tenho especial carinho por esses heróis das ruas, todos parecidos e sem nome. Nas imediações há inúmeras casas com andares adicionais, lajes cobertas com telhas de zinco onde as mulheres estendem a roupa lavada e crianças brincam, paredes pintadas pela metade, janelas sem acabamento. Em uma delas, dois jovens aspirantes a atletas ensaiam exercícios acrobáticos, plantando bananeira e imitando ginastas com uma pequena bola. Torço pelo futuro dos dois, tão empenhados em seguir seus sonhos.

As portas de entrada dessas moradias ficam junto à calçada, no res do chão, sem qualquer preâmbulo. E é diante delas que os moradores, nos fins de semana, colocam cadeiras para formar rodas de (longa) conversa. Quase ninguém dá importância para os carros e usam o leito carroçável como um extenso calçadão, caminhando indiferentes pelo meio da rua, de segunda a segunda.

Raros são os cães e gatos. Mas o galo que, logo que mudei, escutava ao longe, continua chamando a manhã. O colégio ao lado da igreja já iniciou o ano letivo e gosto de ver, durante o dia, mães e filhos apressados, peruas de transporte escolar cumprindo o horário e, à noite, as salas acesas até tarde, onde estudam os mais velhos.

Na mesma rua, a socialização acontece na calçada: ali a cabeleireira trança os cabelos da adolescente, mulheres vendem roupas, homens encontram os amigos diante de seus estabelecimentos comerciais, crianças pedem atenção, policiais fardados fazem ronda. Todos parecem se conhecer.

A chuva constante – águas de março – tem me impedido de excursionar pelo bairro, descobrindo seus outros encantos, como escadarias que dividem ruas em dois andares e desembocam em pequenas vilas, praças quase particulares que ocupam largos, quintais onde há música ao vivo, pontos de encontro de boêmios que não fecham nunca. É uma São Paulo de que não suspeitava e se mostra acolhedora. Logo, espero, farei parte dessa realidade, acrescentando a ela minha própria história.

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