sábado, março 28

Palavras

Senhora do próprio tempo, resgatei as palavras cruzadas, hábito adquirido desde a infância. Após o almoço na casa da avó, o pai e eu sentávamos no banco do jardim construído pelo avô e nos divertíamos com o desafio quadriculado. Ele usava lápis, para poder apagar no caso de erro ou deixar o passatempo ainda disponível, já que a revista não nos pertencia. Assim, em idade pré-escolar, fui armazenando sinônimos, antônimos, verbos rebuscados e outros conhecimentos, caminhando em direção às letras que seriam meu destino.

Isso também era evidente, quando o avô abria o jornal sobre a mesa de refeições, tendo próximo um copo de cerveja (a avó não permitia que ele fosse beber no bar), e passava um longo tempo desvendando as notícias. Eu era tão pequena que, de pé a seu lado, via as páginas na altura dos olhos e me encantava com as letras grandes e pequenas, distribuídas ordenadamente em colunas e, de vez em quando, interrompidas por fotografias. Nunca soube o que ele deduzia daquelas tantas informações.

O pai também me despertou o interesse pelos livros. Nossa casa era das poucas onde havia uma estante na sala, fazendo companhia ao toca-discos. Eu tinha livre acesso aos volumes e às vezes assustava o proprietário por estar lendo “livros não recomendados aos pequenos”. A coleção infantil de Monteiro Lobato me enchia de orgulho, com suas capas verdes e títulos prateados. Foi comprada em prestações, de vendedores que iam de porta em porta oferecer seus pesados produtos. O pai lia (e traduzia) as histórias de Pedrinho, Narizinho, Emília, tia Nastácia, o visconde de Sabugosa, o marquês de Rabicó, a Cuca, o saci e muitos outros. Além disso, chegavam mensalmente os lançamentos do Clube do Livro, de que a família era sócia. Romances, a maioria.

A preferência paterna recaía sobre Cronin, e sua obra O Farol do Norte motivou minha escolha pelo jornalismo. O vestibular se aproximava a passos largos, e eu ainda não decidira sobre o futuro. Queria ser escritora, mas o curso de Letras não me atraía. Até que li o romance sobre a luta para a sobrevivência de um jornal à beira da falência e vi um anúncio sobre curso intensivo para os exames, então, decidi tentar. Passei entre os primeiros e segui em frente, com relativo sucesso.

Durante o curso, descobri os latinos e me apaixonei para sempre. Cortázar, García Márquez, Bioy Casares, Manuel Puig, Mario Vargas Llosa e outros me deram ganas de escrever. Daí venci alguns concursos literários, publiquei livros e hoje sou o que você conhece, leitor, um ser repleto de palavras e sentimentos que nunca se apagam.

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