segunda-feira, abril 27

Os que queimam os livros

Os que queimam os livros, que proscrevem e matam os poetas, sabem rigorosamente o que fazem. O poder indeterminado dos livros é incalculável. É indeterminado precisamente porque o mesmo livro, a mesma página pode ter efeitos inteiramente díspares sobre os seus leitores. Pode exaltar ou aviltar; seduzir ou repelir; intimar à virtude ou à barbárie; expandir a sensibilidade ou banalizá-la. Em termos extremamente desconcertantes, pode fazer uma e outra coisa, quase no mesmo momento, num impulso de resposta tão complexo, tão rápido na sua alternância e tão híbrido que nenhuma hermenêutica, nenhuma psicologia poderá predizer ou calcular a sua força. Em diferentes momentos da vida do leitor, um livro despertará reflexos inteiramente diferentes. Não há na experiência humana fenomenologia mais complexa do que a dos encontros entre texto e percepção, ou, como Dante notou, entre as formas da linguagem que excedem o nosso entendimento e as ordens de compreensão frente às quais a nossa linguagem se revela insuficiente:
la debilitate de lo’nielleto e la cortezza del nostro parlare.

O encontro com o livro, como com o homem ou a mulher, que vai mudar a nossa vida, muitas vezes num instante de reconhecimento que se ignora , puro acaso talvez. O texto que nos converterá a uma fé, nos ligará a uma ideologia, dará à nossa existência um fim e um critério, podia estar à nossa espera nas prateleiras da estante de ocasião, dos livros desbotados ou dos saldos. Pode estar ali, poeirento e esquecido, numa prateleira de estante exatamente ao lado do volume de que andamos à procura. A sonoridade estranha das palavras impressas na capa envelhecida pode deter o nosso olhar: Zaratustra, Westoslicher Divan, Moby Dick, Horcynus Orca. Enquanto um texto sobrevive, algures à face da terra, ainda que num silêncio que nada vem quebrar, continua susceptível de ressureição. Walter Benjamin ensinava–o, Borges elaborou a sua mitologia: um livro autêntico nunca é um livro impaciente. Pode esperar séculos até despertar um eco vivificador. Pode estar à venda com cinquenta por cento de desconto numa estação de comboio, como o primeiro Celan que por acaso descobri e abri. A partir desse momento fortuito, a minha vida transformou-se, e eu tentei aprender “uma língua a Norte do futuro”.

Trata-se de uma transformação dialética. As suas parábolas são as da Anunciação e da Epifania. Conhecemos tão mal a génese da criação literária! Não temos por assim dizer qualquer acesso à neuroquímica possível do ato de imaginação e dos seus procedimentos. Até mesmo o rascunho informe de um poema é já uma etapa muito tardia na viagem que conduz à expressão e ao gesto performativo. O crepúsculo , o “ antes da madrugada” e as pressões no sentido da expressão que se exercem no subconsciente são para nós quase imperceptíveis. Mais concretamente: como é possível que alguns traços sobre uma tabuinha de argila, riscos de pena ou de lápis que muitas vezes mal chegam a ser legíveis num frágil pedaço de papel, constituam uma persona – uma Beatriz , um Falstaff, uma Anna Karenina- cuja substância, para um sem-número de leitores ou espectadores, excede a própria vida na sua realidade, na sua presença fenomenal, na sua longevidade social e encarnada? ( Este enigma da persona fictícia, mais viva, mais complexa do que a existência do seu criador e do seu “receptor” – que homem ou que mulher tem a beleza de Helena, a complexidade de Hamlet, ou é tão inesquecível como Emma Bovary? –tal é a questão decisiva, mas também a mais difícil, da poética e da psicologia.)

O conceito de leitura, encarado como um processo que na sua raiz releva da colaboração , é convincente. O leitor sério trabalha com o autor. Compreender um texto , “ ilustrá-lo” no quadro da nossa imaginação, da nossa memória e da nossa representação combinatória, é, na medida dos nossos meios , recriá-lo. Os maiores leitores de Sófocles e de Shakespeare são os atores e os encenadores que dão às palavras a sua carne viva. Aprender um poema de cor é encontrá-lo a meio-caminho na viagem sempre maravilhosa da sua chegada ao mundo. Numa “ leitura bem feita” (Péguy), o leitor faz dele qualquer coisa de paradoxal: um eco que reflete o texto, mas que lhe responde também com as suas próprias percepções, as suas necessidades e os seus desafios. As nossas relações de intimidade com um livro são, portanto, efetivamente dialéticas e recíprocas : lemos o livro, mas, mais profundamente talvez, é o livro que nos lê.
George Steiner, "Os Logocratas"

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