O professor de matemática Tarantuloff, o francês Padekoi e o inspetor de segunda classe da Câmara de Comprovação, Egor Venedictech Mzda, sentados em fila no divã, relataram, um depois do outro, a alguns convidados, casos de enterrados vivos e expunham a sua opinião sobre o espiritismo. Nenhum dos três acreditava nisso, mas admitiam que neste mundo há muitas coisas que a inteligência humana não pode conceber.
Na sala contínua, o professor de literatura Duduski explicou um outro grupo de questionados os casos em que uma sentinela pode atirar sobre os transeuntes. As conversas, como veem eram espantosas, mas muito decididas. Pelas janelas que davam para o pátio olhavam pessoas que, pela sua situação ou posição social, não tinham o direito de entrar na casa.
À meia-noite em ponto, o dono da casa, Akhineiev, entrou na cozinha para ver se estava tudo em ordem para a ceia. Encontrou a cozinha cheia do agradável cheiro dos gansos e patos assados. Sobre as mesas expostas em artes desordem os zakuskas e as bebidas. Junto das mesas passando e tornava a passar, muito atarefada, a cozinheira Marta, mulher rubicunda, de volumoso ventre envolvida em faixas.
— Vamos ver, querida, onde está o esturjão? — disse Khineiev esfregando as mãos e requebrando-se. — Que cheiro magnífico! Eu sou capaz de comer toda a cozinha. Vamos, vamos, onde está o esturjão?
Marta mudou-se de um dos bancos e cuidadosamente chamou uma folha de jornal engordurado. Debaixo dessa folha, em enorme travessa, jazia um enorme esturjão enfeitado com azeitonas, alcaparras e cenouras, Akhineiev contemplou o peixe e soltou um ah! O seu rosto resplandeceu e os olhos se lhe lançaram. Inclinou-se e produzido com os lábios som iguais ao de uma roda sem sebo.
—Ah! Som de um beijo apaixonado!… Marta, com quem você está beijando por aí?
Ouviu-se uma voz dizer isto da sala ao lado e à porta assomou a cabeça pelada do auxiliar Vankin.
— Com quem você está beijando? Muito bem! Com quem? Com Sergey Kapitonech? Fora com o avô! Tête-à-tête com uma mulher!
— Eu não estou beijando com ninguém — respondeu Akhineiev, algo confuso. — Quem você disse coisa semelhante, maluco? Fui eu que fiz com os lábios esse ruído, encantado pelo esturjão.
— Não me venha com histórias!
Vankin deixou escapar e sumiu da porta. Akhineiev ficou vermelho.
— Que bobagem! — pensar.
— Agora este maroto vai sair com chocarrices… Esse animal vai me ridicularizar pela cidade toda…
Akhineiev entrou timidamente no salão e olhou para Vankin de Soslaio. Este estava de pé junto do piano e, inclinado, em atitude decidida, disse alguma coisa em voz em baixa à cunhada do inspetor, que ria.
— Está falando de mim — inventou Akhineiev. — De mim! Assim, maldito! E ela acredita! Está rindo! Meu Deus! Não, isto não pode ficar assim!… De maneira alguma! Tenho que arranjar as coisas de modo que ninguém acredita… Falarei com todos e ele ficará sendo um mexeriqueiro estúpido.
Akhineiev coçou a nuca e, sem deixar de ficar confuso, mudou-se de Padekoi.
Estive agora mesmo na cozinha a dar ordens para a ceia — disse ao francês. — Creio que o senhor gosta muito de peixe. Mandei prepara um esturjão de primeira! Tem duas varas! Hé, hé, hé!… A propósito… Já me ia esquecendo. Com este esturjão ocorreu-me agora, na cozinha, um caso divertido. Eu estava de entrar na cozinha para deitar uma olhadela no manjar… Ao contemplar o esturjão, fiz com os lábios um ruído acabou parecido com um beijo forte, ao ver como ele estava apetitoso, e nesse momento entrou o imbecil do Vankin, que disse: “Ah! Com Marta, com a cozinheira!… Que coisas acontecem a essa idiota! Essa mulher não tem nem cara nem corpo! Parece um animal e ele… “Estão vocês se beijando!” Que homem tão vulgar!
— Quem é vulgar?! Disse Tarantuloff, que eles se mudaram nesse instante.
— Esse Vankin. Entrei na cozinha…
E começou a contar o que aconteceu.
— Fez-me rir esse homem vulgar. Parece-me que é mais agradável beijar o cachorro do que Marta — acrescentou Akhineiev, olhando em derredor e vendo Mzda atrás de si.
— Aqui estamos falando de Vankin — disse-lhe. — Que tipo! Entrei na cozinha e me vi junto de Marta; e toca a inventar coisas.
— Que disse ele?
— “Vocês estão se beijando?” Talvez estejamos embriagados e por isso pensei ver que estávamos nos beijando. Garanto que antes beijaria um peru do que Marta. Além disso, o idiota sabe que sou casado. Que vontade tenho de rir!
Quem o fez rir? — disse a Akhineiev, o professor de religião, unindo-se ao grupo.
-Vankin. Estava eu na cozinha Vendo o estuário…
Ao cabo de uns vinte minutos, toda a gente estava inteirada da história de Vankin e do esturjão.
— Que vá agora contar! — inventou Akhineiev, esfregando as mãos. — Começará com as suas tolices e todos logo lhe dirão: "Basta de maluquices, estúpido! Já sabemos tudo!"
E Akhineiev se tranquilizou a tal ponto que bebeu uns copos além do traje. Ao acompanhar depois da ceia os recém-casados ao dormitório, foi em seguida para o seu quarto e ficou dormindo como uma criança inocente, e no dia seguinte já não se lembrava de mais nada da história do esturjão.
Mas o homem põe e Deus apresenta. As mais línguas fizeram das suas e de nada serviram a Akhineiev na estratégia. Ao cabo de quatro semanas exatas, precisamente na quarta-feira, após a terceira lição, quando Akhineiev se dirigia para a sala dos professores e tratava das inclinações viciosas do aluno Vesekin, ele se mudou para o diretor, que o chamou à parte.
— Trata-se de Sergey Kapitonech — disse o diretor. — O senhor me desculpará… Não é coisa minha… Sem dúvida, espero fazer-lo compreender… A minha obrigação… O senhor verificará… Correm rumores de que o senhor vive com essa… com a cozinheira… Não é coisa minha, mas… mas… O senhor vive com ela… Beijam-se… Façam o que quiserem; mas, por favor, não o faça publicamente! Peço-lhe! Não se esqueça de que é um pedagogo!
Akhineiev ficou petrificado. Foi para casa tão dolorido como se o tivesse picado um enxame de abelhas ou como se ele tivesse despejado pela cabeça abaixo de um balde de água fervendo. Dirigiu-se para sua casa e pareceu-lhe que toda gente o olhou como se tivesse untado de breu!… Em sua casa esperava-o nova destruição.
—Por que não vem? — Disse-lhe a esposa, à refeição. — O que você pensa? Nos amores? Você está apreciando menos a Marta? Sei de tudo, canalha! Houve boas almas que me abriram os olhos Uh!, uh, uh!… Miserável!
E, zás, um bofetão em pleno rosto. Akhineiev declarou-se da mesa e, tonto sem gorro nem capote, partiu para a casa de Vankin. Justamente, o encontrei em casa.
—Canalha! É um canal! — exclamou Akhineiev, dirigindo-se a Vankin. — Por que eu me enlamei diante de toda a gente? Por que lançaste essa calúnia?
—Que calúnia? O que você está inventando?
— E quem tal que fez correr a mentira de que eu beijei Marta? Você vai querer dizer que não foste seu bandido?
Vankin pestanejou e agitou todo o seu rosto consumido; além dos olhos para o ícone e disse:
— Que Deus me castigue, que eu fique sem olhos, ou morra agora mesmo, se disse uma só palavra a teu respeito!
A sinceridade de Vankin não permitia menor dúvida. Evidentemente não fora ele o autor da Calúnia.
—Mas, quem teria dito? Quem? — pensei Akhineiev, passando em revista mental todos os seus conhecidos e dando pancadas no peito. — Quem terá sido?
Quem terá sido? — perguntamos nós também, ao leitor…
Anton Tchekhov
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