domingo, novembro 11

Descanso dominical


De passarinhos

Para compor um tratado sobre passarinhos
É preciso por primeiro que haja um rio com árvores
e palmeiras nas margens
E dentro dos quintais das casas que haja pelo menos
goiabeiras.
E que haja por perto brejos e iguarias de brejos.
É preciso que haja insetos para os passarinhos.
Insetos de pau sobretudo que são os mais palatáveis.
A presença de libélulas seria uma boa.
O azul é muito importante na vida dos passarinhos
Porque os passarinhos precisam antes de belos ser eternos
Eternos que nem uma fuga de Bach.
Manoel de Barros

Voo a dois

Leandro Lamas

Uma biografia à altura da grandeza de Jorge Amado

Em 1939, numa festa de São João na casa dos pais de Jorge Amado, Dorival Caymmi pega o violão e entoa "É doce morrer no mar", frase que lera em "Mar Morto", até então o mais lírico romance do escritor baiano, publicado três anos antes. Amado completaria os versos da antológica canção, a primeira parceria dos dois. Duas décadas depois, Amado recebe em casa João Gilberto, de quem fora padrinho do primeiro casamento, para compor a trilha de "Seara Vermelha", filme baseado no livro que integrou a fase de romances de temática social do autor. Lá nascia "Indiú", palavra que remete ao canto do pássaro que, no meio da madrugada, parecia repetir na gaiola a melodia cantada por João.

Os dois registros, anotados na aguardada biografia de Joselia Aguiar, dão a dimensão do alcance da produção de Jorge Amado. Desde meados da primeira metade do século passado, o festejado escritor estava presente no panorama da cultura popular brasileira mesmo em áreas em que não se destacou, como a música. Afinal, não sabia nem assobiar e sua letra não chegou a ser aproveitada na versão gravada pelo criador da batida de violão da bossa nova.

As passagens não valem apenas pelo caráter anedótico que enriquece a narrativa. São ilustrativas do plano da obra, que, mesmo ao abordar pontos fora da curva, privilegia histórias reveladoras do eixo de atuação de um personagem tentando se equilibrar entre a militância comunista e a literatura de agrado popular.


O Amado que emerge do alentado e criterioso trabalho da pesquisadora tem a humanidade de seus melhores tipos, pleno de contradições. É expansivo e recolhido, audacioso e hesitante, materialista e frequentador do candomblé. É também um autor movido pelo desejo de criar, não acomodado ao sucesso obtido desde a juventude, divulgador incansável da cultura afro-brasileira de sua terra e crítico ferrenho das injustiças sociais. Joselia aponta interconexões improváveis exploradas pelo escritor. "Jubiabá", de 1935, por exemplo, o primeiro a conquistar público e crítica, é uma ficção que não esconde a pretensão de ser um instrumento de combate político. "Na figura do pai de santo Jubiabá, o candomblé é concebido como uma resistência à sociedade branca e burguesa."

"Capitães da Areia", de 1937, mantém o vigor realista da primeira safra, de "Cacau" e "Suor", concebidos como romances proletários, mas é mais bem realizado, na intuição do próprio autor. Muito lido ainda hoje, teve um lançamento conturbado. Foi recolhido e queimado pela ditadura do Estado Novo, que chegou a prender o escritor em Manaus, em rota para um exílio. "No xilindró manauara, escutou um dos policiais contar que andava a vender clandestinamente muitos dos seus livros apreendidos, pois a procura era grande e o lucro, certo."

A biografia se alonga, corretamente, sobre a atividade política de Amado, com nítidos reflexos sobre sua obra. Eleito deputado pelo Partido Comunista, em 1946, foi um quadro fiel no Congresso, mas pouco ortodoxo. Driblou os dirigentes sectários com astúcia e conseguiu embutir na Constituição um artigo que garantia a liberdade religiosa no país, favorecendo pais e mães de santos nos terreiros.

No plano literário, escreveu, durante um exílio voluntário na Europa, após o PCB ter tido o registro cassado, uma obra assumidamente stalinista: a trilogia "Os Subterrâneos da Liberdade", em que conta, nos moldes ditados pelo realismo socialista, os bastidores do PCB na clandestinidade e os embates com os adversários de sempre, os trotskistas.

Quando a obra foi publicada, em 1954, Amado já havia se decepcionado com o comunismo. "O desencanto com o stalinismo não começou numa data que se possa fixar", escreve Joselia. "Soou o primeiro alarme quando [ele e sua mulher, Zélia Gattai] visitaram Budapeste em 1949." Com base em informação adiantada pelo próprio autor, no autobiográfico "Navegação de Cabotagem", a estudiosa relata que Amado perdeu a ingenuidade ao tomar conhecimento de que a então recente execução de um líder comunista húngaro fora ancorada em confissão arrancada à base de tortura pela polícia política formada pelos mesmos agentes dos tempos da ocupação nazista.

Não foi com surpresa, portanto, que em 1956 Amado tomou conhecimento do relatório Khruschóv, em que o líder soviético denuncia os crimes de Stalin, morto em 1953. O escritor não afrontou publicamente o comunismo, como se sabe, mas desde então se afastou da militância e, se não renegou a obra, tachou-a de sectária, desencorajando um projeto para levá-la ao cinema.

A guinada viria em 1958, com "Gabriela, Cravo e Canela", prosa irreverente, picaresca, solar e lírica, que seria seu maior sucesso comercial e cuja história, vertida para TV e cinema, é conhecida mesmo por quem nunca leu o livro.

Um personagem superexposto, aliás, é sempre um obstáculo para biógrafos. Joselia Aguiar enfrentou o desafio inicial de se debruçar sobre um escritor cuja vida e obra já haviam sido objeto de dezenas de trabalhos e que deixara um esboço autobiográfico. Havia ainda os livros de memória de Zélia e uma biografia de 1961.

Com tanta informação disponível, a jornalista e historiadora poderia ter simplesmente desbastado e organizado o material disperso. Mas ela adicionou dificuldade à tarefa ao fazer quase 120 entrevistas ao longo de sete anos de pesquisa e redação, inclusive nos últimos dois, quando foi curadora da Flip. No período, granjeou a confiança da família Amado.

A garimpagem minuciosa e o filtro rigoroso permitem a correção de informações erradas, que pareciam verdadeiras à custa de tanta repetição. Dizia-se, por exemplo, que os primeiros livros de Amado haviam sido traduzidos para o russo por causa de sua militância. Foi o próprio autor, aliás, o responsável pelo equívoco, ao adiantar a informação, que acabou não se concretizando. Seus livros só chegariam a Moscou na metade do século, quando ele já se tornara um sucesso no Brasil.

"Jorge Amado - Uma Biografia" atesta a estatura do personagem, um dos grandes de seu tempo, que conviveu com seus pares em todos os cantos do mundo, do poeta Pablo Neruda ao filósofo Jean-Paul Sartre. Joselia anota o que há de mais relevante nessa trajetória superlativa, numa linguagem enxuta, vazada em cadência quase sincopada, com fartura de aspas justapostas, que no entanto não diminuem sua voz. Evita a armadilha de exercer a crítica literária, mas seleciona a recepção da obra sem indulgências, abrindo espaço também para quem o considerava seivoso, populista e piegas.

O livro é um porto seguro, a partir do qual, com repertório reabastecido, parte-se para ler, ou reler, Jorge Amado.
Oscar Pilagallo

sábado, novembro 10

Dia de passear


Biblioteca

Eugenia Antipova
Correndo as estantes
a brisa matinal procura
o morro dos ventos uivantes.

Raul Drewnick

Rompe cadeados


A pista mais falsa de Agatha Christie

É raro decifrar o segredo de um gênio. Para explicá-lo, especialistas revolvem as origens familiares e a formação do indivíduo especial. No caso da escritora inglesa Agatha Christie (1890-1976), nada parece indicar que se tornaria a senhora do romance de detetive e a maior vendedora de livros da história, ao lado do dramaturgo William Shakespeare. Agatha, como Shakespeare vendeu 2 bilhões de exemplares desde que publicou o primeiro romance policial, “O Misterioso Caso de Styles”, em 1920, protagonizado por seu herói mais célebre, o detetive Hercule Poirot, com sua cabeça de ovo, bigodes encerados e alta capacidade cognitiva. A criadora de mistérios saborosos não passava de uma dona de casa conservadora amante da vida serena, especialmente da jardinagem e da gastronomia. Descobrir de onde ela tirou a imaginação a um só tempo macabra, complexa e irônica, é a meta do livro “Agatha Christie – Uma Biografia”, de Janet Morgan, lançamento da editora BestSeller.

Trata-se de um título clássico, publicado em 1986 e só agora no Brasil. A escritora Janet Morgan trabalha em gestão de novas tecnologias na Escócia. Em meados dos anos 1980, foi convidada pelos herdeiros de Agatha para escrever uma “biografia autorizada”: teve acesso exclusivo aos documentos pessoais da escritora e de seu segundo marido, o arqueólogo Max Mallowan. Ao mesmo tempo, Morgan foi persuadida a abordar a biografada de forma gentil. Mas o fator politicamente correto não a impediu de avançar sobre um dos enigmas dentro do enigma que foi Agatha Christie: por que e como ela desapareceu entre 3 e 13 de dezembro de 1926, quando já era celebridade, causando um dos casos mais ruidosos cobertos pela imprensa da época. Agatha nunca se pronunciou sobre o assunto.

Parte da resolução da charada repousa em sua formação vitoriana. Agatha Miller nasceu em Torquay, Devon, em uma família abastada. O pai, Frederick, era um americano investidor da bolsa. A mãe, Clara, e sua irmã mais velha, Madge, escreviam e publicavam contos e poemas. Sem ter frequentado escolas, Agatha aprendeu a ler e escrever com elas. Trabalhou em hospitais como voluntária e em uma farmácia, onde aprendeu os segredos dos venenos que iria usar em suas narrativa. Em 1914, casou-se com o coronel da marinha Archie Christie. O casal viveu seis anos em aparente harmonia. Em 1919, Agatha deu à luz sua única filha, Rosalind. Começou a publicar romances policiais, e se tornou popular. Ele se empregou na City. Os dois se mudaram para Londres. Lá, Archie começou a ter um caso amoroso com uma amiga de Madge, Nancy Neele, que trabalhava como secretária na City. Quando Archie confessou o affair e pediu divórcio, Agatha entrou em pânico.

Na noite de 3 de dezembro de 1926, ela saiu de carro de sua casa, sem avisar a criadagem. Bateu o carro no meio do caminho e o abandonou. Isso aguçou as suspeitas da polícia e a sede de novidades da imprensa. Os jornais passaram a publicar manchetes e especulações. O escritor de mistério Edgar Wallace declarou que não acreditava que Agatha tivesse se suicidado. “Ela quer chamar atenção do marido”, arriscou. A polícia convocou batalhões de cidadãos para vasculhar a região onde ela sumiu. Enquanto isso, Agatha hospedou-se em um hotel balneário, sob pseudônimo, Teresa Neele, usando curiosamente o sobrenome da rival. Lá se manteve discreta, mas chegou a discutir o seu próprio desaparecimento com os hóspedes. Quando a política finalmente a descobriu, em 14 de dezembro, parecia não reconhecer o marido e a filha.

Estudiosos acham que o episódio ensina sobre o método de narração de Agatha, seu tesouro mais bem guardado. Ela teria usado seu conhecimento de manipular personagens e pistas falsas para testar um enredo na vida real – e obter publicidade. Morgan discorda: “Ela prezava a privacidade, jamais faria isso. Também não teria usado o recurso moderno de viver dentro da trama. Seu método de escritura era puramente intelectual.” A solução pode ser mais simples. “Ela parece ter sido vítima de uma espécie de amnésia”, diz Morgan. “Mas ainda hoje restam dúvidas.” Ela cometeu não um crime, mas um sumiço perfeito.

Após o episódio, Agatha recompôs a vida, casou-se com um arqueólogo, viajou ao oriente e a lugares exóticos e seguiu a escrever histórias até os últimos dias de vida. Em suas excursões, nunca deixou de levar um caderno de anotações, onde registrava personagens, histórias e situações impensáveis. Também usava ditafone. Em seguida, estruturava as histórias em cadernos maiores, a caneta ou a lápis. Depois, de forma perfeita, datilografava seus livros. “Nunca escreveu sobre o que não sabia”, diz Morgan. Ela atribuiu o sucesso e a permanência de sua obra à arte narrativa. “Os livros de Agatha duram porque são boas histórias, ainda que, algumas vezes, irremediavelmente improváveis. Uma vez fisgado, o leitor quer saber o que vai acontecer. Elas abordam mitos, fantasias e obsessões compartilhados por pessoas de todo tipo: jornadas, disputas, morte, sexo, dinheiro, assassinatos, conspirações, transformações, poder, o triunfo do simples sobre o complexo, a importância do mundano e também do cósmico.” Segundo a escritora P.D. James, ela alimentava uma obsessão pela pureza. “Os crimes de Agatha são desprovidos de sangue”, afirmou. “A resolução dos mistérios visava ao restabelecimento da ordem, que ela amava acima de tudo.” Foi essa fórmula simples que lhe deu a glória literária.

sexta-feira, novembro 9

Portal

 Math Radius 

Preservação

Antonio Álvarez Gordillo
Há alguns anos visitei um colégio cuja biblioteca ficava trancada, para que os alunos não estragassem os livros
Raul Drewnick

Café da manhã


As margens da alegria

Linda Olafsdottir
Esta é a estória. Ia um menino, com os Tios, passar dias no lugar onde se construía a grande cidade. Era uma viagem inventada no feliz; para ele produzia-se em caso de sonho. Saíam ainda com o escuro, o ar fino de cheiros desconhecidos. A Mãe e o Pai vinham trazê-lo ao aeroporto. A Tia e o Tio tomavam conta dele, justinhamente. Sorria-se, saudava-se, todos se ouviam e falavam. O avião era da Companhia, especial, de quatro lugares. Respondiam-lhe a todas as perguntas, até o piloto conversou com ele. O vôo ia ser pouco mais de duas horas. O menino fremia no acorçôo, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha a cair. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de segurança virava forte afago, de proteção, e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao mais. Assim um crescer e desconter-se –certo como o ato de respirar–o de fugir para o espaço em branco. O Menino.

E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades. Davam-lhe balas, chicles, à escolha. Solícito de bem-humorado, o Tio ensinava-lhe como era reclinável o assento–bastando a gente premer manivela. Seu lugar era o da janelinha, para o móvel mundo. Entregavam-lhe revistas, de folhear, quantas quisesse, até um mapa, nele mostravam os pontos em que ora e ora se estava, por cima de onde. O Menino deixava-as, fartamente, sobre os joelhos, e espiava: as nuvens de amontoada amabilidade, o azul de só ar, aquela claridade à larga, o chão plano em visão cartográfica, repartido de roças e campos, o verde que se ia a amarelos e vermelhos e a pardo e a verde; e, além, baixa, a montanha. Se homens, meninos, cavalos e bois–assim insetos? Voavam supremamente. O Menino, agora, vivia; sua alegria despedindo todos os raios. Sentava-se inteiro, dentro do macio rumor do avião: o bom brinquedo trabalhoso. Ainda nem notara que, de fato, teria vontade de comer, quando a Tia já lhe oferecia sanduíches. E prometia-lhe o Tio as muitas coisas que ia brincar e ver, e fazer e passear, tanto que chegassem. O Menino tinha tudo de uma vez, e nada, ante a mente. A luz e a longa-longa-longa nuvem. Chegavam.

João Guimarães Rosa

quinta-feira, novembro 8

Dica de passeio


Falou a professora

Laura Pantone
Burro não é quem empresta (o livro), é quem devolve

Amamentação

 Pawel Kuczynski

Um tantinho de autocrítica

Que os deuses lhe concedam vida longa, se você pretende esperar pela inspiração.

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Gostaria de ser conhecido como estraçalhador de corações, ainda que não merecesse a fama.

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Matthew Trueman
Há décadas ele não faz outra coisa além de escrever. Quando o aconselham a viver um pouco, ele diz estar ocupado em ser mártir. Mártires são seus leitores…

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Duas borboletas não sabem se continuam voando ou se param um pouco para fazer um haicai.

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Como piorou a situação. Ontem se assaltavam palácios. Hoje, até fundos de pensão.

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Quando os participantes do velório estavam começando a se acostumar com o defunto, e até a achá-lo agradável, chegou a hora de enterrá-lo.

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Não, pelo que sei, Oscar Wilde não era pseudônimo da Dorian Gray.

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Um dia, não tendo no que pensar, resolveu tornar-se filósofo.

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Fazer haicais com o quê? Estrelas não caem mais em lagos, pulam direto nas caçambas.

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Se Fernando Pessoa não tivesse existido, alguém precisaria inventá-lo. Mas quem (perdão, Quem) se atreveria?

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Um dia atinjo minha meta. Ontem eu era menos que um, agora já sou meio poeta.

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Nas guerras contra o amor, eu sempre quis ser capitão e negociar minha rendição.

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A única coisa autêntica que eu sempre tive foi a tristeza. Nunca a reconheceram.

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Por uma razão imprecisa foi proibido o show dos três tenores em Pisa.

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A poesia nem sempre é um dom: às vezes é um encargo, outras vezes uma danação.

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Na minha melhor fase cheguei a ser poeta – ou quase.

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Não sou poeta, já disse. Tentei muito, não nego, mas nunca passei de vice.

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Antes que eu desista e morra, que Alguém me salve ou socorra. Pode ser qualquer um: Deus, o bom Júpiter ou Zeus.

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Que esplêndido poeta eu teria sido, se antes de amadurecer não tivesse apodrecido.

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Quando estivermos mortos, seja nosso mérito ou não, teremos nisso igualado César sem atravessar o Rubicão.

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Não merece mais que risos a cantoria dos pardais: nunca mais, nunca mais.
Raul Drewnick

quarta-feira, novembro 7

A Biblioteca de Malala

Onde bate o coração

Angelo Ruta
O bom de um livro está em ser lido 
Umberto Eco, "O nome da rosa"

Fantasia

Adam Oehlers

O dentista

Durante bastante tempo colocaram-me numa companhia nas Terras do Fim do Mundo, junto à fronteira com a Zâmbia, num cu de Judas chamado Chiúme, o mais isolado, miserável e pobre que se pode imaginar, porque o MPLA entrava por ali Angola dentro na ideia de cercar o planalto do Huambo. Vivíamos em tendas e barracas quase sem população nenhuma em torno, apenas umas cinquenta ou sessenta pessoas ainda mais miseráveis que nós, com um soba velho que passava o tempo às voltas com uma máquina de costura pré-histórica, em pedaços, a tentar coser-nos os camuflados sempre com rasgões, que eu ajudava a compor entregando-lhe bocados de adesivo muito mais eficazes que o seu aparelho mirabolante, cuja agulha caprichosa furava tudo menos o que devia. Portanto éramos um bando de almas penadas

(quatro pelotões de atiradores)

mandadas conter os guerrilheiros numa agitação absurda e constante, e mais um morto aqui, e mais um morto acolá, mal alimentados, mal instalados, cheios de cansaço e revolta. De longe em longe o Comando enviava o capelão a amansar-nos a alma com umas missinhas, às vezes ao jantar

(jantar às seis horas porque quase noite já e, a seguir, chatices bélicas)

onde os quatro oficiais que éramos comiam quase merda numa quase cabana, o nosso vocabulário tornava-se mais pesado, às vezes tanto que eu aconselhava o padre

– Vá até lá fora um bocadinho que a conversa não está para saias

mandava-o recolher porque nunca se sabia quando a metralhadora deles, quando os morteiros deles, essas coisas assim que se usavam por aqueles sítios, começavam a existir num estalar de pipocas. Bom. As coisas iam andando, a coxear claro, até que os rapazes começaram a ter problemas com os dentes. As dores de dentes tão maçadoras, às vezes quase mais que um bocadinho, e o problema estava em que não havia dentista, mas como eu era um rapaz decidido resolvi a questão. Chamei um dos mecânicos

(os mecânicos eram tratados por Rodas)

mandei vir uma cadeira para o doente se sentar, um pedaço de lençol para o amarrarem à cadeira, uma tira no peito, outra na barriga, outra nos tornozelos a fim de evitar pontapés, uma última nos pulsos destinada a obviar possíveis azevias na pantufa, chamei o atirador com menos pontaria, expliquei-lhe

– Daqui em diante és dentista

entreguei-lhe uma turquês e proporcionei-lhe o curso após uma aula teórica densa e complexa:

– Estás a ver esta tenaz? É canja: apontas o instrumento à boca, apanhas o que estiver a chatear, puxas para fora e acabam-se os incómodos. Se por acaso o doente protestar enfias-lhe o joelho nas costelas, que é como se faz lá em Portugal e aquilo cai-te logo na mãozinha que é uma beleza.

Pedi uma bata velha a um maqueiro

– E andas com isto vestido porque a partir de agora és doutor

o Rodas, a partir daí, além de Rodas ficou doutor também e a tenaz tornou-se a sua companhia favorita. Só houve um problema: os restantes camaradas começaram a afastar-se dele mas as dores de dentes desataram a diminuir de forma considerável, para além do dentista se haver transformado de súbito num solitário porque, incompreensivelmente, os restantes heróis quase não lhe falavam, o que entristecia o doutor embora eu lhe aclarasse as meninges argumentando que a solidão era o destino dos génios mas que depois de defunto seria admiradíssimo, perspectiva que, não sei porquê, feitios, não me pareceu tê-lo alegrado muito. Quem o veio salvar da melancolia, na qual principiavam a notar-se impulsos suicidas, foi o capelão, enviado pelo Comando para nos encher a alma de Avé Marias libertadoras. O capelão, que desembarcou da avioneta agarrado à bochecha, disse-me logo

– Trago um problema num molar que não vejo nada
informei-o

– Descanse que daqui a dez minutos está porreirinho da Silva, tenho cá um dentista do caneco à sua espera.

Chamou-se o doutor, que veio de tenaz em punho, pedi ao capelão que se sentasse na cadeira, amarrámo-lo como um chouriço, solicitei com bons modos ao santo sacerdote

– Abra a boca e reze

solicitei ao Rodas

– E tu vê lá se me fazes isso como deve ser

o Rodas para o padre, cheio de delicadezas uma vez que os verdadeiros cientistas são uma joia de pessoas

– Abra a boca senhor prior

com o capelão a olhar-me aterrado, sem poder falar porque a tenaz lhe enchia a boca enquanto o dentista puxava, esmagando o joelho naquilo que, a pouco e pouco, ia deixando de ser o torax. Mas o facto é que o dente saiu. Não sei qual, espero que aquele que doía

(sou um homem de Fé)

mas saiu. Posso jurar, tive-o na mão. Só não percebo o motivo que fez com que o santo homem nunca mais nos aparecesse. Tornei a vê-lo ao mudarmos para a Baixa do Cassanje, mas não pude conversar com a bondosa criatura visto que desatou logo a fugir. É triste que haja pessoas mal agradecidas.
António Lobo Antunes