Luke Skywalker, Hans Solo, Princesa Leia, Mestre Yoda, Darth Vader, Cavaleiros Jedi, R2D2, C3PO, Chewbacca... Quem viveu no planeta de 1977 para cá ouviu falar nesses nomes. São personagens ícones da cultura pop mundial e, depois deles, o cinema nunca mais foi o mesmo!
Por trás da saga Star Wars e do megassucesso Indiana Jones, que viraram franquias e referências, existe uma figura emblemática, que foge de holofotes, tem horror a entrevistas e tudo que sempre sonhou era fazer cinema. Desde seus primeiros filmes, revelou uma forma inovadora de realizar suas criações. "George Lucas - Skywalking a vida e a obra do criador de Star Wars", de Dale Pollock, é leitura obrigatória para os fãs e para quem aprecia uma grande história de como chegar ao sucesso com uma câmera na mão.
A biografia faz revelações sobre as origens e o inicio da carreira de Lucas, desde os primeiros curtas, o sucesso American Graffiti (Loucuras de Verão) e as franquias Star Wars e Indiana Jones. Além disso, o universo expandido, com os brinquedos e produtos patenteados e agora a nova série de filmes, do qual o jornalista Hamilton Rosa Júnior fala com exclusividade no pósfacio de, além de ter executado um cuidadoso trabalho de revisão técnica e atualização de todo o texto.
O livro mostra o cineasta visionário que virou referência para qualquer profissional e que, com Coppola e Spielberg, criou o cinema como o conhecemos hoje. A dificuldade em levantar o dinheiro que precisava para filmar, a gênese dos personagens de Star Wars, curiosidades sobre a seleção do elenco, nada passou em branco no brilhante e minucioso trabalho de pesquisa de Pollock.
Lucas é também reconhecido como o cineasta que alavancou a indústria de tecnologia digital e efeitos especiais. As câmaras digitais usadas pelo cinema independente hoje não estariam tão evoluídas se Lucas não as tivesse usado e mostrado seu potencial comercial para a indústria.
sexta-feira, novembro 20
quinta-feira, novembro 19
O melhor de Rubem Alves
Amigo pessoal e também grande admirador de Rubem Alves, o Professor Samuel Ramos Lago descobriu como lidar com a saudade que sentia do camarada, que faleceu em julho de 2014. A solução foi escolher as melhores crônicas de Alves já publicadas na Folha de São Paulo e na revista Educação em uma só obra, que ganhou um nome muito apropriado para um livro envolvente de um autor querido: "A Fisgada da Saudade".
Este também é o título de um dos 24 textos reunidos no livro, que está sendo lançado pela Editora Nossa Cultura. Nesta crônica, Alves reflete sobre a existência de sentimentos como a saudade, que, assim como Deus, não pode ser vista ou tocada, embora o ser humano possa sentir e constatar que existe.
Todo este conteúdo selecionado por Lago mostra o ponto de vista sensível e crítico do amigo Rubem – que foi psicanalista, teólogo e educador – a partir de pequenas observações que ele fazia do cotidiano ou das pessoas ao redor.
Ao longo da vida, Rubem explorou diferentes assuntos em suas crônicas. Entre as mais emotivas, destaca-se “As duas caixas” que traz um Rubem instável, estudando seu próprio desempenho como escritor e intelectual formador de opinião. O autor causa comoção também quando fala sobre o convívio entre família e o contato com crianças na experiência como educador.
(Fonte: Jornal do Brasil)
Vista cansada
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Otto Lara Resende
terça-feira, novembro 17
Como comecei a escrever
Papai era assinante da Gazeta de Notícias, e antes de aprender a ler eu me sentia fascinado pelas gravuras coloridas do suplemento de Domingo. Tentava decifrar o mistério das letras em redor das figuras, e mamãe me ajudava nisso. Quando fui para a escola pública, já tinha a noção vaga de um universo de palavras que era preciso conquistar.
Durante o curso, minhas professoras costumavam passar exercícios de redação. Cada um de nós tinha de escrever uma carta, narra um passeio, coisas assim. Criei gosto por esse dever, que me permitia aplicar para determinado fim o conhecimento que ia adquirindo do poder de expressão contido nos sinais reunidos em palavras.
Daí por diante as experiências foram se acumulando, sem que eu percebesse que estava descobrindo a leitura. Alguns elogios da professora me animavam a continuar. Ninguém falava em conto ou poesia, mas a semente dessas coisas estavam germinando. Meu irmão, estudante na Capital, mandava-me revistas e livros, e me habituei a viver entre eles. Depois, já rapaz, tive sorte de conhecer outros rapazes que também gostavam de ler e escrever.
Então começou uma fase muito boa de troca de experiências e impressões. Na mesa do café-sentado ( pois tomava-se café sentado nos bares, e podia-se conversar horas e horas sem incomodar nem ser incomodado ) eu tirava do bolso o que escrevera durante o dia, e meus colegas criticavam. Eles também sacavam seus escritos, e eu tomava parte nos comentários. Tudo com naturalidade e franqueza. Aprendi muito com os amigos, e tenho pena dos jovens de hoje que não desfrutam desse tipo de amizade crítica.
Carlos Drummond de Andrade
segunda-feira, novembro 16
Adeus, doce França

Volto hoje às minhas criaturas, aos rudes homens do cangaço, às mulheres, aos sertanejos castigados, às terras tostadas de sol e tintas de sangue, ao mundo fabuloso do meu romance, já no meio do caminho.
Os dias de França me deram uma sensação de pausa, de espanto, de novos contatos sonhados desde menino. Vi terras por onde andaram os doze pares de França, os heróis do meu Carlos Magno, lido e relido como história de Trancoso. Vi terras do sul, o mar Mediterrâneo, o mar da história, o mar dos gregos, dos egípcios, dos fenícios, dos romanos. Mas o nordestino tinha que voltar à sua realidade, à realidade maior que a história do mundo, isto é, à história dos seus homens, dos cangaceiros brutais, carregados de vida bárbara, de instintos cruéis de uma força, porém, que não se extingue nunca, porque é a energia de uma raça de homens mais duros do que as pedras dos seus lajedos.
Volto aos “Cangaceiros” e desde logo tudo o que vi e senti se refugia no fundo da sensibilidade, para que a narrativa corra, como em leito de rio que a estiagem secara, mas que as águas novas enchem, outra vez, de correntezas.
Volto ao terrível Aparício que mata igual a um flagelo de Deus, ao monstruoso Negro Vicente, ao triste Bentinho, ao místico Domício, aos umbuzeiros carregados de frutos, aos mandacarus de floração de sangue, aos cantadores de estrada, às mulheres sofredoras, às noites de lua, aos tiroteios, ao crime e ao amor, à poesia barbaresca e vigorosa de um povo que é maior do que a terra que o criou.
Volto contente e disposto a tudo.
Adeus, doce França. Agora os espinhos me arranham o corpo e as tristezas me cortam a alma.
José Lins do Rego
Modesto informe sobre as bibliotecas do Oriente e d'além
| Ilustração: Guilherme Caldas |
(Documento encontrado na biblioteca de Tinos, supostamente escrito por Maffeo Polo, trazido à luz por José Roberto Torero)
Pelos vinte e quatro anos que viajei com meu sobrinho Marco Polo, vi coisas que meus olhos mal puderam acreditar, ouvi histórias que minhas orelhas quase não creram e senti cheiros que meu nariz por pouco não conseguiu suportar.
Mas, de tudo o que vi, ouvi e respirei, o que mais me impressionou foram as bibliotecas. Talvez por gostar delas assim como outros homens amam bodegas, bancos e bordéis, foram as bibliotecas que mais me chamaram a atenção.
Eu, que pensava que elas eram sempre iguais, um lugar cheio de livros para serem consultados, encontrei no oriente bibliotecas de tantos modos e formas que só o descrevê-las já encheria uma outra biblioteca. Por isso, serei modesto e apenas direi como eram algumas delas.
Em Khubeis, além do deserto de Lut, há uma curiosa biblioteca formada apenas com livros em branco, pois o ilustrapovo da cidade não sabe ler. Porém, como a gente de Khubeis ouviu dizer que folhear livros é algo que traz respeito e nobreza, a cidade construiu uma biblioteca, que está sempre lotada por seus vaidosos analfabetos.
Em Arzinga, perto do Monte Ararat, há uma biblioteca que possui pesados livros sobre matemática, grandes arrazoados teológicos e longos discursos de reis, ou seja, leituras que dão muito tédio. Por isso a biblioteca, muito sensatamente, em vez de cadeiras, usa redes, de forma que os leitores podem ceder ao inevitável sono e dormir à vontade.
A biblioteca de Balkh fica numa grande e estreita torre, que tem em seu interior uma escada em espiral. Seus livros ficam numa longa prateleira que segue a escada do começo ao fim, com exatamente um livro por degrau. O curioso é que a regra da biblioteca diz que os leitores têm que ler primeiro o primeiro livro, depois o segundo, só então o terceiro e assim por diante. Até hoje ninguém chegou ao topo da torre, onde está o livro derradeiro, o da sabedoria suprema. Uns dizem que é um pergaminho escrito por deuses. Outros, que é um livro de piadas.
Qazan é a capital da Tartária, país dominado há muito tempo pelo rei mongol Kublai Khan, neto do poderoso Gengis Khan. Kublai não aprecia muito as pessoas que têm ideias diferentes das dele, e tanto é assim que, na enorme biblioteca de Qazan, todos os seus exemplares são de apenas um livro: As memórias e as ideias de Kublai Khan, soberano das terras e almas da Tartária. A Biblioteca de Qazan está sempre vazia, sendo frequentada apenas de quando em quando por funcionários públicos que querem subir de posto.
Em Kan-Cheu há uma curiosa biblioteca feita para guerreiros que perderam os braços. Os livros são colocados abertos sobre suportes, de forma que os leitores podem virar as páginas apenas com a língua. Para estimular a leitura, os livros de Kan-Cheu são impressos em papéis de variados sabores, desde a forte carne de bode até o delicado pêssego. Assim, muitas vezes os leitores acabam escolhendo livros não por seu gosto literário, mas pelo gastronômico.
No deserto de Taklamakan há uma carroça puxada por dois camelos que, na verdade, é uma biblioteca. Seu único funcionário passa o tempo atravessando o deserto de um lado para o outro, emprestando e recolhendo livros. A carroça só possui obras sobre viagens, mas nenhum deles é sobre o deserto de Taklamakan, de modo que os leitores que pegam os livros desta biblioteca ambulante sempre fazem duas viagens ao mesmo tempo, uma com os pés e outra com a cabeça.
Triste fim teve a biblioteca de Kashgar, que só possuía livros de histórias de dragões. Para causar ainda mais medo aos leitores, a biblioteca de Kashgar só funcionava à noite, sendo iluminada por velas. Porém, um dia, um leitor mais impressionável assustou-se de tal maneira que derrubou sua chama numa das cortinas, incendiando a biblioteca, que naquela noite cuspiu fogo de suas janelas como se tivesse se transformado num de seus personagens.
Outra famosa biblioteca que fechou suas portas foi a de Si-ning, pelo motivo de ser perfeita demais. Ela continha tão somente livros eróticos, muitos trazidos da Índia, com ilustrações fantásticas, de rara beleza e raríssimo realismo. A biblioteca era decorada com tapetes em vez de cadeiras, de modo que os amantes podiam ler deitados um ao lado do outro. Com isso, em poucos anos cresceu tanto a população de Si-ning que as autoridades tomaram por bem acabar com a biblioteca.
Em Trebizonda, a cidade das amazonas, os livros não são escritos em papéis, mas tatuados no corpo de belos homens, que vivem na biblioteca esperando para serem lidos pelas guerreiras. Elas tocam-lhes os corpos de todos os jeitos, apalpando uma parte, esgarçando outra, levantando aqueloutra, como se virassem páginas. O triste é que, quando os homens envelhecem e suas peles ficam murchas, embaralhando as letras, são eles queimados, assim como se faz com alguns livros roídos pelas traças.
Atravessando o rio Tigre chega-se à cidade de Bandahar, onde há uma singular biblioteca em que os livros são escritos pelos usuários. Ou seja, cada vez que alguém lê um livro, acrescenta-lhe uma frase, um parágrafo ou mesmo uma página, de modo que, assim como a história do mundo, as histórias dos livros jamais têm um fim e são escritas por todos.
E em Tinos achei a curiosa biblioteca das mentiras, que não aceita para suas prateleiras nenhum escrito que tenha um pingo de verdade, só aceitando livros, cartas e folhas com coisas inventadas, porque dizem os bibliotecários de Tinos que as verdades mudam com o tempo, mas as mentiras são sempre mentiras, sendo por isto muito mais honestas e confiáveis.
Maffeo Polo, 12 de dezembro de 1296.
José Roberto Torero
Crônica de uma biblioteca
Você já reparou como o ambiente da biblioteca é acolhedor? Muitos dizem o contrário, mas eu afirmo que é o melhor lugar do mundo. Alguns ousam perguntar o porquê. Eu respondo.
O silêncio. Silêncio é uma coisa que incomoda a muitos, até a mim mesma, admito. Mas, você já parou pra escutar o silêncio de uma biblioteca? É um som, se é que podemos usar esta palavra, misterioso, instigante e até mesmo relaxante. O silêncio das bibliotecas gritam as histórias escritas em cada obra nela presente.
O cheiro. A cada corredor, um odor diferente. Ora, de livro velho, ora de livro novo. Às vezes, até de rosas. Um cheiro tão raro que as vezes é possível sentir seu gosto, apalpá-lo, e mais, ser contagiado por ele.
Os corredores. Tão próximos uns dos outros que chegam a nos esmagar. Quando você entra em um deles, os livros ganham força, que mais se parece com garras, para fisgar sua próxima vítima. É emocionante saber que, naquele corredor, você, ao mesmo tempo que tem todo o poder para escolher qualquer coisa, não tem poder algum diante daquela imensidão de histórias.
Os livros. Tantos livro. Tantas histórias esperando pacientemente para serem lidas. Tantas vidas, sonhos e desejos compartilhados. As palavras saltam de cada página, nos fazendo viver aquela história de tal forma que, quando lemos, não sabemos mais quem somos. Se somos nós mesmos ou se somos só mais um personagem da história.
Os bancos. Ora com mesas, ora acolchoados. Às vezes, bancos que mais parecem tronos. Outras vezes, simples cadeiras escolares. Cada um com sua magia, nos convidando a sentar e desfrutar de um banquete de palavras e sabedorias. Como verdadeiros portais que nos levam a outros mundos.
As pessoas. O que seria de uma biblioteca sem o seu leitor? Ah! As pessoas. De todas as raças, credos e línguas. Nós só as notamos quando entram com seus sapatos barulhentos - breves segundos em que saímos de nossos devaneios. Quando elas se acomodam, nós as esquecemos. Poderíamos passar por alguma delas na rua, mas não reconheceríamos, porque para nós, os livros são os protagonistas. Mas, para os livros, cada pessoa é especial, de tal modo que eles reconhecem à todas.
O bom das bibliotecas é que podem ser visitadas por qualquer um. Um dia desses, dublado demais para sair ou triste demais para ficar em casa, passe em uma biblioteca. Sente-se. Relaxe. Leia. Use seus sentidos e sinta a biblioteca. Se preferir, leve o livro para casa. Mas não deixe de desfrutar de cada momento vivido lá. Eles são únicos. E especiais.
Thaís Diniz
domingo, novembro 15
A biblioteca do futuro
Um burburinho em inúmeras línguas preenche uma das salas da Kölner Volkshochschule, em frente à Biblioteca Municipal de Colônia. Uma "sala de conversação" foi criada na escola para servir de ponto de encontro de refugiados e de todos aqueles que ainda precisam dominar o idioma alemão. Aqui, todos podem aproveitar gratuitamente as ofertas da Biblioteca Municipal, utilizar programas de aprendizado nos computadores ou emprestar livros e jogos.
Além de um espaço de encontro, a "sala de conversação" é palco de leituras em diversos idiomas e disponibiliza materiais didáticos em diferentes línguas. Mentores auxiliam famílias sírias, afegãs e romenas a se adaptar à cidade e à Alemanha.
A biblioteca de Colônia é reconhecida na Alemanha por suas inovações. Em 2015, ela recebeu o título de Biblioteca do Ano, por sua ousadia com projetos midiáticos e pela estratégia de transformar o local num espaço de encontros e não apenas de empréstimo de livros. A ideia não é nova: o conceito de "Makerspace" vem dos Estados Unidos e especialmente da Escandinávia. Na Finlândia e na Dinamarca, as bibliotecas públicas têm como papel serem espaços de conhecimento para todos.
Na Dinamarca, é lei que toda comunidade tenha uma biblioteca em bom estado. E para isso não há economia de verbas, como na Alemanha, por exemplo, onde muitas bibliotecas municipais já precisaram ser fechadas. Para atrair o público jovem, o Estado de bem-estar social dinamarquês criou locais vivos e atrativos, nos quais o empréstimo de livros e mídias tornou-se quase secundário.
Na biblioteca, não se pode apenas emprestar livros, CDs ou DVDs, mas também estender o passaporte, entregar a declaração do imposto de renda ou emitir a carteira de motorista. A maior biblioteca pública da Escandinávia, inaugurada há alguns meses, é tanto um centro de serviços para o cidadão quanto espaço de conhecimento. Enquanto esperam para serem atendidas, as pessoas leem ou estudam.
A DOKK 1 abriu a cidade de Aarhus para novas possibilidades. Tudo é gratuito e equipado com novas e modernas tecnologias, que incluem uma impressora 3D. Ali, ler romances, escutar música e jogar xadrez no computador é tão importante quanto estudar livros especializados.
"As bibliotecas do futuro devem realmente inspirar as pessoas, mesmo sem livros", constata Knud Schulz, diretor-geral da DOKK 1. Foram mais de dez anos de planejamento e implementação. Por todos os lados, há espaço para encontros e trocas. Uma área para pais e filhos, sala de brincadeiras, sala de leitura com vista para o porto e zonas de silêncio para estudo dão ao local um caráter cosmopolita.
Para Schulz, o futuro está na aprendizagem ao longo de toda a vida e no intercâmbio de conhecimentos entre gerações - e este é o principal objetivo de seu trabalho na biblioteca. Até um ateliê com máquinas de costura e equipamentos profissionais faz parte da DOKK 1, mostra ele. Jovens poderiam aprender com pessoas mais velhas como consertar uma torradeira estragada em vez de comprar uma nova, acrescenta.
"O conhecimento se forma em espaços que propiciam trocas entre as pessoas", diz Schulz. Um conceito que a Biblioteca de Colônia já começou a adotar, fazendo do aprendizado uma forma de diversão.
Além de um espaço de encontro, a "sala de conversação" é palco de leituras em diversos idiomas e disponibiliza materiais didáticos em diferentes línguas. Mentores auxiliam famílias sírias, afegãs e romenas a se adaptar à cidade e à Alemanha.
A biblioteca de Colônia é reconhecida na Alemanha por suas inovações. Em 2015, ela recebeu o título de Biblioteca do Ano, por sua ousadia com projetos midiáticos e pela estratégia de transformar o local num espaço de encontros e não apenas de empréstimo de livros. A ideia não é nova: o conceito de "Makerspace" vem dos Estados Unidos e especialmente da Escandinávia. Na Finlândia e na Dinamarca, as bibliotecas públicas têm como papel serem espaços de conhecimento para todos.
Na Dinamarca, é lei que toda comunidade tenha uma biblioteca em bom estado. E para isso não há economia de verbas, como na Alemanha, por exemplo, onde muitas bibliotecas municipais já precisaram ser fechadas. Para atrair o público jovem, o Estado de bem-estar social dinamarquês criou locais vivos e atrativos, nos quais o empréstimo de livros e mídias tornou-se quase secundário.
A biblioteca DOKK 1, na dinamarquesa Aaarhus, representa o novo conceito de biblioteca: um local para todos aqueles com fome de conhecimento. A cidade industrial e portuária no sul do país será a Capital Europeia da Cultura de 2017, e, para isso, toda a zona portuária ganhou um projeto arquitetônico completamente novo. E a DOKK 1 está lá, aberta 24 horas e ponto de encontro para jovens e adultos. A transformação num centro de conhecimento foi perfeitamente bem sucedida.
Na biblioteca, não se pode apenas emprestar livros, CDs ou DVDs, mas também estender o passaporte, entregar a declaração do imposto de renda ou emitir a carteira de motorista. A maior biblioteca pública da Escandinávia, inaugurada há alguns meses, é tanto um centro de serviços para o cidadão quanto espaço de conhecimento. Enquanto esperam para serem atendidas, as pessoas leem ou estudam.
A DOKK 1 abriu a cidade de Aarhus para novas possibilidades. Tudo é gratuito e equipado com novas e modernas tecnologias, que incluem uma impressora 3D. Ali, ler romances, escutar música e jogar xadrez no computador é tão importante quanto estudar livros especializados.
"As bibliotecas do futuro devem realmente inspirar as pessoas, mesmo sem livros", constata Knud Schulz, diretor-geral da DOKK 1. Foram mais de dez anos de planejamento e implementação. Por todos os lados, há espaço para encontros e trocas. Uma área para pais e filhos, sala de brincadeiras, sala de leitura com vista para o porto e zonas de silêncio para estudo dão ao local um caráter cosmopolita.
Para Schulz, o futuro está na aprendizagem ao longo de toda a vida e no intercâmbio de conhecimentos entre gerações - e este é o principal objetivo de seu trabalho na biblioteca. Até um ateliê com máquinas de costura e equipamentos profissionais faz parte da DOKK 1, mostra ele. Jovens poderiam aprender com pessoas mais velhas como consertar uma torradeira estragada em vez de comprar uma nova, acrescenta.
"O conhecimento se forma em espaços que propiciam trocas entre as pessoas", diz Schulz. Um conceito que a Biblioteca de Colônia já começou a adotar, fazendo do aprendizado uma forma de diversão.
Carta do sertanejo
Uma das minhas distrações da mocidade, depois de um cavalo bom de gado, era a leitura dos livros do meu tempo.
À força de ler e reler muitas vezes, para mim e para outros, as proezas dos Doze Pares de França, cheguei a aprendê-las de memória; e tanto me embebi nas façanhas de Roldão e Oliveiros que, quando mal cuidava, me via em sonhos armado de durindana a cutilar mouros e hereges no campo dos infiéis.
A história, porém, ouvida com mais devoção, não era a do Imperador Carlos Magno, mas sim a de João de Calais, homem corajoso e de boas ações que pagou em terra estranha as dívidas de um morto, para que pudesse ter sepultura, e libertou do poder dos piratas princesas destinadas ao cativeiro.
Sempre que lia essa curta história, no alpendre da nossa casa sertaneja e a pedido das pessoas que ali se ajuntavam, em dia de vaquejada, vi muito semblante de homem se desmudar e dos olhos das donas que já tinham sofrido penas do coração borbotarem lágrimas aflitas.
Nesta visita ao antigo torrão onde fui criado, ainda tenho podido encontrar, graças a Deus, alguns devotos das minhas leituras, todos lembrados das histórias soletradas e nelas acreditando como eu acreditava, felicidade que perdi e não os abandonou na constância de anos vividos na mesma terra do nascimento. Além daqueles, li muitos outros livros. Romances compridos e mais cheios de voltas e contravoltas do que bom-nome catingueiro.
Poesias que achava, às vezes, tão bonitas como os desafios de Manoel do Riachão e João Birro do Japi, cantadores que nas principais festas do ano nunca deixavam de se topetar por esses sertões afora. Infelizmente, o vigário da freguesia, que primeiro me ensinou a carta do A B C e mais tarde desistiu de meter-me na cabeça os princípios do latim, não esmoreceria em ativar o cuidado do meu avô de criação, a fim de impedir-me que me envenenasse com a leitura de obras amaldiçoadas.
Fossem ou não fossem excomungadas, não escaparam todavia à minha curiosidade Rocambole e O Judeu Errante, livros que me emprestou o boticário, herege famoso, mas falecido anos depois com todo os sacramentos da igreja e responsos do mundo beato, em louvor do convertido.
Duas coisas deram muito que falar a respeito desse homem bom: a heresia já referida e as histórias esquisitas, que costumava contar a propósito de casos ouvidos dos conversadores de todas as tardes, na porta de sua botica. O que ele contava por despique, e parecia história de onça, era quase sempre uma maneira branda de emendar o exagero do contador, sobretudo quando se tratava de caçada e prosa de caçador.
Às vezes não compreendiam o gracejo e o mentiroso era ele; mas se o entendiam, havia bate-boca e até malquerença, felizmente menos duradoura do que flor de muçambê.
De uma feita, certo caçador, estando ele presente, falou na façanha de um seu cadelo numa caçada de raposa.
A potoca foi tão grande que os do adjunto não se riram dela. Foi então que o boticário, em desforra à afronta feita a todos pelo mal-ensinado caçador, contou a seguinte anedota de um cachorro veadeiro.
O bicho, dizia ele, chamava-se Dourado. Era de bom tamanho, pesunho e cotó. No tempo em que o melhor cachorro não valia um bodete do dízimo, ele, boticário honrado, eleitor e juiz de fato, o comprara a seu dono por cem mil réis. A primeira vez que o soltou no piso de um veado, foi na aba da Serra do Cabugi, numa sexta-feira de agosto, o pôr-do-sol. Dourado saiu num galopinho de três pés, fareja aqui, fareja acolá, a princípio calado, o focinho, ora rasteiro com o chão, se as veredas e o carrasco consentiam, ora levantado para sorver no ar a direção da caça e, de atalho em atalho, encontrar de novo a batida. De repente, parou; farejou com a cabeça mais alta, deu um ganido impaciente e partiu como uma bala. Ainda lhe ouvi o latido três ou quatro vezes e depois fechou-se o mundo para mim, que nunca mais o alcancei. Cheguei em casa já com escuro, triste por ter perdido Dourado; e mais triste do que eu ficou a mulher para quem um cachorro de cem mil réis valia quase um chiqueiro de cabras. A noite passou-se sem novas nem mandadas do cadelo, e da mesma forma o dia seguinte, até que à primeira cantada do galo, de domingo para segunda-feira, acordei com as arranhaduras de um bicho na porta da frente e a voz alvoroçada da Felismina a bradar: corre, marido, que é Dourado. Levantei-me num sufragante, e, mal abria a porta, o cachorro esbaforido, a língua de fora e a baba a escorrer em fios dos cantos da boca, e começou a festejar-me ganindo de contentamento, as pernas dianteiras alçadas até onde me podiam alcançar, mordendo-me de vez em quando, com brandura, a perna da ceroula, num movimento de quem queria mostrar-me, no terreiro, alguma coisa que houvesse trazido.
- Já sabemos, gritaram os ouvintes, Dourado trouxe o bicho esquartejado.
- Estão vocês muito mal-enganados, respondeu o boticário; como o peso do veado morto fosse grande, o que ele trouxe foi o couro espichado.
Desta vez riram-se todos e a conversa continuou até perto do pôr-da-lua, quando cada qual foi se despedindo com sobrosso de perder o resto de claridade que lhes alumiasse o caminho de casa.
Naquele tempo, tão recuado na distância dos anos, se a luz da noite não vinha da lua e das estrelas, as cidades, vilas e povoados sertanejos ficavam na escuridão, esperando que Deus quisesse acender essas lamparinas do céu. Hoje, quase por toda parte, é a mão do homem que acende a luz com o simples manejo de uma tarraxa na parede.
Essa é uma das invenções que, alegrando as ruas, alegrou também a morada sertaneja, muito embora tivesse vindo favorecer o estabelecimento de casas de jogo, onde velhos e moços vão perder, todas as noites, o fruo do trabalho honrado.
Na minha caturrice de apego a todos os costumes do meu sertão antigo, tem-me acontecido ainda agora sentir saudade, no meio de tanta claridade, das casas mal-alumiadas de outros tempos em que essa quase escuridão de boca da noite fazia mais aconchegadas as pessoas da família, e o silêncio noturno tornava cada habitação um lugar de descanso espiritual e de reparação das forças gastas na labuta de todo dia.
Perdoe, Sr. Redator, esse desabafo de um sertanejo que, na peregrinação destes dias, não tem feito senão ressuscitar o sertão da mocidade, tão manso e tão bom que chego a me lembrar das fogueiras que já não se acendem e do aboio que ainda não ouvi, como quem se lembra da felicidade perdida e nunca mais encontrada.
Parelhas, fevereiro de 1926
Eloy de Castro, Cartas de um sertanejo
sexta-feira, novembro 13
Assim começa o livro...

Ele - pois não poderia haver dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época contribuísse para disfarçá‑lo - estava golpeando a cabeça de um mouro pendurada nas vigas do teto. Era da cor de uma velha bola de futebol e mais ou menos de igual formato, exceto pela face encovada e alguns fios de cabelo crespos e secos, como os pelos de um coco. O pai de Orlando, ou talvez seu avô,tinha cortado do tronco de um avantajado pagão que saltara diante dele numa noite de luar nas terras bárbaras da África, e agora balançava de leve, sem cessar, na brisa que nunca parava de soprar nos cômodos do sótão da gigantesca casa do senhor que o matara.
Os antepassados de Orlando haviam cavalgado nos campos de abróteas,50 em campos coalhados de pedras e em campos banhados por estranhos rios, tendo decepado muitas cabeças multicores de muitos ombros e as trazido para pendurá‑las nas vigas. Assim faria também Orlando, ele jurava. Mas, como só tinha dezesseis anos e era moço demais para acompanhá‑los nas incursões à África ou à França, saía às ocultas de perto de sua mãe e dos pavões no jardim escapando para seu quarto no sótão, onde dava estocadas e cortava o ar com golpes de espada a torto e a direito. Às vezes cindia a corda e a cabeça tombava no chão, obrigando‑o a prendê‑la de novo com tal cavalheirismo que seu inimigo lhe sorria triunfalmente com os lábios murchos e enegrecidos. O crânio oscilava porque a casa, no alto da qual ele vivia, era tão vasta que parecia aprisionar o próprio vento, soprando para um lado e para o outro no verão e no inverno. A tapeçaria verde com as figuras dos caçado res estava sempre em movimento. Seus antepassados eram nobres desde tempos imemoriais. Surgiram das brumas do norte com pequenas coroas nas cabeças.51 Os raios de sol,varando o imenso brasão formado pelos vitrais da janela, criavam faixas de sombra no quarto e manchas amarelas que tornavam o chão quadriculado. Orlando estava agora de pé no meio do corpo amarelo de um leopardo heráldico. Ao abrir a janela, sua mão, pousada no peitoril, se coloriu instantaneamente de vermelho, azul e amarelo, como uma asa de borboleta. Assim, aqueles que gostam de símbolos e têm uma queda para decifrá‑los podem observar que, embora as pernas bem‑feitas, o corpo elegante e os ombros fortes estivessem todos decorados com tons variados da luz heráldica, o rosto de Orlando, ao abrir de parem par a janela, era iluminado apenas pelo sol. Impossível encontrar um rosto mais cândido e taciturno. Feliz a mãe que gerou tal ser, mais feliz ainda a biógrafa que registra sua vida! Ela nunca se aborrecerá ou ele invocará a ajuda de alguma romancista ou poeta. De feito em feito, de glória em glória, de cargo em cargo ele irá, com um escriba o seguindo, até galgarem uma posição tão elevada quanto desejem. Orlando, bastava vê‑lo, estava fadado a ter uma carreira assim. O vermelho de suas bochechas era recoberto por uma penugem de pêssego, pouco mais rala que o buço. Os lábios eram finos e ligeiramente repuxados sobre os dentes de uma brancura extraordinária, qual amêndoas. Nada perturbava o voo curto e preciso do nariz reto como uma flecha; os cabelos eram pretos, as orelhas pequenas e bem rentes à cabeça. Mas, infelizmente, não se pode en cerrar esse rol de beleza juvenil sem mencionar a testa e os olhos. Pena que raramente alguém nasça sem todos os três,pois, pousando a vista em Orlando de pé junto à janela, seria forçoso admitir de pronto que seus olhos pareciam violetas encharcadas, tão grandes que a água dava a im pressão de ter chegado até a borda e os alargado; e a testa lembrava a protuberância de uma abóbada de mármore imprensada entre os dois medalhões em branco que eram suas têmporas. Tão logo vemos os olhos e a testa, cantamos suas loas. Tão logo vemos os olhos e a testa, precisamos admitir mil coisas desagradáveis que todo bom biógrafo busca ignorar. Certas visões o perturbavam, como a de sua mãe, uma bela senhora vestida de verde que vai alimentar os pavões com a criada Twitchett caminhando atrás dela; outras visões o exaltavam — os pássaros e as árvores — ou o faziam se apaixonar pela morte — o céu ao anoitecer, as gralhas que voltam a casa; e assim, subindo a escada caracol para chegar a seu cérebro — que era bem espaçoso —, todas essas visões, como também os sons do jardim, o bater do martelo, a madeira sendo cortada, provocavam a turbulência e confusão de paixões e emoções que todo bom biógrafo detesta. Mas continuemos: Orlando afastou a cabeça da janela, sentou‑se à mesa e, com o ar semiconsciente de quem faz a mesma coisa todos os dias àquela hora, abriu um caderno intitulado Aethelbert: uma tragédia em cinco atos e mergulhou no tinteiro uma velha e manchada pena de ganso.
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