terça-feira, setembro 1
O edifício
"Chegará o dia em que os teus pardieiros se transformarão em edifícios; naquele dia ficarás fora da lei"Miquéias, VII, 11
Batida a última estaca e concluídos os alicerces, o Conselho Superior da Fundação, a que incumbia a direção geral do empreendimento, dispensou os técnicos e operários, para, em seguida, recrutar nova equipe de profissionais e artífices.
1. A LENDA
Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
— Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.
Ao engenheiro responsável, recém-contratado, nada falaram das finalidades do prédio. Finalidades, aliás, que pouco interessavam a João Gaspar, orgulhoso como se encontrava de, no início da carreira, dirigir a construção do maior arranha-céu de que se tinha notícia.
Ouviu atentamente as instruções dos conselheiros, cujas barbas brancas, terminadas em ponta, lhes emprestavam aspecto de severa pertinácia.
Davam-lhe ampla liberdade, condicionando-a apenas a duas ou três normas, que deveriam ser corretamente observadas. A sua missão não seria somente exercer funções de natureza técnica. Envolvia toda a complexidade de um organismo singular. Os menores detalhes do funcionamento da empresa construtora estariam a seu cargo, cabendo-lhe proporcionar salários compensadores e constante assistência ao operariado. Competia-lhe, ainda, evitar quaisquer motivos de desarmonia entre os empregados. Essa diretriz, conforme lhe acentuaram, destinava-se a cumprir importante determinação dos falecidos idealizadores do projeto e anular a lenda corrente de que sobreviveria irremovível confusão no meio dos obreiros ao se atingir o octingentésimo andar do edifício e, consequentemente, o malogro definitivo do empreendimento.
No decorrer das minuciosas explicações dos dirigentes da Fundação, o jovem engenheiro conservou-se tranquilo, demonstrando absoluta confiança em si, e nenhum receio quanto ao êxito das obras. Houve, todavia, uma hora em que se perturbou ligeiramente, gaguejando uma frase ambígua. Já terminara a entrevista e ele recolhia os papéis espalhados pela mesa, quando um dos velhos o advertiu:
— Nesta construção não há lugar para os pretensiosos. Não pense em terminá-la, João Gaspar. Você morrerá bem antes disso. Nós que aqui estamos constituímos o terceiro Conselho da entidade e, como os anteriores, jamais alimentamos a vaidade de sermos o último.
2. A ADVERTÊNCIA
A mesma orientação que recebera dos seus superiores, o engenheiro a transmitiu aos subordinados imediatos. Nem sequer omitiu a advertência que o encabulara. E vendo que suas palavras tinham impressionado bem mais a seus ouvintes do que a ele as do ancião, sentiu-se plenamente satisfeito.
3. A COMISSÃO
João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira forma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar, oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.
João Gaspar era meticuloso e detestava improvisações. Antes de encher-se a primeira forma de concreto, instituiu uma comissão de controle para fiscalizar o pessoal, organizar tabelas de salários e elaborar um boletim destinado a registrar as ocorrências do dia.
Essa medida valeu maior rendimento de trabalho e evitou, por diversas vezes, dissensões entre os assalariados.
A fim de estimular a camaradagem entre os que lidavam na construção, desenvolviam-se aos domingos alegres programas sociais. Devido a esse e outros fatores, tudo corria tranquilamente, encaminhando-se a obra para as etapas previstas.
De cinquenta em cinquenta andares, João Gaspar, oferecia uma festa aos empregados. Fazia um discurso. Envelhecia.
4. O BAILE
Inquietante expectativa marcou a aproximação do 8002 pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências, Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.
Inquietante expectativa marcou a aproximação do 8002 pavimento. Redobraram-se os cuidados, triplicou-se o número de membros da Comissão de Controle, cuja atividade se tornara incessante, superando dificuldades, aplainando divergências, Deliberadamente, adiou-se o baile que se realizava ao termo de cada cinquenta pisos concluídos.
Afinal, dissiparam-se as preocupações. Haviam chegado sem embaraços ao octingentésimo andar. O acontecimento foi comemorado com uma festa maior que as precedentes.
Pela madrugada, porém, o álcool ingerido em demasia e um incidente de pequena importância provocaram um conflito de incrível violência. Homens e mulheres, indiscriminadamente, se atracaram com ferocidade, transformando o salão num amontoado de destroços. Enquanto cadeiras e garrafas cortavam o ar, o engenheiro, aflito, lutava para acalmar os ânimos. Não conseguiu. Um objeto pesado atingiu-o na cabeça, pondo fim a seus esforços conciliatórios. Quando voltou a si, o corpo ensanguentado e dolorido pelas pancadas e pontapés que recebera após a queda, sentiu-se vítima de terrível cilada. De modo inesperado, cumprira-se a antiga predição.
5. O EQUÍVOCO
Depois do incidente, João Gaspar trancou-se em casa, recusando-se a receber os seus mais íntimos colaboradores, para não ouvir deles palavras de consolo.
Já que se fazia impossível continuar as obras, desejava, ao menos, descobrir o erro em que incorrera. Acreditava ter obedecido fielmente às instruções do Conselho. Se fracassara, a culpa deveria ser atribuída à omissão de algum detalhe desconhecido da profecia.
A insistência dos auxiliares venceu sua teimosia e concordou em atendê-los. Queriam saber por que desanimara, não mais comparecera ao edifício. Ficara ressentido pela briga?
— Que adiantaria a minha presença? Não lhes satisfez a minha humilhação?
— Como? — indagaram. — Aquilo fora uma simples bebedeira. — Estavam todos envergonhados com o que acontecera e lhe pediam desculpas.
— E ninguém abandonou o trabalho?
Ante a resposta negativa, ele se abraçou aos companheiros:
— Daqui para frente nenhum obstáculo interromperá nossos planos! (Os olhos permaneciam umedecidos, mas os lábios ostentavam um sorriso de altivez.)
6. O RELATÓRIO
Em ambiente calmo, todos se empenhando nas suas tarefas, mais noventa e seis andares foram acrescidos ao prédio. As coisas seguiam perfeitas, a média de trabalho dos assalariados era excelente.
Empolgado por um delirante contentamento, o engenheiro distribuía gratificações, desfazia-se em gentilezas com o pessoal, vagava pelas escadas, debruçava-se nas janelas, dava pulos, enrolava nas mãos as barbas embranquecidas.
Para prolongar o sabor do triunfo, que o cansaço começava solapar, ocorreu-lhe redigir um circunstanciado relatório aos diretores da Fundação, contando os pormenores da vitória. Demonstraria também a impossibilidade de surgir, no futuro, outras profecias que pudessem embaraçar o prosseguimento das obras. Ultimado o memorial, ele se dirigiu à sede do Conselho, lugar em que estivera poucas vezes e em época bem remota. Em vez dos cumprimentos que julgava merecer, uma surpresa o aguardava: haviam morrido os últimos conselheiros e, de acordo com as normas estabelecidas após a desmoralização da lenda, não se preencheram as vagas abertas.
Ainda duvidando do que ouvira, o engenheiro indagou ao arquivista — único auxiliar remanescente do enorme corpo de funcionários da entidade — se lhe tinham deixado recomendações especiais para a continuação do prédio.
De nada sabia, nem mesmo por que estava ali, sem patrões e serviços a executar.
Ansiosos por descobrir documentos que os orientassem, atiraram-se à faina de revolver armários e arquivos. Nada conseguiram. Só encontraram especificações técnicas e uma frase que, amiúde, aparecia à margem de livros, relatórios e plantas: "É preciso evitar-se a confusão. Ela virá ao cabo do octingentésimo pavimento".
7. A DÚVIDA
Esvaíra-se a euforia de João Gaspar. Vago e melancólico, retornou ao edifício. Da última laje, as mãos apoiadas na cintura, teve um momento de mesquinha grandeza, julgando-se senhor absoluto do monumento que estava a seus pés. Quem mais poderia ser, desde que o Conselho se extinguira?!
Fugaz foi o seu desmedido orgulho. Ao regressar a casa, onde sempre faltara a diligência de uns dedos femininos, as dúvidas o perseguiam. Por que legavam a um mero profissional tamanho encargo? Quais os objetivos dos que tinham idealizado tão absurdo arranha-céu?
As perguntas iam e vinham, enquanto o edifício se elevava e menores se faziam as probabilidades de se tornar claro o que nascera misterioso.
Sorrateiro, o desânimo substituiu nele o primitivo entusiasmo pela obra. Queixava-se aos amigos do tédio que lhe provocava o infindável movimento de argamassa, pedra britada, fôrmas de madeira, além da angústia que sentia, vendo o monótono subir e descer de elevadores.
Quando a ansiedade ameaçou levá-lo ao colapso, convocou os trabalhadores para uma reunião. Explicou-lhes, com enfática riqueza de detalhes, que a dissolução do Conselho obrigava-o a paralisar a construção do edifício.
— Falta-nos, agora, um plano diretor. Sem este não vejo razões para se construir um prédio interminável — concluiu.
Os operários ouviram tudo com respeitoso silêncio e, em nome deles, respondeu firme e duro um especialista em concretagem:
— Acatamos o senhor como chefe, mas as ordens que recebemos partiram de autoridades superiores e não foram revogadas.
8. O DESESPERO
João Gaspar, inutilmente, apelaria para a compreensão dos servidores. Usava recursos convincentes, numa linguagem branda, porque seus propósitos eram pacíficos. Igualmente corteses, os empregados repeliam a ideia de abandonar o trabalho.
— Ouçam-me — pedia ele, impaciente com a obstinação dos subordinados. — É inexequível um monstro de ilimitados pavimentos! Seria necessário que as fundações fossem reforçadas à medida que se aumentasse o número de andares. Também isto é impraticável.
Apesar de ouvido sempre com atenção, não convencia a ninguém. E teve que assumir uma atitude de intransigência, demitindo todo o pessoal.
Os operários se negaram a aceitar o ato de dispensa. Alegavam a irrevogabilidade das determinações dos falecidos conselheiros. Por fim, disseram que iriam trabalhar à noite e aos domingos, independente de qualquer pagamento adicional.
9. O ENGANO
A decisão dos assalariados de aumentar o número de horas de serviço deu novo alento ao engenheiro, que esperava vê-los vencidos pela estafa, pois lhes seria impossível manter por muito tempo semelhante esforço coletivo.
Logo verificaria seu engano. Além de não apresentarem sinais de cansaço, para ajudá-los vieram das cidades vizinhas centenas de trabalhadores que se dispunham a auxiliar gratuitamente os colegas. Vinham cantando, sobraçando as ferramentas, como se preparados para longa e alegre campanha.
Pouco adiantava recusar-lhes a colaboração, eles mesmos escolhiam as tarefas e as iniciavam com entusiasmo, indiferentes à agressiva repulsa de João Gaspar.
10. OS DISCURSOS
Vendo multiplicar as levas de voluntários, o engenheiro, não teve mais ânimo de enxotá-los. Passou a percorrer, um por um, os andaimes, exortando-os a abandonar o trabalho. Fazia longos discursos e, muitas vezes, caía desfalecido de tanto falar.
A princípio, os empregados se desculpavam, constrangidos por não ouvirem atentamente as suas palavras. Com o passar dos anos, habituaram-se a elas e as consideravam peça importante nas recomendações recebidas pelo engenheiro-chefe antes da dissolução do Conselho.
Não raro, entusiasmados com a beleza das imagens do orador, pediam-lhe que as repetisse. João Gaspar se enfurecia, desmandava-se em violentos insultos. Mas estes vinham vazados em tão bom estilo, que ninguém se irritava. E, risonhos, os obreiros retornavam ao serviço, enquanto o edifício continuava a ganhar altura.
Murilo Rubião, Obra completa
A verdadeira mão
A verdadeira mão que o poeta estende
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Ana Hatherly, "O Pavão Negro"
não tem dedos:
é um gesto que se perde
no próprio acto de dar-se
O poeta desaparece
na verdade da sua ausência
dissolve-se no biombo da escrita
O poema é
a única
a verdadeira mão que o poeta estende
E quando o poema é bom
não te aperta a mão:
aperta-te a garganta
Ana Hatherly, "O Pavão Negro"
O holandês que cortava pepinos
A última coisa que se soube sobre o Holandês é que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico. Era um homem muito alto, gordo, com uma grande cara vermelha e gaiata; gostava de tomar cerveja consumindo toda sorte de peixes em conserva, frios, do Báltico. E frequentava um bar que havia em Tânger chamado Consulado — um bar cujo nome permitia a cônsules e auxiliares de qualquer país telefonar para casa a qualquer hora dizendo honradamente que estavam no Consulado.
Fez um gesto com a imensa mão mandando que esperassem, foi ao telefone, demorou dez minutos, puxou um lápis do bolso, fez uns cálculos em um guardanapo de papel e anunciou que a 45 dólares por cabeça levaria oito pessoas a Sevilha para os dois últimos dias da Feira — sábado e domingo — incluindo transporte, alojamento, breakfast. Depois, com a maior naturalidade, tirou do bolso uma tábua de marés, estudou-a e disse: “Saímos sexta às 10:45 da noite, podemos estar de volta segunda-feira antes das duas da tarde.”
Quase ninguém ali trabalhava aos sábados; era matar apenas o primeiro expediente da segunda-feira. Na hora marcada todos embarcavam alegremente em um pequeno iate, menos a mulher do Holandês. Menos, quer dizer: ela embarcava, mas não alegremente; pelo contrário, chorava sem cessar, fazia "não" com a cabeça e puxava pelo paletó o seu grande marido que se curvava para ouvir recriminações ditas em segredo e depois piscava um olho para os outros, como quem diz: coisa de mulher. E bebia mais uma cerveja.
Atravessaram o estreito de Gibraltar em direção a Tarifa, foram bordejando a costa espanhola. Ao amanhecer, o Holandês apontou, à direita, Trafalgar e falou das relações do Almirante Nelson com os judeus de Tânger; na barra do rio que leva a Sevilha explicou que Guadalquivir vem do árabe “Ued-El-Kabir”, Rio Grande; sabia tudo, o Holandês, inclusive, como se viu depois, a origem das "casetas" da feira e a história dos negros touros miúras; só não sabia que, apesar de haver bem calculado a maré, seria impossível na volta, segunda-feira pela manhã, transpor a barra do rio de retorno ao Atlântico, isto porque duas lanchas da polícia rodearam o iate e uma delas acabou se atravessando em seu caminho, e obrigou-o a parar. Os homens que subiram a bordo declararam que o Holandês estava preso e o iate provisoriamente apreendido. O embaixador brasileiro no reino de Marrocos e o seu cônsul em Tânger discutiram a situação; conseguiram liberar o iate depois de provar que ele não pertencia ao Holandês, nem este era seu verdadeiro capitão, mas sim um amarfanhado marinheiro velho e louro que mostrou seus documentos. O cônsul ainda foi a terra ver se soltava o Holandês, mas desanimou diante de um telegrama da Interpol. A mulherzinha desmaiou; fez-se vir um médico de terra que a reanimou e levou de volta fumo de cachimbo para o prisioneiro. “Eu bem sabia, eu bem dizia”, dizia ela, “ele é louco”; e chorava mais.
Todos ficaram consternados: a) porque com a baixa maré só iriam chegar a Tânger à noite; b) porque o Holandês era boa-praça, tanto que fizera questão de oferecer uma ceia aquela madrugada, que ele mesmo preparava — “eu o vi cortar pepinos (disse a mulher de um vice-cônsul), com que cuidado ele cortava os pepinos, o pobre homem!”
Bem, naturalmente não fora por ele cortar mal pepinos que a Interpol o prendera, e sim por algum outro motivo, que não se soube. Tudo o que se soube, como eu já disse, foi que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico, o bom Holandês.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
O Holandês não era cônsul, era homem de negócios — não de um grande negócio, mas de muitos pequenos negócios, por exemplo: sócio de um varejo de cigarros e de dois táxis de turismo, intermediário correto na venda de alguns artigos de contrabando, representante de uma companhia de navegação cujos navios nunca vinham a Tânger, mas aceitavam transbordo de mercadorias para alguns portos do Mar do Norte; organizador de banquetes e coquetéis; entendia um pouco de tudo, inclusive de moedas e selos raros; tinha uma pequena mulher de cabelos brancos azulados, sempre de calças compridas, sorridente, de olhos azuis, com uns restos de beleza; fumava cachimbo; às vezes lhe vinham ideias. Aquela ideia lhe veio na madrugada de quinta para sexta-feira, duas semanas depois da Semana Santa, quando alguém da roda se queixou de que não conseguira transporte nem alojamento para assistir à Feira de Sevilha... Mais duas ou três pessoas concordaram em que realmente o papel seria ir a Sevilha, e o Holandês perguntou: — Vocês querem ir a Sevilha?
Fez um gesto com a imensa mão mandando que esperassem, foi ao telefone, demorou dez minutos, puxou um lápis do bolso, fez uns cálculos em um guardanapo de papel e anunciou que a 45 dólares por cabeça levaria oito pessoas a Sevilha para os dois últimos dias da Feira — sábado e domingo — incluindo transporte, alojamento, breakfast. Depois, com a maior naturalidade, tirou do bolso uma tábua de marés, estudou-a e disse: “Saímos sexta às 10:45 da noite, podemos estar de volta segunda-feira antes das duas da tarde.”
Quase ninguém ali trabalhava aos sábados; era matar apenas o primeiro expediente da segunda-feira. Na hora marcada todos embarcavam alegremente em um pequeno iate, menos a mulher do Holandês. Menos, quer dizer: ela embarcava, mas não alegremente; pelo contrário, chorava sem cessar, fazia "não" com a cabeça e puxava pelo paletó o seu grande marido que se curvava para ouvir recriminações ditas em segredo e depois piscava um olho para os outros, como quem diz: coisa de mulher. E bebia mais uma cerveja.
Atravessaram o estreito de Gibraltar em direção a Tarifa, foram bordejando a costa espanhola. Ao amanhecer, o Holandês apontou, à direita, Trafalgar e falou das relações do Almirante Nelson com os judeus de Tânger; na barra do rio que leva a Sevilha explicou que Guadalquivir vem do árabe “Ued-El-Kabir”, Rio Grande; sabia tudo, o Holandês, inclusive, como se viu depois, a origem das "casetas" da feira e a história dos negros touros miúras; só não sabia que, apesar de haver bem calculado a maré, seria impossível na volta, segunda-feira pela manhã, transpor a barra do rio de retorno ao Atlântico, isto porque duas lanchas da polícia rodearam o iate e uma delas acabou se atravessando em seu caminho, e obrigou-o a parar. Os homens que subiram a bordo declararam que o Holandês estava preso e o iate provisoriamente apreendido. O embaixador brasileiro no reino de Marrocos e o seu cônsul em Tânger discutiram a situação; conseguiram liberar o iate depois de provar que ele não pertencia ao Holandês, nem este era seu verdadeiro capitão, mas sim um amarfanhado marinheiro velho e louro que mostrou seus documentos. O cônsul ainda foi a terra ver se soltava o Holandês, mas desanimou diante de um telegrama da Interpol. A mulherzinha desmaiou; fez-se vir um médico de terra que a reanimou e levou de volta fumo de cachimbo para o prisioneiro. “Eu bem sabia, eu bem dizia”, dizia ela, “ele é louco”; e chorava mais.
Todos ficaram consternados: a) porque com a baixa maré só iriam chegar a Tânger à noite; b) porque o Holandês era boa-praça, tanto que fizera questão de oferecer uma ceia aquela madrugada, que ele mesmo preparava — “eu o vi cortar pepinos (disse a mulher de um vice-cônsul), com que cuidado ele cortava os pepinos, o pobre homem!”
Bem, naturalmente não fora por ele cortar mal pepinos que a Interpol o prendera, e sim por algum outro motivo, que não se soube. Tudo o que se soube, como eu já disse, foi que ele era nascido na Albânia e tinha passaporte britânico, o bom Holandês.
Rubem Braga, "Recado de primavera"
O ronco do lobo
Estou na sala de espera de um médico. Machuquei o braço, preciso de um raio X. A sala está cheia, vai demorar. Para me distrair, por vício, passo a observar as pessoas à minha frente. Bem diante de mim, está um homem grande, de face afogueada e orelhas tortas, sustentadas por um pescoço que mais parece um tronco. Veias negras, como formigas, descem em direção a seu peito. O nariz tem a forma de um bico. Tudo nele remete ao mundo natural. Não aos encantos, mas à brutalidade da natureza.
Veste um paletó social que, mesmo surrado, não combina com sua rudeza de camponês. As sandálias, meladas de terra, denunciam a incompatibilidade entre os dois. Tudo nele, como em uma avalanche, despenca. E esse desmoronamento, que não consigo deixar de ver, logo me provoca um estranho desgosto. O estômago embrulha. Seguro a náusea, respiro fundo, mas continuo a investigar o homem. Preciso descobrir o que nele me afronta. Seu olhar e seu desamparo me incomodam. Por quê?
O que espero de um homem que espera em uma sala de espera? Falo também de mim, ansioso e amuado, preso à mesma esperança. Vão demorar a nos atender. Vem-me, então, a vontade insensata de perguntar ao homem como ele me vê. Pedir que ele faça a gentileza de me dizer quem sou. Pobre homem, não me entenderá e me tomará por louco. Essas são perguntas que só fazemos às escondidas. São perguntas indecentes, que rompem o equilíbrio da existência. Não se fazem, não devem ser feitas, e por isso não farei.
A pergunta, contudo, continua a me arder a garganta, mas, de meu interior, não vem resposta alguma. Só agora, quando o homem a deixa cair no chão, percebo que ele se abraça a uma pasta. Quando se abaixa para apanhá-la, o paletó se esgarça às suas costas, prestes a se romper. Não é só um paletó usado, é um paletó comprado em uma loja de usados. Ou herdado de algum falecido da família. Um sinal de penúria e de dor.
Custa a alcançar a pasta caída a seus pés, pois a barriga o atrapalha. Vem-me o medo de que ele se desequilibre e role no chão. Medo, ou desejo? Tudo pode acontecer com esse homem. As orelhas estão ainda mais vermelhas. A qualquer momento, ele pode explodir. Tentando ser melhor do que sou, ergo-me e digo: “O senhor quer ajuda?”. Desempenho o papel errado, pois sou bem mais velho do que ele. “Pode deixar”, ele se limita a dizer, erguendo o rosto. Volto a meu lugar. Que se dane. Que despenque como uma árvore velha e se esparrame no chão. Mas por que sinto tanta raiva do sujeito? O que no pobre homem me incomoda tanto?
Um dos atendentes chama: “Senhor José Manuel”. O homem imediatamente se levanta e vai até o guichê. Tudo se passa a meu lado, posso ouvir a conversa. “Falta um documento”, o rapaz diz. “Falta seu CPF.” O homem começa a remexer na pasta, mas não encontra o que procura. “O RG não basta?” O recepcionista, que usa um brinco ameaçador em forma de foice, avalia: “Não, seu RG não traz o CPF”. Fala com tom de autoridade — como se o homem, a qualquer momento, pudesse ser preso. Faz cara feia. Será que vai colocá-lo de castigo? Procuro as algemas, não existem algemas. Preciso controlar meus pensamentos. Eles me esfaqueiam e eu os desconheço.
Também eu visto um paletó social. Só que, em vez de sandálias, calço sapatos novos e escovados. Meu terno não é novo, mas quase nunca o uso. Minhas meias são de seda. Será isso, essa estampa de homem civilizado, que me indispõe com o homem da pasta? Essa ideia não faz sentido algum, e chega a ser repulsiva. Vou dizer a verdade: fico torcendo para que ele seja impedido de fazer seu exame. Que seja mandado de volta para casa. Que sofra. Que seja castigado. Mas por que ele deveria ser castigado? De onde vem esse meu ódio? O que o sujeito me fez?
Começo a sentir medo do ódio que cresce dentro de mim. O que me perturba não é o homem, mas o que sinto. A náusea, descabida, aumenta. A repulsa. Não repulsa ao homem, mas repulsa a mim mesmo. Tento pensar em outra coisa. Tento silenciar. Tento me castigar? Ouço estalos de chicote que vêm dos fundos da recepção. Sei que são uma ilusão, são obra de meus nervos, mas meu medo aumenta. Agora tenho a sensação de que o homem, ciente de meus pensamentos agressivos, passa a me encarar. Só me resta encará-lo também.
E só então vejo claramente: grossas lágrimas escorrem dos olhos do homem da pasta. Se a falta de um documento o impede de fazer o exame, por que ainda espera? Já devia ter ido embora. Devia, mas não foi. Voltou à mesma cadeira e continua a esperar. O que mais ele quer? As lágrimas aumentam e escorrem pelas bochechas. Em desamparo, ele se abraça mais ainda à pasta. O mais grave, o mais intolerável é que, quanto mais lágrimas escorrem em sua face, mais raiva eu sinto. Raiva do homem, ou de mim?
Preciso admitir: sou eu, com minha aparência civilizada e limpa, que carrego um lobo no peito. É em mim que a natureza se torna desgovernada e cruel. Sou eu o agressor, e não ele. Sou eu o selvagem. Entendo então que devo fugir dali, já que é impossível fugir de mim. Vou até o guichê e devolvo a senha. “Não posso esperar mais.” O rapaz examina o número e diz: “Mas o senhor será o próximo”. Tentando matar o lobo que carrego no peito, sem pensar, eu sugiro: “Está vendo o homem da pasta? Chame-o em meu lugar”. O rapaz é ríspido: “Isso é impossível. Ele não trouxe os documentos necessários”.
Penso em me despedir do homem da pasta. Mas ele não me entenderá. Na verdade, é de mim, ou de algo em mim, que me despeço. Do lobo? Ainda o examino mais um pouco. Ele se agarra à pasta, como a um bote salva-vidas. Agora está claro: o nojo que sinto é de mim mesmo. O homem da pasta é só um álibi. Uma vítima. Um trampolim que usei para chegar ao pior de mim. De repente, o sujeito passa a soluçar. Uma senhora se ergue e o consola. Ampara-o, zelosa, até a toalete. Logo que eles desaparecem no corredor, saio em disparada pela entrada principal. Chamo um Uber. Respiro fundo. Fujo, mas o maldito lobo continua no meu pé.
Veste um paletó social que, mesmo surrado, não combina com sua rudeza de camponês. As sandálias, meladas de terra, denunciam a incompatibilidade entre os dois. Tudo nele, como em uma avalanche, despenca. E esse desmoronamento, que não consigo deixar de ver, logo me provoca um estranho desgosto. O estômago embrulha. Seguro a náusea, respiro fundo, mas continuo a investigar o homem. Preciso descobrir o que nele me afronta. Seu olhar e seu desamparo me incomodam. Por quê?
O que espero de um homem que espera em uma sala de espera? Falo também de mim, ansioso e amuado, preso à mesma esperança. Vão demorar a nos atender. Vem-me, então, a vontade insensata de perguntar ao homem como ele me vê. Pedir que ele faça a gentileza de me dizer quem sou. Pobre homem, não me entenderá e me tomará por louco. Essas são perguntas que só fazemos às escondidas. São perguntas indecentes, que rompem o equilíbrio da existência. Não se fazem, não devem ser feitas, e por isso não farei.
A pergunta, contudo, continua a me arder a garganta, mas, de meu interior, não vem resposta alguma. Só agora, quando o homem a deixa cair no chão, percebo que ele se abraça a uma pasta. Quando se abaixa para apanhá-la, o paletó se esgarça às suas costas, prestes a se romper. Não é só um paletó usado, é um paletó comprado em uma loja de usados. Ou herdado de algum falecido da família. Um sinal de penúria e de dor.
Custa a alcançar a pasta caída a seus pés, pois a barriga o atrapalha. Vem-me o medo de que ele se desequilibre e role no chão. Medo, ou desejo? Tudo pode acontecer com esse homem. As orelhas estão ainda mais vermelhas. A qualquer momento, ele pode explodir. Tentando ser melhor do que sou, ergo-me e digo: “O senhor quer ajuda?”. Desempenho o papel errado, pois sou bem mais velho do que ele. “Pode deixar”, ele se limita a dizer, erguendo o rosto. Volto a meu lugar. Que se dane. Que despenque como uma árvore velha e se esparrame no chão. Mas por que sinto tanta raiva do sujeito? O que no pobre homem me incomoda tanto?
Um dos atendentes chama: “Senhor José Manuel”. O homem imediatamente se levanta e vai até o guichê. Tudo se passa a meu lado, posso ouvir a conversa. “Falta um documento”, o rapaz diz. “Falta seu CPF.” O homem começa a remexer na pasta, mas não encontra o que procura. “O RG não basta?” O recepcionista, que usa um brinco ameaçador em forma de foice, avalia: “Não, seu RG não traz o CPF”. Fala com tom de autoridade — como se o homem, a qualquer momento, pudesse ser preso. Faz cara feia. Será que vai colocá-lo de castigo? Procuro as algemas, não existem algemas. Preciso controlar meus pensamentos. Eles me esfaqueiam e eu os desconheço.
Também eu visto um paletó social. Só que, em vez de sandálias, calço sapatos novos e escovados. Meu terno não é novo, mas quase nunca o uso. Minhas meias são de seda. Será isso, essa estampa de homem civilizado, que me indispõe com o homem da pasta? Essa ideia não faz sentido algum, e chega a ser repulsiva. Vou dizer a verdade: fico torcendo para que ele seja impedido de fazer seu exame. Que seja mandado de volta para casa. Que sofra. Que seja castigado. Mas por que ele deveria ser castigado? De onde vem esse meu ódio? O que o sujeito me fez?
Começo a sentir medo do ódio que cresce dentro de mim. O que me perturba não é o homem, mas o que sinto. A náusea, descabida, aumenta. A repulsa. Não repulsa ao homem, mas repulsa a mim mesmo. Tento pensar em outra coisa. Tento silenciar. Tento me castigar? Ouço estalos de chicote que vêm dos fundos da recepção. Sei que são uma ilusão, são obra de meus nervos, mas meu medo aumenta. Agora tenho a sensação de que o homem, ciente de meus pensamentos agressivos, passa a me encarar. Só me resta encará-lo também.
E só então vejo claramente: grossas lágrimas escorrem dos olhos do homem da pasta. Se a falta de um documento o impede de fazer o exame, por que ainda espera? Já devia ter ido embora. Devia, mas não foi. Voltou à mesma cadeira e continua a esperar. O que mais ele quer? As lágrimas aumentam e escorrem pelas bochechas. Em desamparo, ele se abraça mais ainda à pasta. O mais grave, o mais intolerável é que, quanto mais lágrimas escorrem em sua face, mais raiva eu sinto. Raiva do homem, ou de mim?
Preciso admitir: sou eu, com minha aparência civilizada e limpa, que carrego um lobo no peito. É em mim que a natureza se torna desgovernada e cruel. Sou eu o agressor, e não ele. Sou eu o selvagem. Entendo então que devo fugir dali, já que é impossível fugir de mim. Vou até o guichê e devolvo a senha. “Não posso esperar mais.” O rapaz examina o número e diz: “Mas o senhor será o próximo”. Tentando matar o lobo que carrego no peito, sem pensar, eu sugiro: “Está vendo o homem da pasta? Chame-o em meu lugar”. O rapaz é ríspido: “Isso é impossível. Ele não trouxe os documentos necessários”.
Penso em me despedir do homem da pasta. Mas ele não me entenderá. Na verdade, é de mim, ou de algo em mim, que me despeço. Do lobo? Ainda o examino mais um pouco. Ele se agarra à pasta, como a um bote salva-vidas. Agora está claro: o nojo que sinto é de mim mesmo. O homem da pasta é só um álibi. Uma vítima. Um trampolim que usei para chegar ao pior de mim. De repente, o sujeito passa a soluçar. Uma senhora se ergue e o consola. Ampara-o, zelosa, até a toalete. Logo que eles desaparecem no corredor, saio em disparada pela entrada principal. Chamo um Uber. Respiro fundo. Fujo, mas o maldito lobo continua no meu pé.
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