Julinha acreditava em destino. E acreditava com tanto fervor que, para respeitar um de seus direitos de personagem, refaço a frase e digo que ela acreditava no Destino (assim, com maiúscula). Tinha tanta reverência pelo Destino que o confundia com Deus. Houve um tempo em que ela via a teia do Destino em todos os acontecimentos do seu dia a dia, mesmo os mais insignificantes: pegar ou perder o ônibus das sete, chegar ou não chegar dez minutos atrasada ao trabalho, conseguir ou não marcar as férias para janeiro.
Depois, concluiu que a intervenção do Destino não podia se dar nesse nível do faz-frio-ou-calor, do chove-ou-deixa-de-chover. E, por atribuir tão importante papel ao Destino, ela se pôs a esperar que ele a recompensasse. Não pedia muito: um emprego melhor e um amor que merecesse o nome.
Trabalhava fazia dois anos na lojinha e, apesar das contínuas promessas de promoção, continuava na mesma. Quando falava com o dono, ele dizia que a loja ia mal, como se Julinha não visse que das oito às dezoito os fregueses formigavam ali, tanto que outra garota havia sido contratada para ajudar.
Esse não era o maior desgosto de Julinha. Poderia suportá-lo, se, ao sair do trabalho, triturada de cansaço, tivesse alguém que a levasse ao cinema, ou ao shopping, ou ao restaurante, e lhe dissesse Julinha eu te amo. Não faltava quem se dispusesse a fazer isso, e até mais. Toda semana, dois ou três se candidatavam. Mas nenhum vinha recomendado pelo Destino. Se viesse, Julinha saberia reconhecer os sinais.
Certa manhã, Julinha viu no balcão um jornal aberto nos classificados. Um freguês devia tê-lo esquecido ali. Quando ela leu o anúncio que estava no alto da página, sentiu que era um recado do Destino. Uma grande loja precisava de uma balconista e oferecia um salário cinco vezes superior ao dela. Julinha não pensou duas vezes. Eram nove horas e, se ela hesitasse, perderia a oportunidade. Pôs a mão na cabeça e começou a gemer. A outra garota disse ao dono da loja que Julinha estava passando mal. Julinha pediu licença para ir à farmácia. Saiu já sabendo que jamais voltaria a trabalhar lá. O Destino já havia escrito a sequência da história.
Andou dois quarteirões, pegou um ônibus e meia hora depois estava na grande loja, pondo numa ficha suas qualificações. O rapaz incumbido de orientar as candidatas piscou para ela e disse, baixo, que ela era muito bonita, sabia? Não havia mais dúvida. Era o Destino, atendendo de uma só vez os dois pedidos de Julinha.
O rapaz, ao pedir que Julinha voltasse às seis da tarde, para saber a resposta, piscou de novo. Ela foi à lojinha e pediu as contas.
O dono não mostrou surpresa e disse que aquilo era até bom. Podia, assim, promover a outra garota, que já estava merecendo. E a garota abriu para Julinha um sorriso estranho.
Julinha foi para casa, almoçou e dormiu até as três. Depois, tomou um banho bem longo, vestiu a melhor roupa e saiu. Chegou à loja cinco minutos antes das seis. O rapaz a recebeu com a terceira piscada do dia e pediu que ela esperasse um pouco. Às seis, todos foram saindo. Ele saiu também, com ela.
“Bom, fui aprovada?”, ela perguntou.
“Aconteceu um problema. O gerente deu o lugar para uma prima.”
Ela quase disse que aquilo era impossível, que o Destino não se enganaria assim, mas o rapaz já a estava fazendo entrar num carro, no estacionamento do prédio. Bom, ela pensou, se não se pode ter tudo, que se tenha pelo menos o amor.
O rapaz ligou o carro, deslizou a mão pela perna dela ao pôr a primeira marcha e disse:
“Olha, antes de qualquer coisa você precisa saber que eu sou casado e tenho três filhos.”
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