A mulher pôs o prato cuidadosamente na mesa, diante do homem.
“O que é isto?”, ele disse, contrariado.
“Sua sopa fa…”
“Sopa? Quem falou que eu…”
“…vorita.”
“…gosto de sopa?”
A mulher agora estava com a concha na mão, colocando sopa no próprio prato. O homem ficou acompanhando cada movimento dela, com repugnância.
“Você está olhando o quê?”, ela perguntou.
“Quero ver se você vai ter coragem de tomar esse veneno.”
“Veneno? Só tem coisa boa aqui. Batata, legumes, tudo fresco, saudável.”
Antigamente ele tinha senso de humor e nas reuniões de família às vezes até contava piadas com muito espírito. Mas fazia tempo, muito tempo, que ele não brincava e, por isso, se ele tinha dito que a sopa era um veneno, a mulher sabia que era isso mesmo que ele queria dizer. Todas as palavras dele agora cortavam como faca, sangravam. Ele empurrou o prato para o lado.
“Você não vai nem experimentar?”, ela ainda tentou.
“Não. Você está pensando que eu sou louco? Vamos combinar uma coisa. Se você tomar essa sopa toda e continuar viva, sem dar uma estrebuchadinha, você me faz um sanduíche de queijo, está bom? Sem legumes.”
Sem ter dado sequer uma colherada, a mulher levantou-se e foi até a geladeira, para apanhar o queijo. Depois abriu o pacote de pão e, enquanto pegava duas fatias, olhou obliquamente para o homem. Era impressionante como havia mudado o rosto dele nos dois últimos anos: mais nenhum dos gostosos sorrisos que a tinham fascinado desde o primeiro dia, na sessão de cinema em que se conheceram, e durante quase vinte anos.
Sob o olhar cauteloso e triste da mulher, o homem sentiu uma profunda vergonha, um agudo remorso. Se nada mais era como antes, se o casamento estava desandando, era dele toda a culpa. Dele, que não via mais encanto nos olhos verdes da mulher, na sua boca, no corpo ainda jovem.
Enquanto fazia o sanduíche, a mulher, para aliviar a tensão, começou a cantarolar.
“Você devia ser lavadeira, sabia?”, ele comentou. “As lavadeiras gostam de ficar cantando na beira do rio. Você leva jeito.”
Ela colocou o sanduíche num prato:
“Vê se está bom.”
O homem abominou aquela voz, que anos antes arrepiava deliciosamente cada pelo do seu corpo. Mordeu o sanduíche com raiva.
“Está bom?”, ela insistiu. “Se você quiser, eu posso pôr presunto. Quer ketchup, mostarda?”
Ele cuspiu na mão o pedaço que tinha mastigado.
“O que foi?”
“Um cabelo aqui bem no meio do queijo”, o homem mentiu, para que a mulher soubesse que nem mais os cabelos dela, outrora tão amados e beijados, ele suportava ver.
Ele se levantou bruscamente, quase derrubando a cadeira, e foi pegar o paletó na sala.
“Vou sair e não sei a que horas volto.”
“Não é melhor pôr um casaco? A tevê disse que vai esfriar muito, uns cinco ou seis graus.”
“Pode ser. E de madrugada é bem capaz de piorar. Mas amanhã cedo deve vir o sol. A tevê não disse isso também?”, ele perguntou, sentindo-se desonesto, crápula, covarde.
A mulher estava pensando que ele era mesmo desonesto, crápula e covarde, e ela gostaria de dizer isso a ele, mas jamais conseguiria – não porque fosse submissa ou medrosa, mas porque, ao contrário dele, tinha educação, estilo, classe. No dia em que ela fosse embora, iria sem dizer uma palavra.

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