domingo, novembro 8

Como foi que tudo mudou assim

A mulher pôs o prato cuidadosamente na mesa, diante do homem.

“O que é isto?”, ele disse, contrariado.

“Sua sopa fa…”

“Sopa? Quem falou que eu…”

“…vorita.”

“…gosto de sopa?”

A mulher agora estava com a concha na mão, colocando sopa no próprio prato. O homem ficou acompanhando cada movimento dela, com repugnância.

“Você está olhando o quê?”, ela perguntou.

“Quero ver se você vai ter coragem de tomar esse veneno.”

“Veneno? Só tem coisa boa aqui. Batata, legumes, tudo fresco, saudável.”

Antigamente ele tinha senso de humor e nas reuniões de família às vezes até contava piadas com muito espírito. Mas fazia tempo, muito tempo, que ele não brincava e, por isso, se ele tinha dito que a sopa era um veneno, a mulher sabia que era isso mesmo que ele queria dizer. Todas as palavras dele agora cortavam como faca, sangravam. Ele empurrou o prato para o lado.

“Você não vai nem experimentar?”, ela ainda tentou.

“Não. Você está pensando que eu sou louco? Vamos combinar uma coisa. Se você tomar essa sopa toda e continuar viva, sem dar uma estrebuchadinha, você me faz um sanduíche de queijo, está bom? Sem legumes.”

Sem ter dado sequer uma colherada, a mulher levantou-se e foi até a geladeira, para apanhar o queijo. Depois abriu o pacote de pão e, enquanto pegava duas fatias, olhou obliquamente para o homem. Era impressionante como havia mudado o rosto dele nos dois últimos anos: mais nenhum dos gostosos sorrisos que a tinham fascinado desde o primeiro dia, na sessão de cinema em que se conheceram, e durante quase vinte anos.

Sob o olhar cauteloso e triste da mulher, o homem sentiu uma profunda vergonha, um agudo remorso. Se nada mais era como antes, se o casamento estava desandando, era dele toda a culpa. Dele, que não via mais encanto nos olhos verdes da mulher, na sua boca, no corpo ainda jovem.

Enquanto fazia o sanduíche, a mulher, para aliviar a tensão, começou a cantarolar.

“Você devia ser lavadeira, sabia?”, ele comentou. “As lavadeiras gostam de ficar cantando na beira do rio. Você leva jeito.”

Ela colocou o sanduíche num prato:

“Vê se está bom.”

O homem abominou aquela voz, que anos antes arrepiava deliciosamente cada pelo do seu corpo. Mordeu o sanduíche com raiva.

“Está bom?”, ela insistiu. “Se você quiser, eu posso pôr presunto. Quer ketchup, mostarda?”

Ele cuspiu na mão o pedaço que tinha mastigado.

“O que foi?”

“Um cabelo aqui bem no meio do queijo”, o homem mentiu, para que a mulher soubesse que nem mais os cabelos dela, outrora tão amados e beijados, ele suportava ver.

Ele se levantou bruscamente, quase derrubando a cadeira, e foi pegar o paletó na sala.

“Vou sair e não sei a que horas volto.”

“Não é melhor pôr um casaco? A tevê disse que vai esfriar muito, uns cinco ou seis graus.”

“Pode ser. E de madrugada é bem capaz de piorar. Mas amanhã cedo deve vir o sol. A tevê não disse isso também?”, ele perguntou, sentindo-se desonesto, crápula, covarde.

A mulher estava pensando que ele era mesmo desonesto, crápula e covarde, e ela gostaria de dizer isso a ele, mas jamais conseguiria – não porque fosse submissa ou medrosa, mas porque, ao contrário dele, tinha educação, estilo, classe. No dia em que ela fosse embora, iria sem dizer uma palavra.

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