quarta-feira, outubro 17

Biblioteca de varal


Clássico, só de boca

Pablo Uranga y Diaz de Arcaya
Um clássico é algo que toda a gente queria ter lido mas que ninguém quer ler
Mark Twain

Equilibrista

Charlotte Gastaut

O tio da Pide

Esta noite não dormi mais que duas horas. Rebolei na cama, procurando posição, queixando-me dos ossos, mas era outra coisa. Era a breve carta, as suas frases bem construídas, as palavras amigáveis que não me largavam.

O meu tio Jota escreveu-me. A minha mãe entregou-me a carta, li-a toda na cozinha, imóvel, olhando para o terraço dos prédios vizinhos; o meu filho chegou da escola, tirou-me a folha das mãos, passou-lhe os olhos por cima, e disse, "não sei por que que é que estás assim. É só uma carta e o homem parece bué fixe".

Darren Thompson

A última vez que vi o meu tio bué fixe foi há uns bons 25 anos. Fomos encontrá-lo a Sevilha, porque não entrava em Portugal desde o 25 de Abril. Foi um dos mais laboriosos informadores da PIDE. Trabalhava no Governo Civil, quer dizer, tinha lá uma secretária com carimbos, mas o seu emprego principal era ouvir com atenção, procurar significados ocultos e relatar com o máximo de precisão a matéria recebida. Tinha um caderninho no bolso interior do casaco e aproveitava as idas à casa-de-banho para anotar frases ou expressões consideradas relevantes. Pisgou-se no dia da Revolução e nunca mais a pátria o viu. Depois disso telefonava à família inesperadamente, duas vezes por ano, Páscoa e Natal. Seguia-nos o rasto, nunca se percebia como. Sei que depois de o meu pai regressar de Moçambique, chegaram a combinar pelo telefone um dia e hora para nos encontrarmos do outro lado da fronteira.

Tinha visto o meu tio João uma vez na vida, porque fora a Moçambique de visita, era eu muito pequena. Levou-me prendas, passeou-me. Tinha a impressão de me recordar de um belo homem de barba escura todo vestido de branco. O 25 de Abril levou-o para o estrangeiro, onde existiu durante décadas, congeminando contra a democracia, recrutando mercenários para combater nas guerras civis das ex-colónias, traficando armas ou diamantes, e conseguindo financiamento para os movimentos de direita que iam aflorando. Um traste. Um daqueles indivíduos que nunca foi capaz de se livrar das suas piores convicções, defendendo que os homens nascem diferentes, e que é preciso discipliná-los para que não levantem a crista. Há sempre indivíduos como este. Alguém que finge, que procura safar-se.

Quando o conheci em Sevilha, trazia consigo uma amante loura parecida com a Odete Saint-Maurice, com mise cheia de laca, retornada de Angola, que passou o tempo a reclamar de tudo. Era esteticista e fazia depilação brasileira. O meu tio caminhava connosco empurrando-a levemente com o braço enlaçado na cintura e a mão toda aberta sobre a anca redonda. O meu pai perguntou-lhe quando regressava à terra. Podiam comprar um terreno em conjunto. O tio Jota respondeu que o regressaria no dia em que o meu pai voltasse a Moçambique. E o meu pai riu-se, como se isso não lhe passasse pela cabeça. Como se não sonhasse todas as noites em regressar à terra a que os ingratos dos pretos agora chamavam deles.

Nessa ida a Espanha comprámos rebuçados e sucedâneo de chocolate e regressámos comentando que o tio Jota já tinha idade para ter juízo, que era uma vida incerta, insegura, ninguém sabia dele, nem onde nem quando, etc, etc. E que a loira era um coirão. Eu não disse nada, porque eu nunca dizia nada. Aguardava uma brecha no muro. Um momento para escapar. 


Quem morreu não devia ressuscitar para nos atormentar as noites. Se o tio Jota estava morto, devia ter continuado. Quer regressar a Portugal?! Está velho?! Então, mas não se está lá tão bem na Europa do norte?! O que me interessa que se sinta velho e pretenda, agora, regressar para junto da família, acarinhar a sobrinha, deixar-lhe o pouco que tem?! Não temos espaço para ele. Não queremos e não podemos. Não o conhecemos. Correr-me parte do seu sangue nas veias não significa coisa alguma. Também me corre nas veias sangue dum cristão novo cujo nome não consigo adivinhar, e dum missionário italiano que fornicou de pé, na sacristia, com o devido fruto, a menina dos Cristovãos, minha trisavó. Quem são, onde estão, que idade têm? Sabemos nós lá. tudo passa. O tempo engole as circunstâncias.

 Isabela Figueiredo

terça-feira, outubro 16

Passeio noturno

 Akira Kusaka

Luz que ilumina escuridões

Penelope Argos
A literatura é uma espécie de luz intelectual que, tal como a luz do sol, permite-nos ver as coisas de que não gostamos; mas quem desejaria escapar a objetos desagradáveis, condenando-se a uma escuridão perpétua?
Samuel Johnson

Livros também servem de modelo


Um pouco de James Joyce

Era tarde quando eu peguei no sono. Apesar de estar com raiva do velho Cotter por se referir a mim como uma criança eu fiquei revirando a cabeça para extrair algum sentido daquelas frases entrecortadas. No escuro do quarto imaginei que estava vendo de novo o rosto cinza e pesado do paralítico. Puxei os cobertores para cima da cabeça e tentei pensar no Natal. Mas o rosto cinza ainda me seguia. E murmurava; e eu entendi que ele desejava confessar alguma coisa. Sentia a minha alma se recolher a alguma região gostosa e má; e lá mais uma vez ele estava me esperando. Começou a se confessar comigo numa voz murmurante e eu fiquei pensando por que o rosto sorria continuamente e por que os lábios estavam tão úmidos de saliva. Mas aí lembrei que ele tinha morrido de paralisia e senti que eu também estava sorrindo bem de leve como que para absolver o simoníaco do seu pecado.

Na manhã seguinte depois do café eu fui dar uma olhada na casinha da Great Britain Street. Era uma lojinha discreta, registrada com o vago nome de Armarinho. O armarinho consistia basicamente de galochas de criança e guarda-chuvas; e em dias normais ficava uma placa na janela, que dizia: Recobrimos guarda-chuvas. Agora não se viam placas pois as persianas estavam baixadas. Um buquê de luto estava atado à maçaneta com fita. Duas mulheres pobres e um mensageiro de telegrama liam o cartão preso ao crepe. Eu também me aproximei e li:
Primeiro de julho, 1895
Rev. James Flynn (anteriormente da igreja de Sta. Catarina,Meath Street),sessenta e cinco anos de idade.Descanse em Paz
Ler o cartão me convenceu de que ele estava morto, e foi incômodo perceber que eu estava sem rumo. Se ele não estivesse morto eu teria subido até o quartinho escuro atrás da loja para encontrá-lo sentado na sua poltrona junto da lareira, quase sufocado pelo casacão. Talvez eu chegasse com um pacote de High Toast que a tia mandou para ele e esse presente o fizesse sair daquele sono pasmado. Era sempre eu quem esvaziava o pacotinho na caixa de rapé porque as mãos lhe tremiam demais para ele fazer isso sem derramar metade pelo chão. Mesmo quando ele erguia a mão enorme e trêmula até o nariz umas nuvenzinhas de fumo escorriam por entre os seus dedos e caíam no peito do casaco. Podem ter sido essas chuvas constantes de rapé que deram às suas antigas roupas sacerdotais aquela aparência verde desbotada, pois o lenço vermelho, preto, como sempre, por causa de manchas de rapé de uma semana, com que ele tentava varrer os grãos caídos, era praticamente inútil.

Eu queria entrar e dar uma olhada nele, mas não tinha coragem de bater. Fui me afastando pelo lado da rua que estava no sol, lendo todos os anúncios teatrais nas vitrines enquanto andava. Achei estranho que nem eu nem o dia parecíamos estar de luto e me senti até irritado por descobrir em mim uma sensação de liberdade como se a morte dele tivesse me libertado de alguma coisa. Fiquei espantado com isso porque, como o tio tinha dito na noite anterior, ele tinha me ensinado muito. Tinha estudado no colégio irlandês em Roma* e me ensinado a pronunciar latim direito. Tinha me contado histórias das catacumbas e de Napoleão Bonaparte, e me explicado o significado das diversas cerimônias da Missa e das diferentes vestes que o padre usa. Às vezes ele se divertia me fazendo perguntas difíceis, perguntando o que a gente devia fazer em certas circunstâncias ou se esse ou aquele pecado era mortal ou venial ou só uma imperfeição. As perguntas dele me mostravam o quanto eram complexas e misteriosas certas instituições da Igreja que eu sempre tinha considerado serem os atos mais simples. Os deveres do padre para com a Eucaristia e para com o segredo do confessionário me pareciam tão sérios que me espantava que alguém tivesse achado em si a coragem de enfrentá-los; e eu não me surpreendi quando ele me disse que os pais da Igreja tinham escrito livros da grossura do Diretório postal e com uma letra tão miudinha quanto a dos anúncios jurídicos no jornal, para elucidar todas aquelas questões complicadas. Muitas vezes quando pensava nisso eu não conseguia achar nenhuma resposta ou só uma bem boba e hesitante, quando então ele sorria e fazia que sim com a cabeça duas ou três vezes. Às vezes ele me fazia repetir os responsórios da Missa, que tinha me feito decorar; e, enquanto eu titubeava, ficava sorrindo pensativo e fazendo que sim, vez por outra metendo imensas pitadas de rapé nas narinas, uma de cada vez. Quando sorria ele revelava uns dentes enormes e descoloridos e deixava a língua apoiada no lábio inferior — um costume que me deixou incomodado nos primeiros tempos antes de eu o conhecer melhor.

segunda-feira, outubro 15

Ir às compras

P.J. Crook

Quaresma está doido

- Nem se podia esperar outra coisa, disse o Doutor Florêncio. Aqueles livros, aquela mania de leitura...

- Pra que ele lia tanto?, indagou Caldas.

- Telha de menos, disse Florêncio. (...)

- Ele não era formado, para que meter-se em livros? (...)

- Isto de livros é bom para os sábios, para os doutores (...)

- Devia até ser proibido, disse Genelício, a quem não possuísse um título "acadêmico" ter livros. Evitavam-se assim essas desgraças. Não acham?

- Decerto, disse Albernaz.(...)

Calaram-se um instante, e as atenções convergiram para o jogo.

Lima Barreto, "Triste fim de Policarpo Quaresma"

Magia


O raio

Ellen Jiang
Aconteceu-me uma vez, num cruzamento, no meio da multidão, no vaivém. Parei, pisquei os olhos: não entendia nada. Nada, rigorosamente nada: não entendia as razões das coisas, dos homens, era tudo sem sentido, absurdo. E comecei a rir. Para mim, o estranho naquele momento foi que eu não tivesse percebido isso antes. E tivesse até então aceitado tudo: semáforos, veículos, cartazes, fardas, monumentos, essas coisas tão afastadas do significado do mundo, como se houvesse uma necessidade, uma coerência que ligasse umas às outras. Então o riso morreu em minha garganta, corei de vergonha. Gesticulei, para chamar a atenção dos passantes e – Parem um momento! – gritei – tem algo estranho! Está tudo errado! Fazemos coisas absurdas! Este não pode ser o caminho certo! Onde vamos acabar? As pessoas pararam ao meu redor, me examinavam, curiosas. Eu continuava ali no meio, gesticulava, ansioso para me explicar, torna-las participantes do raio que me iluminara de repente: e ficava quieto. Quieto, porque no momento em que levantei os braços e abri a boca a grande revelação foi como que engolida e as palavras saíram de mim assim, de chofre. - E daí? – perguntaram as pessoas. – O que o senhor quer dizer? Está tudo no lugar. Está tudo andando como deve andar. Cada coisa é conseqüência da outra. Cada coisa está vinculada às outras. Não vemos nada de absurdo ou de injustificado! E ali fiquei, perdido, porque diante dos meus olhos tudo voltara ao seu devido lugar e tudo me parecia natural, semáforos, monumentos, fardas, arranha-céus, trilhos de trem, mendigos, passeatas; e no entanto não me sentia tranqüilo, mas atormentado. - Desculpem – respondi. – Talvez eu é que tenha me enganado. Tive a impressão. Mas está tudo no lugar. Desculpem. – E me afastei entre seus olhares severos. Mas, mesmo agora, toda vez (freqüentemente) que me acontece não entender alguma coisa, então, instintivamente, me vem a esperança de que seja de novo a boa ocasião para que eu volte ao estado em que não entendia mais nada, para me apoderar dessa sabedoria diferente, encontrada e perdida no mesmo instante. Ítalo Calvino‏ , "Um general na biblioteca"

domingo, outubro 14

A construção


E no Seu Nome esperarão as gentes

Quando me sinto desinfeliz vem-me sempre à cabeça o poema de Carlos Queiroz chamado 
“E no Seu Nome esperarão as gentes”, que é uma citação de São Mateus. Isto dura desde os treze ou catorze anos, quando li o livro de poemas “Desaparecido” que descobri na biblioteca do meu pai. E no meio da desinfelicidade 
aparece-me logo a primeira quadra

No ar azul da madrugada
virias logo se eu chamasse?
Encostarias Tua face
à minha face enregelada?

Porque é que isto sempre me 
comoveu e ajudou tanto? Porque 
volto a ser logo o menino que fui e que o poema torna mais forte no meio da grande solidão que todos temos às vezes:

Se Te contasse o meu desgosto
de quando a angústia me vem ver
ter de expulsá-la pra viver
afagarias o meu rosto?

Susa Monteiro
Esta é uma pergunta minha também. O meu desejo. E aqui, sentado a esta mesa cheia de papéis, escrevo isto comovidamente. Estes versos acompanham-me sempre no ar azul da madrugada, quando tudo me parece irremediável, sem qualquer solução. O que farei de mim, o que farei comigo? E depois, felizmente, voltam a paz e a esperança. Porque carga de água tudo me toca, uma voz, um olhar, um sorriso às vezes, uma senhora de idade a afastar-se de mim a remar com a bengala porque o passeio se transformou numa espécie de mar? Quando eu era pequeno tinha a Gija, uma camponesa galega que me deu tanto amor. Ajudava-me a despir, vestia-me o pijama, ficava ao pé de mim até eu adormecer. Desapareceu da minha vida de repente, não sei porquê, e durante anos e anos não a vi. Quatro meses antes de embarcar para a guerra casei-me, havia pessoas no adro da igreja a olharem, eu não via a Gija

(chamava-se Alice, eu não sabia dizer Alice)

não via a Gija desde os cinco anos, portanto há cerca de vinte e de súbito ela estava ali, no meio das tais pessoas a olharem, gorda, de cabelos brancos e

(como se explica isto?)

soube logo que aquela pessoa era ela. Larguei a noiva, corri para aquela senhora e abracei-a de uma maneira como nunca abracei ninguém. Tinha o mesmo cheiro, 
a mesma forma de me tocar

(posso estar a ser injusto mas acho que nunca 
ninguém me tocou como ela)

os mesmos olhos transbordantes de ternura. E ali ficámos, agarrados, comigo de novo tão pequeno, tão feliz. Gija. Gija Gija Gija. Os convidados do casamento espantados, as pessoas que olhavam espantadas e eu, muito maior do que ela, de repente pequeno, ao seu colo. Ao seu colo. Tinha um senhor ao lado, que era o marido que eu não conhecia, mas eu queria lá saber do marido. Éramos um do outro, Gija, e voltei a ser o menino de alguém. Voltei, com tanta força, a ser o menino de alguém. A ternura dela era a mesma, o amor por mim era o mesmo, só que estava cheia de lágrimas. Lembro-me tão bem de dizer-lhe

– Gija nunca deixei de ser o teu menino

e depois voltei para o casamento, para Tomar onde tinha sido colocado antes de ir para Angola, para longe de ti, eu que nunca devia ter saído do teu colo, tu que me amaste sempre incondicionalmente, com tanta pureza, tanta simplicidade, tanta, meu Deus, alegria. E eu que continuo a amar-te de uma paixão tão linda, eu que sempre, ao acontecer-me um desses problemas gravíssimos da infância, uma queda, a perda de um brinquedo, dizia logo

– Quero a Gija

e tudo se compunha outra vez. 
Foi a última ocasião que te vi, embora continue sempre a ver-te

E se com esta voz de insone
dissesse que não creio em nada
no ar azul da madrugada
escreverias o Teu nome?

embora continue sempre a ver-te, Gija. Não vais acreditar na quantidade de vezes em que penso em ti. Onde quer que estejas, que estupidez dizer isto, estás no Céu de certeza, o teu menino pensa em ti. Há uns anos fui a Compostela receber um prémio, ou seja à tua terra na Galiza. E no discurso de agradecimento, com o Presidente do governo lá deles

(isto passava-se na Catedral e era solene) dediquei-te o prémio e disse o teu nome. Tenho a certeza que estavas lá, com o meu pijama de menino na mão

– Temos que vestir o pijama, Toino

e que te sentia tão orgulhosa de mim. Quando um 
dia morrer vais vestir-mo outra vez, porque não posso aparecer nu diante do Senhor, ordenas a Deus

– Tome bem conta do meu menino, ouviu?

e esperas que Ele te garanta

– Claro que tomo, Gija

antes de te afastares e que, de vez em quando, virás espiar-me no medo que eu tenha desarrumado o cobertor e espirre, ordenando a São Pedro que ponha o olho em mim, porque o meu menino, você é Santo e percebe, não veio aqui para se constipar.

Quando se lê...


Lições de uma inglesa

Na minha juventude, dois viajantes britânicos eram escolhidos como temas de discussão pelo professor de História. Nessa escolha havia um pressuposto moral. O primeiro viajante era o naturalista, biólogo e geógrafo Alfred Russel Wallace, que fez pesquisas científicas na Amazônia, entre 1848 e 1852. Charles Darwin era amigo de Wallace, e ambos descobriram ao mesmo tempo a teoria da evolução das espécies, mas Wallace nunca alcançou a fama de Darwin. Nosso professor do ginásio amazonense queria reparar uma injustiça da história da ciência, e sempre falava de Wallace com admiração. Mas o outro viajante, dizia o mestre, foi um dos maiores ladrões do século 19.

De fato, o fracassado botânico Henry Wickham foi um famoso impostor, que bem podia constar na História Universal da Infâmia, de Jorge Luis Borges. Em 1876, Wickham contrabandeou 70 mil sementes da hevea brasiliensis para o Reino Unido; as sementes roubadas foram colocadas em estufas num Jardim Botânico de Londres e, meses depois, as mudas das seringueiras brasileiras foram plantadas na Malásia. Em menos de 40 anos, esse ato patriótico de um súdito da rainha Vitória aniquilou a economia da Amazônia.

Há britânicos e britânicos que passaram pela região amazônica. Na minha memória há, sobretudo, uma inglesa, que não foi uma cientista ilustre, muito menos uma contrabandista. Foi apenas minha professora, mas isso teve algum significado para um moleque de 13 anos.

Henri Lebasque
Refiro-me a uma ruiva inesquecível: Jane C. Hern. Às 16h40 das quartas e sextas-feiras eu caminhava por uma rua sombreada por acácias e mangueiras, parava na calçada de uma mansão amarela e avistava a mulher ruiva aguando as delicadas flores de seu jardim inglês, um jardim que se revoltava durante as chuvas torrenciais até readquirir a aparência de um exuberante quintal amazônico. Jane fechava a torneira, enrolava a mangueira e vinha me receber com um sorriso aberto e iluminado, e não um simples ricto.

Hoje, penso que a estreita convivência com os amazonenses mudara o sorriso e os trejeitos de Jane. Acho que mudara também outras coisas, mais íntimas. Mas em 1965, a reflexão sobre essa mudança moral nem passava pela minha cabeça.

A professora me convidava para entrar na sala, e os minutos que antecediam a aula eram a minha glória. Podia observá-la da cabeça aos pés e imaginá-la na piscina da mansão, sem o marido, que eu vi de longe uma única vez. Ele era o gerente de um banco britânico que existia desde a época do pirata H. Wickham, e até mesmo do injustamente esquecido A.R. Wallace. Quando Jane ficava de costas para mim, fingindo consultar um livro na estante, eu contava as pintas na pele rosada e sem rugas, quase um milagre no sol do Equador. Ou não era milagre, e sim o olhar turvo de um curumim encantado pela beleza ruiva. Enquanto o tempo passava, mrs. Hern, indiferente à pontualidade britânica, continuava a exibir as costas e os ombros nus. Ela era uma vítima feliz de um outro tempo, lerdo e arrastado, tão amazônico. Em algum momento, bem depois das 4, Jane se sentava à mesa, colocava a mão no meu braço e perguntava em inglês se eu havia lido um dos capítulos do romance. Referia-se ao Treasure"s island, que eu lia em casa e depois relia durante a aula. Esse romance me fascinava, mas eu não buscava exatamente o tesouro escondido por Flint, e sim um outro: a própria Jane de corpo e alma, mais corpo que alma, pois meu ser, naquelas tardes mornas, era mais carnívoro que platônico.

Mesmo assim, li com prazer o romance de Stevenson, esse arquiteto de tramas fantásticas, que encontrou seu paraíso em Samoa, bem longe de Londres e de sua Escócia natal. Agora, ao reler A Ilha do Tesouro, recordo meus encontros com uma mulher de 43 anos, que Manaus ia transformando lentamente numa cabocla inglesa.

Não sei em qual hemisfério ela vive; talvez já nem esteja neste mundo. De qualquer modo, Jane Constable Hern está viva na minha memória, esse vasto rio sem margens.

Milton Hatoum

sábado, outubro 13

Viagens da leitora

George Hartley

Quatro contos inédiitos do jovem García Márquez

O silêncio de uma cidade do interior do Caribe colombiano. O microcosmos de Aracataca, o impacto emocional provocado por um lugar ao qual se regressa, essa matéria-prima da qual Macondo nasceu. “Aquilo era como voltar a olhar as ilustrações de um livro conhecido na infância”, escreveu Gabriel García Márquez em Relato de las Barritas de Menta (Conto das barrinhas de menta), um texto inédito que vem à tona com outros três originais escritos entre 1948 e 1952. O Banco da República da Colômbia os reuniu em Los Papeles de Gabo, ao lado de textos datilografados e manuscritos do então jovem jornalista.


“Talvez eu os tivesse conhecido a todos e agora eles me olhavam passar e me reconheciam pensando ‘veja, o morto regressou’. E, de certa forma, eles tinham razão.” Assim narrou o escritor em uma viagem à sua cidade natal, provavelmente na segunda vez que voltava e na primeira que o fazia sozinho. O prêmio Nobel de Literatura relatou suas sensações nessa narração, apresentada no Festival García Márquez de Medellín, onde também vieram a público Olor Antiguo (cheiro antigo), El Ahogado Que Nos Traía Caracoles (o afogado que nos trazia conchas) e um relato sem título. Trata-se de textos que serão expostos na Biblioteca Luis Ángel Arango de Bogotá, adquiridos pelo Banco da República da Colômbia e que se somam às 44 caixas doadas à rede de bibliotecas da entidade pela viúva do escritor, Mercedes Marcha, e por seu filho Gonzalo García Barcha.

Durante o “Bogotazo”, a revolta ocorrida em 1949 na capital colombiana após o magnicídio do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, foi incendiada a casa onde García Márquez morava. O jovem estudante de Direito, nascido em Aracataca em 1927, subiu então num caminhão dos correios e retornou à costa. Em Cartagena, em meio à luta contra a indigência, ele começou a escrever como aprendiz no jornal El Universal. A essa época, até 1952, remontam os textos apresentados por Alberto Abello Vives, diretor da Biblioteca Luis Ángel Arango, pelo pesquisador Sergio Sarmiento e por Jaime Abello Banfi, diretor-geral da Fundação do Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI, na sigla em espanhol), que leu Relato de Las Barritas de Menta e salientou a importância desse acervo. García Barcha recordou que o romancista rasgava “as folhas de papel que não lhe serviam”. “Acredito que Gabo teria gostado de ser como Vermeer”, disse, em referência ao pintor holandês. “Gostaria que ninguém nunca soubesse quais eram as costuras por trás de seus quadros”.

No entanto, por seu valor, hoje se conhecem alguns desses rascunhos. O primeiro é um conto sem título, que faria parte de Relatos de Un Viajero Imaginario (contos de um viajante imaginário) e que finalmente foi eliminado da série. Descreve o que acontece numa pequena cidade durante um eclipse solar. De El Ahogado Que Nos Traía Caracoles, conservaram-se os únicos fragmentos que García Márquez escreveu. O romancista se referiu a esse texto num artigo publicado no EL PAÍS em 1982. “Durante muitos anos (...), sonhei em escrever um conto do qual só tinha o título: El Ahogado Que Nos Traía Caracoles. Lembro que falei sobre isso com Álvaro Cepeda Samudio [escritor e jornalista colombiano] numa estrepitosa noite de amores de Pilar Ternera, e ele me disse: ‘Esse título é tão bom que nem é preciso escrever o conto’... Quase 40 anos depois, surpreendo-me ao ver quão certeira foi aquela réplica. De fato, a imagem do homem imenso e encharcado que devia chegar de noite com um punhado de conchas para as crianças ficou para sempre no desvão dos contos sem escrever.”

Em Olor Antiguo, Gabo começa a experimentar com influências novas, deixa o estilo kafkiano e se aproxima de Ernest Hemingway, explica Sergio Sarmiento. “Imagine um casal que comemora 50 anos de casamento. O homem está sentado num quarto contando como a conheceu, e a mulher pensa que o homem tem que deixar de recordar...” Até que “ele percebe que se casou com a gêmea errada, casou-se com a gêmea que odiava, não com a que amava.”

"Relato de las Barritas de Menta“ descreve Aracataca muito brevemente de uma forma muito dura, é uma versão muito pessoal de ficção”, prossegue o pesquisador. Fala, por exemplo, de um lugar onde migrantes recém-chegados vendiam alguns produtos. “O armazém escuro dos italianos, onde vendiam botas para as crianças e sardinhas para os adultos e barras de menta para pequenos e grandes e cujo interior cheirava a pão dormido e petróleo cru”, escreveu García Márquez. Esse lugar ainda reverbera na memória do povoado. Aqueles italianos – explicou Rafael Darío Jiménez, responsável pela Casa de Gabriel García Márquez, durante uma visita realizada por ocasião do quinquagésimo aniversário de Cem Anos de Solidão – viajaram até o departamento colombiano de Magdalena e organizaram os primeiros sindicatos da plantação de bananas da United Fruit Company, cujo massacre de trabalhadores fará 90 anos em dezembro. E também eles, como todo o resto, povoaram esse imaginário que deu vida a Macondo.
Francesco Manetto

Conto das barrinhas de menta (Início)

Finalmente cessou o som agudo dos freios. A roda calçou no trilho abrasado, e o esgotador e poeirento silêncio do povoado penetrou no vagão. Era um silêncio igual ao vilarejo, feito de seus mesmos e desolados ingredientes, de suas ruas retas, largas e vazias, de seus enormes quintais quadrados, frescos sob a penetrante umidade das bananas e de suas velhas casas de madeiras arruinadas sob o pó com antigos mobiliários e mulheres escuras sem idade nem pressentimentos estendidas na letargia da sesta. Não tinha mais de 20 anos esse silêncio, mas sua maturidade, sua devastadora experiência lhe davam um aspecto secular e o faziam parecer um silêncio tão antigo quanto o resplendor da poeira nas ruas ou como a claridade dos espelhos que haviam perdido a memória dos últimos rostos. A sensação da morte estava presente.

sexta-feira, outubro 12

Outro lado do paraíso


Coisas que já não há

Li num destes sábados um artigo belíssimo, no suplemento «Babelia» do jornal El País, sobre os 50 anos da editora espanhola Tusquets (e os 80 de Beatriz de Moura, sua proprietária) e o anúncio da oferta do seu espólio à Biblioteca Nacional de Espanha. Um espólio destes, reparem, não é de deitar fora: contém correspondência manuscrita com García Márquez, Vargas Llosa ou Milan Kundera, entre outros, com mimos, cumplicidades, zangas e reclamações. Fundada por Beatriz de Moura (foto) e Toni López Lamadrid, a Tusquets foi das editoras mais importantes do país vizinho. Começou no tempo em que as editoras emprestavam dinheiro aos autores quando eles estavam nas lonas e em que os escritores-estrelas, quando as editoras passavam por dificuldades e lhes pediam ajuda, sacavam da cartola «um presente que te fará rica», como aconteceu com o famoso autor de Cem Anos de Solidão num momento de aflição da Tusquets, dando-lhe para publicação Relato de Um Náufrago (e a capa do original manuscrito pertence ao conjunto de documentos que vão ser oferecidos à biblioteca), reportagem que fora publicada em fascículos num jornal colombiano dirigido por Álvaro Mutis. Quando Beatriz perguntou se tinha de pagar alguma coisa ao jornal, Gabo respondeu que não, que trataria disso... Imagino como é importante conservar a memória destas relações num momento em que já não existem editoras deste modelo (provavelmente, também os autores serão hoje muito diferentes) e se perde facilmente o registo de testemunhos (tudo é digital) que desaparecerão para sempre quando desaparecerem as pessoas.