quarta-feira, outubro 7

Estranho mistério que é o homem!

Assim que chegamos, fomos nos deitar. Zorba esfregava as mãos, satisfeito.

— Dia bom esse, patrão! Bem cheio, puxa! Pense bem: esta manhã estávamos lá nos confins do mosteiro e levamos o Higumeno no embrulho. Que a sua maldição nos caia em cima. Depois descemos, encontramos Dona Bubulina, ficamos noivos. Olhe aqui a aliança! Ouro de primeira. Ainda restavam duas libras inglesas, diz ela que quem deu foi o almirante inglês no final do outro século. Ela estava guardando para o enterro, mas preferiu mandar o joalheiro fazer as alianças. Estranho mistério que é o homem!

— Dumas, Zorba — disse eu. — acalme-se! Por hoje basta. Amanhã teremos uma solene cerimônia: vamos plantar a primeira pilastra do teleférico. Mandei dizer ao padre Stefânio para vir.

— Fez bem, patrão, não é bobagem, não! Que venha o padre-barba-de-bode, que venham também as maiorias da aldeia; vamos até distribuir umas velinhas para eles acenderem. Essas coisas causam impressão: consolidam os nossos negócios. Não olhe para o que eu faço, eu cá tenho um Deus pessoal e um Diabo pessoal. Mas as pessoas...

Pôs-se a rir. Ele não podia dormir, com o cérebro em ebulição.


— Olhe — disse ao cabo de um momento, — o meu velho avô... a terra lhe seja leve!... era também um debochado como eu; e mesmo assim, o velho sacripanta foi ao Santo Sepulcro e se tornou hadji. Deus sabe pra quê! Quando voltou à aldeia, um de seus compadres, ladrão de cabras que nunca fizera nada de limpo, lhe disse: “Então, compadre, não trouxe um pedaço da Santa Cruz do Sepulcro?” — “E como é que eu não trouxe! Diga, meu sabido compadre, acha que eu ia me esquecer de você? Vá esta noite lá em casa, leve o padre para abençoar e eu lhe entrego. Leve também um leitãozinho assado e vinho, vamos festejar o acontecimento.

De tardinha, meu avô chega em casa. Tira da porta, já toda carcomida, uma lasquinha de madeira, não maior que um grão de arroz, envolve num pouco de algodão, pinga em cima uma gota de azeite e espera. Logo depois, chega o compadre com o padre, o leitãozinho e o vinho. O padre põe a estola e dá a bênção. Ele faz a entrega do pedaço da madeira e depois todos se atiram ao leitão.

Pois acredite se quiser, patrão! O compadre se ajoelhou diante do pedaço de porta, depois pendurou-o no pescoço, e desse dia em diante virou outro homem.

Mudou em tudo e por tudo. Foi para a montanha, juntar-se aos armatolas e aos cleftas (Tribos Guerreiras do Norte da Grécia, sob o domínio Turco), incendiar aldeias turcas. Corria, valente, no meio das balas. Por que devia ter medo? Trazia com ele um pedaço da Santa Cruz, o chumbo não podia atingir o seu corpo.
Zorba desatou a rir.

— A ideia é tudo — disse. — você tem fé? Então uma lasca de porta velha vira uma Santa relíquia. Você não tem fé? A Santa Cruz todinha vira porta velha.

Admirava esse homem cujo cérebro funcionava com tanta segurança e audácia e cuja alma, em qualquer ponto que se tocasse, lançava fagulhas.

— Já esteve na guerra, Zorba?

— E eu sei? — respondeu franzindo a testa. — não me lembro. Que guerra?

— Bem, quero dizer, você já foi lutar pela pátria?

— Se você mudasse de assunto, hein? Besteiras passadas, besteiras esquecidas.

— Chama isso de besteiras, Zorba? Não tem vergonha? É assim que fala da sua pátria?

Zorba levantou a cabeça e olhou-me. Estava estirado na cama e por cima de mim brilhava a lâmpada de azeite. Fitou-me um longo momento, com severidade; depois, agarrando os bigodes com ambas as mãos:

— Você é ingênuo e pedante, patrão... salvo o devido respeito — disse finalmente.
— tudo o que digo é como se estivesse cantando.

— Como assim? — protestei. — compreendo muito, Zorba!

— Sim, você compreende com a cabeça. Você diz: “isto é justo, isto não é justo; é assim ou não é assim; você está certo ou está errado”. Mas isso leva a gente para onde? Enquanto você fala, eu observo seus braços, seu peito. Pois bem, que é que eles fazem? Ficam mudos. Não dizem nada. Como se não tivessem uma gota de sangue. Então, como é que você quer compreender? Com a cabeça? Pff!

— Vamos, fale claramente, Zorba, não tente fugir! — exclamei para excitá-lo. — creio que você não se aflige muito pela pátria, hein, seu malandro?

Zangou-se e deu um soco na parede que fez ressoar a lataria.

— O papaizinho aqui, vociferou, tinha bordado com os próprios cabelos a Igreja de Santo Sofia num pedaço de pano que trazia pendurado no pescoço, contra o peito, como amuleto. Perfeitamente, meu velho, foi com essas grandes patas que eu bordei, e com esses pêlos aqui, que eram, naquele tempo, pretos como azeviche. Esse que lhe fala vagou com Pavlo Melas (oficial grego que se destacou na Guerra contra os comitadjis búlgaros) pelos rochedos da Macedônia — um rapagão, um colosso mais alto que esse barracão, que eu era — com minha fustanela, meu fez vermelho, meus berloques de prata, meus amuletos, meu sabre, minhas cartucheiras e minhas pistolas.

Estava coberto de ferro, de prata e de pregos e quando andava, os metais tilintavam como se passasse um exército! Veja, olhe... olhe... !

Abriu a camisa e abaixou as calças.

— Traga a luz, ordenou.

Aproximei a lâmpada do corpo magro e bronzeado: talhos profundos, cicatrizes de balas, golpes de sabre; seu corpo era uma verdadeira peneira.

— Olhe agora do outro lado!

Virou-se, mostrando as costas.

— Você está vendo, por trás nem um só arranhão. Morou? Então, leve a lâmpada.

— Bobagens! — urrou furioso. — uma vergonha! Meu velho, quando é que o homem vai virar verdadeiramente um homem? A gente veste calça, colarinho, chapéu, mas ainda somos umas mulas, lobos, raposas, porcos. Dizem que somos a imagem de Deus! Quem? Nós? Que piada!

Dir-se-ia que lembranças terríveis lhe vinham ao espírito e ele se exasperava cada vez mais, murmurando, entre os dentes moles e estragados palavras vacilantes.
Levantou-se, pegou a garrafa d’água, bebeu a grandes tragos; depois, refeito, acalmou-se um pouco.

— Onde você me tocar, eu grito — disse ele. — sou todo chagas e pisadelas, e você a me falar de mulheres! Eu, quando senti que era um homem de verdade, parei de olhar para elas. Tocava nelas um minuto, assim, de passagem, como um galo, e depois ia embora. Essas fuinhas sujas, dizia comigo, querem é sugar toda a minha força, puah! Que se enforquem!

Então, peguei meu fuzil e pé na estrada! Entrei para as guerrilhas como comitadji. Um dia, já escurecendo, fui dar numa aldeia búlgara e me escondi num estábulo, na casa do padre búlgaro que era, ele próprio, um feroz comitadji, uma besta sanguinária. De noite, tirava a batina, punha roupas de pastor, pegava nas armas e penetrava nas cidades gregas. Voltava de manhã, antes de clarear o dia, pingando lama e sangue, e ia dizer a missa. Alguns dias antes de minha chegada, ele tinha matado um professor grego na cama, enquanto dormia. Eu, então, entro no estábulo do padre, me deito na palha atrás dos bois, e espero. Lá pela tardinha, vem o padre dar comida aos animais. Aí eu me jogo sobre ele e o degolo como um carneiro; corto as orelhas e guardo no bolso. Eu fazia coleção de orelhas búlgaras, compreende você? Então, pego as orelhas do padre e dou no pé.

Alguns dias depois, volto à mesma aldeia; em pleno meio-dia, fingindo que era mascate. Tinha deixado as armas na montanha e vinha comprar pão, sal, sapatos para os camaradas. Defronte de uma casa, vejo cinco garotinhos, todos de preto, descalços, de mãos dadas, pedindo esmolas. Três meninas e dois meninos. O maior não devia ter mais de dez anos, o menor era ainda um bebê que a mais velha das meninas carregava no braço, beijando e acariciando para ele não chorar. Não sei como, sem dúvida, foi uma inspiração divina, tive ideia de chegar perto deles:

— Vocês são os filhos do padre? — perguntei em búlgaro.

O maior dos meninos levanta a cabecinha:

— Do padre que degolaram outro dia no estábulo — respondeu.

Fiquei com lágrimas nos olhos. A terra começou a girar como uma roda de moinho. Eu me apoiei na parede e ela parou de rodar.

— Venham cá, meus meninos — disse, — cheguem perto de mim. Tiro a bolsa do cinto; estava cheia de libras turcas e de medjidiês. Ajoelho e despejo tudo no chão.

— Tomem — grito eu, — tomem! Tomem!

As crianças se jogam ao chão e começam a catar libras e medjidiês.

— É para vocês, é para vocês! — eu gritava, — peguem tudo!

E ainda deixei com eles a minha cesta com as compras.

— Tudo isso também é para vocês, tomem!

E logo vou ter com camaradas. Saio da aldeia, abro a camisa, tiro a Santa Sofia que eu tinha bordado, rasgo, jogo para o ar, e pernas para que te quero! E até hoje ainda corro...

Zorba encostou-se à parede, voltando-se para mim:

— Foi assim que me libertei — disse.

— Libertou-se da pátria?

— Sim, da pátria — respondeu com voz firme e calma.

E pouco depois:

— Livre da pátria, livre dos padres, livre do dinheiro. Eu vou peneirando. Quanto mais eu vivo, mais eu passo na peneira. Eu me alivio. Como direi? Eu me liberto, viro um homem.

Os olhos de Zorba brilharam, sua boca enorme ria de satisfação.

Calou-se um momento e recomeçou. Seu coração transbordava, não podia mais controlá-lo.

— Teve um tempo que eu dizia: aquele é um turco, um búlgaro; este é um grego. Eu fiz pela pátria coisas que deixavam você de cabelo em pé, patrão. Degolei, roubei, queimei aldeias, violei mulheres, exterminei famílias. Por que? Pretextando que eram búlgaros, turcos. Puah! Vá para o Diabo, seu sujo, eu me xingo muitas vezes. Vá para o Diabo imbecil! Agora, olhe o que eu digo: este é um homem direito, aquele é um sujo. Tanto faz se é búlgaro ou grego, não faz diferença. É bom? É mau? É só o que me pergunto hoje. E mesmo assim, agora que estou envelhecendo, juro pelo pão que como, acho que nem vou perguntar mais. Meu velho, sejam bons ou maus, tenho pena de todos. Quando vejo um homem, mesmo que eu banque o indiferente, isso me dói nas entranhas. Olhe, o coitado, digo para mim, ele também come, bebe, ama, tem medo; ele também tem o seu Deus e o seu Diabo; ele também vai bater as botas, e se deitar bem esticado embaixo da terra e ser comido pelos vermes. Eh! Coitado! Somos todos irmãos. Todos carne para os vermes.
Nikos Kazantzakis, "Zorba, o Grego"

É proibido

É proibido chorar sem aprender,
Levantar-se um dia sem saber o que fazer
Ter medo de suas lembranças.

É proibido não rir dos problemas
Não lutar pelo que se quer,
Abandonar tudo por medo,

Não transformar sonhos em realidade.
É proibido não demonstrar amor
Fazer com que alguém pague por tuas dúvidas e mau-humor.
É proibido deixar os amigos.
Pablo Neruda

A chave de ferro

A meio da tarde, quando a conversa decaiu, um dos dois amigos ergueu-se do sofá e percorreu toda a sala lentamente, contemplando os moveis e os objetos com uma curiosidade que nenhuma norma social podia impedir.

– Tens uma casa muito bonita, — disse.

O outro sorriu, lisonjeado. Acompanhava-o com o olhar, esperando o momento em que, depois de descobrir a vitrina, se sentiria intrigado pelo seu conteúdo. O visitante parou, efetivamente, diante do pequeno aparador e prestou uma grande atenção aos objetos expostos. Finalmente, perguntou com ar brincalhão:

– As três chaves são para fechar o livro? Acho demais e de um tamanho exagerado, a não ser que o Diário de Elena C. tenha um interesse excepcional. É algum membro da tua família ?

Vou responder-te pela mesma ordem, – disse o amigo fingindo uma divertida gravidade. — As chaves, como tu próprio pedes ver, não pertencem ao livro, mas estão relacionadas com ele de uma maneira direta. O diário, num certo aspecto, tem um interesse excepcional. E Elena C. não é nenhuma dama de minha família, mas esta fortemente vinculada as recordações do meu pai, mas não no sentido que tu já estas a designar.

E dirigindo-se a vitrina, acrescentou:

– Não julgues que se trata de um diário banal de rapariga. Olha.

Pegou no livro e abriu-o no sítio assinalado por uma fita amarela. Uma letra miúda, de educação conventual, enchia uma pequena parte da pagina, deixando grandes margens brancas: "4 de fevereiro de 1902. Hoje abri o armário. Oh, é horrível! Compartilho dum segredo que desejaria nunca ser descoberto. Procuro em vão palavras para me exprimir. A caneta seca-me ao tentar descrever o que os meus olhos contemplaram. Renuncio a fazê-lo por agora e parece-me que nunca me será possível."

– Que te parece?

– Que estilo ! Hás-de deixar-me ler todo o diário.

– O resto não te interessaria. Está cheio de uma afetação insuportável. Mas, mais para diante, volta ao tom misterioso.

Passou algumas folhas e apontou para as seguintes linhas : "20 de fevereiro de 1902. Então continha efetivamente qualquer coisa! Mas, como é possível que eu não tivesse visto ? Trata-se de um fundo falso que até agora a policia não descobriu ? Portei-me estupidamente. Hoje prenderam-no e toda a gente julga que eu me verei comprometida na investigação. As minhas amigas, apesar de ar compungido que fingem a minha frente, tem uma inveja terrível."

– E não há mais nada?

– Não.

– E as chaves?

– As chaves e o diário serviram ao meu pai num processo que, no seu tempo, lhe deu uma grande notoriedade. Alguém pagou um preço muito elevado por um crime de que foi acusado.

– Conta-me.

Pouco posso dizer. O meu pai evitava sempre referir-se a este caso. Muitas vezes tive a impressão de que ele conservava dúvidas tão grandes que o inquietavam ainda. Imagina a importância que tudo isto deve ter tido em determinada época da minha infância. Vês? Há duas chaves de ouro e uma de ferro. Uma das de ouro é a original e as outras são as copias.

– Como sabes?

– Foram submetidas a um exame e parece que pelo menos isso ficou bem esclarecido. O meu pai atalhava todas as perguntas que lhe fazíamos e as vezes até reagia com violência, o que era realmente extraordinário tendo em conta o seu caráter pacífico. Mas eu insistia, a despeito de tudo, sem conseguir nada. Numa ocasião, o meu pai teve um impulso que me surpreendeu. Agarrou-me por um braço, levou-me diante da vitrina e disse, como se falasse mais para si próprio do que para mim : «A chave de ferro poderia explicar todo o mistério. Tenho o pressentimento disso desde o primeiro dia. Mas também tenho a intuição de que nunca ninguém saberá nada.» Disse estas palavras num tom profético. Poucos dias depois morreu — já sabes em que circunstâncias — e desde então convenci-me de que se tratava de uma profecia a sério.

– Não está direito. Se não estas em condições de me satisfazer a curiosidade não devias tê-la despertado com a exibição da vitrina. Eu estava tão tranquilo e agora vou ter o nervoso de desconhecer um drama que não me afeta e que decorreu ha quarenta e cinco anos.

Os dois amigos sentaram-se novamente e a cordialidade não impediu que uma atitude pesarosa os acompanhasse durante o resto do serão.

Mas quem nos impede, a nós, de sabermos alguma coisa mais?

Tudo começou numa pequena cidade burguesa, onde os bons costumes não deixavam lugar para murmúrios e na qual uma plácida maneira de viver fazia que não acontecesse nada de extraordinário.

Um cidadão insignificante, que uma regular fortuna punha a coberto das preocupações materiais, sentiu despertar dentro de si uma ambição que o impelia a significar-se, e inventou um artifício com o qual, ao princípio, se deu bem.

Conhecedor da necessidade de criar um clima de mistério, dava a entender que sabia muito mais coisas do que as que podia dizer, e quando conseguia ter em suspenso os seus interlocutores, baixava lentamente a mão que pusera sobre o peito e deixava-a deslizar pelo colete florido, até encontrar a corrente suspensa entre os dois bolsos. Metia lá o indicador, mostrava de uma maneira discreta a chave de ouro pendurada numa das argolas e movia o dedo, balançando-a.
Esperava. Às vezes a conversa ainda continuava um bocado, mas havia sempre alguém que acabava por perguntar:

– E esta chave de ouro?

Então, fingia um estremecimento. Deixava a corrente bruscamente e, com a mesma mão, avançando-a como se quisesse fazer parar qualquer coisa, impunha silêncio com um gesto e dizia:

— Isso não, por favor! Todos temos os nossos segredos para os quais pedimos a discrição dos outros.

E a chave e as palavras seguiam lhe dando um prestígio que lhe servia para prosperar.

Criou uma técnica de assembleia, de comitê, e de conselho. Insinuava soluções seguras que o peso de um juramento o impedia de revelar e, antes das votações, solicitava a palavra e dedicava-se a um pequeno jogo: tinha solto a corrente das casas que a seguravam e apertava-a com força no punho cerrado, deixando aparecer a chave por entre os dedos. De pé, entre toda a gente sentada, girava em redor de um eixo invisível e, mostrando a mão fechada, pronunciava um discurso incoerente e no fim pedia que a inteligência dos ouvintes fizesse o esforço de ler ou entender entre as palavras o que a discrição não lhe deixava dizer claramente. Havia sempre alguém que traduzia em ideias e projetos elevados as suas frases em conexão.

Depois, esmagado pela tensão desenvolvida, erguia as abas do sobretudo e sentava-se, semicerrando os olhos enquanto devolvia a corrente ao seu lugar, fingindo que o movimento dos dedos e dos elos era um tique inconsciente dos nervos.

Quase sempre saía eleito. Tinha cargos municipais, presidia a juntas de todas as espécies e, como era o único cidadão com uma lenda, tinha fama de ser o mais interessante.

Vivia num pequeno palácio rococó, estocado de cor-de-rosa, com caras de anjos em pedra, espirais e tranças de flores alternando com cestos e capitéis insolentemente inúteis. No jardim, ao pé dos degraus da entrada, havia a figura de um cão de bronze, com as orelhas espetadas e a rigidez de uma vigilância metálica.

Quando alguém se interessava pela figura, ele tinha a vaidade do proprietário que fala de singularidades da raça canina e de antecessores inúteis e, com a bengala, apontava para as letras em relevo do pedestal: "Fundição de Pignone. Firenze."

A casa tinha dependências para todos os fins e necessidades. Mas a mais importante era a que continha o armário isabelino, o que era aberto pela chave de ouro.

Ao colocá-lo ali, chamou todos os criados e disse:

– Fiquem sabendo que tem a minha confiança, o solido bem pensar das pessoas justas. Deixo-os por e dispor segundo o trabalho de cada um e têm chaves que abrem todas as fechaduras. Nunca lhes perguntei por que razão entram ou saem de uma sala, nem que espécie de pó escondido os faz remexer nas gavetas. Mas de hoje em diante proíbo-lhes uma coisa: ninguém se aproximara deste armário, nem mesmo com o pretexto de procurar limpezas de conjunto. Mantenham tudo em bom estado, que o brilho das madeiras caras, da prata e do mosaico traduzam o bem estar deste lar. Varram, esfreguem, a passem tudo a pano, mas que ninguém se aproxime deste armário! Que o vosso cuidado prolongue a vida dos objetos, que tudo apresente a cara da limpeza, ainda que estes cuidados tornem mais visível o abandono em que teremos o armário. Só eu possuo chave que o abre (mostrou-a). Se alguém tentar arrombá-lo, os meus bons sentimentos transformar-se-iam em maldade e não descansaria enquanto não me vingasse. Agora, vão as vossas obrigações e nunca se esqueçam das minhas ordens.
Assim nasceu a lenda. Os criados divulgaram-na e as outras pessoas tomaram a seu cargo o trabalho de a tornarem mais completa.

Na cidade havia homens ilustres pelo sangue, que toda a gente respeitava. Havia outros que, pelo talento e estudos, ou pela riqueza, ou porque haviam trabalhado em qualquer atividade que servia o interesse publico, recebiam honras e considerações. Mas só ele tinha um armário proibido e uma chave de ouro para o abrir.

Muitas imaginações trabalharam para tentar explicar as coisas que ele sugeria. As pessoas pouco inclinadas a fazer esforços atribuíam-lhe uma fortuna ciosamente guardada, mas o cheque com a logica mais elementar desarmava-os. Outros inclinavam-se a acreditar na existência de uns documentos que não podiam vir a publico, sem explicar por que razões. Mas, como no caso do dinheiro, que sentido teria substituir o cofre forte pelo armário?

Circulava também a versão de um amor infeliz, e o móvel guardaria, então, as suas relíquias: cartas e presentes sentimentais, miniaturas com retratos, floras secas e, talvez, pedaços de roupa com poder evocador. Aqueles que eram partidários desta historia, aplicavam o seu engenho em relacionar a figura pouco elegante do protagonista com uma história romântica.

Um pequeno circulo inclinava-se a crer que o armário continha um cadáver, habilmente embalsamado, e que muitos anos se passariam antes de se poder saber a quem pertencia. E os mais sutis murmuravam que tudo aquilo escondia uma grande vergonha, sem que eles próprios regateassem o prestígio que significava guardar tal vergonha com uma chave de ouro.

E ele, guarda do mistério, conhecia todas as interpretações e flutuava na fama que estas lhe criavam, mantendo-se a boiar numa situação invejável.

Não conseguia evitar tomar um partido. Ele próprio, e bem a sós, sentia-se possuidor de um segredo de sangue vertido e, enquanto lhe durava esta visão íntima, comportava-se sombriamente, passando muitas vezes a mão pela testa, enquanto cerrava os lábios. Em certa ocasião, vivendo o seu papel, deixou sem pinga de sangue um grupo de amigos com o seguinte solilóquio:

– Por mais débil que seja o lago entre a vida e a morte, apenas Deus o pode desfazer. Só Deus ! Quem se atrever a tomar por suas mãos esta prerrogativa divina conhecera o peso duma maldição terrível...

Baixou a cabeça, sem encarar o olhar de ninguém durante muito tempo.
Outra vezes, inclinava-se para aqueles que acreditavam em documentos escondidos e agia como se lhes desse razão! Tomava um ar ausente e dizia, por exemplo : "Que poder o da palavra escrita! Quantas linhas de tinta vermelha sobre papel amarelo poderiam modificar o curso das coisas se as divulgasse! A responsabilidade de quem tenha ao seu arbítrio conservá-las secretas ou dá-las a conhecer é uma triste herança."

Havia épocas em que a sua maneira de agir desorientava e o armário revestia-se de uma importância mítica. Parecia que continha ao mesmo tempo as relíquias de um amor, o cadáver, os documentos de interesse público e o dinheiro.

Mas, como as suas faculdades de paixão eram escassas e não se podiam dispersar, o fato de se concentrar num único objetivo acabou por dominá-lo. Em redor do armário, na sua imaginação, ia-se formando um halo que o afastava das coisas conhecidas.

Sem que ninguém pudesse adivinhar as razões, um medo cheio de pureza convertia-se no tema central da sua vida. De noite, quando o sono de todos os objetos inanimados punha mais silêncio na casa, ele tapava a cara com a dobra do lençol e via, como se pudesse penetrá-la com o olhar, a penumbra de todas as peças, o rosto inimigo dos móveis e os ornamentos espiando alguma presa indefinível e ao centro de tudo, irradiando fosforescência, o armário com a gravidez de um verdadeiro mistério.

"É o medo verdadeiro", — pensava. — "0 medo de sempre que acompanha a noite. A lenda não passa de uma criação tua e podes destrui-la agora mesmo, torná-la clara, para abrir o teu espirito a chegada do sono."

Mas a sua fantasia, incapaz de se desenvolver em duas atividades contraditórias, teimava em fornecer-lhe os elementos que o conservavam mais inquieto. Faltava-lhe a coragem de fechar os olhos, no receio de que as coisas imóveis estivessem só a espera que a vontade o abandonasse para se entregarem a terríveis lutas.

Quando a luz do dia devolvia o aspecto habitual à casa e a tudo que continha censurava-se gravemente, porque o orgulho de saber que a lenda tinha bastante força para o dominar a si próprio, dava-lhe uma visão mais extensa da maneira de servir-se dela Apesar disso, a companhia dos criados era insuficiente e, de uma maneira lenta e inconfessa, com se quisesse fazer uma surpresa a si mesmo, veio-lhe a ideia de se casar.

Dedicou-se a uma escolha em que o sentimento amoroso não participava e estabeleceu um plano de acordo com a técnica que lhe era mais familiar. Escolheu uma menina de boas famílias, pouco solicitada. e pediu-a de uma maneira singular, no curso de uma entrevista com a rapariga e os pais.

– Ainda não me decidi a tomar novo estado, – disse-lhes. – Mas, no dia em que o fizer, a minha esposa entrara de posse dum pequeno império. Certas indiscrições dos meus criados, que a bondade me impede de reprimir, fazem que seja conhecido o bem estar da minha casa e a liberalidade que uso na administração doméstica. A minha mulher compartilhará tudo comigo, será dona, e só lhe proibirei uma coisa : nunca fará perguntas sobre o armário, e muito menos tentará abri-lo. E até onde lhe for possível, nem sequer se aproximará dele.
Acham que, com estas condições, poderei arranjar mulher?

A menina acedeu e, quando as amigas lembravam a maneira como o seu noivo se afastara de todos os ideais que tinham forjado, ela provocava a inveja delas respondendo que isso era verdade, mas que teria oportunidade de saber qualquer coisa do armário.

Celebraram o casamento atendendo a todas as conveniências e iniciaram a sua curta vida matrimonial.

Um dia, enquanto o marido estava a rever uns ofícios, ouviu um grito que se espalhou por toda a casa. Ergueu-se de um golpe e a borla do seu barrete de veludo ficou a dançar-lhe diante dos olhos.

"E lá em baixo", — pensou. — "No armário." Instintivamente, relacionava com aquele móvel qualquer coisa insólita. Correu, arregaçando com as mãos as abas da bata e desceu a escada aos pequenos saltos.

Os criados corriam levando-lhe vantagem, e ao ver de longe o armário com o batente meio aberto, fê-los parar com um grito: "Que ninguém dê um passo mais!"

Os criados ficaram quietos e ele abriu caminho com os cotovelos, afastando-os. A sua esposa estava estendida por terra, desmaiada. Um remoinho de roupa e rendas envolvia o pouco de carne visível: os braços, com a pele muito pálida, e o rosto, tão encerado que a morte se podia refletir lá.

Saltou por cima do corpo e fechou a porta do armário, sem se atrever a olhar lá para dentro. Introduziu a chave de ouro na fechadura e deu duas voltas, inseguras pelo desconhecimento do que guardavam.

Baixou-se para assistir a mulher e, ao fazê-lo, indicou com um gesto aos criados que o ajudassem. Levaram a senhora para um sofá e um foi a procura de sais aromáticos.

O marido observou que ela tinha a mão. direita fechada, apertando qualquer coisa com força. Abriu-lhe e retirou uma chave de ouro como a sua. "Uma cópia, — pensou. — Mas, como pode ser isto ? Ah, sim ! Um molde em cera. Aproveitando a intimidade para me apanhar de surpresa!"

Quando a esposa deu sinais de retomar o domínio dos sentidos, lançou a chave diante dos seus olhos e perguntou-lhe :

– Que significa isto?

– Oh, monstro !—gritou ela. — Quero voltar imediatamente para casa da mamãe!

Aquilo era desconcertante. Em múltiplas reflexões, planeara uma atitude para todas as situações previsíveis. Sabia que lhe seria difícil dominar o estupor do curioso que, furtivamente, comprovasse a ausência de elementos misteriosos no armário, e de que insinuações teria de servir-se para lhe dar a entender que a aparência de normalidade encobria muitas vezes os segredos mais impenetráveis.

Retirou-se para um canto da sala e, aguentando o queixo com a mão direita, começou a meditar diante do busto de Júlio César que o fitava com um olhar de mármore sem pupilas, tão ausente como o seu. "Com que então, — pensou, — deve ser verdade a versão do cadáver oculto. Nem dinheiro, nem documentos, nem recordações produziriam um efeito destes ao serem descobertos. Sou um homem devorado pela minha própria lenda!"

A dama ergueu-se de um salto, dirigiu-se para o quarto e saiu imediatamente embrulhada num xale.

– Amanha mando buscar as coisas que me pertencem.

– Para onde vais?

– Para casa!

Teve vontade de lhe dizer que a queria acompanhar, que não era capaz de resistir sozinho à proximidade do armário, mas ela fê-lo parar manifestando-lhe repugnância.

Depois da porta ter batido, os criados retiraram-se e ele experimentou a sensação de solidão e desamparo diante do enigma fechado entre paredes de madeira.
Nem por um momento lhe ocorreu a possibilidade de abrir o móvel e enfrentar corajosamente o seu conteúdo. A simples menção de uma desgraça fazia-o perder a saúde, e só de pensar na existência de um corpo morto em sua casa fazia-lhe andar a cabeça à roda e tinha de se encostar a mesa ou cadeira que estava mais perto.

Seguiram-se dias durante os quais uma nova angustia o foi dominando. O cheque regular da pulsação arterial sincronizava-se obscuramente com um bater que, na sua opinião, tinha origem no armário e ecoava por toda a casa. Com um sorriso amargo, evocava a imagem de um explorador perdido na selva, perseguido dia e noite por um tantã que lhe indicava um perigo sem lhe mostrar o caminho da fuga.

De manha, à luz do sol, tentava serenar dando uma nota favorável às suas reflexões, e repetia que ele próprio comprara o imóvel, o colocara ali, e que ele próprio, também, era o autor do logro primário a que devia o prestígio. Mas a lembrança da conduta da esposa destruía subitamente as cogitações amáveis: "Não, não !"— murmurava. — "0 grito e o desmaio foram causados por qualquer coisa à margem da minha fantasia. Ouvi dizer que, muitas vezes o homem é apanhado pelas ratoeiras que arma para os outros, e foi precisamente isso que me aconteceu." A curiosidade que durante tanto tempo cultivara nos outros, conhecia-a agora ele, com uma força superior.

Esperava que a esposa contasse a experiência que vivera e que alguém, animado de bons ofícios, lhe desse a conhecer o segredo.

Na própria noite da separação, os pais mostraram uma insistência lógica por saber as causas que a tinham motivado, mas ela evitou as perguntas com as seguintes palavras:

– A ninguém direi o que aconteceu. Nunca mais quero voltar para o meu marido, e as pessoas que me estimem a serio, será melhor que desde este momento não façam mais referencias ao meu casamento.

Depois fechou-se no quarto, sentou-se diante numa pequena secretaria e abriu a gaveta onde guardava o seu diário. Folheou-o com saudade, releu algumas linhas, riscou outras e, por fim, escreveu: "0 armário estava vazio. Só esta tarde consegui ter a copia da chave. Esperei a melhor ocasião, abri-o e ao verificar que não continha nada, que a única coisa que me impelira ao matrimônio com um homem como ele, era um logro, dei um grito de raiva e perdi os sentidos. Não direi nada a ninguém, porque as minhas amigas ligar-me-iam para sempre a uma historia grotesca. Mas não voltarei nunca mais para o meu marido."

Mordeu delicadamente a ponta da caneta e ergueu os olhos numa atitude meditativa. De súbito, lembrou-se que a intimidade dos diários acaba sempre por ser violada (que graça haveria em escreve-los se assim não fosse?—pensou), e tomou outra resolução. Arrancou a pagina e queimou-a.

"Hoje abri o armário. Oh, e horrível ! Compartilho de um segredo que desejaria nunca ter descoberto. Procure em vão as palavras para me exprimir. A caneta seca-me ao tentar descrever o que os meus olhos contemplaram. Renuncio a fazê-lo por agora e parece-me que nunca me será possível."

Desta vez ficou verdadeiramente satisfeita. Guardou o diário e estendeu os braços para dar as boas vindas ao sono. Despiu-se, sonhadora, e meteu-se na cama.

Quinze dias depois, o amor próprio produziu-lhe uma outra preocupação. Para se libertar, redigiu uma breve nota, protegeu-a com am sobrescrito fechado e entregou-a a uma criada de confiança para que a levasse ao marido.

As pancadas rítmicas não tinham parado um só momento. Tentando evadir-se, andava de um lado para o outro da casa cantando com uma voz fina e assustada as canções que mais companhia lhe podiam fazer.

Mas que logro tão fraco para uma obcecação tão importante ! O armário estava ali, à espreita, e o medo acompanhava-o por toda a parte. Muitas vezes, levado pelo desespero, aproximava-se do armário disposto a abri-lo, mas faltava-lhe a coragem e deixava-se cair em qualquer assento, de cabeça baixa e as mãos agarradas apertando os dedos.

Assim foi surpreendido pela criada que lhe trazia a carta. Ouviu uma ligeira discussão à porta, uma voz que insistia em lhe entregar uma coisa pessoalmente, e dai pouco lia:

"Surpreendi o vosso segredo. Sei que o armário não contém nenhum elemento misterioso, ou melhor: não contém nada. Tive necessidade de lhe dizer isto para que não fizesse especulações a volta de uma pretensa parvoíce minha. E além disso porque tenho de o incitar a continuar indefinidamente essa história.

"A minha reputação, neste caso, está tão ligada ao armário como a sua, e a verdade encher-me-ia de ridículo. Queime esta carta, considere definitiva a nossa separação e tome todas as precauções para que essa farsa inventada continue a suscitar o interesse das pessoas, como até agora."

Seguiam-se umas frias palavras de despedida, mas ele nem as leu. Ergueu-se, radiante, enchendo os pulmões com uma grande inspiração. "Então não passava de uma parvoíce minha!"— exclamou. Rasgou a carta e atirou-a para a lareira.

Passou do abatimento mais profundo a uma euforia que abarcava todas as suas esperanças. Pensou ir imediatamente ao clube rever os velhos amigos; balançaria a chave de ouro e mostrar-se-ia mais sutil do que nunca. Aproximava-se a eleição do novo presidente da Câmara e voltou-lhe uma antiga ambição.

Vestiu o sobretudo de gola de pele e o chapéu cor de café. Antes de sair parou diante do armário e pensou : «Amanhã de manhã abri-lo-ei, num ato simbólico de afastamento de todos os receios.» Fez-lhe, com a mão, um gesto carinhoso e, ao aproximar-se, pisou uma poça de sangue. Pela fresta inferior do batente da porta, caiam gotas lentamente e a mancha aumentava. Mas ele nem reparou.

Deixou pegadas vermelhas nos azulejos do vestíbulo e pequeno tapete da entrada. O cascalho do jardim limpou-lhe as solas, e ao carregar todo o seu peso sobre a pedra do passeio, com os passo seguros de um homem que fugia a um pesadelo, já não o delatava nenhum vestígio.

Achou que a noite estava muito agradável e afirmou o propósito de ir ao clube com a assiduidade de antes. Mas estava escrito que nunca mais lá voltaria.
Pere Calders

O cego e o guia

Se o cego Marujo não enxergava, os olhos esbranquiçados nas órbitas graúdas, submersos nas sombras, cobertos por uns óculos de lente escura, como é que conseguia contar aquelas histórias adquiridas com os trovadores da cidade? Comentava-se que o seu guia, um menino de cor, apelidado de Zoinho por causa dos olhos pequenos sumidos na cara, era quem lia as histórias de cordel para ele no barraco onde moravam no bairro da Conceição.

Ele fazia a música que se encaixava perfeita na letra do cordel cujo conteúdo mais marcava a alma cantante acostumada nas visões alegres e sentimentos tristes. Sua memória prodigiosa gravava a história do cordel lida pelo menino, sem perder um detalhe, mas também gostava de improvisar com cantigas baseadas em histórias que ele mesmo inventava.

Além de guia, o menino Zoinho chamava o povo para escutar mais uma cantoria do cego Marujo. Aquele menino esperto não tinha pai nem mãe, vivia sem rumo, fazendo biscates na feira aos sábados e no terminal das marinetes na semana. Pedia comida na porta da família rica. Dormia embaixo da ponte numa cama improvisada com papelão grosso. Se cobria com uma coberta de lã velha, tinha vários furos no pano puído.

Até que um dia pediu ao cego Marujo para ser seu guia e fazer a limpeza no barraco. Não só fazia isso, preparava o café pela manhã e a comida à noite. Fazia a feirinha de mercado no armazém do português. De tal sorte um pegou afeição pelo outro, que o cego Marujo dizia que o menino era o filho que não teve, este dizia que ele era o pai que sempre quis ter. Antes de dormir e depois de acordar no outro dia, o menino Zoinho não esquecia de dizer:

– Benção, pai Marujo.

Chamava o povo para assistir mais uma cantoria do cego Marujo, que de repente gostava de tirar do sério o público, escutando-o em silêncio o que cantava em tom lamentoso. Terminava a cantoria com um gracejo que fazia a plateia cair na gargalhada. Não deixava de ressaltar alguma façanha que fazia no tempo de pescador. Certa vez, ouvi o cego Marujo falar do tempo que era jovem, enxergava até agulha na areia, e o que mais gostava, o mar como uma piscina sem fim alagado de azul. Era pescador que saía cedo para pegar o peixe nos longes mares bravios de Ilhéus.

O barco feito brinquedo
Indo pra lá e pra cá
Em cada onda gigante
Assombrando a tripulação,
Só Marujo não tinha medo
Quanto maior fosse o perigo
Causando enorme aflição.

terça-feira, outubro 6

Leitura no jardim

 


A faca no coração

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço.

– Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar.

– Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito.

– Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto.

– Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos?

– A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho.

– No começo eles tomam o partido da mãe.

– Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada.

– A outra filhinha?

– Também do lado da mãe.

– E o filho?

– Esse é o maior inimigo.

– Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver.

– Se ela está vendo… Tudo!

– Vendo o quê?

– É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete?

– …

– Meu filho, sinto uma pena de você!

– Ó Maria, mal de cada dia.

– Minha cama é só mordida de formiguinha ruiva. Usei tudo que é veneno. Até lavei o soalho. Mas não adiantou.

– É a famosa insônia de viúvo.

– Três da manhã, lá vem o negro desdentado, entra no quarto, deixa uma flor na minha testa.

– E quando você acorda, a flor está ali?

– Como é que adivinhou? Flor é do céu, não é? Quem manda é a velha: Vá cuidar do meu menino, tão sozinho.

– Deve arrumar uma companheira.

– Quem é que vai me querer?

– Quanta mulher, João. Uma viúva, uma desquitada infeliz, tanta professora bonitinha.

– Cada dia – são palavras da Maria – é mais difícil gostar de você.

– Mulher é que não falta.

– Tenho uma em vista. Viúva de trinta anos. Maria praguejou que sozinho não consigo outra.

– Deve mostrar para ela. Pode até escolher.

– Como é que você dobrou a Maria, assim furiosa? – perguntou a pobre velha, antes de morrer. Não dobrei a Maria, eu disse, dobrei os joelhos.

– Mudar a lente rachada não custa. Em vez dessa gravata fúnebre uma de bolinha azul.

– Nunca tomei um copo d’água sem dar a metade para ela, que no fim me fugiu. Na cama o cobertor era todo de Maria. Não tinha um fio e uma agulha para este botão?

– Bem sei que fazia pose para você. Logo ela!

– É refinada feiticeira. Coração comido de bichos, ela tem um buraco no peito. Sabe o que, no dia em que me abandonou?

– …

– Só de traidora degolou o casal de garnisés…

– Nem tremeu a mão de unha dourada.

– … estrangulou o canário no arame da gaiola…

– Não me diga, João!

– … e furou o olho do peixinho vermelho.

– Esqueça a ingrata nos braços de outra.

– Não é feia a viúva. Trinta anos mais moça, apetitosa. Só eu não mereço?

– Assim é que se fala, João.

– Não posso ter dó de mim, daí estou perdido. Acho que me engracei pela viuvinha. O amor é uma corruíra no jardim – de repente ela canta e muda toda a paisagem.
Dalton Trevisan

Guy de Maupassant

No inverno de mil novecentos e dezesseis fui parar em Petersburgo com um passaporte falso e sem um vintém sequer. Fui acolhido por Aleksei Kazántsev, um professor de filologia russa.

Ele morava em Pieski, numa rua gelada, amarelada e fedorenta. Um ganho extra para seu modesto salario eram as traduções do espanhol; naquela época, Blasco Ibañez estava ganhando fama.

Kazántsev nunca fora a Espanha, mas o amor a esse pais preenchia o seu ser; conhecia todos os castelos, jardins e rios espanhóis. Além de mim, amparava-se em Kazántsev uma multidão de pessoas excluídas da vida legal. Nos passávamos fome. De vez em quando, os jornalecos publicavam em letras miúdas as nossas notas sobre os acontecimentos.

De manha, eu perambulava pelos necrotérios e delegacias de polícia.

Mais feliz do que nós era mesmo Kazántsev. Ele tinha uma pátria: a Espanha.
Em novembro, ofereceram-me uma vaga no escritório da fábrica Obukhovski, um emprego muito bom, que dispensava do serviço militar.

Eu me recusei a me tornar um funcionário de escritório.


Já naquela época, com vinte anos de idade, eu disse a mim mesmo: é melhor a fome, a cadeia e a vagabundagem do que ficar sentado a mesa de um escritório dez horas por dia. Não havia nenhuma grande coragem nessa promessa, mas eu não a quebrei e nem vou quebrá-la. A sabedoria de meus antepassados estava na minha cabeça: nascemos para nos deliciar com o trabalho, a luta e o amor; nascemos para isso e nada mais.

Enquanto ouvia meu sermão, Kazántsev emaranhava a penugem curta e amarelada de sua cabeça. O horror em seu olhar misturava-se com a admiração.
No Natal tivemos sorte. O advogado Bendiérski, dono da editora Altsion, pensou em publicar uma nova edição das obras de Maupassant. A tradução ficou a cargo da esposa do advogado, Raíssa. Mas do intento senhorial não saiu nada.
Perguntaram a Kazántsev, o tradutor de espanhol, se ele não conhecia alguém para ajudar Raissa Mikhailovna. Kazántsev indicou a mim.

No dia seguinte, vestindo um casaco emprestado, eu me dirigi à casa dos Bendiérski. Moravam na esquina da Nievski com o Moika, numa casa construída com granito finlandês e revestida com colunas rosadas, seteiras e brasões de pedra. Banqueiros sem linhagem nem herdeiros cristãos convertidos que enriqueceram no comércio, tinham construído em Petersburgo, antes da guerra, muitos desses castelos vulgares e falsamente majestosos.

Pela escada estendia-se um tapete vermelho. Nos patamares havia ursos empalhados.

Em suas goelas escancaradas brilhavam redomas de cristal.

Os Bendiérski moravam no terceiro andar. A porta foi aberta por uma criada de busto alto, usando uma coifa. Ela me conduziu a uma sala com acabamento em estilo eslavo antigo. Nas paredes havia quadros azuis de Roerich: monstros e pedras pré-históricas. Pelos canto, em suportes, estavam dispostos ícones de escrita antiga. A criada de busto alto movia-se de modo solene pela sala. Era esbelta, míope e arrogante. A libertinagem estava petrificada em seus olhos cinzentos e arregalados. A moça movia-se devagar. Eu imaginei que, durante o amor, talvez ela se revirasse com uma agilidade furiosa. Uma cortina brocada pendurada acima da porta começou a balançar. Na sala, carregando grandes seios entrou uma mulher de cabelos negros e olhos rosados. Não foi preciso muito tempo para reconhecer na senhora Bendiérskaia aquela linhagem arrebatadora das judias vindas de Kíev e Poltava, das ricas cidades das estepes, cercadas de castanheiras e acácias. Essas mulheres transformavam o dinheiro de seus habilidosos maridos na gordura rosada do ventre, da nuca e dos ombros arredondados. O risinho sonolento e carinhoso delas tirava o juízo dos oficiais da guarnição.

— Maupassant é a única paixão da minha vida — disse-me Raissa.

Tentando conter o balanço dos grandes quadris, ela saiu da sala e voltou com uma tradução de “Miss Harriet”. Em sua tradução não restava nenhum vestígio da frase de Maupassant, livre, corrente, com um demorado sopro de paixão. Bendierskaia escrevia de um jeito enfadonhamente correto, sem vida e sem cerimônia, tal como os judeus escreviam antes em russo.

Levei o manuscrito, e em casa, na mansarda de Kazántsev, entre as pessoas que dormiam, passei a noite toda desbastando uma tradução alheia. O trabalho não estava tão ruim como parecia. Uma frase nasce boa ou ruim a um só tempo. O segredo está numa virada quase imperceptível. A chave deve ficar na mão, ser aquecida. é preciso virá-la uma vez, e não duas.

Na manhã seguinte levei o manuscrito corrigido. Raissa não mentiu quando falou de sua paixão por Maupassant. Ela permaneceu imóvel na hora da leitura, com as mãos entrelaçadas; aqueles bravos de cetim escorregavam para o chão, sua testa ficava pálida, a renda entre seus seios comprimidos deslocava-se e tremia.

— Como o senhor fez isso?

Então comecei a falar sobre o estilo, sobre o exército de palavras, um exército no qual circula todo tipo de arma. Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de forma tão congelante quanto um ponto colocado na hora certa. Ela escutava com a cabeça inclinada e os lábios pintados entreabertos. Um raio negro resplandeceu em seus cabelos laqueados, bem presos e repartidos. As pernas esmaltadas pela meia, com panturrilhas fortes e delicadas, estavam separadas sobre o tapete.

A criada, desviando os olhos devassos e petrificados, trouxe o café da manhã numa bandeja.

O vítreo sol petersburguense deitava-se sobre o tapete descorado e áspero. Vinte e nove livros de Maupassant estavam numa estante, acima da mesa. O sol tocava com dedos derretidos as lombadas de marroquim dos livros, o maravilhoso túmulo do coração humano.

Serviram-nos café em pequenas xicaras azuis, e nós começamos a traduzir “Idylle”. Todos se lembram do conto do jovem carpinteiro faminto que sugou de uma ama gorda o leite que a oprimia. Isso aconteceu num trem que ia de Nice para Marselha, num meio-dia abrasador, no pais das rosas, na pátria das rosas, lá onde as plantações de flores descem até a beira do mar...

Saí da casa dos Bendiérski com um adiantamento de vinte e cinco rublos. Naquela noite, a nossa comuna de Pieski ficou bêbada como um bando de gansos embriagados. Pegávamos caviar granulado e o comíamos com linguiça de fígado para tirar seu gosto. Meio embriagado, comecei a maldizer Tolstói.

Ele se assustou, o nosso conde, ficou com medo... Sua religião é o medo... Assustado com o frio, com a velhice, o conde teceu uma camisola de fé...

– E o que mais? — perguntou-me Kazántsev, balançando a cabeça de pássaro.

Adormecemos ao lado de nossas camas. Sonhei com Katia, uma lavadeira de quarenta anos que morava no andar de baixo. De manhã, pegávamos água quente com ela. Não tive tempo de enxergar claramente o seu rosto, mas Deus sabe o que eu e Katia fazíamos no sonho. Exauríamos um ao outro com beijos. Não me abstive de passar em sua casa na manhã seguinte em busca de água quente.

Fui recebido por uma mulher definhada, enrolada num xale, com as madeixas grisalhas despenteadas e as mãos úmidas.

A partir de então, passei a tomar o café da manha na casa dos Bendiérski todos os dias. Em nossa mansarda apareceram um fogão novo, arenque e chocolate. Raíssa levou-me às ilhas duas vezes. Eu não me contive, e contei a ela sobre minha infância. Para minha própria surpresa, a história saiu sombria. Sob o gorro de pele de toupeira, olhos brilhantes e assustados olhavam para mim. A tez ruiva dos cílios tremia melancolicamente

Conheci o marido de Raíssa, um judeu de cara amarela com uma cabeça calva e um corpo forte e delgado, que parecia inclinar-se, precipitando-se para o voo. Corriam rumores sobre sua proximidade com Rasputin. Os lucros obtidos por ele com suprimentos de guerra deram-lhe a aparência de um endemoniado. Seus olhos vagavam, o tecido da realidade tinha se rompido para ele. Raíssa ficava confusa ao apresentar novas pessoas a seu marido. Em razão de minha juventude, percebi isso uma semana depois de ocorrido.

Depois do Ano Novo, chegaram à casa de Raissa suas duas irmãs de Kíev. Um dia levei o manuscrito de “A confissão”, mas como não encontrei Raíssa, voltei à noite. Estavam ceando na sala de jantar. De lá vinha um relincho argênteo e um ruído surdo de vozes masculinas excessivamente alegres. Na casa de ricos sem tradições, as refeições são barulhentas. O barulho era judaico, com estrondos e desfechos melodiosos. Raíssa me recebeu num vestido de baile, com as costas nuas. Os pés, em sapatinhos laqueados e inseguros, pisavam desajeitados.

— Estou bêbada, querido — e ela me estendeu os braços cobertos de correntes de platina e estrelas de esmeraldas.

Seu corpo balançava como o de uma cobra erguendo-se para o teto ao som de uma música. Ela balançava a cabeça ondulada, tilintando os anéis, e de repente caiu numa poltrona com entalho russo antigo. Em suas costas empoadas ardiam cicatrizes.

Atrás da parede explodiu mais uma vez o riso feminino. Da sala de jantar saíram as irmãs de bigodinhos, tão peitudas e altas quanto Raíssa. Seus seios estavam projetados para a frente, os cabelos negros esvoaçados. Ambas eram casadas com seus próprios Bendiérskis. A sala ficou cheia daquela alegria feminina inconsequente, da alegria de mulheres maduras. Os maridos agasalharam as irmãs com casacos de pele de lontra e xales de Orenburg e calçaram-nas com botas negras; sob a viseira de neve dos xales ficaram apenas as bochechas ardentes e coradas, os narizes de mármore e os olhos de brilho semítico e míope.

Depois de fazer barulho, eles saíram para o teatro, onde era apresentada “Judith”, com Chaliápin.

– Eu quero trabalhar — balbuciou Raíssa, estendendo os braços nus —, perdemos uma semana inteira...

Ela trouxe uma garrafa e duas taças da sala de jantar. Seus seios repousavam livremente no saco de seda do vestido; os mamilos estavam eretos, cobertos pela seda.

– Reserva especial — disse Raíssa, servindo o vinho —, um moscatel de mil oitocentos e oitenta e três. Meu marido vai me matar quando souber...

Eu nunca experimentara um moscatel de mil oitocentos e oitenta e três, nem imaginara beber três taças, uma após a outra. Eles me levaram de imediato para vielas onde tremulava uma chama alaranjada e ouvia-se música.

– Estou bêbada, querido... O que temos hoje?

– Hoje temos “L’aveu”...

– Pois bem, “A confissão”. O sol é o herói desse conto, le soleil de France... Gotas derretidas de sol, ao caírem sobre a ruiva Celeste, transformaram-se em sardas. O sol polia com seus raios íngremes, vinho e sidra a cara do cocheiro Polyte. Duas vezes por semana, Celeste ia à cidade vender creme, ovos e galinhas. Por viagem, ela pagava a Polyte dez tostões por si e quatro pela cesta. E a cada viagem, Polyte dava piscadelas e indagava a ruiva Celeste: “Quando vamos nos divertir, ma belle?”. “O que quer dizer isso, monsieur Polyte?” Saltitando na boleia, o cocheiro explicou: “Mas que diabo, ‘divertir-se’ quer dizer ‘divertir-se’... Um rapaz e uma moça não precisam de música...”. “Eu não gosto dessas brincadeiras, monsieur Polyte” — respondeu Celeste e afastou do rapaz as suas saias, que estavam em desalinho sobre as panturrilhas poderosas com meias vermelhas. Mas o diabo do Polyte gargalhava e tossia: “Um dia vamos nos divertir, ma belle”. E lágrimas felizes rolavam em seu rosto cor de sangue, tijolo e vinho.

Eu bebi mais uma taça do moscatel especial. Raíssa brindou comigo.

A criada de olhos petrificados passou pela sala e desapareceu.

Ce diable de Polyte... Em dois anos, Celeste havia pagado quarenta e oito francos. Eram cinquenta francos menos dois. Ao final dos dois anos, quando eles estavam sozinhos na diligência e Polyte, que tinha tomado sidra antes da partida, perguntou como de costume: “Que tal nos divertirmos hoje, mademoiselle Celeste?”, ela respondeu de olhos baixos: “Estou a seu dispor, monsieur Polyte...”.
Raíssa desabou sobre a mesa com uma gargalhada. Esse diabo do Polyte...

A diligência foi atrelada a um pangaré branco. O animal de lábios rosados por causa da velhice foi a passo. O sol alegre da França cercou o veículo protegido do mundo por uma capota desbotada. Um rapaz e uma moça; eles não precisavam de música...

Raissa estendeu-me a taça. Era a quinta.

– Mon vieux, a Maupassant...

– Que tal nos divertirmos hoje, ma belle...?

Eu me estiquei para Raissa e beijei seus lábios. Eles ficaram trêmulos e inchados.

– O senhor é divertido — murmurou Raíssa entre lábios e recuou.

Ela se encostou na parede, com os braços nus estirados. Pintas brilharam em seus braços e ombros. De todos os deuses crucificados, esse era o mais sedutor.

– Tenha a bondade de sentar-se, monsieur Polyte...

Ela me indicou uma poltrona azul reclinada, feita ao estilo eslavo. Seu encosto era um entrelaçamento de madeira esculpida com pontas pintadas. Caminhei até lá, tropeçando.

A noite pôs diante da minha juventude faminta uma garrafa de moscatel de mil oitocentos oitenta e três e vinte e nove livros, vinte e nove petardos recheados de piedade, espírito, paixão... Eu dei um salto, derrubei a mesa, esbarrei na estante.

Os vinte e nove volumes desabaram sobre o tapete; suas páginas se espalharam, eles ficaram virados... e o pangaré branco do meu destino foi a passo.

– O senhor é divertido — rugiu Raíssa.

Saí da casa de granito no Moika depois das onze horas, antes que as irmãs e o marido voltassem do teatro. Eu estava sóbrio e poderia andar sobre uma tábua, mas era bem melhor cambalear; e eu balançava de um lado para outro, cantando numa língua inventada só por mim. Nos tuneis das ruas contornadas por uma cadeia de lampiões, os vapores da neblina vagavam em ondas. Monstros urravam atrás das paredes em ebulição As calçadas decepavam as pernas que seguiam por elas.

Em casa, dormia Kazántsev. Dormia sentado, com as pernas magras esticadas em botas de feltro. Adormecera junto ao fogão, inclinado sobre o Dom Quixote, uma edição de 1624. No titulo desse livro havia um: dedicatória ao duque de Broglio.

Eu me deitei em silêncio para não acordar Kazántsev, aproximei a lâmpada e comecei a ler o livro de Édouard de Maynial, "Sobre a vida e a obra de Guy de Maupassant".

Os lábios de Kazántsev se mexiam, sua cabeça pendia.

E naquela noite eu soube por Edouard de Maynial que Maupassant nascera em 1850, filho de um fidalgo da Normandia e de Laure de Poittevin, prima de Flaubert. Aos vinte anos teve seu primeiro ataque de sífilis hereditária. A criatividade e o entusiasmo que tinha em si resistiram a doença. No inicio sofreu dores de cabeça e acessos de hipocondria. Depois o fantasma da cegueira apareceu diante dele. Sua vista enfraqueceu. Ele desenvolveu uma mania de desconfiança, insociabilidade e trapaça. Lutou furiosamente, desvairou-se pelo Mar Mediterrâneo, foi a Túnis, ao Marrocos e a África Central; e escrevia sem cessar. Depois de alcançar a fama, cortou a garganta aos quarenta anos de idade, esvaiu-se em sangue, mas ficou vivo. Foi internado num hospício. Ali ele andava engatinhando... O ultimo relatório em sua triste ficha diz:

“Monsieur de Maupassant va s’animaliser.” (“O senhor Maupassant transformou-se num animal.”) Ele morreu aos quarenta e dois anos. Sua mãe sobreviveu a ele.

Li o livro ate o fim e levantei da cama. A nevoa se aproximou da janela e cobriu o mundo. Meu coração ficou apertado. Um pressagio da verdade me roçou.
Isaac Babel

O relógio

O mais feroz dos animais domésticos
é o relógio de parede:
conheço um que já devorou
três gerações da minha família.

Mario Quintana

Requerimento

Ao Sr. Chefe de Polícia de Niterói

Exmo. Sr.

O abaixo assinado, cidadão brasileiro, maior, vacinado, amigo da ditadura e profundo admirador de todos os próceres revolucionários, achando-se, portanto, em pleno gozo dos seus direitos políticos, pede licença, vênia e permissão para dirigir-lhe a seguinte exposição:

Fui procurado, há dois dias, por uma comissão de conceituados cachorros da nossa praça, dois “lulus” e dois “fox terriers”, que, apresentando-me um recorte de jornal, me pediram que o lesse, num dos seus parágrafos. O recorte continha as instruções baixadas por V. S. a respeito das praias balneárias da capital fluminense, e nelas, entre outras proibições, V. S. declarava, no 6º item: “Só é permitido o banho de cães e outros animais de 11 às 16 horas nos dias úteis, e de 13 às 15 horas nos domingos e feriados”.

Ora, exmo. Sr. Chefe de Polícia, a honrada comissão canina que me procurou e me delegou poderes para servir de intérprete diante de V. S. não pode, em absoluto, concordar com a exigência descabida e arbitrária com que V. S. está ameaçando os indefesos cães da leal cidade de Niterói, que se acham, agora, devido àquelas instruções, coagidos na sua liberdade física e impedidos de tomar o seu banho à hora que bem lhes aprouver.

Disse que o ato de V. S. é arbitrário e exorbitante. Passarei a prová-lo.

É doutrina assente entre os maiores jurisconsultos que o mar tem a qualidade de coisa comum (“res communis omnium”), não podendo, portanto, ser propriedade de ninguém. Desde que, em épocas remotas, se derrubou a tese medieval do “mare clausum”, ficou claro, nos textos jurídicos, que o Estado pode, “jure civili”, apropriar-se, e exercer soberania, sobre uma parte do mar, em casos de exigências de navegação ou de repressão a piratarias. Isso quanto ao mar alto. Quanto, porém, à parte marginal, os textos romanos fazem concessões de direito privativo apenas em dois casos: quanto ao direito de pesca (“locationes piscatus”) e quando o proprietário marginal executa obras em que se faz mister o aproveitamento do mar (“jus proprium”).

Ora, exmo. Sr. Chefe de Polícia, nenhum desses é o nosso caso. Logo, a polícia não tem, sobre o mar das praias de Niterói, direito privativo, podendo, apenas, exercer sobre ele “protectionem” e “jurisdictionem”.

Dir-me-á V. S. que é isso exatamente o que a polícia está praticando… Responder-lhe-ei, todavia, que V. S., ainda assim, continua exorbitando, pois, como V. S. não deve ignorar, por tratar-se de doutrina assente e irrefutável, “a toda obrigação corresponde um direito”.

Ora, o Estado, que exige obrigações dos cachorros, concede-lhes, porventura, direitos?

Não. Tanto não os concede que, quando qualquer pessoa, física ou jurídica, se encontra completa-mente desamparada e perseguida, assegura que leva uma “vida de cachorro”. Com isto, dá-se a entender, clara e insofismavelmente, que o Estado não ampara os cachorros, nem lhes concede direitos; ao contrário, persegue-os implacavelmente, com “carrocinhas” em que se aboletam soldados de armas embaladas, dando, assim, ao seu ato de extermínio, um aparato bélico absolutamente assustador! E, quando um cachorrinho, por acaso, é colhido por um bonde da Light, os seus parentes têm o direito de propor uma ação de indenização? Não têm. O Estado não se preocupa com eles, a não ser para laçá-los nas ruas ou nos jardins, levá-los para o Depósito Público e lá conservá-los como reféns por dois ou três dias, exigindo de seus donos, para a sua liberdade, a quantia de setenta mil-réis, sem o que os desgraçados serão mortos, ou melhor, matados sumariamente, sem apelo nem agravo.

Vê, pois, o Exmo. Sr. Chefe de Polícia de Niterói que há nisso tudo apenas uma violência a que os honrados cachorros fluminenses não podem submeter-se. Se “a toda obrigação corresponde um direito”, como quer o Estado impor aquela sem conceder este? Se os cachorros não têm nem sequer o direito de locomoção — porque a carrocinha os apanha fatalmente —, como quer exigir deles a obrigação de tomarem seus banhos de mar em horas determinadas?

A comissão canina que me procurou está disposta a reagir energicamente contra o ato arbitrário de V. S. arrogando-se um direito privativo (“proprium jus”) de uma coisa que, como o mar, pertence a todo o mundo, quero dizer, é “res communis omnium”. E, Sr. Chefe de Polícia, posso adiantar-lhe que a classe canina está organizando uma “frente única”, na qual entrarão lulus, podengos, mastins, filas, molossos, terriers, policiais, collies, dinamarqueses, pequineses, buldogues, vira-latas etc., com o firme propósito de irem às praias de Niterói e tomarem banho à hora em que entenderem fazê-lo, dispostos a reagir niponicamente contra qualquer tentativa de repressão.

Eis aí, Sr. Chefe de Polícia, o pensamento da comissão canina que me procurou. Se eu, simples intérprete, pudesse dar-lhe um conselho, dir-lhe-ia apenas: revogue o seu ato injusto. Se, contudo, V. S. persistir em mantê-lo, só me cabe dizer-lhe: ponha as suas pernas no seguro, porque V. S. nada poderá fazer contra essa avalanche cachorral; nem sequer prendê-la.

Porque — lá diz a sabedoria popular — cadeia não foi feita para cachorro.

Belmonte (Benedito Carneiro Bastos Barreto, 1896 - 1947), “O mundo pelo avesso”

O terror

E havia luz demais para seus olhos. De repente um repuxão; ajeitavam-no, mas ele não sabia: só tinha mesmo era o terror de rostos inclinados para o seu. E ele não sabia de nada. E não podia se mexer livremente. As vozes que para ele eram trovões, só uma voz era cantante: ele se banhava nela. Mas logo em seguida era depositado e vinha o terror e ele gritava entre as grades e viu cores que depois ele entendeu que eram azuis. O azul o molestava e ele chorava. E o terror das cólicas. Abriam-lhe a boca e depositavam coisas ruins na boca, ele engolia.

Quando era a voz cantante que lhe dava coisas ruins, ele suportava melhor. Mas era logo depositado entre as grades. Sombras gigantescas rodeavam-no. E então ele gritava. A mínima luz de tudo isso é que ele acabara de nascer. Tinha cinco dias de nascido.

Depois de mais velho ouviu sem entender: “Este menino já não dá trabalho mas quando nasceu dava choros e urros. Agora felizmente é mais fácil de criá-lo.” Não, não era fácil, nunca seria fácil. O nascimento era a morte de um ser uno se dividindo em dois solitários. Agora parecia fácil porque ele aprendera a manejar o seu terror secreto que duraria até a morte. Terror de estar na terra, como uma saudade do céu.

Clarice Lispector, "Todas as crônicas"

segunda-feira, outubro 5

Reciclagem

 


O Diabo que assoviava

O problema com essas histórias todas é que é tudo offzirrécorde, como se diz atualmente. Quer dizer, quem diz não escreve e quem escreve não assina. Não tolero isso. Pode estar muito na moda, mas não me convence. Eu, você pode escrever aí: foi eu que disse. O resto de quem sabe, não querendo confirmar, não confirme. Escreva aí, sem o offzirrécorde. O camarada tem medo de dizerem que ele é colhudeiro, a verdade é o sol e ele é a lua, essas coisas. Comigo não, escreva. O diabo Beremoalbo, muitas pessoas estiveram pessoalmente com ele - posso citar diversas, aliás não cito nada, hoje em dia o sujeito cita e, quando está bem do seu, já virou alcaguete, pode deixar - o diabo Beremoalbo era um diabão altamente escroto, dos piores que já apareceram por aqui, inclusive fazia as desgraças dele e dava grandes gaitadas, espécie de curriúque-curriúque, só que com aquele bafo de diabo, absolutamente diferentíssimo. Ele chegava na porta das pessoas explodindo fortemente as letras que movimentam os beiços:

— Boa noite. Meu nome é Beremoalbo.

E aí podia se resignar, que seguia uma escrotidão em cima da outra, encarreirado. Leite azedando, mulher abortando, menino de caganeira, boi de bicheira, água podre no purrão, panarício no dedão, moça velha desonrada, casa nova destelhada, tudo o que possa lhe ocorrer. O bicho tinha uma voz péssima, mestiça de gruta, uma coisa horrível de se ouvir assim no meio da noite — meu nome é Beremoalbo —, imagine o senhor. Pessoas há que procuram achar qualidades nesse diabo Beremoalbo, mas a verdade precisa ser dita, porque não existe coisa ruim neste mundo que não apareça algum descarado para elogiar: nesse Beremoalbo não tem nada que se salve, não se pode ter a mínima confiança nele. Para não dizer mais nada, recordo o dia em que seu Beremoalbo se nos aparece por meio do serviço de alto-falantes. O que ele diz é o seguinte:

— Boa noite. Ao microfone, Beremoalbo. Votem no Medebê.

Agora o senhor veja que conselho porreta que ele achou de dar. Interessante. Com certeza é a mãe dele, se diabo tivesse mãe, que vai ficar aqui aguardando quatro anos sem nem o secretário da Justiça, que é o mais esculhambado de todos, aparecer por aqui, mordamos aqui para vermos se sairmos leite, ora me deixe. Acredito ser isto suficiente para saber de quem se trata Beremoalbo.

Entretanto, Beremoalbo está longe de ser o único da raça do cão a frequentar por aqui, aliás, é exatamente de um caso desses que eu quero tratar, mais tarde lhe falo, logo, logo. Tem gente que nega, mas, quando o senhor virar as costas, vão se benzer e espalhar alho pelos cantos da casa, só que Beremoalbo come alho, com ele o negócio é difícil. Tem gente que nega, mas só de fingimento, pois a verdade é que esse pessoal todo vai se lembrar se o senhor chegar para eles e mencionar alguns dos seguintes cães: Balganoel, o espalha-merda; Virifinário, o que conseguiu fazer aparecer mais cornos nesta terra do que se pode contar; o diabão Jugurta, que convencia todo mundo a dizer a verdade e assim causou toda apresentação de fatos maus que a gente seria feliz se não soubesse; Harpagelão, que meteu na cabeça de diversos padres de ir na terra de uns índios mais do que degenerados, os quais comeram Roquiféler - uns índios que comeram Roquiféler, vai se brincar com um povo desses? - e igualmente que os índios comeram os padres e nem pensaram duas vezes, que quando índio pensa meia vez pensa muito; Rolvinésio, o que botava para falar e, botando gente para falar, causou grande número de misérias; Erundino, que peidava nos ambientes e provocava inimizades; Raimundo Humberto, dador de bofetadas estraladas, levantador de saias de mulheres, assoprador de ventos maus de toda consequência, causador de dor de ouvidos, mandador de moscas na hora do sono, broxador de amantes, atiçador de crianças insuportáveis e tudo mais que faça nós o Homem que possamos dirigir blasfêmias ao Nosso Criador - mas esse Raimundo Humberto, o senhor tem de concordar que um diabo chamado Raimundo Humberto nunca que pode ser a mesma coisa de um diabo atendendo por Beremoalbo, então seu Raimundo Humberto se fazia passar, a quantos coubesse a desgraça de topar com ele, por Ascaltenor, mas esse já é outro diabo, que não atenta aqui.

Pode o senhor assim consultar a nossa praça e perceber o que quiser. Porque cada um percebe o que quer, apesar de todo o offzirrécorde. Embora não perceber certas coisas já pareça descaração, mas manda a caridade que se deixe isso de lado. Nunca me esqueço de que uns americanos estiveram aqui e filmaram o povo todo - sem porém pagar um tostão a ninguém, como eles pagam por exemplo a Tarzan, claro que ninguém aqui é Tarzan, mas também é filhos de Deus - e, quando notaram que a maior parte só trabalha quando está com fome, disseram que todo mundo aqui somos uma sociedade rica. E ainda sustentaram e botaram na rádio. Quer dizer, quanto mais a gente estiver morando no oco dos pés de pau e cagando nos matos, mais eles estão gostando. Americano é mais sabido até do que paulista. Estamos de olho neles todos. O diabo Gildélio, conforme o senhor sabe, do contrário não estava perguntando a respeito dele, era mais especial do que esses outros, isto porque, de acordo com todas as testemunhas, trazia sempre franzido o sobrolho e a cara ensombreada, por isso que não suportava ser diabo. Se bem que nessa eu não creio assim cem por cento, porque cansei de ver ele sair da bodega de Ernestino com cada lasca de jabá deste tamanho na mão, que ele roubava, provocando com isso peixeiradas e tentativas de Ernestino contra qualquer pessoa que apresentasse cara de haver comido jabá naqueles dias, notadamente jabá crua. Eu mesmo estive acusado falsamente. Quer dizer, são umas coisas que fazem a pessoa alimentar certas dúvidas.

No entanto, de relação aos assovios, posso muitíssimo bem prestar depoimento, isto porque todos nesta cidade sabem que um certo tipo de assovio, antes muito ouvido por aqui, podia contar como uma espécie de aviso, porque lá vinha miséria. Acúrcio mesmo, depois que ele já tinha metido no juízo de Acúrcio casar com Isabel Rosália e morar com a mãe lá dela, dona Aurora, que só não se podia chamar de jararaca porque a jararaca tem a natureza mais cortês. Por aí o senhor tira a natureza de dona Aurora. Pois Acúrcio garante que, na hora do pedido de casamento, ele ouviu aquele assoviozinho como que de curió, assim no pé do ouvido bem lá dele. A consciência cochichou: atenção nos assobeios, que possa ser Gildélio. Mas aí é que está o particularismo da situação. Na hora, o sujeito não dá importância ao assovio, de forma que a desgraça fica feita. A mesma coisa pode ser dita dúzias e dúzias de vezes, como no caso de Genival, esse mesmo que o senhor está pensando, que vem ouvindo esses assovios toda vez que se candidata, desde vereador aqui até prefeito, deputado, vai a senador — quer dizer, chegando em todas as alturas políticas, não tem quem salve ele do inferno. Como no caso de Totonho, para mim ele continua a ser Totonho, lá fora é que chamam de doutor, doutor para mim é ourinol, não vou chamar de doutor um moleque daquele, que eu vi o pai muitas vezes passando cabresto em jegue alheio nos pastos, ora me deixe. O caso dele é que hoje, de grau em grau, é dono de altos bancos e altíssimas fábricas e é empregador — que ele chama empregador e não gosta que chamem de patrão, por causa do natural acanhamento — de diversas pessoas, porém sempre ele ouvindo o assovio de Gildélio, quanto mais dinheiro ele vai ganhando. Tem uns dinheiros de viúvas que ele também arrecada e escreve numa caderneta e esses incrementam muitíssimo a assoviação. Deixe ele.
Fala-se em Gildélio também, quando, por uma razão ou por outra, a pessoa se engana com alguém e pega esse alguém com a boca na botija em alguma desgraceira contra si, isto porque, segundo se diz, seu Gildélio me comete as piores safadezas por entre os disfarces mais descarados e as mais altas finuras. O sujeito pega ele armando uma sacanagem e ele faz o seguinte discurso:

— Creia, meu senhor, neste mundo é muito fácil condenar e ainda mais fácil ignorar. O senhor me compreenda, eu sou diabo, é uma fatalidade, o que é que se pode fazer? Alguém tem que ser diabo, havemos de convir. Vamos compreender. Não se condena pela profissão, sem conhecer o caráter. Se eu fosse anjo, está certo. Mas eu não sou. De forma que só posso fazer esse tipo de coisa, o senhor por fineza queira relevar. Posso garantir que, se o senhor fosse diabo, estava na mesma situação, firuri-firuri.

Bom consolo, pode o senhor dizer e, de fato, nada disso ia impedir que a desgraceira fosse feita. Pelo contrário, acho que nisso vai a demonstração de que Gildélio pode ser o exemplo de todos os diabos, pois devia ser verdade conhecida que nenhum assovio ou até apito de trem vai desviar o homem de seu mau destino. De maneira que podemos considerar esses assovios na qualidade de deboche, mesmo porque a situação aqui é de molde que, se o urubu de baixo está cagando no de cima, isso se descreve como boas notícias. É assim que vemos as coisas pretas, Deus é grande. Aliás, podia chegar uma banda de assoviadores que nada se alterava, pois desde que este mundo é mundo que existe um assoviador, sem que ninguém devote a ele preocupação, porventura senão um maestro ou outro, para lhe comunicar que o seu dó maior enganchou no si bemol.

Não sei de nada, até nem sou daqui e, mesmo que fosse, não estava aqui e, mesmo que estivesse, não falava nada. Estou ficando nos paraxismos, a culpa é sua, que me deu álcool. Estou sabendo apenas que esse diabo tanto atanazou a vida do meu compadre Tito Procópio que esse compadre, ouvindo embora os assovios, fez mais filhos do que devia a consciência consentir, pois afirmava Tito Procópio que o filho era a riqueza do pobre, convencimento este assoprado pelo Gildélio mencionado. Sendo que Gildélio, que tinha se provado amigo da família, tudo bem disfarçadinho, mostrou que não ter filhos ia ser bem pior. Além de ser maldição, exibia aos vizinhos gala fraca ou mulher maninha e, mais do que importante, podia ser - estou dizendo assim: sempre podia ser, às vezes possa ser até que não podia ser, que eu não sou comunista - podia ser que, sem mais gente para ajudar na produção, podia ser que eles não pudessem mais ficar ali, naquelas terras que não eram deles. Considerado isso, lembre que tanto faz nascer como não nascer, que a comida não aumenta, mas a produção pode aumentar. E tal e coisa. E só os assovios. Pois então Tito Procópio foi tendo filhos, juntamente com despesas de enterros diversos, muito embora tenha feito muitos que viviam ali mesmo, comendo o barrinho deles e esfregando as barriguinhas d'água deles e dois ou três quem sabe se não pode vir a ser até peão, se forte?

Terminou, naturalmente, que Tito Procópio desmascarou Gildélio e se preparou para envergonhar esse diabo, quando ele então começou com a história de que culpa ele tinha se ele era diabo. Mas logo eu, disse Tito Procópio, logo eu, que sou pobre e nada possuo nesse mundo? Podendo vosmecê ir infernar quem por aí explora e torpedeia?

É por isso mesmo, disse o diabo Gildélio, olhando para os meninos amarelos com seus olhos maus e dando um sorriso horrível como só o diabo pode dar, o sorriso mais feio do mundo. E ele sorri porque sabe que não pode obrar coisa pior do que fazer nascer. Pelo menos nascer por aqui.
João Ubaldo Ribeiro

E de súbito um sino

Eis como tudo
entra de súbito
pelas palavras:
a terra e o mar
as mãos e as vozes.
Tua guitarra.
Teu génio.

E o teu silêncio
é de súbito um sino
tocado pelo vento
em todas as aldeias do meu sangue.

Porque tudo começa onde começas
porque tudo se chama o nome do teu nome
porque tudo se escreve com a tua história.

Porque tu estás em tudo o que circula
e tudo tem o preço do teu sangue.
Porque tu moves com teus ombros as cidades
tocaste a pedra e a pedra fez-se casa
tocaste o bosque e o bosque fez-se barco.

Porque um país tem o tamanho dos seus homens
e o meu país tem o teu tamanho e nada mais.
Porque nada é tão grande como as tuas mãos:
oitenta e nove mil quilómetros quadrados.
O céu e o mar. E todos os navios.
E todos os poemas.
Manuel Alegre. "O Canto e as Armas"

A caixa de laranjada

Deixei a roça sem saudades. A saudade vem com a velhice. Não sofri com a mudança. Como disse Caeiro, “as crianças são de novo nascidas a cada momento para a eterna novidade do mundo”. Tudo era novidade. Não me importava que a casa para onde nos mudamos fosse do tamanho de uma caixa de fósforos. Eu não sabia que ela era do tamanho de uma caixa de fósforos. O que me importava era o fato de minha casa se encontrar atrás de um Castelo Encantado. Lá estava ele, no alto da colina, enorme, fechado, misterioso. Dos pátios vazios que o circundavam, olhando-se para baixo se via um lago azul imenso, coisa que eu desconhecia porque na roça eu só conhecera riachinhos e lagoinhas. E havia marrequinhos a nadar...

Depois de grande pensei que não havia razões objetivas para nos termos mudado para Lambari. Meu pai era agora viajante, precisava de trens, e o mais lógico teria sido Três Corações, entroncamento ferroviário. Por que ele escolheu Lambari? Acho que foi por causa do Castelo Encantado... Ele me levou a visitar o Castelo por dentro, graças à amizade que fizera com o guarda. Eram salas imensas, empoeiradas, silenciosas, escuras, os móveis cobertos com lençóis, lustres de cristal, mesas de veludos vermelhos e verdes. Tudo parecia dormir. Eu estava no Castelo Bela Adormecida...

Mais tarde me explicaram, e com a explicação o Castelo deixou de ser Castelo. Foi-se o mistério. Virou um cassino. O assombroso desse cassino é que ele teve uma noite de glória, uma única noite de glória. Foi fechado por ordens superiores no dia seguinte ao de sua inauguração, sem explicações, e nunca mais foi aberto.

O tempo realizou o seu trabalho de desencantamento. Hoje nele funcionam repartições da prefeitura. As riquezas antigas desapareceram. Parece que foram saqueadas. Agora ele está reduzido à banalidade de um prédio onde funcionam repartições burocráticas. Visitei-o sob sua nova forma. O lago é o mesmo. Os marrecos continuam a nadar. Observei os funcionários. Eles não sabem que estão andando num espaço onde, em tempos esquecidos, viveram reis e donzelas. Agora, na lanchonete, se serve um cafezinho com pães de queijo...

Cheguei e percebi que acabara de entrar num mundo diferente daquele em que eu vivera. Mas o desconhecido não me amedrontava. Ao contrário. Dava-me uma alegre sensação de liberdade. Lá não havia nem onças nem meninos abandonados dentro da mata. Tive uma cadela que, quando novinha, de repente, sem nenhuma razão especial, se punha a correr e a saltar como doida, em círculos, pela própria alegria de viver. E eu me vejo, menino de seis anos, como a minha cadelinha, correndo de alegria, sem nenhuma razão, entrando pela porta da frente da casa, atravessando alpendre, a sala, saindo pela porta da cozinha, voltando para a frente da casa, para fazer tudo de novo, em círculos...

As evidências da novidade do mundo eram claras. A primeira era a maravilha das lâmpadas elétricas que pendiam do teto ao fim de um fio coberto de cocôs de moscas. Mas que são cocôs de moscas diante do assombro? Bastava girar uma orelha no bocal para que a lâmpada acendesse! Adeus, lamparinas! Adeus, cheiro de querosene! Adeus, fuligem negra! Na roça o mundo e a vida eram misteriosos.

Mas não os objetos. Bastava olhar para compreender como eram feitos e como funcionavam. Uma lamparina, nada mais simples: um recipiente de vidro ou lata, querosene, pavio, fogo, luz. Era fácil fazer uma lamparina. Mas a lâmpada elétrica pertencia a um novo mundo, onde os objetos eram opacos. Como são feitas as lâmpadas? Como acontece o milagre da luz? Que coisa é essa chamada eletricidade que ninguém vê, que faz a lâmpada acender e que dá choque quando se toca nela, invisível?

A outra evidência era a privada. Bastava puxar uma cordinha para que acontecesse uma descarga de água que fazia desaparecer os cocôs...

Não tínhamos móveis. Mas o meu pai dava um jeito. Foi a um armazém, arranjou um caixote grande de madeira, trouxe-o para casa, tirou uma porta das dobradiças, pregou a porta sobre o caixote — e eis a nossa mesa! Infelizmente a mesa apresentava um problema devido à sua construção: ela funcionava como uma gangorra. Quem estivesse assentado à cabeceira, se se apoiasse sobre a mesa, corria o risco de receber uma terrina de feijão na testa. Guarda-roupas, nem pensar. Meu pai não se perturbou. Juntou uns cabos de vassoura abandonados, fez buracos nos ângulos das paredes e neles encaixou os cabos de vassoura que, assim, se transformaram nos nossos guarda-roupas, onde pendurávamos os cabides. Muito pouco, mas o suficiente para as poucas roupas que tínhamos.

Um dia o pai, viajante, chegou de uma de suas viagens com uma surpresa alegre. Como já disse, ele vendia de tudo. E também caixas de doces de frutas em pasta: goiabada, pessegada, marmelada, laranjada. Pois uma caixa de doce de laranja de cinco quilos ficara encalhada e assim ele a trazia como presente. Foi uma felicidade! Comeríamos sobremesa! No primeiro dia foi uma festa. Também no segundo, no terceiro e no quarto. Acontece, porém, que cinco quilos de doce de laranja é muito... Por mais que comêssemos, a laranjada não diminuía de tamanho. Transcorridas duas semanas, já não podíamos ver a caixa, que voltava sempre para a mesa. E, sendo pobres, não podíamos nos entregar ao luxo de jogá-la fora. A laranjada, de alegria se transformou em tortura. Levou muito tempo para que terminasse. Terminou. Mas o trauma ficou.
Rubem Alves, "O Velho que Acordou Menino"