quarta-feira, abril 29

Um porteiro de cor escura

Os amigos reviram suas capas puídas e varrem o chão com seus chapéus. Cumprida a mútua reverência, se elogiam:

– Maravilha esse toco de braço!

– E essa tua chaga? Está tremenda!

Atravessam junto o descampado, perseguidos pelas moscas. Conversam enquanto mijam, de costas para o vento.

– Tempos sem te ver.

– Corri feito mosca. Sofrendo, sofrendo.

– Ai.

Laxartixa extrai do bolso uma bolacha dura, sopra, dá brilho e oferece a Pedepão. Sentados em uma pedra, contemplam as flores dos abrolhos.

Pedepão morde com todos os seus três dentes, e conta.

– Na Auditoria, boas esmolas havia... O melhor lugarzinho de Lima. Me expulsaram a pontapés. Foi o porteiro.

– Juan Ochoa?

– Satanás, você quer dizer. Lá sabe meu Deus que eu não fiz nada.

– Já não está Juan Ochoa.

– Verdade?

– O expulsaram feito cachorro. Já não é porteiro da Auditoria, nem nada.

Pedepão, vingado, sorri. Estica os dedos de seus pés descalços.

– Por suas maldades, deve ter sido.

– Não, não.

– Por ser burro?

– Não, não. Por ser filho de mulata e neto de negra. Por isso.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

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