terça-feira, julho 14

Escritor é despejado em Nova York por guardar dez mil livros em casa

Para um jovem estudioso e escritor judeu chamado Mendel Uminer, os livros são a fonte do esclarecimento. Por isso, quando conseguiu um apartamento tipo estúdio a apenas um quarteirão do Central Park, no Upper East Side de Manhattan, há um ano, ele levou seus livros consigo — todos os dez mil exemplares. O que se seguiu, pelo menos por um breve período, foi uma vida encantadora em seu templo do conhecimento de 55 metros quadrados.

Ao seu redor, pilhas de obras sobre o judaísmo, cinema, ópera, peças de teatro e poesia — e Uminer dormia em um colchão no chão. Acordando por volta do meio-dia, passava as tardes em sua chaise longue, devorando obras e nutrindo a mente enquanto a cidade fervilhava lá fora.


Estou sempre lendo. Leio para extrair conhecimento. Preciso de cada livro que possuo. Minha biblioteca é meu manual de vida

Ele trabalhava como tradutor de hebraico freelance e usava o apartamento como sede de sua recém-criada revista literária, a Notarikon Review, organizando festas que ganharam fama entre certos círculos da cena literária de Nova York. E as pilhas continuavam a crescer.

— Não me considero um acumulador compulsivo, mas acho que o pessoal do meu prédio pensava diferente — disse.

No início do ano, ele recebeu uma notificação da administração do edifício: “Você está violando uma obrigação fundamental do seu contrato de locação. Você está mantendo o imóvel em um estado de excessiva desordem; permitindo o acúmulo excessivo de livros no local; e criando risco de incêndio devido ao acúmulo excessivo de livros inflamáveis no imóvel”, dizia.

— Eles alegavam que meus livros representavam risco de incêndio e eu teria de sair se não me livrasse deles — recordou Uminer.

Como não atendeu ao aviso, o processo de despejo foi iniciado.

— É, talvez eu seja um pouco diferente. E sei que minha biblioteca pode parecer exagerada para alguns. Mas não é tão exagerada quanto as pessoas imaginam. Em um lar rabínico, ninguém estranharia uma biblioteca como a minha. A leitura faz parte da minha cultura.

Criado em um enclave hassídico no Brooklyn, Uminer cresceu falando iídiche com os avós. Seu pai, Isaac, adorava estudar a Torá com ele. Mas o menino ansiava por literatura. Aos 12 anos, já lia Dostoiévski.

Na adolescência, Uminer frequentou um seminário rabínico, onde se dedicou aos estudos talmúdicos. As aulas começavam às 7h e terminavam com noites de debates acalorados com os rabinos, regados a vodca.

No início da casa dos 20 anos, passou a frequentar mais a livraria Strand do que os empórios de artigos judaicos do Brooklyn. Um ano antes de sua ordenação, abandonou o caminho que haviam traçado para ele.

— Decidi que deveria simplesmente fazer o que queria: ingressar na sociedade cultural liberal e moderna de Nova York.

Depois de guardar seu quipá, Uminer matriculou-se na Universidade de Columbia para estudar cinema e filosofia. Após se formar, aos 27 anos, conheceu uma jovem de Paris. Aventurou-se a ir para a cidade dela, onde o romance chegou ao fim.

— Lá havia as melhores revistas de política e publicações literárias. Paris me transformou — disse ele, que passava horas nas bancas de livros ao longo do rio Sena.

Lendo publicações como a Nouvelle Revue Française e a Connaissance des Arts, descobriu sua vocação:

— A escrita deles demonstra uma familiaridade com a controvérsia, uma precisão argumentativa e um senso de consciência histórica de que precisamos mais — disse ele.

De volta a Nova York, Uminer decidiu lançar sua própria publicação, a Notarikon Review, revista eclética que vai “publicar pessoas que não concordam em tudo”, como afirmou. Alguns dos escritores que ele recrutou são antigos adversários das redes sociais. A edição impressa está prevista para sair este ano.

Recentemente, Uminer esteve na livraria Mizrahi, no Brooklyn. Foi calorosamente saudado pelo proprietário, Israel Mizrahi.

— Acho que os judeus têm uma relação quase mística com os livros e o conhecimento. Estamos sempre revivendo nosso passado, cultivando uma sede de conhecimento; é por isso que um lar judaico precisa de uma biblioteca. Mas a curiosidade insaciável de Mendel se destaca entre todos os meus clientes.

O amigo estava a par do problema de Uminer com o apartamento:

— De todos os vícios, acho que os livros são os menos perigosos — disse Mizrahi.

Após meses de disputa jurídica, Uminer se resignou a deixar o imóvel:

— Não quero ficar aqui se não sou bem-vindo.

Amigos foram ajudar Uminer na mudança.

— Existe uma Nova York atual, voltada para o profissionalismo e a uniformidade, que olha para um sujeito como ele e acha que há algo de errado. Há um aspecto na cidade de hoje que é hostil à vida intelectual e à excentricidade que pode gerá-la — disse Julian Cosma, cineasta.

O apartamento pertence à Hakim Organization, empresa do magnata do setor imobiliário Kamran Hakim. A empresa e a administradora do prédio não responderam aos pedidos de entrevista.

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