terça-feira, julho 14

Graco, o caçador

Dois meninos estavam sentados no muro do cais e jogavam dados. Um homem lia um jornal nos degraus de um monumento, à sombra do herói brandindo o sabre. Uma menina junto à fonte enchia sua cuba de água. Um vendedor de frutas estava deitado ao lado de sua mercadoria e olhava para o mar. Nas profundidades de um bar, era possível ver, através dos buracos livres da porta e das janelas, dois homens bebendo vinho. O dono estava sentado a uma mesa na parte da frente e dormitava. Uma barca pairava silenciosa como se fosse carregada acima da água no pequeno porto. Um homem de avental azul subiu para a terra e puxou a corda através dos anéis. Dois outros homens de casacos escuros com botões de prata carregavam uma padiola atrás do barqueiro, sobre a qual, debaixo de um grande pano de seda floreado e cheio de franjas, ao que tudo indica, estava deitado um homem.

No cais ninguém se preocupava com os que chegavam, mesmo quando depuseram a padiola no chão para esperar pelo barqueiro, que ainda trabalhava nas amarras, ninguém se aproximou, ninguém dirigiu uma pergunta a eles, ninguém olhou com mais atenção para eles.

O timoneiro ainda foi retido algum tempo por uma mulher que, de cabelos soltos, com uma criança no seio, agora se mostrava no deque. Em seguida ele veio, apontou para uma casa amarelada de dois andares, que se erguia retilínea, à esquerda, nas proximidades da água, os carregadores voltaram a erguer seu fardo e o carregaram através do portão baixo, mas formado por colunas esguias. Um garoto abriu a janela, ainda percebeu como a trupe desapareceu dentro da casa, e voltou a trancar a janela às pressas. Também o portão foi trancado, ele era esculpido com todo o cuidado em madeira de carvalho negra. Um bando de pombos, que até então voava em torno da torre da igreja, agora pousava diante da casa. Como se na casa estivesse guardado seu alimento, os pombos se reuniram diante do portão. Um deles levantou voo até o primeiro andar e bicou a vidraça da janela. Eram aves de cor clara, bem-cuidadas, vivazes. A mulher da barca jogou grãos a eles em um grande arremesso, os pombos os juntaram e em seguida voaram até onde estava a mulher.

Um senhor de cartola com uma fita de luto descia por uma das ruelas estreitas e fortemente inclinadas que levavam até o porto. Ele olhava com atenção à sua volta, tudo o preocupava, a visão de lixo a um canto fez com que contorcesse o rosto. Nos degraus do monumento, havia cascas de fruta; ao passar, ele as empurrou para baixo com sua bengala. Junto à porta da sala ele bateu, ao mesmo tempo tirou a cartola com sua mão direita vestida em uma luva negra. Logo abriram, por certo uns cinquenta garotos formaram uma fileira no longo corredor e fizeram uma reverência.

O barqueiro desceu pela escada, saudou o homem, conduziu-o para cima, no primeiro andar contornou com ele o pátio envolvido por varandas graciosas e construídas com leveza, e ambos entraram, enquanto os garotos os seguiam a uma distância respeitosa para um lugar fresco e grande na parte de trás da casa, de onde não se podia mais ver casa nenhuma, mas sim apenas uma parede rochosa nua e de um cinza quase negro. Os carregadores estavam ocupados em botar e acender algumas longas velas à cabeceira da padiola, mas nem por isso surgiu luz delas, literalmente foram apenas enxotadas as sombras que antes descansavam e agora dançavam sobre as paredes. O pano foi afastado da padiola. Nela estava deitado um homem de barba e cabelos longos e desgrenhados, pele bronzeada, parecendo, talvez, um caçador. Ele estava deitado ali, imóvel, de olhos cerrados, aparentemente não respirava, e mesmo assim apenas o entorno insinuava que eventualmente se tratava de um morto.

O homem foi até a padiola, deitou uma mão sobre a testa daquele que jazia ali, ajoelhou-se em seguida e rezou. O barqueiro acenou aos carregadores que deixassem o quarto, eles saíram, expulsaram os meninos que haviam se juntado lá fora e trancaram a porta. Contudo, também esse silêncio pareceu ainda não agradar ao homem, ele olhou para o barqueiro, este compreendeu e saiu por uma porta lateral até o quarto contíguo. No mesmo instante o homem sobre a padiola abriu os olhos, voltou o rosto para o homem sorrindo dolorosamente e disse:

– Quem és tu?

O homem se ergueu, sem mostrar maior surpresa, da posição ajoelhada em que estava, e respondeu:

– O prefeito de Riva.

O homem sobre a padiola assentiu com um gesto de cabeça, apontou o braço esticado fracamente para um assento e disse, depois que o prefeito havia atendido a seu convite:

– Eu sabia disso, senhor prefeito, mas no primeiro momento sempre me esqueço de tudo, tudo gira em minha cabeça e é melhor que eu pergunte, ainda que saiba de tudo. Também o senhor sabe, provavelmente, que eu sou Graco, o caçador.

– Com certeza – disse o prefeito. – O senhor me foi anunciado hoje à noite. Nós já dormíamos havia tempo. Então minha mulher chamou, por volta da meia-noite: “Salvatore” – é assim que me chamo –, “olha só o pombo na janela!” Era realmente um pombo, mas grande como um galo. Ele voou até meu ouvido e disse: “Amanhã chega o caçador morto, Graco, recebe-o em nome da cidade.”

O caçador assentiu e enfiou a ponta da língua entre os lábios:

– Sim, os pombos voam à minha frente. Mas o senhor acredita, senhor prefeito, que devo ficar em Riva?

– Isso eu ainda não posso dizer – respondeu o prefeito. – O senhor está morto?

– Sim – disse o caçador –, conforme o senhor pode ver… Há muitos anos – mas devem ter sido realmente muitos e muitos anos – eu caí de uma rocha na Floresta Negra – isso fica na Alemanha – quando perseguia uma camurça. Desde então estou morto.

– Mas o senhor também está vivo – disse o prefeito.

– De certo modo – disse o caçador –, de certo modo eu também vivo. Meu bote da morte errou o caminho, um giro em falso no timão, um momento de desatenção da parte do barqueiro, uma distração devida à minha pátria maravilhosa, não sei o que foi, só sei que fiquei na terra, e que meu bote desde então viaja por águas terrenas. Assim viajo eu, que apenas conseguia viver em minhas montanhas, em busca da minha morte por todos os países da terra.

– E o senhor não tem parte nenhuma no além? – perguntou o prefeito, de testa franzida.

– Estou sempre na grande escada que leva para cima – respondeu o caçador. – Nessa escada livre e infinitamente longa eu ando sem rumo, ora em cima, ora embaixo, ora à direita, ora à esquerda, sempre em movimento. O caçador se transformou em borboleta. O senhor não ria.

– Não estou rindo – protestou o prefeito.

– Muito sensato – disse o caçador. – Estou sempre em movimento. Mas quando tomo o grande impulso e já consigo ver o portão lá em cima, desperto em meu velho bote, enfiado em alguma erma água terrena. O erro fundamental da minha morte passada não cessa de sorrir debochado para mim em minha cabine. Julia, a mulher do barqueiro, bate e traz até a minha padiola a bebida matinal do país cuja costa estamos navegando no momento, eu estou deitado sobre um catre de madeira, visto – não é nenhum prazer me contemplar – uma mortalha suja, cabelos e barba, grisalhos e negra, se entrelaçam de modo indestrinçável, minhas pernas estão cobertas por um grande pano de seda feminino, floreado e de longas franjas. Próxima a minha cabeça, há uma vela de igreja que me ilumina. Na parede diante de mim, um pequeno quadro, ao que tudo indica um bosquímano, que mira sua lança em mim e busca cobertura da melhor maneira possível por trás de um escudo pintado de maneira grandiosa. Em navios muitas vezes se encontra um punhado de representações estúpidas, mas esta é uma das mais estúpidas. De resto, minha jaula de madeira está completamente vazia. Por uma escotilha na parede lateral, entra o ar quente da noite sulina, e eu ouço a água batendo na velha barca.

“Estou deitado aqui desde aquela época em que, ainda sendo o vivo caçador Graco, perseguia uma camurça na Floresta Negra, e caí do penhasco. Tudo seguiu sua ordem. Eu persegui, caí, sangrei em um desfiladeiro, morri, e essa barca deveria me levar para o além. Ainda me lembro de como me estiquei alegre aqui sobre o catre pela primeira vez. Jamais as montanhas ouviram de mim uma canção como ouviram essas quatro paredes, na época, ainda crepusculares.

“Eu gostava de viver e gostei de morrer, joguei feliz, antes de subir a bordo, a trouxa do rifle, da bolsa, da espingarda de caça, arrancando-a do meu corpo, ela que sempre carreguei orgulhoso, e entrei na mortalha como uma moça em seu vestido de casamento. Fiquei deitado aqui e esperei. Então aconteceu o infortúnio.”

– Um destino terrível – disse o prefeito, de mão erguida, em sinal de defesa. – E o senhor não tem nenhuma culpa disso?

– Nenhuma – disse o caçador –, eu era caçador, por acaso isso é alguma culpa? Fui contratado como caçador na Floresta Negra, onde na época ainda havia lobos. Eu ficava à espreita, atirava, acertava, arrancava a pele, isso é alguma culpa? Meu trabalho era abençoado. “O grande caçador da Floresta Negra”, era assim que me chamavam. Isso é alguma culpa?

– Não cabe a mim decidir – disse o prefeito –, mas também para mim parece não haver culpa nisso. Quem é o culpado, então?

– O barqueiro – disse o caçador. – Ninguém lerá o que escrevo aqui, ninguém virá para me ajudar; se fosse dada a tarefa de me ajudar, todas as portas de todas as casas permaneceriam trancadas, todas as janelas, trancadas, todos ficariam deitados em suas camas, os cobertores puxados sobre a cabeça, a terra inteira uma estalagem noturna. E isso faria sentido, pois ninguém sabe de mim e, se soubesse de mim, não saberia onde me encontro, e, se soubesse onde me encontro, não saberia me reter lá, portanto não saberia como me ajudar. A ideia de querer me ajudar é uma doença e precisa ser curada na cama. Disso eu sei e, portanto, não grito invocando ajuda, mesmo que em alguns momentos – incontido como sou, por exemplo, justo agora – pense bem doentiamente nisso. Mas, para afastar tais ideias, parece bastar que eu olhe em torno e me dê conta de onde estou e – isso eu por certo posso afirmar – onde moro há séculos.

– Extraordinário – disse o prefeito –, extraordinário… E então, o senhor pretende ficar conosco em Riva agora?

– Não, eu não penso nisso – disse o caçador sorrindo, e depôs, para reparar a zombaria, a mão sobre o joelho do prefeito. – Estou aqui, mais do que isso não sei, mais não posso fazer. Meu bote está sem timão, ele anda ao sabor do vento, que sopra nas regiões mais baixas da morte.
Franz Kafka

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