Andou circulando recentemente em Portugal uma polêmica sobre leituras obrigatórias e leituras sugeridas para estudantes do ensino médio. A discussão entre professores e escritores orbita em torno de quais livros deveriam constar da lista obrigatória. Poderíamos nos deter, antes, no ponto da obrigatoriedade: será sempre um pouco triste que a leitura de um livro de literatura seja imposta a alguém. Que um estudante tenha em seu repertório ainda embrionário de leitura este ou aquele autor, este ou aquele livro importante, simplesmente porque foi obrigado a passar por eles.
Por que não oferecer ao adolescente um leque de excelentes opções pré-selecionadas, todas como leituras sugeridas, dando ao próprio adolescente o direito de escolha? Pergunto isso pensando na estudante que eu mesma fui e no quanto me custou ter sido obrigada a ler A luneta mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, entre meus doze e treze anos.
O estilo do autor, seus longos períodos, seu vocabulário luxuoso, a roupagem de época, a ironia, tudo colaborava para tornar a obrigatoriedade daquela leitura ainda mais penosa. Sim, foi penoso ler esse livro. Eu não estava pronta para aproveitá-lo aos treze anos. Porque há ironias que levamos anos de experiência de vida (e leitura) para desfrutar. Porque há lucubrações a que só nos devotamos depois da madureza. Porque há uma importância nos livros que lemos, para além das razões canônicas, que só desvendamos por nós mesmos.
Mais de trinta anos depois, li como pela primeira vez A luneta mágica e então pude rir deliciosamente de sua ironia, saborear seu léxico e perceber o atemporal da fábula ali contida. Livro menos conhecido de Joaquim Manuel de Macedo, sem dúvida menos lido que A moreninha, vale a pena resgatá-lo — como leitura sugerida — para os nossos tempos. A história conta as desventuras de Simplício, sujeito incorrigivelmente míope de vista e de espírito, em sua tragicômica jornada pessoal do senso comum ao bom senso.
Ambientado no tempo do império de D. Pedro II, publicado originalmente em folhetim, em 1869, o romance é contemporâneo de O idiota, de Dostoievski, publicado no mesmo ano, também em folhetim. Simplício é um parente brasileiro não distante do idiota russo (ambos parentes do avoengo Cândido, de Voltaire). Enquanto sujeito míope, Simplício é um exemplar do senso comum, muito bem aceito na família e socialmente. Mas, quando dotado do poder da visão do mal na alma das pessoas, graças a uma luneta mágica, ele é tomado por louco. A seguir, dotado do poder da visão do bem, graças a uma segunda luneta mágica, é considerado um néscio e abusado por todos. Apenas depois dessa infeliz iniciação nos excessos do bem e do mal, quase banido da sociedade, enganado, roubado, quase destruído, Simplício ganha o poder de ver através de uma terceira luneta: a do bom senso.
Quão distante do nosso tempo está a fábula de Joaquim Manuel de Macedo? Uma fábula em que “bom senso é senso raro” e, justamente, por ser raro, dele ficam dispensados, em nome da ordem geral e do senso comum, magistrados, deputados, senadores e ministros. Uma fábula em que a opinião pública é caprichosa e, por contágio moral entre seus cidadãos, pode exaltar aquilo ou aquele que antes condenava (e vice-versa) num intervalo de poucos dias. Uma fábula em que é sintoma inequívoco de loucura para a sociedade alguém “dizer a verdade sem rebuço”.
O que vê através da luneta mágica do bom senso, Simplício não pode dizer, porque jurou sigilo, ainda que desejasse contá-lo e, mais, que fosse a favor da distribuição de lunetas dessas entre membros do ministério e do governo do país. E nós? Usamos de que magias ou miopias para formulação dos nossos juízos? Temos visto algumas vezes pela lente do bom senso?
Revejo agora a polêmica das leituras obrigatórias e penso no tormento da dificuldade e da incompreensão dos meus treze anos convertido no entusiasmo de finalmente ver bem e ainda alcançar o riso. Porque, malograda, aquela primeira leitura de A luneta mágica foi para mim inesquecível. No tempo certo, voltei ao livro e finalmente o descobri. Talvez o desconhecesse até hoje, não tivesse sido obrigada a encará-lo um dia, antes da hora. De algum modo, então, devo uma coisa à outra: o tormento de antes ao entusiasmo de depois. Ainda que toda imposição de leitura, para o caso de livros de literatura, seja sempre um pouco triste, sim.
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