sábado, julho 4

Amor antigo

O frio me aumenta a vontade de ter um gato. Mas vontade é coisa que dá e passa, por isso não levo o desejo muito a sério e me contento em ver vídeos de gracinhas felinas. Cresci tendo gatos à volta, de todas as raças, cores e personalidades. Ouço na memória o miado e ronronar de cada um. As mãos procuram em vão o macio dos pelos e o calor de seu corpo, as orelhas que eu gostava de dobrar – e eles permitiam -, simulando um turbante. Houve um dia em que coloquei laços em seus pescoços e alguns, como o veterano Chanão, ostentaram com garbo o adereço.

Com o tempo, a casa pequena e a ausência constante, em consequência do trabalho, acabaram por eliminá-los do convívio. Amenizava a saudade durante as visitas a meu filho e família, quando Rubenisa ainda vivia. Ela se juntava ao grupo para me receber á porta e desfrutava de meu colo sem pedir licença. Nesta época, estaria com as orelhas geladinhas. Morreu há poucos anos, já com certa idade e acima do peso. Guardo suas fotos e o coração fica encolhido, quando as revejo.

Quando idealizo o gato que não terei, gostaria que fosse laranja, arteiro e bem-humorado, como todo representante da raça. Difícil é escolher o nome. Os donos atuais costumam batizá-los com nomes de pessoas, o que tem sua lógica, já que eles se tornam membros da família. Personagens de obras literárias ou peças teatrais e filmes também me agradam. Meu pai acreditava que eles se sentissem mais atraídos por nomes que chiavam, como Xerxes e o próprio Chanão. Mas em casa tínhamos o branco Ingrid, só tardiamente reconhecido como macho, Lanjal, nosso laranjinha endiabrado, Mitz, frajola esperta e cheia de manha, entre outros.

Muitas vezes, a mana e eu dividimos as camas com eles, nossos irmãos discretos e elegantes. Saíam pouco pela vizinhança e, na volta, era comum trazerem presentes para minha mãe: uma lagartixa pela metade, uma barata morta, um passarinho moribundo na boca, para nosso desespero. As fêmeas davam cria protegidas em caixas de papelão forradas com panos. Depois acomodavam a prole nas gavetas do guarda-roupa dos pais e armários, subindo as escadas do sobrado. Era comum encontrar um filhote nos degraus, enquanto a mãe transportava quantos podia para o esconderijo, de uma só vez.

Todos vingavam, aumentando a turma de bigodudos, que chegou a ter nada menos que 14 indivíduos. Dormiam na área de serviço envidraçada e, quando a mãe os soltava, parecia estouro de boiada. Nem sempre, porém, dependiam da intervenção humana. Os mais espertos logo aprenderam a abrir a porta por conta própria, reforçando a independência.

O laranjinha imaginário haveria de gostar da cama de viúva e das muitas cobertas. A casa é silenciosa e cheia de estofados. Bate sol em todas as janelas. Mas vontade é coisa que dá e passa, então namoro os felinos virtuais e, quando dou sorte, acaricio algum na rua, torcendo para que ele não me siga, senão…

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