quarta-feira, agosto 19

Um porco passeia em Ipanema

Em toda palestra sobre como é esse negócio de escrever crônica, tem sempre uma moça que se levanta lá do meio da plateia e faz a pergunta fundamental, aquela que não quer calar, como dizia um dos mestres desse parangolé exótico, o cronista Artur Xexéo. Ei-la:

“De onde surgem os assuntos?”

Eu costumo responder com a óbvia obrigação de ler bons autores, depois lembro que é preciso exercícios físicos porque ficar sentado, espremendo o cerebelo, também cansa. Por fim e enfático, recomendo que tenham um bichinho.

Otto Lara Rezende tinha Zano, um gato danadinho que um dia fugiu de casa e inspirou uma série de crônicas lindas sobre o medo de perder alguém tão querido. Carlos Heitor Cony debulhou o país em lágrimas quando morreu sua setter irlandesa ruiva, Mila, num dos textos mais bonitos do jornalismo brasileiro.

Cora Rónai vive numa família de gatos, Marta Batalha é cachorreira, Ruth de Aquino observa pássaros, Agualusa tem no quintal de sua casa em Moçambique uma galinha chamada Sanji – definitivamente, eu digo aos que me perguntam sobre como ter sucesso nessa caçada insana e semanal de assuntos para escrever: tenham um bichinho.

 Joaquim Ferreira dos Santos

Domingo passado, comemorando o Dia dos Pais, almocei na calçada de um restaurante de Ipanema e observei numa mesa ao lado um cidadão que mantinha na coleira o seu animal de estimação. Era Pablo, chamado às vezes de Pablito, um mini-porco, daqueles que descendem do cruzamento de linhagens vietnamitas e americanas. De pelagem malhada e duas presas ameaçadoras fora da boca, quase um javali, Pablito não lembrava qualquer personagem do desenho Peppa Pig, mas ganhou da minha neta um “fofo” discreto.

A imagem pública do porco é a pior possível. É sempre associada à falta de higiene, aos maus modos, à gula (“come feito um porco”) e a políticos corruptos. George Orwell deu destaque negativo a eles em “A Revolução dos Bichos” e até os Beatles acharam boa metáfora descrever a classe média britânica a partir do cotidiano dos piggies. Estive apenas uma hora e meia ao lado do novo garoto de Ipanema, e não dá para esbanjar intimidade – mas me pareceu porco de outra estirpe.

O mini-porco passou o tempo todo na dele, procurando algum resto de comida pelo chão e sequer grunhiu oinc-oinc quando quase foi atropelado por uma bicicleta elétrica. Discreto, sempre de focinho baixo, cuidava da própria vida sem se importar com o tumulto da calçada invadida pelas mesas do restaurante. Posou com crianças para fotos. Sem ameaçar de volta com as presas, não deu a mínima aos cachorros que latiam provocações à sua inesperada presença.

A mascote memorável de Ipanema é o rato Sig, uma abreviação de Sigmund Freud. No jornal Pasquim, porta-voz da intelectualidade do bairro numa época em que humor sofisticado era arma contra a ditadura militar, ele ilustrava as páginas recitando sabedorias diversas. Pablo é o meu personagem da semana, e não só por ter me dado assunto para honrar a tradição da crônica de bichinho. Assim como as galinhas, gatos e cachorros dos meus colegas (Marta Batalha tem ainda um minhocário), um porco que passeia ordeiro pelo bairro caótico quer dizer alguma coisa – nem que sirva apenas para responder à moça da plateia de onde nascem as crônicas.

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