terça-feira, junho 7

Uma festança na floresta

Estamos no mês de junho, as fogueiras de São João se acendem, balões sobem, já há friozinho e aconchego. Dá para comer batata-doce à meia-noite com café tinindo de quente.

Foi assim: os animais das matas até que estavam ocupados e calmos em relação a seus deveres, pois o dever do animal é existir. Mas eis senão quando surgiu no ar um boato que logo se espalhou alvissareiro num diz que diz assanhado. Vinha esse boato trazido pelo canto do sabiá. Como o sabiá, a quanto se sabe, canta pelo mero prazer de cantar, ficaram os bichos em dúvida sobre se era ou não verdade.

E – de repente – começou a chover convite para a tal festança. Quem convidava não dizia quem era, mas todos desconfiaram que a ideia vinha da rainha das selvas brasileiras, a onça, mandachuva que era. Todos os bichos foram convidados, garantindo-se que na ocasião seria abolida a ferocidade. Até a mãe-coruja, que de tão séria e sábia até óculos usava, foi convidada com os seus filhotes.

Quanto às filhas do macaco, doidas para namorar e enfim casar, enfeitaram-se tanto e com tantas bugigangas que pareciam umas – é isso mesmo, pareciam umas verdadeiras macacas.

E quem pensa que a cobra faltou por ser tão nojenta está enganado: apareceu fazendo salamaleques com o corpo escorregadio para chamar atenção.

A noite estava toda iluminada por milhares de vaga-lumes, pela lua silenciosa e pelas estrelas úmidas. Quanto à orquestra, fiquem certos de que era da melhor qualidade: uma turma de tucanos encarregou-se de tocar em valsa os mais belos grunhidos da mata.

A bicharada estava acesa de alegria. O papagaio foi muito aplaudido quando berrou uma canção alegre, óculos usava, foi convidada com os seus filhotes. e as macacas casadoiras, penduradas pelos rabos nas árvores, estavam certas de que eram grandes bailarinas.

Bem, a coisa estava no máximo de animação. Mas a onça estava inquieta, doida para atacar. E como não fosse permitida nessa noite a carnificina, ela começou a ser feroz com a língua viperina. Então cantou: “Dona anta é gorda e roliça que nem uma porca e tem cor de rato.” A anta danou-se e retirou-se.

A onça, vendo que tinha tido sucesso, cantou uma ofensa horrível contra o jabuti, dizendo que este estava coberto de mosca-varejeira. Tanto que o jabuti ofendido foi embora. Depois a onça falou: “Vejam que decote indecente o das filhas do macaco.” As macacas ficaram fulas da vida e só não saíram de lá porque a esperança de arranjar noivo é a última que acaba.

Mas acontece que havia entre os animais o deus dos veados, Arapuá-Tupana, que resolveu acabar com a empáfia da onça e para vencê-la pôs-se a cantar. Os bichos, sabendo que quando o ouvissem morreriam, taparam os ouvidos. Arapuá-Tupana afinal foi embora e a bicharada não morreu.

É. Mas os animais haviam perdido o dom da fala, ninguém se compreendia mais. E isso até o dia de hoje. Porque grunhir ou cantar não diz nada. Tudo por causa da onça linguaruda.
Clarice Lispector, "Doze lendas brasileiras"

Em qualquer estação...



Um dia na vida de um vagabundo

Em primeiro lugar, o que é um vagabundo?


O vagabundo é uma espécie nativa inglesa. Estas são as características que o distinguem: ele não tem dinheiro, veste-se com andrajos, caminha cerca de vinte quilômetros por dia e nunca dorme duas noites seguidas no mesmo lugar.

Em suma, ele é um andarilho que vive de caridade, perambula dia após dia durante anos e atravessa a Inglaterra de ponta a ponta muitas vezes em suas andanças.

Ele não tem emprego, lar ou família, nada de seu no mundo, exceto os farrapos que cobrem seu pobre corpo; vive às custas da comunidade.

Ninguém sabe de quantos indivíduos é composta a população de vagabundos. Trinta mil? Cinquenta mil? Talvez cem mil na Inglaterra e no País de Gales, quando o desemprego é particularmente alto.

O vagabundo não perambula para se divertir, ou porque herdou os instintos nômades de seus ancestrais; antes de mais nada, ele tenta não morrer de fome.

Não é difícil ver por quê: o vagabundo está desempregado em consequência da situação da economia inglesa. Assim, para existir, ele precisa apelar à caridade pública ou privada. Para ajudá-lo, as autoridades criaram asiles (albergues) onde os destituídos podem encontrar alimento e abrigo.

Esses lugares estão a vinte quilômetros uns dos outros e ninguém pode ficar em um deles mais que uma vez por mês. Daí as peregrinações sem fim dos vagabundos, que, se quiserem comer e dormir embaixo de um teto, precisam buscar um novo lugar de repouso todas as noites.

Essa é a explicação para a existência dos vagabundos. Agora, vejamos que tipo de vida eles levam. Será suficiente examinar um dia apenas, pois os dias são sempre iguais para esses desafortunados habitantes de um dos países mais ricos do mundo.

Tomemos um deles no momento em que sai do albergue, por volta das dez da manhã.

Ele está a cerca de vinte quilômetros do próximo albergue. Levará provavelmente cinco horas para caminhar essa distância e chegará ao seu destino por volta das três da tarde.

Ele não descansará muito no caminho, porque a polícia, que vê com suspeição os vagabundos, tratará de mandá-lo logo embora de qualquer cidadezinha ou aldeia onde possa tentar parar. É por isso que nosso homem não se demorará no caminho.

Como dissemos, são cerca de três horas da tarde quando ele chega ao albergue. Mas o albergue só abre às seis. Três horas desgastantes para esperar em companhia dos outros vagabundos que já estão esperando. O bando de seres humanos, extenuados, barbas por fazer, sujos e maltrapilhos, cresce a cada minuto. Logo há centenas de homens desempregados que representam quase todas as profissões.

Mineiros e fiandeiros de algodão, vítimas do desemprego que grassa no norte da Inglaterra, compõem a maioria, mas todas as profissões estão representadas, especializadas ou não.

A idade deles?

Dos dezesseis aos setenta.

Sexo? Há cerca de duas mulheres para cada cinquenta homens.

Aqui e ali, um imbecil matraqueia palavras sem sentido. Alguns vagabundos estão tão fracos e decrépitos que nos perguntamos como podem caminhar vinte quilômetros.

As roupas impressionam pelo grotesco, esfarrapadas e de imundície repugnante.

Os rostos nos fazem pensar no focinho de um animal selvagem, talvez não perigoso, mas que se tornou ao mesmo tempo selvagem e assustadiço, por falta de descanso e cuidado.

Lá eles esperam, deitados na relva ou agachados na terra. Os mais corajosos rondam o açougue ou a padaria, na esperança de catar algum resto de comida. Mas isso é perigoso, porque mendigar é proibido por lei na Inglaterra; então, na maior parte do tempo eles se contentam em ficar ociosos, trocando palavras vagas numa gíria estranha, a língua especial dos vagabundos, cheia de palavras esquisitas e pitorescas e expressões que não se encontram em nenhum dicionário.

Eles vieram de todos os cantos da Inglaterra e do País de Gales e contam uns aos outros suas aventuras, discutindo sem muita esperança sobre a probabilidade de encontrar trabalho no caminho.

Muitos já se encontraram antes em algum albergue do outro extremo do país, pois seus passos não param de se cruzar nas perambulações sem fim.

Esses albergues são hospedarias deploráveis e sórdidas, onde os peregrinos ingleses miseráveis se reúnem por algumas horas antes de se espalhar novamente em todas as direções.

Todos os vagabundos fumam. Como é proibido fumar dentro do albergue, eles aproveitam ao máximo as horas de espera. Seu tabaco consiste principalmente em baganas de cigarro que catam nas ruas. Eles as enrolam em papel ou enfiam em cachimbos velhos.

Quando um vagabundo consegue algum dinheiro, ganho num trabalho ou por esmola, seu primeiro pensamento é comprar fumo, mas na maior parte do tempo ele tem de se satisfazer com baganas apanhadas da calçada ou da rua. O albergue lhe dá apenas comida: para o resto, roupas, tabaco etc., ele tem de se virar.

Mas está quase na hora de o portão do albergue se abrir. Os vagabundos se levantaram e fazem fila junto ao muro do enorme prédio, um desprezível cubo amarelo de tijolos, construído em algum subúrbio distante e que pode ser confundido com uma prisão.

Mais alguns minutos e os pesados portões se abrem e o bando de seres humanos entra.

A semelhança entre um desses albergues e uma prisão é ainda mais notável depois que se passa pelos portões. No meio de um pátio vazio, cercado por muros altos de tijolos, encontra-se o prédio principal que abriga celas de paredes nuas, um banheiro, as dependências administrativas e uma sala minúscula mobiliada com bancos de madeira simples que serve de refeitório. Tudo é tão feio e sinistro quanto se possa imaginar.

A atmosfera de prisão está em todo canto. Funcionários uniformizados intimidam os vagabundos e os empurram, sem esquecer de lembrar-lhes que, ao entrar no albergue, eles abriram mão de todos os seus direitos e de sua liberdade.

O nome e a profissão do vagabundo são escritos num livro de registros. Depois, ele é obrigado a tomar um banho e suas roupas e pertences pessoais são levados embora. Então, dão-lhe um camisão de algodão ordinário para passar a noite.

Se por acaso ele tiver algum dinheiro, será confiscado, mas, se ele admitir que tem mais de dois francos [quatro pence], não será aceito no albergue e terá de encontrar uma cama em outro lugar.

Em consequência, os vagabundos que têm mais de quatro pence — não há muitos deles — se esforçaram para esconder o dinheiro em suas botas sem que fossem vistos, pois essa fraude poderia ser punida com prisão.

Após o banho, o vagabundo, cujas roupas lhe foram tomadas, recebe sua ceia: meia libra de pão com um pouco de margarina e meio litro de chá.

O pão feito especialmente para os vagabundos é terrível. É cinzento, sempre dormido e tem um gosto desagradável que faz a gente pensar que a farinha de que é feito vem de grãos estragados.

O chá não poderia ser pior, mas os vagabundos o tomam de bom grado, pois os aquece e conforta depois da exaustão do dia.

Essa refeição insossa é engolida em cinco minutos. Depois disso, os vagabundos recebem ordens para entrar nas celas onde passarão a noite.

Essas celas, verdadeiras celas de prisão de tijolos ou pedras, têm cerca de três e meio por dois metros. Não há iluminação artificial — a única fonte de luz é uma janela estreita e gradeada no alto da parede e um olho mágico na porta que permite que os guardas fiquem de olho nos internos.

Às vezes, as celas têm uma cama, porém o mais comum é que os vagabundos tenham de dormir no chão, com apenas três mantas para se proteger.

Não costuma haver travesseiros, e por esse motivo os desafortunados têm permissão para ficar com seus casacos, os quais enrolam e põem sob a cabeça.

Em geral, o quarto é terrivelmente frio e as mantas, devido ao tempo de uso, são tão finas que não oferecem nenhuma proteção contra o rigor da temperatura.

Assim que os vagabundos entram nas celas, as portas são firmemente trancadas por fora: só se abrirão às sete horas da manhã seguinte.

Em geral, ficam dois internos em cada cela. Murados em sua pequena prisão por doze horas desgastantes sem nada para se proteger do frio exceto um camisão de algodão e três mantas finas, os pobres miseráveis sofrem cruelmente com o frio e a falta do conforto mais elementar.

Os lugares estão quase sempre infestados de percevejos, e o vagabundo, vítima da praga, com os membros exaustos, passa horas e horas se virando e revirando, numa vã espera pelo sono.

Se consegue adormecer por alguns minutos, o desconforto de dormir sobre o chão duro logo o desperta de novo.

Os vagabundos antigos e espertos, que estão nessa vida há quinze ou vinte anos e, em consequência, ficaram mais filosóficos, passam as noites conversando. No dia seguinte, descansarão por uma ou duas horas num campo, sob alguma cerca viva que julguem mais acolhedora do que o albergue. Mas os mais jovens, ainda não endurecidos pela familiaridade com a rotina, lutam e gemem na escuridão, esperando com impaciência que a manhã lhes traga alívio.

E no entanto, quando o sol afinal brilha dentro de sua prisão, eles consideram com desânimo e desespero a perspectiva de outro dia exatamente igual ao anterior.

Por fim, as celas são destrancadas. Está na hora da visita do médico: com efeito, os vagabundos não serão libertados enquanto essa formalidade não for cumprida.

O médico costuma se atrasar, e os vagabundos têm de esperar por sua inspeção, em fila e seminus num corredor. Nesse momento, é possível ter uma ideia da condição física deles.

Que corpos e que rostos!

Muitos têm malformações congênitas. Vários sofrem de hérnias e usam cintas. Quase todos têm pés deformados e cobertos de feridas em consequência das longas caminhadas com botas inadequadas. Os velhos não passam de pele e ossos. Todos têm músculos caídos e a aparência miserável de homens que não têm uma refeição decente do início ao fim do ano.

Seus traços emaciados, rugas prematuras, barbas por fazer, tudo neles fala de alimentação insuficiente e carência de sono.

Mas eis que chega o médico. Sua inspeção é tão rápida quanto superficial. Afinal, ela se destina apenas a detectar se algum dos vagabundos mostra sintomas de varíola.

O médico olha rapidamente para cada um deles, de cima a baixo, frente e costas.

Ora, a maioria deles sofre de uma ou outra doença. Alguns, imbecis quase completos, mal conseguem cuidar de si mesmos. No entanto, serão soltos desde que estejam livres das temíveis marcas da varíola.

As autoridades não se importam se estão bem ou mal de saúde, desde que não sofram de uma moléstia infecciosa.

Depois da inspeção médica, os vagabundos se vestem de novo. Então, na luz fria do dia, é possível ter realmente uma boa visão das roupas que os pobres-diabos usam para se proteger dos estragos causados pelo clima inglês.

Esses artigos disparatados de vestuário — a maioria esmolada de porta em porta — não servem nem para a lata do lixo. Grotescos, mal-ajambrados, longos demais, curtos demais, grandes demais ou pequenos demais, a esquisitice deles nos faria rir em qualquer outra circunstância. Aqui, sentimos uma enorme piedade ao vermos essas roupas.

Elas foram consertadas até o limite do possível, com todos os tipos de remendos. Cordões substituem botões. As roupas de baixo não passam de farrapos imundos, os buracos tapados pela sujeira.

Alguns deles não têm roupa de baixo. Muitos não têm sequer meias; depois de enrolar os pés em trapos, enfiam-nos em botas cujo couro, endurecido pelo sol e pela chuva, perdeu toda a elasticidade.

É uma visão terrível observar os vagabundos se aprontando para sair.

Depois de vestidos, eles recebem o desjejum, idêntico à ceia da noite anterior.

Então, são perfilados como soldados no pátio do albergue, onde os guardas os põem a trabalhar.

Alguns lavarão o chão, outros cortarão lenha, quebrarão carvão, farão uma variedade de tarefas até as dez horas, quando é dado o sinal para partir.

Eles recebem de volta os pertences pessoais confiscados na noite anterior. A isso acrescentam meia libra de pão e um pedaço de queijo para a refeição do meio-dia, ou às vezes, mas com menos frequência, um tíquete que pode ser trocado em cafés específicos do caminho por pão e chá, no valor de três francos [seis pence].

Um pouco depois das dez horas, os portões do albergue se abrem para deixar sair um bando de destituídos miseráveis e imundos que se espalham pelo campo.

Cada um deles parte para um novo albergue, onde será tratado exatamente da mesma maneira.

E durante meses, talvez décadas, o vagabundo não conhecerá outra existência.

Em conclusão, devemos observar que a comida para cada vagabundo consiste, no total, em cerca de 750 gramas [duas libras] de pão com um pouco de margarina e queijo, e um litro de chá; isto é, sem dúvida, uma dieta insuficiente para um homem que deve percorrer vinte quilômetros por dia a pé.

Para suplementar sua dieta, obter roupas, fumo e as mil outras coisas de que possa precisar, o vagabundo precisa mendigar quando não consegue achar trabalho (e ele dificilmente o encontra) — mendigar ou roubar.

Ora, mendigar é proibido por lei na Inglaterra e muitos vagabundos conhecem as prisões de Sua Majestade por causa disso.

É um círculo vicioso: se ele não mendiga, morre de fome; se mendiga, infringe a lei.

A vida desses vagabundos é degradante e desmoralizadora. Em muito pouco tempo pode transformar um homem ativo em eterno desempregado e parasita.

Além disso, é extremamente monótona. O único prazer deles é obter alguns xelins inesperados; isso lhes dá a chance de comer à farta por uma vez ou tomar uma bebedeira.

O vagabundo está isolado das mulheres. Poucas mulheres entram nessa vida. Para suas irmãs mais afortunadas, o vagabundo é objeto de desprezo. Assim, a homossexualidade não é um vício desconhecido para esses eternos andarilhos.

Por fim, o vagabundo, que não cometeu nenhum crime e que, no fim das contas, não passa de uma vítima do desemprego, está condenado a levar uma vida mais miserável que a do pior criminoso. Ele é um escravo com uma aparência de liberdade que é pior do que a mais cruel escravidão.

Ao refletirmos sobre seu destino miserável, que é compartilhado por milhares de homens na Inglaterra, a conclusão óbvia é que a sociedade o trataria melhor se o trancasse pelo resto de seus dias na prisão, onde ao menos ele desfrutaria de um relativo conforto.
George Orwell, "Como morrem os pobres e outros ensaios"

segunda-feira, junho 6

Domingueira

 


O livro da minha vida

Outro dia me perguntaram qual era o filme da minha vida. Sem pensar muito, hesitando entre Vagas estrelas da Ursa, de Visconti, e Paisagem na neblina, de Theo Angelopoulos, respondi A história de Adèle H., de François Truffaut. Mais tarde, pensando melhor, decidi: o filme da minha vida na verdade é La strada, de Fellini. Nada me comoveu tanto no cinema quanto aquela Gelsomina de Giulietta Masina, misto de clown e pivete, louca e duende.

Mas se me perguntassem sobre o livro da minha vida, eu não hesitaria um segundo. Esse livro chegou às minhas mãos de maneira meio misteriosa. Eu devia ter uns 9 ou 10 anos quando meu pai apareceu com uma daquelas listas de nome tipo pirâmide (anos atrás foi moda uma com dinheiro, que resultou em mil trambiques, lembram?) — você mandava um livro para o primeiro da lista, colocava seu nome no final, passava a lista para mais três pessoas, semanas depois recebia dezenas de livros. Bom, fiz tudo certo. Mas recebi, nem sei de quem, apenas um livro: era A pequena princesa, de Frances Burnett, se não me engano editado pela Melhoramentos, que devorei em poucos dias, encantado.

Era a história de Sarah Crewe, menina nascida na Índia, órfã de mãe indiana e filha de um nobre inglês. Esse nobre está metido num negócio de minas de diamante na Índia, e deixa Sarah no rico internato da cruel Miss Minchin, em Londres. Sarah quer ser escritora, adora ler e contar histórias para as colegas, algumas muito najas (Lavínia e Jessie), que, como boas inglesinhas racistas, desprezam sua pele morena e cabelos negros. Sarah faz amizade também com Becky, a criadinha escrava de Miss Minchin. Lá pelas tantas, o pai de Sarah morre na Índia de uma doença tropical, sem achar os tais diamantes. Sarah f i ca na miséria. Miss Minchin a obriga a viver na mansarda gelada do sótão, pleno inverno. A pobre Sarah, mais cadela que Becky, sai à rua em frangalhos, com fome, descalça na neve. Sofre horrores, mas continua do bem, sempre inventando histórias com final feliz. Para a casa ao lado, então, muda uma família enorme e cheia de crianças, também vinda da Índia. Na sórdida mansarda de Sarah começam a aparecer misteriosamente tapetes, poltronas, livros, comida, roupas. Para encurtar a história: as crianças da família são encantadas com a finura de Sarah, a quem chamam de “a menina que não é mendiga”, e fazem o criado indiano Ram Dass entrar escondido pela janela para co locar presentes no quarto dela. No final, descobre-se: o pai da tal família era sócio de um nobre inglês num negócio de minas de diamantes na Índia, e veio para Londres à procura da herdeira, que está riquíssima. Sarah é essa herdeira, claro. Vai morar com a família, leva Becky consigo, e todos vivem felizes para sempre. Como em toda história antiga que se preze.

Em muitas mudanças, e já em frangalhos — eu não me separava dele —, meu livro acabou se perdendo. Em Londres, procurei-o várias vezes sem encontrar, esgotado há décadas. Só uma vez, num sebo em Portobello Road, achei uma primeira edição rara e caríssima, que eu não tinha dinheiro para comprar. Semana passada, peguei na locadora o vídeo de O jardim secreto, de Agnieszka Holland. E lá estava — o filme, que é lindo, foi baseado em livro de Frances Hodgson Burnett, que deve ser a mesma autora de A pequena princesa. Mas quem foi afinal essa maravilhosa escritora, a necessidade da fantasia e o poder transformador do sonho?

Se alguém souber, me diga, preciso saber. E agora acabei de lembrar que tenho alguns amigos vivendo em Londres, vou escrever pedindo a eles que persigam também a pista dessa escritora. Se descobrir, e espero que sim, conto logo a vocês.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas epifanias"

Recarregando

 

Miguel Morales Madrigal (Cuba)

Pessoa

Era um homem que sabia idiomas e fazia versos. Ganhou o pão e o vinho pondo palavras no lugar de palavras, fez versos como os versos se fazem, como se fosse a primeira vez. Começou por se chamar Fernando, pessoa como toda a gente. Um dia lembrou-se de anunciar o aparecimento iminente de um super-Camões, um camões muito maior que o antigo, mas, sendo uma pessoa conhecidamente discreta, que soía andar pelos Douradores de gabardina clara, gravata de lacinho e chapéu sem plumas, não disse que o super-Camões era ele próprio. Afinal, um super-Camões não vai além de ser um camões maior, e ele estava de reserva para ser Fernando Pessoas, fenómeno nunca visto antes em Portugal. Naturalmente, a sua vida era feita de dias, e dos dias sabemos nós que são iguais mas não se repetem, por isso não surpreende que em um desses, ao passar Fernando diante de um espelho, nele tivesse percebido, de relance, outra pessoa. Pensou que havia sido mais uma ilusão de óptica, das que sempre estão a acontecer sem que lhes prestemos atenção, ou que o último copo de aguardente lhe assentara mal no fígado e na cabeça, mas, à cautela, deu um passo atrás para confirmar se, como é voz corrente, os espelhos não se enganam quando mostram. Pelo menos este tinha-se enganado: havia um homem a olhar de dentro do espelho, e esse homem não era Fernando Pessoa. Era até um pouco mais baixo, tinha a cara a puxar para o moreno, toda ela rapada. Com um movimento inconsciente, Fernando levou a mão ao lábio superior, depois respirou fundo com infantil alívio, o bigode estava lá. Muita coisa se pode esperar de figuras que apareçam nos espelhos, menos que falem. E porque estes, Fernando e a imagem que não era a sua, não iriam ficar ali eternamente a olhar-se, Fernando Pessoa disse: “Chamo-me Ricardo Reis”. O outro sorriu, assentiu com a cabeça e desapareceu. Durante um momento, o espelho ficou vazio, nu, mas logo a seguir outra imagem surgiu, a de um homem magro, pálido, com aspecto de quem não vai ter muita vida para viver. A Fernando pareceu-lhe que este deveria ter sido o primeiro, porém não fez qualquer comentário, só disse: “Chamo-me Alberto Caeiro”. O outro não sorriu, acenou apenas, frouxamente, concordando, e foi-se embora. Fernando Pessoa deixou-se ficar à espera, sempre tinha ouvido dizer que não há duas sem três. A terceira figura tardou uns segundos, era um homem daqueles que exibem saúde para dar e vender, com o ar inconfundível de engenheiro diplomado em Inglaterra. Fernando disse: “Chamo-me Álvaro de Campos”, mas desta vez não esperou que a imagem desaparecesse do espelho, afastou-se ele, provavelmente tinha-se cansado de ter sido tantos em tão pouco tempo. Nessa noite, madrugada alta, Fernando Pessoa acordou a pensar se o tal Álvaro de Campos teria ficado no espelho. Levantou-se, e o que estava lá era a sua própria cara. Disse então: “Chamo-me Bernardo Soares”, e voltou para a cama. Foi depois destes nomes e alguns mais que Fernando achou que era hora de ser também ele ridículo e escreveu as cartas de amor mais ridículas do mundo. Quando já ia muito adiantado nos trabalhos de tradução e poesia, morreu. Os amigos diziam-lhe que tinha um grande futuro na sua frente, mas ele não deve ter acreditado, tanto assim que decidiu morrer injustamente na flor da idade, aos 47 anos, imagine-se. Um momento antes de acabar pediu que lhe dessem os óculos: “Dá-me os óculos”, foram as suas últimas e formais palavras. Até hoje nunca ninguém se interessou por saber para que os queria ele, assim se vêm ignorando ou desprezando as últimas vontades dos moribundos, mas parece bastante plausível que a sua intenção fosse olhar-se num espelho para saber quem finalmente lá estava. Não lhe deu tempo a parca. Aliás, nem espelho havia no quarto. Este Fernando Pessoa nunca chegou a ter verdadeiramente a certeza de quem era, mas por causa dessa dúvida é que nós vamos conseguindo saber um pouco mais quem somos.

José Saramago, "O Caderno"

sábado, junho 4

Assim abrem-se os mares

 

Paolo Calleri

O filho do homem

Houve a guerra e vimos desmoronar muitas casas e agora não nos sentimos mais seguros em casa como antes, quando estávamos quietos e seguros. Há algo de que não se cura, e os anos vão passando, mas não nos curamos nunca. Quem sabe teremos de novo uma luminária sobre a mesa e um vaso de flores e os retratos dos nossos queridos, mas não acreditamos mais em nenhuma dessas coisas, porque antes tivemos de abandoná-las de repente ou as procuramos em vão entre os escombros.

É inútil acreditar que podemos sair curados de vinte anos como aqueles que passamos. Os que foram perseguidos nunca mais reencontrarão a paz. Um toque insistente de campainha à noite não pode significar outra coisa para nós que não a palavra “delegacia”. E é inútil dizer e repetir a nós mesmos que por trás da palavra “delegacia” agora talvez haja rostos amigáveis, a quem poderíamos pedir proteção e assistência. Em nós essa palavra sempre provoca desconfiança e assombro. Se observo meus meninos dormindo, penso com alívio que não precisarei acordá-los no meio da noite para fugir. Mas não é um alívio pleno e profundo. Sempre acho que mais cedo ou mais tarde precisaremos nos levantar de novo na noite e escapar e deixar tudo para trás, quartos quietos e cartas e lembranças e roupas.

Uma vez sofrida, jamais se esquece a experiência do mal. Quem viu as casas desabando sabe muito bem quanto são precários os vasos de flor, os quadros, as paredes brancas. Sabe muito bem de que é feita uma casa. Uma casa é feita de tijolos e argamassa, e pode desabar. Uma casa não é tão sólida. Pode desabar de um momento para outro. Atrás dos serenos vasos de flor, atrás das chaleiras, dos tapetes, dos pavimentos lustrosos de cera há o outro vulto verdadeiro da casa, o vulto atroz da casa caída.

Não nos curaremos nunca desta guerra. É inútil. Jamais seremos gente tranquila, gente que pensa e estuda e modela sua vida em paz. Vejam o que aconteceu com nossas casas. Vejam o que aconteceu com a gente. Nunca vamos ser gente sossegada.

Conhecemos a realidade em sua face mais terrível. Mas já nem sentimos mais desgosto. Ainda há alguns que se queixam de que os escritores se servem de uma linguagem amarga e violenta, que contam coisas duras e tristes, que apresentam a realidade em seus termos mais desolados.

Nós não podemos mentir nos livros, nem podemos mentir em nenhuma das coisas que fazemos. E talvez este seja o único bem que nos veio da guerra. Não mentir e não tolerar que os outros mintam a nós. Assim somos, os jovens de agora, assim é a nossa geração. Os mais velhos ainda são muito apegados à mentira, aos véus e às máscaras que recobrem a realidade. Nossa linguagem os entristece e ofende. Não entendem nossa atitude diante da realidade. Nós estamos perto da substância das coisas. Esse é o único bem que a guerra nos deu, mas só nos deu a nós, jovens. Aos outros, mais velhos que nós, a guerra só trouxe insegurança e medo. E também nós, os jovens, temos medo, também nós nos sentimos inseguros em nossas casas, mas não estamos indefesos diante desse medo. Temos uma dureza e uma força que os outros, antes de nós, jamais conheceram.

Para alguns a guerra só começou com a guerra, com as casas desmoronadas e os alemães, mas para outros ela começou antes, desde os primeiros anos do fascismo, e por isso a sensação de insegurança e de permanente perigo é ainda maior. O perigo, a sensação de precisar se esconder, a sensação de precisar deixar de repente o calor da cama e das casas, começou, para tantos de nós, há muitos anos. Insinuou-se nas diversões juvenis, nos acompanhou nos bancos de escola e nos ensinou a ver inimigos em todo lado. Assim foi para muitos de nós, na Itália e em outros lugares, e se acreditava que um dia poderíamos caminhar em paz pelas ruas de nossas cidades; mas hoje, quando talvez possamos caminhar em paz, hoje nos damos conta de que não nos curamos daquele mal. Assim somos constrangidos a buscar sempre novas forças, sempre uma nova dureza para contrapor a qualquer realidade. Somos impelidos a buscar uma serenidade interior que não nasce dos tapetes e dos vasos de flor.

Não há paz para o filho do homem. As raposas e os lobos têm seus covis, mas o filho do homem não tem onde pousar a cabeça. Nossa geração é uma geração de homens. Não é uma geração de raposas e de lobos. Cada um de nós teria grande vontade de pousar a cabeça em algum lugar, cada um gostaria de ter uma pequena toca enxuta e aquecida. Mas não há paz para os filhos dos homens. Cada um de nós uma vez na vida se iludiu achando que podia dormir sobre qualquer coisa, apossar-se de uma certeza qualquer, de uma fé qualquer, e então repousar o corpo. Mas todas as certezas de antes nos foram arrancadas, e a fé jamais será algo em que enfim se possa mergulhar no sono.

E agora somos gente sem lágrimas. O que comovia nossos pais já não nos comove nada. Nossos pais e as pessoas mais velhas que nos reprovam pelo modo como criamos os meninos. Queriam que mentíssemos aos nossos filhos como eles mentiam a nós. Queriam que nossas crianças se divertissem com bonecos de pelúcia em graciosos cômodos pintados de rosa, com arvorezinhas e coelhos estampados nas paredes. Queriam que cercássemos de véus e de mentiras a infância deles, que lhes ocultássemos cuidadosamente a realidade em sua verdadeira substância. Mas nós não podemos fazer isso. Não podemos fazer isso com crianças que acordamos no meio da noite e vestimos ansiosamente no escuro, para fugir ou nos esconder ou porque a sirene de alarme rasgava o céu. 
Não podemos fazer isso com crianças que viram o assombro e o horror em nossa cara. Não podemos começar a contar a essas crianças que elas foram trazidas pela cegonha, ou lhes dizer que os mortos partiram numa longa viagem.

Há um abismo intransponível entre nós e as gerações anteriores. Os perigos que eles corriam eram irrisórios, e suas casas só desmoronavam muito raramente. Terremotos e incêndios não eram fenômenos que se verificassem com frequência e para todos. As mulheres tricotavam malhas, ordenavam o almoço à cozinheira e recebiam as amigas em casas que não desabavam. Cada qual meditava e estudava e esperava organizar sua vida em paz. Era um outro tempo, e talvez se vivesse bem. Mas nós estamos atados a esta nossa angústia e, no fundo, satisfeitos com nosso destino de homens.
Natalia Ginzburg, "As pequenas virtudes"

Um jovem, o velho e um livro

Para Maria da Luz e João Jonas

Ontem o velho morreu. Dizem que ele passara dos noventa anos sem perder a noção do espaço e do tempo. Sempre usava um paletó branco e encardido, na lapela um broto de antúrio que, de longe, parecia um objeto vermelho cravado no lado esquerdo do peito. De perto, o broto invocava um membro diminuto e obsceno que irradiava comentários maldosos.

Sabíamos pouco de sua vida: era um professor aposentado, solteirão e invisível nas noites de Manaus. Aos sábados visitava filhos e netos de amigos, porque os amigos, mesmo, já repousavam no fundo do rio, como ele costumava dizer.

Fazia tempo que eu não o via, e não sei se ele teria reconhecido um dos meninos que o rodeavam para ouvir sua voz.


Eu o conheci em 1964, quando ele sentava num banco da praça Balbi, contava histórias, gracejava com as garças e trocava olhares com os jacaretingas no laguinho, inertes como troncos apodrecidos. Quantas histórias! Sobretudo trechos de uma ficção que ele recitava a conta-gotas. Lembro que no fim dessa récita minha infância dobrou a esquina e deu um salto de braços abertos no purgatório da vida e nas páginas de um grande livro.

Ontem era 30 de março de 1973. Eu morava em São Paulo e participava de uma festa maluca, em que o rock alternava com a bossa-nova e ninguém se entendia com ninguém porque não valia a pena falar. Melhor ouvir música e dançar, não para esquecer, e sim para expelir a tristeza e a revolta dos que tinham ido à missa do sétimo dia de Alex, vulgo Minhoca: um estudante do curso de geologia (USP), executado covardemente numa das celas sujas do subsolo da cidade.

Naquela noite a dança e os sons foram interrompidos por uma chamada de muito longe, e a voz de minha tia informou, séria e sem tremor, que o Velho acabara de morrer. Disse assim mesmo: “O Velho da praça foi embora e vai ser enterrado amanhã”. Desligou antes de mim, não por pressa ou descaso, mas por ter sido sempre concisa e exata quando a notícia era alarmante. Então saí da festa e dos anos 1970 e caminhei na madrugada quieta do bairro paulistano ainda sem prédios, andando de volta no tempo e no espaço, lembrando as palavras do Velho na praça e sua caminhada à livraria Acadêmica onde esperava os livros que iam chegar do sul.

O sul era o Rio, nossa ponte aérea afetiva e histórica, nosso destino sonhado na poltrona de algum Constellation da Panair ou Super-G da Real Aerovias.

No fim da manhã eu descia a escada do Ginásio Amazonense, enrolava a manga comprida da camisa suada, afrouxava a gravata e caminhava fardado e faminto na direção do banco sombreado por um flamboyant. Então o Velho falava de uma infância maior que o mundo porque não era uma infância qualquer, e sim uma das mais poderosas e belas ficções autobiográficas da nossa literatura. Recitava com a memória de ator de teatro: a primeira lembrança era um vaso de vidro, cheio de pitombas, e em seguida as caras e palavras insensatas, e assim o Velho ia desfiando cenas e seres em tempos e lugares entrelaçados. Isso me fascinava. 
Quantas vidas e dramas cabiam nas páginas memorizadas pelo Velho! Quanto sofrimento e humilhação! Quantas cenas de perplexidade, dor e brutalidade!

Tudo de cor e salteado, como se dizia.

Ainda se diz?

“A palavra foi feita para dizer.”

As palavras de Infância diziam um mundo desconhecido que transitava de Alagoas a Pernambuco e chegava ao Amazonas por meio de uma voz áspera. Um mundo povoado por personagens inesquecíveis: padres, professores, advogados, senhores de engenho, mucamas, sinhás, pequenos comerciantes, primos, tios, pais, avós, irmãos, uma bela irmã natural, crianças. E uma criança. Um menino perplexo, tímido e tantas vezes humilhado. Pequeno diante do mundo adverso, que aos poucos será nomeado por “sons estranhos, sílabas, palavras misteriosas”. E também por adjetivos, o sal que dá relevo e profundidade à matéria e ao espírito. O ex-professor, agora ator, havia decorado quadros inteiros do livro: “D. Maria”, “José da Luz”, “Jerônimo Barreto”, “Venta-Romba”, “A criança infeliz”. No entanto, o que mais me impressionou foi “O inferno”.

“A senhora esteve lá?”, pergunta o menino à mãe.

“Desprezou a interrogação inconveniente e prosseguiu com energia… Minha mãe estragara a narração com uma incongruência…”

Silêncio ou respostas arrevesadas, incompletas. O narrador adulto percebe que a explicação hesitante da mãe não passa de uma aporia. Mas há incongruência e dúvida em tudo, pois a memória não recupera o passado com exatidão: lembra e deslembra, diz e desdiz, afirma para negar ou contrariar. A memória é o lugar da hesitação e da ambiguidade: o móvel da imaginação. O movimento é sinuoso, construído por quadros que formam microcosmos, mas que se remetem a outros quadros e se relacionam com o todo. Uma técnica de montagem, arquitetura que lembra a de Vidas secas. Mas em Infância a vida se expande para fora e para dentro, como se fosse um mergulho nas brumas e na incerteza, no mundo hostil dos adultos, na escola, na casa, na fazenda, na cidade. Movimento de uma origem ágrafa à leitura e à escrita, que se tornam apuradas com o tempo e se constroem como visão crítica de si mesmo e dos outros.

Ter escutado essas histórias antes de ler o livro nesse mesmo ginásio me parecia um milagre. Até o dia — era meio-dia e nossas sombras pediam trégua — em que ele trouxe o livro e ofereceu-o ao grupo de ginasianos que iam lê-lo dois anos depois.

Quanto tempo, Velho. Você não foi meu professor, mas lançou ao ar palavras que nos atraíram para sempre. No centro da praça e na hora mais escaldante, você estava lá, suportando olhares e comentários: “Vai ver que está biruta ou senil, vai ver as duas coisas”.

E você nem ligava para essas vozes.

“Querem saber mais do Graciliano? Leiam Angústia. Assim de memória só sei pedaços de Infância. De tanto ler, de tanto viver… Porque vim de lá, sou de lá. Fui aquele menino.”

Pensava nisso naquela madrugada de 1973, caminhando na calçada do bairro silencioso até subir uma rua íngreme para depois descer na escuridão de breu e entrar na casinha verde onde morava.

Temia que fantasmas diabólicos me perseguissem: quem não via camburões e vultos armados naquelas noites de medo?

A música da festa se apagou, os pares dançantes sumiram, não lembro se fazia frio ou calor, mas não podia ser uma noite amena. Ainda fiquei espreitando o silêncio, à espera da manhã, a voz da minha tia ecoando no meio de imagens, o tempo galopando de 1964 até 1973 e as duas figuras misturando-se na minha memória: o jovem Alex tombado para sempre e o Velho no velório em Manaus.
Pensando e lembrando até o amanhecer, quando abri todas as janelas para clarear o fundo da sala. Só então sentei na soleira da porta e abri o livro roto do velho Graça.

Quem já não esteve no inferno?

Milton Hatoum, "Um solitário à espreita"

sexta-feira, junho 3

Auto-iluminado

 


A vida em papelão

“Dormir em caixa custa R$ 2,00 por dia em São Paulo.”
Cotidiano, 6 dezembro 1998

A ideia lhe veio ao observar a quantidade de gente dormindo na rua no centro da cidade.

Existe aí uma demanda potencial, pensou. E como estava, ele próprio, desempregado, resolveu arriscar a sorte em um novo negócio: o aluguel de caixas de papelão.

O que não seria nada difícil. Caixas poderiam ser obtidas em lojas, supermercados, fábricas. E os sem-teto aceitariam com entusiasmo a possibilidade de dormirem menos expostos aos elementos – e aos olhares alheios.

O negócio deu certo, e ele foi sofisticando a oferta. Dispunha de caixas em vários tamanhos, algumas acolchoadas, outras pintadas em cores alegres, várias com rádio e TV. Os preços subiam progressivamente, de acordo com a dimensão da caixa e o conforto desta.

Escusado dizer que, durante esse tempo, morava numa caixa, ele também – inclusive para fiscalizar a clientela. E fiscalizar era uma coisa que sabia fazer. Era um cobrador implacável e não hesitava em ameaçar os devedores relapsos: se não pagassem, botaria fogo nas caixas: eram dele, poderia queimá-las se e quando quisesse. Se houvesse alguém dentro, azar.

Ganhou muito dinheiro, encontrou uma linda mulher que aceitou viver com ele. Não numa caixa, naturalmente: ela queria uma casa. Uma casa muito grande e muito bonita.

E uma casa ele fez. Uma casa muito grande e muito bonita, num bairro elegante. É uma casa que chama a atenção de todos, não só pelo design arrojado, como também por uma peculiaridade: é feita de papelão. Papelão especial, muito espesso e impermeável, mas papelão.

Nessa casa de papelão ele vive feliz com a mulher. Só uma coisa o preocupa: tem medo de que algum invejoso bote fogo na casa. O papelão é um grande material, mas, infelizmente, não resiste às chamas. Nada é perfeito.
Moacyr Scliar

Ternura

É preciso viver a vida com ternura. Não importa que seja um pouco. Vale viver no tempo cativante que o dia oferta quando os seus ares se fazem verdes. Felizes, tudo transformam nesse momento fugaz, que comove, com seus lampejos trêmulos de amor. Pode até ser ilusão esse momento que sentimos, mas com suas asas brandas, cores e sons que acalmam, é bom que se repita, mostre que é capaz de reverter o que é triste em dons da felicidade.

Ternura é esse cuidado que a mãe tem quando diz ao filho que primeiro é a obrigação depois a distração. Com verões e graça, tudo na vida passa. E o pai ao se despedir do filho, sorrindo de contente, diz que você já é um homem, vá em paz, não se perca, nem esqueça que sempre estou aqui. Logramos extrair no acento circunflexo da palavra avô sensações que se alimentam de ternura, que não esquecemos, pois um homem assim, no terminal das estações acumuladas com saber, consegue o feito de ter o coração duas vezes com açúcar, tanto ele cativa e torna a vida doce.

A ternura da natureza tem seus hábitos protetores, que se proliferam e também cativam, seguindo uma ordem onde tudo é vida ou morte, mas com ordem. O passarinho transmite sua afeição pela vida quando leva no bico o graveto para fazer o ninho. Daqui a pouco estará levando no bico a comida para os filhotes. Daqui a pouco estará voando com os filhos numa alegria que a natureza há tempos vem inventando durante as estações.

A natureza mostra sempre que os bichos vivem à sua maneira, cheios de ternura. A onça mais feroz fica mansa, ao lamber as crias com a língua crespa, em ritual de afago e lambidas. Ai de quem tente interromper seu amor às crias nessa hora mansa, em lambidas de doçura. Sua careta é tão feia que o mais corajoso predador sai em disparada para num instante não virar janta da mãezona zangada.

O gavião manso amanhece quando descobre a parceira para construir uma nova família. Lá estão eles bem no alto, com os bicos que se tocam e asas que abraçam. Lá como cá, embora fujam do verde odores do que encanta, a vida prossegue, além o azul inocente ressoa. Doce e eterna ternura penetra os seres e as coisas, revestindo nossa existência com o vento, o sol e a chuva. É verdade, a ternura com seus pendores perdura dentro de cada um de nós.

Aconteceu que certo dia o menino sorriu o sorriso mais feliz do mundo quando pela primeira vez entrou com o pai no estádio superlotado. Todo alegre ia ver o seu time querido disputar a partida final do campeonato. Antes de a partida ter início, virou-se para o pai com o rosto festivo, deu-lhe um beijo. Podia até não saber que estava fazendo um gol de placa com a marca da ternura, mas era o jogador mais incrível antes do vaivém da partida.

Outro dia, um menino, que acreditava em Papai Noel, quando viu o velhinho sentado na cadeira do supermercado, teve certeza que esse homem gordo, vestido numa roupa vermelha, crescida barba branca, soltava pelas mãos corações, ao mesmo tempo que sorria fazendo rô, rô, rô para cada um dos meninos.

No cinema, quando o mocinho salvava a mocinha dos bandidos que acabavam de assaltar o banco, o coração do menino queria saltar pela boca, de tanto alegria que tinha. O mocinho ganhava um beijo da mocinha. Na cena final a ovação era geral, o bem vencia o mal.

Ternura só faz bem, mesmo quando a cena é triste e com ela a gente nunca se acostuma. Daquela vez ele viu quando a mulher pediu para que ainda não descessem o caixão. Passou a mão no rosto do marido. Disse: “Vá em paz, fique certo que haverá no caminho a sua estrela-guia.”

Ternura serve para espantar os males. Ela opera o milagre de nascer no mesmo chão, adormecer sob a vigília da esperança. Acordar, erguer-se com leveza, sair por aí para acontecer com hesitante tremor enquanto dura a vida com os fios sem fim do sonho no amanhecer fundamental.
Cyro de Mattos

quinta-feira, junho 2

O livro desconhecido

Tatsuto Shibata
Estou à procura de um livro para ler. É um livro todo especial. Eu o imagino como a um rosto sem traços. Não lhe sei o nome nem o autor. Quem sabe, às vezes penso que estou à procura de um livro que eu mesma escreveria. Não sei. Mas faço tantas fantasias a respeito desse livro desconhecido e já tão profundamente amado. Uma das fantasias é assim: eu o estaria lendo e de súbito, a uma frase lida, com lágrimas nos olhos diria em êxtase de dor e de enfim libertação: “Mas é que eu não sabia que se pode tudo, meu Deus!”

Clarice Lispector, "Aprendendo a viver" 

Massa eletrônica

 

Rodrigo de Matos

As duas faces de Ezra Pound

A biblioteca do barco que me leva a Anchorage é pequena e pulquérrima. Com exceção de uma coleção de clássicos cuja letra microscópica os coloca fora de meu alcance, seus romances de aeroporto, de autores desconhecidos, me deixam frio, tanto como suas biografias de jogadores de beisebol, ases das corridas e do ringue, os livros de autoajuda e as fofocas de Hollywood. Mas, perdido nas estantes de Current Affairs encontro um livro de um jovem professor de Harvard, Kevin Birmingham, que é de muito proveito: O Livro mais Perigoso. James Joyce e a Batalha por Ulisses.

Versa sobre muito mais do que dizem seu título e subtítulo, ou seja, os contratempos que James Joyce passou com seus livros, pela cegueira e covardia dos editores do Reino Unido e dos Estados Unidos que, temerosos pela censura, as multas e os julgamentos, não se atreviam a publicá-los. O caso de Joyce é único: foi famoso antes de ter um só livro editado.

E, em boa parte, isso se deveu a esse extraordinário caçador de talentos literários que foi o poeta Ezra Pound. É bem conhecido o que ele fez por T. S. Eliot e o tempo que dedicou (renunciando ao que lhe tomava escrever) para corrigir A Terra Sem Vida. Mas provavelmente fez ainda muito mais para que o gênio de Joyce fosse reconhecido e, sobretudo, publicado. Soube dele pela primeira vez em 1914, pelo poeta W. B. Yeats, que lhe aconselhou que pedisse uma colaboração de Joyce a uma antologia dedicada à literatura irlandesa que Pound preparava. Ele o fez e Joyce, que era totalmente desconhecido, além de sua colaboração, lhe enviou vários contos de Dublinenses e fragmentos de Retrato do Artista quando Jovem, para os quais procurava editor. O deslumbramento de Pound ao ler esses textos está documentado em suas cartas. Como homem prático que era, de imediato inundou de relatórios os melhores editores ingleses e norte-americanos, exortando-os a publicar esses primeiros livros de Joyce que, lhes garantia, eram de altíssima qualidade literária e de uma grande originalidade. As respostas que recebeu são de dar nojo: nenhuma reconhecia o menor talento literário em Joyce. Afirmavam que haviam recusado seus livros porque eram mal escritos e pior organizados, tinham estruturas deficientes, além de vulgares e ordinários. Para que se arriscar a receber uma multa e processos por esses livros que não passariam por nenhuma censura se, além do mais, eram tão medíocres?

Pound não deu o braço a torcer. Respondeu a todas essas objeções com argumentos literários, acusando os editores de cegos e medíocres e afirmando que o jovem escritor irlandês estava revolucionando a literatura de seu tempo e, em especial, a prosa literária da língua inglesa. Seu entusiasmo contagiou duas mulheres extraordinárias: Harriet Weaver, diretora de uma pequena revista literária inglesa, The Egoist, onde apareceriam os primeiros contos de Dublinenses e capítulos de Retrato do Artista quando Jovem, e Margaret Anderson, que em 1918 começou a publicar episódios de Ulisses na revista que dirigia nos Estados unidos, The Little Review. As duas enfrentaram ações judiciais por sua ousadia. Impertérritas, continuaram empenhadas em divulgar a obra de James Joyce e, inclusive, lhe enviaram dinheiro para ajudá-lo a sobreviver apesar de suas crônicas crises econômicas e do que gastava em oculistas.

Ao contrário dos editores da época, muitos escritores e livreiros (entre esses, a primeira editora de Ulisses, Sylvia Beach, a criadora da Shakespeare and Company, a livraria norte-americana de Paris) ficaram muito impressionados ao tomar conhecimento dos textos de Joyce. Ainda que provavelmente nenhum tenha demonstrado isso como Valery Larbaud (que seria o primeiro tradutor ao francês de Ulisses), que, após ler em The Little Review os fragmentos do grande romance de Joyce, lhe escreveu uma carta oferecendo-lhe sua casa (com uma criada) e sua grande biblioteca, além de sua célebre coleção de soldadinhos de chumbo. Joyce se mudou para lá com Norah, sua mulher, e seus dois filhos e por um bom tempo pôde continuar trabalhando com tranquilidade nesse romance que lhe tomaria mais de sete anos.

Ainda que a primeira edição em livro de Ulisses tenha aparecido em Paris em 1922 graças a Sylvia Beach, somente 12 anos depois – 1934 – um juiz de Nova York – John Woolsey – em uma memorável sentença autorizou a circulação do romance, que apareceria pouco depois já na edição da Random House. A sentença de Woolsey foi reproduzida nessa nova edição e abriria desde então um precedente decisivo a todas as tentativas de proibir a circulação de obras “atrevidas e desavergonhadas” nos Estados Unidos. Uma sentença semelhante foi emitida na Inglaterra nesse mesmo ano.

Nos dois países a reação da crítica foi muito semelhante. Quase todos os que escreveram sobre o romance reconheceram – alguns a contragosto – o gênio de Joyce e as extraordinárias novidades que o livro trazia tanto no domínio da língua como na estrutura da narração desse dia tão minuciosamente descrito de Leopold Bloom. Mas quase todos eles denunciavam a vulgaridade atroz do palavreado “pestilento” com o qual se expressavam não só os personagens como o próprio narrador e, principalmente, no longo monólogo final de Molly Bloom, que alguns chamaram de “insolente” e até mesmo “demoníaco”.

Cedo ou tarde todos eles reconheceriam que o romance seria a partir de então algo radicalmente diferente graças a Joyce e a sua prodigiosa realização. Esse sucesso se deveu em boa parte ao instinto e aos esforços de Ezra Pound. No extraordinário ensaio que dedicou ao livro foi o primeiro a reconhecer que desde o surgimento de Ulisses todos os romancistas contemporâneos, incluindo os que nunca o leram, seriam discípulos de Joyce; e isso também reconheceu William Faulkner, outro romancista fora do comum que provavelmente nunca teria escrito sua saga sulista sem as lições que recebeu lendo Joyce.

O serviço que Ezra Pound prestou ao autor de Ulisses não consistiu somente em encontrar editores para seus textos; também conseguiu mecenas que o ajudaram economicamente e lhe permitiram, por exemplo, operar tantas vezes seu olho direito. Quando se conheceram pessoalmente, em Paris, em 1918, Ezra Pound já estava havia quatro anos multiplicando esforços para divulgar a quem chamaria de “o renovador da cultura do Ocidente”. Pound é a figura mais simpática que aparece no livro de Kevin Birmingham.

É difícil identificar esse homem generoso e altruísta com o Ezra Pound que, durante a Segunda Guerra Mundial, pedia na rádio italiana que os jovens soldados norte-americanos desertassem de suas fileiras e repetia todas as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus. Por isso foi capturado pelo Exército norte-americano e levado por toda a Itália em uma jaula, como um louco furioso. Depois, nos Estados Unidos, um tribunal, para não o fuzilar por traição à pátria, o declarou louco. E passou alguns anos em um manicômio. Em nossos dias, na Itália fascista de Matteo Salvini, uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound. Georges Bataille escreveu que o ser humano é uma jaula onde habitam os anjos e os demônios. Em poucas pessoas isso foi tão evidente como no caso de Ezra Pound.
Mario Vargas Llosa

A fronteira da arte

Foi a batalha mais longa de todas as lutadas em Tuscatlan ou em qualquer outra região de El Salvador. Começou a meia-noite, quando as primeiras granadas caíram da montanha, e durou a noite toda e foi até a tarde do dia seguinte. Os militares diziam que Cinquera era inexpugnável. Os guerrilheiros tinham atacado quatro vezes, e quatro vezes tinham fracassado. Na quinta vez, quando foi erguida a bandeira branca no mastro do quartel-general, os tiros para o alto começaram os festejos.

Julio Ama, que lutava e fotografava a guerra, andava caminhando pelas ruas. Levava seu fuzil na mão e a câmara, também carregada e pronta para ser disparada, pendurada no pescoço. Andava Julio pelas ruas poeirentas, procurando os irmãos gêmeos. Esses gêmeos eram os únicos sobreviventes de uma aldeia exterminada pelo exército. Tinham dezesseis anos. Gostavam de combater ao lado de Julio; e nas entre-guerras, ele os ensinava a ler e a fotografar. No turbilhão daquela batalha, Julio tinha perdido os gêmeos, e agora não os via entre os vivos ou entre os mortos.

Caminhou através do parque. Na esquina da igreja, meteu-se numa viela. E então, finalmente, encontrou-os. Um dos gêmeos estava sentado no chão, de costas contra um muro. Sobre seus joelhos jazia o outro, banhado em sangue; e aos pés, em cruz, estavam os dois fuzis.

Julio se aproximou, e talvez tenha dito alguma coisa. O gêmeo que vivia não disse nada, nem se moveu: estava lá, mas não estava. Seus olhos, que não pestanejavam, olhavam sem ver, perdidos em algum lugar, em nenhum lugar; e naquela cara sem lágrimas estavam a guerra inteira e a dor inteira.

Julio deixou o fuzil no chão e empunhou a câmara. Rodou o filme, calculou num instante a luz e a distância e colocou a imagem em foco. Os irmãos estavam no centro do visor, imóveis, perfeitamente recortados contra o muro recém-mordido pelas balas.

Julio ia fazer a foto da sua vida, mas o dedo não quis. Julio tentou, tornou a tentar, e o dedo não quis. Então baixou a câmara, sem apertar o botão, e se retirou em silêncio.

A câmara, uma Minolta, morreu em outra batalha, afogada pela chuva, um ano mais tarde.
Eduardo Galeano, "O livro dos abraços"

quarta-feira, junho 1

Mercado árabe

 


Ah, é?

Laura Pacheco
Domingo inteiro em pijama, coça o umbigo. Diverte-se com os pequenos anúncios. Em sossego na poltrona, entende as borbulhas do gelo no copo de bebida. Uma velhice tranquila, regando suas malvas à janela, em manga de camisa. Única dúvida: ganhará o concurso de palavras cruzadas?

Dalton Trevisan, "ministórias"

Todos se vão

Lá atrás, Pedro Páramo, sentado em sua cadeira de assento de couro, olhou o cortejo que ia até o povoado. Sentiu que sua mão esquerda, ao querer se levantar, caía morta sobre seus joelhos; mas não deu importância a isso. Estava acostumado a ver morrer a cada dia algum de seus pedaços. Viu como o jasmineiro se sacudia deixando cair suas folhas: “Todos escolhem o mesmo caminho. Todos se vão.” Depois voltou ao lugar onde havia deixado seus pensamentos.

— Susana — disse. Depois fechou os olhos. — Eu pedi que você voltasse...

“...Havia uma lua grande no meio do mundo. Eu perdia meus olhos olhando você. Os raios da lua filtrando-se sobre a sua cara. Não me cansava de ver essa aparição que era você. Suave, esfregada de lua; sua boca inchada e suave, umedecida, colorida de estrelas; seu corpo transparentando-se na água da noite. Susana, Susana San Juan.”

Quis levantar uma das mãos para clarear a imagem; mas suas pernas a retiveram como se fosse de pedra. Quis levantar a outra mão, que foi caindo devagar, de lado, até ficar apoiada no chão como uma muleta detendo seu ombro murcho, desossado.

“Esta é a minha morte”, disse.

O sol foi virando-se sobre as coisas e devolveu-lhes sua forma. A terra em ruínas estava na frente dele, vazia. O calor caldeava seu corpo. Seus olhos mal se moviam; saltavam de uma recordação a outra, desfazendo o presente. De repente seu coração se detinha e parecia que também se detivessem o tempo e o ar da vida.

“Desde que não seja uma nova noite”, ele pensava.

Porque tinha medo das noites que enchiam a escuridão de fantasmas. De encerrar-se com seus fantasmas. Disso tinha medo.

“Sei que dentro de poucas horas virá Abundio com suas mãos ensanguentadas me pedir a ajuda que eu neguei. E eu não terei mãos para tapar os olhos e não vê-lo. Terei de ouvi-lo; até que sua voz se apague com o dia, até que sua voz morra.”

Sentiu mãos que tocavam seus ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.

— Sou eu, dom Pedro — disse Damiana. — Não quer que traga seu almoço?

Pedro Páramo respondeu:

— Vou até lá. Estou indo.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras.
Juan Rulfo, "Pedro Páramo"