terça-feira, setembro 6

Essa velha é um país

1

A última vez que a Avó viajou para Buenos Aires chegou sem nenhum dente, como um recém-nascido. Eu fiz que não percebi. Graciela tinha me advertido, por telefone, de Montevidéu: “Está muito preocupada. Me perguntou: Eduardo não vai me achar feia?”.

A Avó parecia um passarinho. Os anos iam passando e faziam com que ela encolhesse.

Saímos do porto abraçados.

Propus um táxi.

– Não, não – disse a ela. – Não é porque ache que você vá ficar cansada. Eu sei que você aguenta. É que o hotel fica muito longe, entende?

Mas ela queria caminhar.

– Escuta, vó – falei. – Por aqui não vale a pena. A paisagem é feia. Esta é uma parte feia de Buenos Aires. Depois, quando você tiver descansado, vamos juntos caminhar pelos parques.

Parou, me olhou de cima a baixo. Me insultou. E me perguntou, furiosa:

– E você acha que eu olho a paisagem, quando caminho com você?

Se pendurou em mim.

– Eu me sinto crescida – disse – debaixo da tua asa.

Perguntou-me: “Você lembra quando me levava no colo, no hospital, depois da operação?”

Falou-me do Uruguai, do silêncio e do medo:

– Está tudo tão sujo. Está tão sujo tudo.

Falou-me da morte:

– Vou me reencarnar num carrapicho. Ou em um neto ou bisneto seu vou aparecer.

– Mas, ô velha – falei. – Se a senhora vai viver duzentos anos. Não me fale da morte, que a senhora ainda vai durar muito.

– Não seja perverso – respondeu.

Disse que estava cansada de seu corpo.

– Volta e meia eu falo para ele, para meu corpo: “Não te suporto”. E ele responde: “Eu tampouco”.

– Olha – disse ela, e esticou a pele do braço.

Falou da viagem:

– Lembra quando a febre estava te matando, na Venezuela, e eu passei a noite chorando, em Montevidéu, sem saber por quê? Na semana passada, disse para Emma: “Eduardo não está tranquilo”. E vim. E agora também acho que você não está tranquilo.

2

Vovó ficou uns dias e voltou para Montevidéu.

Depois escrevi uma carta para ela. Escrevi que não cuidasse, que não se chateasse, que não se cansasse. Disse que eu sei direitinho de onde veio o barro com que me fizeram.

E depois me avisaram que tinha sofrido um acidente.

Telefonei para ela.

– Foi minha culpa – falou. – Escapei e fui caminhando até a Universidade, pelo mesmo caminho que fazia antes para ver você. Lembra? Eu já sei que não posso fazer isso. Cada vez que faço, caio. Cheguei ao pé da escada e disse, em voz alta: “Aroma do Tempo”, que era o nome do perfume que você uma vez me deu de presente. E caí. Me levantaram e me trouxeram aqui. Acharam que eu tinha quebrado algum osso. Mas hoje, nem bem me deixaram sozinha, me levantei da cama e fugi. Saí na rua e disse: “Eu estou bem viva e louca, como ele quer”.
Eduardo Galeano, "Mulheres"

Cronista casa velha

Duvido, sem pabulagem, que até vinte anos atrás houvesse lugar desta cidade onde eu não encontrasse a quem cumprimentar pelo nome ou vice-versa.

Neste fim de semana, tive de trocar um livro com falhas de impressão (“Democracia e luta de classes”, de Lênin) e só não passei inteiramente incógnito e encandeado nas avenidas do shopping porque, já na saída, irrompeu duma loja o reparo de um amigo velho nestes exatos termos: “Oh, você está bem, ainda em cima dos pés. Mas só escrevendo sobre casa velha.”

Ri sem gostar, mas levando em conta e a sério o que de há muito venho desconfiando. Já não vejo o que acrescentar ao diapasão de uma crônica inteira ou quase inteira, quando não sobre “casas velhas” e seus ausentes, mas sobre temas e vivências nostálgicas que o tributo à aura tecnológica passou por cima.

A última leitura que fiz sobre coisas do meu antigo métier aconteceu vinte e poucos anos atrás, trazida por um filho que participara de um seminário de comunicação, o IX, promovido pelo marketing do Banco do Brasil. E me foi mortificante a leitura dessa coletânea de ensaios que me despediam do que havia aprendido até ali, fora da escola, na única atividade afinada com o meu humor ou a minha índole dispersiva. As melhores e mais experientes cabeças da imprensa brasileira não se reuniam para discutir como aperfeiçoar, melhorar um jornalismo impresso esbatido pela televisão e pela informática nascente, mas como sobreviver, como não morrer.

“A fascinação pelas novas tecnologias de informação levou as empresas jornalísticas a embarcar num processo de diversificação que foi a sua ruína” – sentenciou o grande mestre até ali, Alberto Dines. Sim, porque depois disso ele e nenhum outro teve mais o que ensinar. Era outro o manual ditado não pela experiência no trato com o leitor e o mercado, mas para o enfrentamento das novas tecnologias determinando a mais radical mudança de comportamento em todos os segmentos e classes. “O ferro velho remanescente dos tempos românticos da sociedade aberta anterior à Revolução de 1964 precisava ser eliminado. Hora do sangue novo, do jornalista jovem capaz de falar a um jovem leitor que, supostamente, estaria ansioso por uma pauta moderna” – achava Dines.

A notícia libertava-se do papel, a qualidade e o alcance da informação correspondendo ao número de celulares numa contingência em que há mais celular, mais veículo do que habitante, possa este saber ler ou não.

“O que é espírito público, hein, vô?”. E o avô já desconfiado de si mesmo: “Onde você ouviu isso? Pergunte ao Google, repare nele!”

Na verdade, o que está no Google não exige muito dos que hoje se habilitam ou se atrevem a ingressar na vida pública.

O prejuízo das grandes tiragens dos impressos, que atribuíamos ao espetáculo da televisão, chegou com ela a conciliar-se. O que a tevê informava ou dava em primeira mão, a imprensa escrita se aplicaria em apurar, esperava-se. Mas aí vem a Internet de alcance interestelar com seu número infinito de informantes e de informados.

Pensando bem, devo me benzer por ainda me restar o homizio da casa velha.

segunda-feira, setembro 5

Merecimento


Cada escritor tem os leitores que merece
Mário da Silva Brito

Carta à avó

Não sei quase nada da sua infância, vó, e adoraria saber mais. Do meu lado, posso dizer que não foi fácil ser uma menina preta em um bairro majoritariamente branco. Nossa família era a única negra do prédio. Meu pai e outros colegas haviam ganhado um dinheiro em um bolão da Loteria Esportiva e foi com a parte dele que conseguiu dar entrada no apartamento térreo da praça Coronel Fernando Prestes, entre os canais 4 e 5 em Santos. Nosso apartamento era próprio, apesar das muitas prestações da Caixa Econômica Federal que ainda precisavam ser pagas.

Foram várias as vezes em que meus irmãos e eu fomos acusados de algo que não havíamos feito ou sofrido violências que nem sequer sabíamos nominar. Lembro de uma em especial, quando eu tinha seis anos de idade. Eu brincava com as vizinhas na escadaria do prédio, bem ao lado do nosso apartamento. Enquanto a gente combinava a brincadeira, uma das meninas brancas questionou:

“Mas se Djamila é preta, ela não pode brincar com a gente, pode?”

“Ih, é verdade! Você não pode ser mãe da nossa boneca.”

Eu não retruquei, tinha só seis anos de idade. Por mais que me incomodasse muito não poder brincar com elas, o que elas diziam parecia fazer certo sentido. Minha mãe era negra, meu pai era negro, meus avós eram negros, eu e meus irmãos também. Na minha cabeça de criança, aquelas palavras foram cortantes, mas lógicas.

Meu pai, que tinha escutado tudo, dias depois chegou do trabalho com um presente para Dara e para mim. Nós tínhamos o hábito de esperá-lo no portão do prédio e, assim que ele dobrava a esquina, a gente corria fazendo aviãozinho com os braços para pular no colo dele. Nesse dia, porém, estávamos em casa. Quando abri a caixa e vi a pequena boneca marrom, um mundo pareceu se abrir. Lembro até hoje do cheiro dela e da minha alegria em me exibir pelo prédio. De pegar um lençol velho, estender embaixo da escadaria e começar a montar a minha casinha, com a boneca que poderia ser a minha filha. Anos mais tarde fui entender a magnitude do gesto do meu pai. Imagino o quanto lhe deve ter doído escutar as palavras daquelas meninas, quantas memórias podem ter sido acionadas. Sem falar no quanto ele deve ter andado para encontrar, em 1986, bonecas que se parecessem com suas filhas.

Quando pequena eu também me distraía colecionando papéis de carta, e amava o cheiro deles, a magia que carregavam, a sensação de paz que aqueles desenhos tão delicados me davam. Adorava trocá-los com as amigas, sempre invejando a pasta cheia de folhas que elas tinham. Eu tentava convencer a minha mãe de que eu precisava de mais papéis, mas ela sempre sublinhava, com firmeza, que era preciso garantir as compras do mês para os quatro filhos.

Eu também amava olhar pela janela do meu quarto à noite, tentando ver as estrelas. Sentia saudade de algo que não sabia nomear. Nas festas de fim de ano, era pior, essa saudade sem nome aumentava. Minha mãe, com sua mania de limpeza, passava o dia inteiro faxinando. Lembro até hoje do cheiro do removedor Varsol no chão de taco. Na véspera do Natal, dava uma ansiedade gostosa usar roupas novas, sentir o cheiro das roupas novas, poder tomar um banho mais demorado sem que meu pai batesse na porta, gritando: “Tá viva aí?”.

Lembro quando, aos oito anos de idade, ganhei uma boneca chamada “mãezinha”, que se mexia e falava “mamãe”. Por alguns minutos, ela teve minha atenção. Porém nada me deixou mais fascinada do que o carrinho de bombeiro que um dos meus irmãos havia ganhado. As sirenes, o pisca-pisca e o carro rodando me deixaram hipnotizada. Os outros meninos do prédio se amontoaram para ver, e percebi que era melhor eu me manter afastada. A boneca logo perdeu a graça e passado um tempo já estava sem braço, o que deixava meu pai furioso. “Eu me mato de trabalhar na estiva para vocês não darem valor às coisas.”

Esse sentimento de ter que fazer tudo certo porque meu pai se matava de trabalhar ou porque caso contrário minha mãe bateria na gente foi um fantasma por muito tempo. Claro que a culpa não era dos meus pais, pessoas da classe trabalhadora, que desde cedo precisaram enfrentar as durezas da vida. Mas esse modelo rígido de “não pode errar jamais” pode ser muito pesado. Sei que você também foi educada assim, vó. Se errar, apanha. Se errar, vai ouvir sermão de três horas e ser privado de tudo. Se repetir, te tiro da escola. Se não limpar a casa, te dou uma surra. Claro que precisávamos aprender a ter responsabilidades, mas éramos crianças, íamos errar — e somos seres humanos, vamos errar. Essa rigidez, porém, acabou acentuando os problemas de autoestima que o racismo nos causa. Então, para me proteger, ou eu mentia ou me boicotava.

Lá em casa, vó, crescemos entendendo que errar era mais um privilégio de brancos. “Antes eu te bater do que a polícia”, era uma frase que minha mãe dizia sempre pra gente. O medo da violência policial faz com que as mães negras não possam permitir que seus filhos errem — e isso é violento também com elas. Meus colegas brancos sempre pegavam balas e bombons quando iam às lojas Americanas. Era a diversão deles. Uma vez, fiz o mesmo. A surra que eu levei me fez nunca mais repetir a dose. E o pior é que minha mãe tinha razão: em situações como aquelas, crianças brancas levariam uma leve advertência, crianças negras, não. Por isso, quando errávamos a punição era rigorosa — para que não esquecêssemos de como a sociedade nos trataria. Raramente havia acolhimento, nossa mãe não tinha tempo e a vida exigia.

Também tinha essa: “Se você brigar e apanhar, quando chegar em casa vai apanhar ainda mais”. E a justificativa era a velha frase de sempre: “Estou te preparando para a vida”. Preparar para a vida, quando se trata de uma criança negra, é ser brutalizada o bastante para aprender a lidar com a brutalidade do mundo. É um ciclo que se propaga impedindo a gente de ser, somente ser. Eu passava horas fantasiando a vida que eu gostaria de ter, porque aquela com a qual eu tinha que lidar me causava náuseas.
Djamila Ribeiro, "Cartas para minha avó"

Livraria na porta

 


O crime

Morava no engenho uma mulher por nome Josefa, conhecida como feiticeira. Tinha três filhos homens: João Duda, Antônio Cuíca e Felizardo, o melhor cortador de cana, que voltou da cidade, num dia de feira, em toda carreira, com a polícia no encalço. Chegando,gritou de longe para meu pai dizendo que acabara de cometer um crime e pedindo proteção. Matara Mesquece, um vendedor de cocada, por uma questão de troco.

Meu pai negou-lhe asilo. Não admitia criminoso em sua terra, mas nesse dia não jantou e dormiu tarde.

Veio o comandante do destacamento, tenente Moreirinha, e pediu licença para correr a propriedade. Contrariando a tradição de inviolabilidade dos engenhos, meu pai permitiu.

Além de varejar todas as casas, a polícia surrou a mãe do assassino e sua cunhada, mulher de Antônio Cuíca, o que causou indignação a meu pai.

Diziam os moradores que, com a diligência na ilharga, Felizardo tornara-se invisível por ter virado a camisa pelo avesso. Fugiu e homiziou-se numa usina em Pernambuco, só voltando a Areia depois de prescrito o crime.
José Américo de Almeida, "Memórias: antes que me esqueça"

domingo, setembro 4

Leitura com chuva

 


Não conversamos com o silêncio

Quando uma sociedade e seus valores ficam muito perdidos, ela ganha muita força para a autoajuda. É uma sociedade que procura o que fazer, como viver. Precisa muito de receita.

O melhor diálogo que travamos na vida é com o silêncio. Conversar com o silêncio é fascinante. Vivemos em uma sociedade em que o silêncio está interditado. As pessoas falam o tempo inteiro. Você entra no aeroporto e a tevê está ligada o tempo inteiro. No hotel, a tevê está ligada o tempo inteiro. Tem uma música tocando no elevador, tem alguém falando no celular. Tem pessoas com três celulares. É um mundo que fala o tempo inteiro. Não conversamos com o silêncio. E quando escutamos o silêncio, temos muitas respostas. Estamos ficando cada dia mais interditados do silêncio.

Tem um objeto que me preocupa muito chamado televisão. Não tenho nada contra. Às vezes, tem umas novelas boas que a gente descansa ao assistir. Mas entre um bloco e outro, existe uma coisa chamada comercial, que mostra tudo o que não temos. Você não tem esse cartão de crédito, não tem esse tênis, não fez essa viagem. Você não tem esse carro, não usa esse produto…

Certa vez, umas senhoras apareceram na minha casa, muito bem vestidas, às três horas da tarde, me pedindo para participar de abaixo-assinado que elas iriam mandar para o Roberto Marinho. O abaixo-assinado era porque a Globo estava passando programas naquele horário que não eram bons para os jovens. Eu as levei até o escritório, não tenho tevê na sala, e disse para elas: “Olha, vou dizer para a senhora que a minha televisão é maravilhosa. Ela tem um botão que quando não quero assistir, eu desligo. Tem que instalar na da senhora. É uma coisa fascinante. Se a da senhora não tem, manda instalar”.

As pessoas estão sem autonomia até para desligar uma televisão. Compram aquilo, ligam de manhã e dormem com aquilo ligado a noite inteira. É uma coisa que fala no ouvido da gente o tempo inteiro.
Bartolomeu Campos de Queirós

O dia a dia do escritor

O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porém este já de maior fôlego. Foi O Guarani, que escrevi dia pôr dia para o folhetim do Diário, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, se bem me recordo.

No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capítulos escritos.

Meu tempo dividia-se desta forma. Acordava, pôr assim dizer, na mesa do trabalho; e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para envia-lo à tipografia. Depois do almoço entrava pôr novo capítulo que deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar no “Hotel de Europa”. A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.

O resto do serão era repousar o espírito dessa árdua tarefa jornaleira, em alguma distração, como o teatro e as sociedades.

Nossa casa no Largo do Rocio, nº 73, estava em reparos. Trabalhava eu num quarto do segundo andar, ao estrépito do martelo, sobre uma banquinha de cedro, que apenas chegava para o mister da escrita; e onde a minha velha caseira Ângela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e socorria-me unicamente a um canhenho, em que havia em notas o fruto de meus estudos sobre a natureza e os indígenas do Brasil.

Disse alguém, e repete-se pôr aí de outiva que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.

José de Alencar, "Como e porque sou escritor"

sexta-feira, setembro 2

Hora de ver vitrines

 


Dependência

Sou uma leitora completamente dependente desse vício impune que é a leitura. Tenho uma biblioteca razoável com milhares de livros. Leio e releio com prazer desmedido esses livros , embora me surpreenda com alguns tesouros que , na gula incontinente da compra, não tive tempo de ler . Alguns descubro, num golpe esporádico de sorte, alinhados à sombra de outros, já saboreados em devido tempo. Outros há que se acotovelam numa mesa, à espera de uma voraz disponibilidade de consumo, para que se não confundam com todos os outros já degustados e bem arrumados pelas prateleiras.

Cuidado, ratos!

 


As três perguntas

Certa vez, ocorreu a um imperador que, se soubesse responder apenas às seguintes perguntas, nada jamais o afastaria do caminho justo:

– Qual é o melhor momento para qualquer coisa?

– Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?

– Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?


O imperador promulgou um decreto para todo o seu império, anunciando que quem soubesse responder às três perguntas receberia uma grande recompensa. Depois de ler este decreto, muitos se dirigiram ao palácio com as suas diferentes respostas.

Respondendo à primeira pergunta, alguém sugeriu ao imperador que estabelecesse uma ocupação total do tempo, com as horas, dias, meses, anos e as tarefas a realizar. Se seguisse isso à letra, o imperador poderia então vir a fazer cada coisa em seu devido tempo. Uma outra pessoa retorquiu que era impossível prever tudo, que o imperador devia pôr todas as distrações inúteis à parte e manter-se atento a todas as coisas, para saber quando e como agir. Uma outra insistiu que o imperador sozinho não podia possuir a clarividência e a competência necessárias para decidir quando fazer algo. Parecia-lhe que o mais importante era nomear um Conselho de Sábios e agir de acordo com as suas recomendações. Uma outra pessoa disse que certas questões necessitavam de uma decisão imediata e não podiam esperar por uma consulta. Contudo, se o soberano desejasse conhecer com antecedência o que ia acontecer, ser-lhe-ia possível interrogar os adivinhos e os magos.

As respostas à segunda pergunta também divergiram muito entre si. Alguém disse que o imperador devia colocar toda a sua confiança nos seus ministros; um outro recomendou que fosse aos padres e aos monges; outros, ainda, aos médicos e mesmo aos militares.

À terceira pergunta foram dadas respostas igualmente variadas. Alguns afirmaram que a procura mais importante era a ciência, outros insistiram que era a religião e outros, ainda, a arte da guerra. O imperador não ficou satisfeito com nenhuma das repostas e não atribuiu a ninguém a recompensa.

Depois de várias noites de reflexão, o soberano decidiu visitar um eremita que vivia na montanha e que era tido por ser iluminado. O imperador desejava encontrar o santo homem para lhe fazer as três perguntas, mas sabia muito bem que o eremita nunca deixava as montanhas e que era conhecido por não receber senão pessoas pobres e por recusar qualquer contato com ricos e poderosos. Por esta razão, o soberano disfarçou-se como um pobre camponês e ordenou à sua escolta que esperasse por ele aos pés da montanha, enquanto sozinho procurava o eremita.

Ao chegar à morada do homem santo, o imperador avistou-o a cavar o jardim diante da sua cabana. Ao ver o estrangeiro, o eremita saudou-o com a cabeça e continuou a cavar. Era um trabalho aparentemente muito penoso para um velho: ele ofegava ruidosamente a cada vez que enterrava a enxada no solo para revolver a terra. O imperador aproximou-se dele e disse: “Vim pedir a vossa ajuda. São estas as minhas perguntas”:

“Qual é o melhor momento para qualquer coisa?”
“Quais são as pessoas mais importantes em qualquer trabalho?” “Qual é a coisa mais importante a fazer em qualquer momento?”

O eremita escutou-o atentamente e retomou o trabalho depois de dar uma pequena palmada no ombro do imperador. O monarca disse então: “Deveis estar cansado. Deixai-me ajudar-vos”.

O velho homem agradeceu-lhe, entregou-lhe a enxada e sentou-se no chão para descansar. Depois de ter cavado duas fileiras, o imperador parou, voltou-se para o eremita e repetiu-lhe as suas três perguntas. De novo, o velho homem não respondeu, mas levantou- se e disse-lhe, mostrando a enxada: “Porque não descansais um pouco? Eu continuo”. Mas o imperador continuou a cavar a terra.

Passaram uma e outra hora. Por fim, o sol pôs-se atrás da montanha. O soberano pousou a enxada e disse ao eremita: “Escutai-me, eu vim até aqui para vos perguntar se sabeis responder às minhas três perguntas. Mas se não souberdes, dizei-mo para eu regressar à minha casa”.

O eremita levantou a cabeça e perguntou ao imperador: “Ouvis alguém a correr na nossa direção?”. O imperador virou a cabeça e ambos viram surgir do bosque um homem com uma longa barba branca. Corria tropegamente, com as mãos a pressionar uma ferida no ventre, que sangrava. O homem correu em direção ao soberano até cair sem sentidos no chão. Gemia. Ao abrir a sua camisa, o imperador e o eremita viram que ele tinha uma ferida profunda. O monarca limpou-a totalmente e, a seguir, fez-lhe um curativo com a sua própria camisa. Visto que o sangue corria abundantemente, teve de enxaguar e enfaixar várias vezes a sua camisa até conseguir estancar o sangue da ferida.

Finalmente, o homem ferido retomou a consciência e pediu água. O imperador correu até ao rio e trouxe consigo uma bilha de água fresca. Ao longo de todo este tempo, o sol pusera-se e o frio da noite viera. O eremita ajudou o imperador a levar o homem para a cabana, onde o deitaram sobre a cama. Aí, ele fechou os olhos e adormeceu sossegadamente. O soberano estava esgotado pela longa jornada que fizera, por caminhar na montanha e cavar o jardim. Apoiando-se à porta, adormeceu. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e o que ali tinha ido fazer. Quando acordou, olhou para a cama e viu o homem ferido, que também se perguntava o que fazia ali naquela cabana. Quando este viu o imperador, olhou-o atentamente nos olhos e disse num murmúrio dificilmente perceptível: “Por favor, perdoai-me”.

“Mas o que fizestes para merecerdes ser perdoado?”, perguntou o soberano.

“Vossa Majestade não me conhece, mas eu vos conheço. Eu fui vosso inimigo e fiz o voto de me vingar por terdes morto o meu irmão na última guerra e por terdes se apoderado de todos os meus bens. Quando soube que vínheis sozinho a esta montanha para vos encontrardes com o eremita, decidi montar-vos uma cilada e matar-vos. Esperei durante muito tempo, mas vendo que não vínheis, deixei o meu esconderijo para vos procurar. Foi assim que acabei por dar com os soldados da vossa guarda que, ao reconhecerem-me, infligiram-me esta ferida. Felizmente, consegui fugir e correr até aqui. Se não vos tivésseis encontrado, teria, com certeza, morrido na hora. Eu tinha a intenção de vos matar e vós salvastes-me a vida! Sinto uma enorme vergonha, mas também um reconhecimento infinito. Se viver, faço o voto de vos servir até ao meu derradeiro sopro e ordenarei aos meus filhos e aos meus netos que sigam o meu exemplo. Suplico-vos, Majestade, concedei-me o vosso perdão!”.

O imperador encheu-se de alegria ao ver com que facilidade se havia reconciliado com um antigo inimigo. Não apenas o perdoou, mas prometeu também restituir-lhe todos os seus bens e enviar o seu próprio médico e os seus servidores para se ocuparem dele até se curar completamente. Após ter dado ordem à sua escolta de reconduzir o homem a sua casa, o imperador regressou para se encontrar com o eremita. Antes de regressar ao seu palácio, o soberano desejava, por uma última vez, fazer as três perguntas ao velho homem. Encontrou o eremita a semear os grãos nas fileiras cavadas na véspera. O velho homem levantou-se e olhou-o: “Mas já tendes a resposta a essas perguntas”.

“Como assim?”, disse o imperador intrigado.

“Ontem, se não tivésseis tido piedade da minha velhice e não me tivésseis ajudado a cavar a terra, teríeis sido atacado por este homem quando regressásseis. Teríeis então lamentado profundamente não terdes ficado comigo. Por consequência, o momento mais importante foi o tempo passado a cavar o jardim, a pessoa mais importante fui eu e a coisa mais importante foi ajudares-me. Mais tarde, depois da chegada do homem ferido, o momento mais importante foi aquele que passastes a tratar da ferida, porque se o não tivésseis feito, ele teria morrido e vós teríeis desperdiçado a ocasião de vos reconciliar com um inimigo. Do mesmo modo, ele foi a pessoa mais importante, e cuidar da ferida foi a tarefa mais importante. Lembrai-vos que não existe senão um único momento importante, que é agora. Este instante presente é o único momento sobre o qual podemos exercer o nosso magistério. A pessoa mais importante é sempre a pessoa com a qual se está, aquela que está diante de vós, porque quem sabe se vireis a estar ocupado com uma outra no futuro? A tarefa mais importante é fazer feliz a pessoa que está ao vosso lado, porque a procura da vida é apenas isso”.
León Tolstói, "Os últimos dias de Tolstói"

quinta-feira, setembro 1

O crime do Storkwinkel

Não sei quanto aos alemães, mas todo brasileiro tem medo da polícia. Muita gente que é furtada não procura a polícia. A principal razão é que não adianta, pois a polícia brasileira, de modo geral, não resolve nada. (Ninguém resolve nada no Brasil, pensando bem; antigamente, resolvíamos no futebol, mas nem isso mais.) A outra razão é que todo mundo tem medo da polícia e suspeita que, se for lá dar queixa, ela pode se aborrecer e, quando ela se aborrece, o melhor é estar a uma distância segura.

No meu caso, há razões ainda mais fortes. Quando estudante, andei fazendo protestos e a polícia se sentia ofendida, manifestando sua mágoa por meio de cachorros, gás, cassetetes, cachações e outros meios de diálogo. Quando jornalista militante, a polícia também se chateava com comentários que considerava injustos para com o regime e me dava telefonemas preocupados, sugerindo que talvez fosse melhor para minha saúde que eu, em vez de política, escolhesse como tema a criação de galinhas, ou um campeonato de bridge. Como escritor, tampouco fiz sucesso com a polícia, se bem que hoje vivemos tempos bem mais brandos. Nos tempos não tão brandos, a crítica literária da polícia era severa e sou obrigado a confessar que prefiro a New York Times Book Review. Bem verdade que sempre estive em boa companhia. Recordo um policial que, diante de uma encenação de Antígona, repreendeu a todos com energia, mas benevolentemente. Compreendia que estivessem montando tal porcaria contra o regime, afinal eram jovens desorientados, levados ao pecado pelas ideologias malsãs e pela incúria dos mais velhos, que, em vez de cuidar de nossa educação física e moral, nos expunham àquele lixo mal-escrito. Sim, não tinham culpa os jovens, ele os perdoaria, embora, é claro, não permitisse a encenação. Mas — como é o nome desse sujeito que escreveu a peça? — ah, sim, esse tal Sófocles ele não perdoaria, esse iria em cana de qualquer jeito. Lembro que, na ocasião, fiquei meio aborrecido porque não fui preso e perdi a chance de ser companheiro de cela de Sófocles.

Se essa história parece exagero, lembro que, certa feita, a polícia proibiu que o Balé Bolshoi se apresentasse na tevê brasileira, temendo nossa bolcheviquização, a cada vez que um russo fizesse ha-ha-ha-ha com uma espada entre os dentes e desse um daqueles pulos de pernas abertas. A possibilidade de que os brasileiros passassem a andar com uma espada entre os dentes, fazendo ha-ha-ha-ha e dando pulos de dez metros, era certamente alarmante. O catálogo é infindável e o fato é que eu tenho medo de polícia e costumo atravessar para o outro lado do Ku’damm, quando chego perto da delegacia aqui do bairro.

Mas destino é destino e estou eu ainda mal-acordado, por volta das oito horas da manhã, aqui em Berlim, quando toca a campainha, vou abrir e quase morro de susto. Dois cavalheiros sisudos me dizem “guten Tag”, exibem distintivos e anunciam: “Kriminalpolizei!” Só não morri por razões genéticas — na minha família não há cardíacos e morrer de velho é uma questão de honra entre nós, mas meu primeiro impulso foi correr à sacada, gritar “sou inocente”, pular e procurar asilo na embaixada do Gabão. Minha mulher, que estava atrás de mim e também é brasileira, disse “fique calmo, querido, eu vou fazer sua mala, eles aqui não batem, fique calmo”.

Fiquei calmo e apenas pernas trêmulas, suor frio, gagueira, queixo batucando e outros sinais discretos traíam minha apreensão. Alguém havia me denunciado por jogar um cigarro na calçada? Teria cometido um crime ao olhar com excessivo vagar uma gordinha nua no Hallensee? Comer uma Bratwurst sem mostarda, como fiz outro dia, seria uma grave ofensa? Estaria sendo confundido com um terrorista? (Sou rotineiramente confundido com qualquer coisa, menos com alemão e brasileiro.)

“Escritor!”, disse eu, no meu alemão oligofrênico. “Uso meus dedos assim!”, acrescentei, mostrando com as mãos a diferença entre acionar um gatilho e datilografar.

A Polizei não pareceu divertida. Exibiu os distintivos outra vez, pediu algo que eu não entendia e, lá atrás, minha mulher não facilitava as coisas, perguntando quantas cuecas eu queria que ela pusesse na mala. Finalmente, quando eu já ia estender os pulsos para as algemas, descobri que eles falavam inglês e, graças a Deus, entendiam inglês gaguejado. Queriam a chave do sótão. Que chave do sótão, eu nem sabia que aqui havia um sótão. Mostrei todas as minhas chaves, nenhuma chave de sótão. Eles sorriram, despediram-se, foram embora.

Nós, contudo, ainda não nos recuperamos, talvez nunca nos recuperemos dessa visita. Passamos a noite em claro, imaginando hipóteses horrendas, cadáveres no sótão, duas toneladas de cocaína no sótão, um vampiro no sótão, as piores coisas no sótão, nunca chegaremos nem perto do sótão durante toda a nossa estada na Alemanha. Mas, no dia seguinte, descobrimos uma carta, pregada no quadro de avisos de nosso prédio. Um vizinho queixava-se de que sua churrasqueira (Lattenroste) tinha desaparecido do sótão e pedia que a devolvessem, ou pusessem oitenta e cinco marcos em sua caixa postal, para pagá-la. Ah, então era esse o crime do Storkwinkel, o mistério da churrasqueira desaparecida! Ficamos aliviadíssimos, nunca nem vimos uma churrasqueira, aqui na Alemanha. Mas a lembrança da Kriminalpolizei ainda estava muito viva e, como se diz no Brasil, seguro morreu de velho.

– Mulher — disse eu, depois de ler a carta —, acho que vou comprar uma churrasqueira e deixá-la na porta desse vizinho.

– Boa ideia — disse ela. — E, por via das dúvidas, bote também oitenta e cinco marcos na caixa postal dele.
João Ubaldo Ribeiro

Delivery

 


A árvore que pensava

Houve uma árvore que pensava. E pensava muito. Um dia transpuseram-na para a praça no centro da cidade. Fez-lhe bem a deferência. Ela entusiasmou-se, cresceu, agigantou-se.

Aí vieram os homens e podaram seus galhos. A árvore estranhou o fato e corrigiu seu crescimento, pensando estar na direção de seus galhos a causa da insatisfação dos homens. Mas quando ela novamente se agigantou os homens voltaram e novamente amputaram seus galhos.

A árvore queria satisfazer aos homens por julgá-los seus benfeitores, e parou de crescer. E como ela não crescesse mais, os homens a arrancaram da praça e colocaram outra em seu lugar.
Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"

quarta-feira, agosto 31

'Marcianos'

 


Os diferentes estilos

Parodiando Raymond Queneau, que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber: o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta.

Estilo interjetivo - Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena!

Estilo colorido - Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um vigia de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro.

Estilo antimunicipalista - Quando mais um dia e sofrimento e desmandos nasceu para esta cidade tão mal governada, nas margens imundas esburacadas e fétidas da Lagoa Rodrigo de Freitas, e em cujo arredores falta água há vários meses, sem falar nas freqüentes mortandades de peixes já famosas, o vigia de uma construção (já permitiram, por debaixo do pano, a ignominiosa elevação de gabarito em Ipanema) encontrou o cadáver de um desgraçado morador desta cidade sem policiamento. Como não podia deixar de ser, o corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele perigoso foco de epidemias. Até quando?

Estilo reacionário - Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram na manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já não bastasse para enfear aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio.

Estilo então - Então o vigia de uma construção em Ipanema não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providências necessárias. Aí então eu resolvi te contar isto.

Estilo áulico - À sobremesa, alguém falou ao Presidente, que na manhã de hoje o cadáver de um homem havia sido encontrado na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Presidente exigiu imediatamente que um de seus auxiliares telegrafasse em seu nome à família enlutada. Como lhe informassem que a vítima ainda não fora identificada, S. Exa., com o seu estimulante bom humor, alegrou os presentes com uma das suas apreciadas blagues.

Estilo schmidtiano - Coisa terrível é o encontro com um cadáver desconhecido à margem de um lago triste à luz fria da aurora! Trajava-se com alguma humildade mas seus olhos eram azuis, olhos para a festa alegre colorida deste mundo. Era trágico vê-lo morto. Mas ele não estava ali, ingressara para sempre no reino inviolável e escuro da morte, este rio um pouco profundo caluniado de morte.

Estilo complexo de Édipo - Onde andará a mãezinha do homem encontrado morto na Lagoa Rodrigo de Freitas? Ela que o amamentou, ela que o embalou em seus braços carinhosos?

Estilo preciosista - No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua a Estrela d´Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica.

Estilo Nélson Rodrigues - Usava gravata de bolinhas azuis e morreu!

Estilo sem jeito - Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de um Rui ou o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimento são capazes de expressar esse sentimento: Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a palavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever, mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste, ah, se eu soubesse escrever.

Estilo feminino - Imagine você, Tutsi, que ontem eu fui ao Sach´s legalíssimo, e dormi tarde, com o Tony. Pois logo hoje minha filha que eu estava exausta e tinha hora marcada no cabeleireiro, e estava também querendo dar uma passada na costureira, acho mesmo que vou fazer aquele plissadinho, como o da Tereza, o Roberto resolveu me telefonar quando eu estava no melhor do sono. Mas o que era mesmo que ia te contar? Ah, menina, quando eu olhei da janela, vi uma coisa horrível, um homem morto lá na beira da Lagoa. Estou tão nervosa! Logo eu que tenho horror de gente morta.

Estilo lúdico ou infantil - Na madrugada de hoje por cima o corpo de um homem por baixo foi encontrado por cima pelo vigia de uma construção por baixo. A vítima por baixo não trazia identificação por cima. Tinha aparentemente por cima a idade de quarenta anos por baixo.

Estilo concretista - Dead dead man man mexe mexe Mensch Mensch MENSCHEIT.

Estilo didático - Podemos encarar a morte do desconhecido encontrado morto à margem da Lagoa em três aspectos: a) policial; b) humano; c) teológico. Policial: o homem em sociedade, o humano: homem em si mesmo; teológico: o homem em Deus. Polícia e homem: fenômeno; alma de Deus: epidenômeno. Muito simples, como os senhores veem.
Paulo Mendes Campos

terça-feira, agosto 30

Autênticos 'ratos' em ação

 


Censura na Bitínia

Já aludi em outro lugar à pálida vida cultural deste país, ainda baseada em mecenatismos e entregue ao interesse de pessoas endinheiradas — ou simplesmente a profissionais e artistas, especialistas e técnicos, todos muito bem pagos.

Particularmente interessante é a solução que foi proposta, ou melhor, que foi espontaneamente imposta ao problema da censura. No final da década passada, a “necessidade” de censura assistiu, por vários motivos, a um notável crescimento na Bitínia; em poucos anos os escritórios centrais existentes tiveram que dobrar seus organismos, estabelecendo filiais periféricas em todas ou quase todas as capitais de província. Havia ainda uma dificuldade crescente em recrutar o pessoal necessário: em primeiro lugar, porque o ofício de censor, como se sabe, é difícil e delicado, pois demanda uma preparação específica, difícil de ser encontrada até mesmo em pessoas altamente qualificadas noutras áreas; além disso, porque o exercício da censura, pelo que mostram estatísticas recentes, não é isento de perigos.

Não quero fazer referência aqui aos riscos de represálias imediatas, que a eficiente polícia bitinense reduziu a quase nada. Trata-se de outra coisa: acurados estudos de medicina do trabalho desenvolvidos na região lançaram luz sobre uma forma específica de deformidade profissional, bastante molesta e aparentemente irreversível, que foi denominada por seu descobridor de “distimia paroxística” ou “morbo de Gowelius”. Ela se manifesta por um quadro clínico inicialmente vago e mal definido; depois, com o passar dos anos, por vários distúrbios relacionados aos sentidos (diplopia, distúrbios do olfato e da audição, reatividade excessiva a, por exemplo, algumas cores ou sabores); e frequentemente resulta, após remissões e recaídas, em graves anomalias e perversões psíquicas.

Como consequência, não obstante os elevados salários que eram oferecidos, o número de candidatos aos concursos estatais decresceu rapidamente, e a carga de trabalho dos funcionários de carreira aumentou proporcionalmente até atingir patamares nunca vistos. As matérias pendentes (copiões, partituras, manuscritos, obras figurativas, esboços de manifestos) se acumularam a tal ponto nos escritórios da censura que literalmente bloquearam não só os arquivos destinados a esse fim, mas também os vestíbulos, os corredores, os locais reservados aos serviços de limpeza. Registrou-se o caso de um chefe de seção que foi sepultado por um desabamento e morreu sufocado antes que chegassem os socorros.

Num primeiro momento, remediou-se o caso com a mecanização. Cada sede foi dotada de modernos aparelhos eletrônicos: sendo eu um leigo na matéria, não poderia descrever com exatidão o seu funcionamento, mas me disseram que a memória magnética desses instrumentos continha três listas distintas de vocábulos — hints, plots, topics — e módulos de referência. Os da primeira lista, caso fossem encontrados, eram automaticamente eliminados da obra examinada, os da segunda implicavam a recusa integral da mesma; os da terceira, a prisão imediata e o enforcamento do autor e do editor.

Os resultados foram ótimos no que diz respeito à quantidade de trabalho que podia ser absorvida (em poucos dias os locais dos escritórios foram desocupados), mas muito inferiores quanto ao aspecto qualitativo. Houve casos de lapsos clamorosos: “passou”, foi publicado e vendido com sucesso estrepitoso o Diário de uma periquita, de Claire Efrern, obra de duvidoso valor literário e abertamente imoral, cuja autora, com artifícios absolutamente elementares e transparentes, havia mascarado, mediante alusões e perífrases, todos os pontos lesivos da moral comum do momento. Por outro lado, assistiu-se ao doloroso caso Tuttle: o coronel Tuttle, ilustre crítico e historiador militar, teve que subir ao patíbulo porque num dos seus volumes sobre a campanha no Cáucaso a palavra “regimento” foi alterada para “regipento”, devido a uma gralha banal, em que no entanto o centro de censura automatizada de Issarvan percebeu uma alusão obscena. Ao mesmo destino trágico escapou milagrosamente o autor de um modesto manual de criação de gado, que teve meios de fugir para o exterior e recorrer ao Conselho de Estado antes que a sentença fosse executada.

Esses três episódios, todos eles notórios, foram seguidos de numerosíssimos outros, noticiados de boca em boca, mas oficialmente ignorados porque (obviamente) sua divulgação veio a cair nas malhas da censura. Disso resultou uma situação de crise, com deserção quase total das forças culturais do país — situação que, apesar de algumas tímidas tentativas de ruptura, permanece até hoje.

Porém, nessas últimas semanas, correu uma notícia que promete alguma esperança. Um fisiologista, cujo nome foi mantido em segredo, revelou ao cabo de um amplo ciclo de experiências alguns novos aspectos da psicologia dos animais domésticos, desencadeando uma grande polêmica. Esses animais, se submetidos a um condicionamento específico, seriam capazes não só de aprender trabalhos fáceis de transporte e de organização, mas também de fazer autênticas escolhas.

Trata-se certamente de um campo vastíssimo e fascinante, de possibilidades praticamente ilimitadas; em suma, desde que foi publicado na imprensa bitinense até o momento em que escrevo, o trabalho de censura, que prejudica o cérebro humano — e que as máquinas despacham de maneira muito rígida —, poderia ser confiado com vantagens a animais devidamente adestrados. Bem observada, a desconcertante notícia não tem em si nada de absurdo — já que, em última análise, trata-se apenas de uma escolha.

É curioso que, para essa tarefa, os mamíferos mais próximos do homem tenham sido considerados menos aptos. Submetidos ao processo de condicionamento, cães, macacos e cavalos se demonstraram maus juízes, precisamente porque muito inteligentes e sensíveis; segundo o estudioso anônimo, eles se comportam de modo muito passional, reagem de maneira imprevisível a mínimos estímulos estranhos, mas inevitáveis em qualquer ambiente de trabalho; demonstram estranhas preferências, talvez congênitas e ainda inexplicáveis, por algumas categorias mentais; até sua memória é incontrolável e excessiva; enfim, eles revelam nessas circunstâncias um esprit de finesse que, para fins de censura, é sem dúvida pernicioso.

Todavia resultados surpreendentes foram obtidos com a galinha doméstica, tanto que quatro escritórios experimentais foram sabidamente confiados a equipes de galináceos, sob a supervisão e o controle de funcionários de comprovada experiência. Além de serem facilmente encontradas e de terem um custo moderado, tanto em investimento inicial quanto em manutenção, as galinhas são capazes de escolhas rápidas e seguras, limitam-se escrupulosamente aos esquemas mentais que lhes são impostos e, haja vista o seu caráter frio e tranquilo e a sua memória evanescente, não são sujeitas a perturbações.

É opinião comum nesses ambientes que, dentro de poucos anos, o método será estendido a todos os departamentos de censura do país.

Verificado pela censura:


Primo Levi, "71 contos de Primo Levi"