Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
A sabedoria e a virtude, a seu tempo,
Florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
Estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
Para, com coragem e sem lágrimas se
Dar a outras novas ligações. Em todo
O começo reside um encanto que nos
Protege e ajuda a viver
Serenos transpunhamos o espaço após espaço,
Não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
Sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo
Mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
Íntimos, ameaça-nos o torpor;
Só aquele que está pronto a partir e parte
Se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
Nos lance, jovens, para novos espaços,
O apelo da Vida nunca tem fim ...
Vamos, Coração, despede-te e cura-te!
Hermann Hesse., "O jogo das contas de vidro"
sábado, outubro 4
A moda é muda
Tizuca parado em frente à loja de roupas masculinas. Ou unissex. Quem sabe lá o que hoje é ou não é roupa do ou roupa da.
Indecisão. Dúvida. Perplexidade. Escolher o quê?
Colarinho italiano arredondado ou colarinho com pontas abotoadas. Os dois?
Colarinho com pespontos, colarinho chemisier? Tudo que há de opção na forma e cara de um colarinho!
Se Tizuca pende para a camisa esporte xadrez, vem o problema: o xadrez do bolso tanto pode ser na direção das linhas como enviesado. Enviesado é melhor, claro. Mas o outro, mesmo de xadrez, tem um toque de social, entende?
Tizuca não é lá muito social, mas a fórmula esporte-social o atrai. Em geral e sempre, ele é mais esporte. Acontece que amanhã pode querer dar uma de social, e então esta camisa aqui vira clássica, pelo artifício de um botão abotoado no colarinho. Versátil.
Tizuca ainda não chegou ao capítulo calça. Está assuntando a subseção lapela do bolso. Ah, e os botões de quatro furos? Sem quatro furos, infeliz é o botão, e logo esta camisa de palas inclinadas na frente e horizontais atrás, tão bac (Tizuca não fala bacana), perde noventa por cento de carga charmosa, com seus míseros botões de dois furos.
O botão também, na estética do minuto, precisa ter cores contrastantes com a cor ou cores da camisa. E mesmo, por que não? contrastantes entre si. Comprada a camisa, Tizuca vai dar à mãe o trabalho de arrancar três dos botões e substituí-los por outros bem diferentes uns dos outros. A velha trate de arranjá-los, botão é negócio de mãe.
Às calças. Tu não me procurarias tanto se já não me tivesses encontrado. Pascal, vestibular de francês. Por que fui escolher francês? Mas esta calça é aquela que eu sonhei na semana passada, a mesma, a própria. A cor, a linha, o tique-taque.
A questão é que, sendo a calça sonhada, não é rigorosamente a calça sonhada. Entenda quem quiser ou puder. Verdade, verdade, as calças que sonhamos nunca se realizam em vitrine alguma do mundo, elas foram feitas e desfeitas no momento ideal, que os figurinistas seriam incapazes de assimilar. Bolso embutido na cintura não é o mesmo que bolso inclinado. Tem mais: a barra virada.
Tizuca, não te resolves? Vais ficar parado a eternidade diante da loja, vestindo com os olhos? Se não és capaz de escolher entre uma calça pied-de-poule e outra pied-de-coq, como escolherás entre duas garotas? Ou duas profissões? Ou…?
Chega de perguntar, tu me engrilas. Tizuca desdobra-se em consciência e alienação. Pergunta-se e recusa-se a responder. Se houvesse nas coisas uma resposta, o rótulo esclarecedor: Sou o que queres. Não sou o que queres. Todas parecem dizer: Afinal, que queres?
A moda. O medo. Medo de não estar na moda. O descompasso. O desequilíbrio íntimo, independente do efeito que possa produzir nos outros o fato de não usarmos aquela camisa que é a absoluta nesta primavera. Por que me visto? Para vocês, mas principalmente para minha imagem no espelho. Nos dois espelhos: o do armário, o de dentro de mim mesmo, Tizuca, dezoito anos, indecisão. E depois…
Depois, Tizuca tem no bolso apenas duzentos cruzeiros, que não dão para comprar a vitrine, e levar para casa e experimentar todas as soluções vestiais e escolher aquela solução, aquele colarinho, aquele bolso, aquela prega. A vida é ondulada, interrogativa, como a minhoca. E muda, feito a moda.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"
Indecisão. Dúvida. Perplexidade. Escolher o quê?
Colarinho italiano arredondado ou colarinho com pontas abotoadas. Os dois?
Colarinho com pespontos, colarinho chemisier? Tudo que há de opção na forma e cara de um colarinho!
Se Tizuca pende para a camisa esporte xadrez, vem o problema: o xadrez do bolso tanto pode ser na direção das linhas como enviesado. Enviesado é melhor, claro. Mas o outro, mesmo de xadrez, tem um toque de social, entende?
Tizuca não é lá muito social, mas a fórmula esporte-social o atrai. Em geral e sempre, ele é mais esporte. Acontece que amanhã pode querer dar uma de social, e então esta camisa aqui vira clássica, pelo artifício de um botão abotoado no colarinho. Versátil.
Vitrine é isso: mostra demais. Devia mostrar só uma camisa de cada vez, a gente conferia, tá bem, não tá: outra. Depois outra. Cinco camisas diferentes, dando tapa no olhar, como é que pode?
Tizuca ainda não chegou ao capítulo calça. Está assuntando a subseção lapela do bolso. Ah, e os botões de quatro furos? Sem quatro furos, infeliz é o botão, e logo esta camisa de palas inclinadas na frente e horizontais atrás, tão bac (Tizuca não fala bacana), perde noventa por cento de carga charmosa, com seus míseros botões de dois furos.
O botão também, na estética do minuto, precisa ter cores contrastantes com a cor ou cores da camisa. E mesmo, por que não? contrastantes entre si. Comprada a camisa, Tizuca vai dar à mãe o trabalho de arrancar três dos botões e substituí-los por outros bem diferentes uns dos outros. A velha trate de arranjá-los, botão é negócio de mãe.
Às calças. Tu não me procurarias tanto se já não me tivesses encontrado. Pascal, vestibular de francês. Por que fui escolher francês? Mas esta calça é aquela que eu sonhei na semana passada, a mesma, a própria. A cor, a linha, o tique-taque.
Ninguém é capaz de saber o que seja o tique-taque de uma calça, mas Tizuca sabe, ele que descobriu o fenômeno: há calças com tique-taque, outras sem. A maioria, sem. Certo ruído leve que ela faz quando a gente anda? Não. Certo ritmo, certas dobras harmoniosas? Também não. Tizuca não explica a ninguém, nem a si mesmo. Só ele sabe, e esconde de todos.
A questão é que, sendo a calça sonhada, não é rigorosamente a calça sonhada. Entenda quem quiser ou puder. Verdade, verdade, as calças que sonhamos nunca se realizam em vitrine alguma do mundo, elas foram feitas e desfeitas no momento ideal, que os figurinistas seriam incapazes de assimilar. Bolso embutido na cintura não é o mesmo que bolso inclinado. Tem mais: a barra virada.
Esqueceram-se de botar no real a barra virada do meu sonho.
Tizuca, não te resolves? Vais ficar parado a eternidade diante da loja, vestindo com os olhos? Se não és capaz de escolher entre uma calça pied-de-poule e outra pied-de-coq, como escolherás entre duas garotas? Ou duas profissões? Ou…?
Chega de perguntar, tu me engrilas. Tizuca desdobra-se em consciência e alienação. Pergunta-se e recusa-se a responder. Se houvesse nas coisas uma resposta, o rótulo esclarecedor: Sou o que queres. Não sou o que queres. Todas parecem dizer: Afinal, que queres?
A moda. O medo. Medo de não estar na moda. O descompasso. O desequilíbrio íntimo, independente do efeito que possa produzir nos outros o fato de não usarmos aquela camisa que é a absoluta nesta primavera. Por que me visto? Para vocês, mas principalmente para minha imagem no espelho. Nos dois espelhos: o do armário, o de dentro de mim mesmo, Tizuca, dezoito anos, indecisão. E depois…
Depois, Tizuca tem no bolso apenas duzentos cruzeiros, que não dão para comprar a vitrine, e levar para casa e experimentar todas as soluções vestiais e escolher aquela solução, aquele colarinho, aquele bolso, aquela prega. A vida é ondulada, interrogativa, como a minhoca. E muda, feito a moda.
Carlos Drummond de Andrade, "De notícias e não notícias faz-se a crônica"
sexta-feira, outubro 3
O sabor das palavras
Quanto a mim, gosto das palavras que sabem a terra, a água, aos frutos de fogo do Verão, aos barcos no vento; gosto das palavras lisas como seixos, rugosas como pão de centeio. Palavras que cheiram a feno e a poeira, a barro e a limão, a resina e a sol.
Eugénio de Andrade
Eugénio de Andrade
Auto-retrato
Ao nascer eu não estava acordado, de forma que
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outro, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.
Manoel de Barros
não vi a hora.
Isso faz tempo.
Foi na beira de um rio.
Depois eu já morri 14 vezes.
Só falta a última.
Escrevi 14 livros.
E deles estou livrado.
São todos repetições do primeiro.
(Posso fingir de outro, mas não posso fugir de mim).
Já plantei dezoito árvores, mas pode que só quatro.
Em pensamento e palavras namorei noventa moças,
mas pode que nove.
Produzi desobjectos, 35, mas pode que onze.
Cito os mais bolinados: um alicate cremoso, um
abridor de amanhecer, uma fivela de prender silêncios,
um prego que farfalha, um parafuso de veludo, etc. etc.
Tenho uma confissão: noventa por cento do que
escrevo é invenção; só dez por cento que é mentira.
Quero morrer no barranco de um rio: - sem moscas
na boca descampada.
Manoel de Barros
Você é um número
Se você não tomar cuidado vira número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento -- tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número de recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número sexo, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?
Clarice Lispector.
Se é dos que abrem crediário, para eles você é um número. Se tem propriedade, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem o número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber coisas. Ou aulas de Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio também recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número de recenseamento. Se é católico recebe número de batismo. No registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás, é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
Uma amiga minha contou que no Alto Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pôde ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
Nós vamos lutar contra isso. Cada um é um, sem número. O si-mesmo é apenas o si-mesmo.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número sexo, como um osso branco seco exposto ao sol. Meu número íntimo é 9. Só. 8. Só. 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando como um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos amar que amor não tem número. Ou tem?
Clarice Lispector.
Escuta, Amor
Quando damos as mãos, somos um barco feito de oceano, a agitar-se sobre as ondas, mas ancorado ao oceano pelo próprio oceano. Pode estar toda a espécie de tempo, o céu pode estar limpo, verão e vozes de crianças, o céu pode segurar nuvens e chumbo, nevoeiro ou madrugada, pode ser de noite, mas, sempre que damos as mãos, transformamo-nos na mesma matéria do mundo. Se preferires uma imagem da terra, somos árvores velhas, os ramos a crescerem muito lentamente, a madeira viva, a seiva. Para as árvores, a terra faz todo o sentido. De certeza que as árvores acreditam que são feitas de terra.
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.
José Luís Peixoto, "Abraço"
Por isto e por mais do que isto, tu estás aí e eu, aqui, também estou aí. Existimos no mesmo sítio sem esforço. Aquilo que somos mistura-se. Os nossos corpos só podem ser vistos pelos nossos olhos. Os outros olham para os nossos corpos com a mesma falta de verdade com que os espelhos nos reflectem. Tu és aquilo que sei sobre a ternura. Tu és tudo aquilo que sei. Mesmo quando não estavas lá, mesmo quando eu não estava lá, aprendíamos o suficiente para o instante em que nos encontrámos.
Aquilo que existe dentro de mim e dentro de ti, existe também à nossa volta quando estamos juntos. E agora estamos sempre juntos. O meu rosto e o teu rosto, fotografados imperfeitamente, são moldados pelas noites metafóricas e pelas manhãs metafóricas. Talvez outras pessoas chamem entendimento a essa certeza, mas eu e tu não sabemos se existem outras pessoas no mundo. Eu e tu declarámos o fim de todas as fronteiras e inseparámo-nos. Agora, somos uma única rocha, uma única montanha, somos uma gota que cai eternamente do céu, somos um fruto, somos uma casa, um mundo completo. Existem guerras dentro do nosso corpo, existem séculos e dinastias, existe toda uma história que pode ser contada sob múltiplas perspectivas, analisada e narrada em volumes de bibliotecas infinitas. Existem expedições arqueológicas dentro do nosso corpo, procuram e encontram restos de civilizações antigas, pirâmides de faraós, cidades inteiras cobertas pela lava de vulcões extintos. Existem aviões que levantam voo e aterram nos aeroportos interiores do nosso corpo, populações que emigram, êxodos de multidões famintas. E existem momentos despercebidos, uma criança que nasce, um velho que morre. Dentro de nós, existe tudo aquilo que existe em simultâneo em todas as partes.
Questiono os gestos mais simples, escrever este texto, tentar dizer aquilo que foge às palavras e que, no entanto, precisa delas para existir com a forma de palavras. Mas eu questiono, pergunto-me, será que são necessárias as palavras? Eu sei que entendes o que não sei dizer. Repito: eu sei que entendes o que não sei dizer. Essa certeza é feita de vento. Eu e tu somos esse vento. Não apenas um pedaço do vento dentro do vento, somos o vento todo.
Escuta,
ouve.
Amor.
Amor.
José Luís Peixoto, "Abraço"
Dois capítulos perdidos
Abandonei a empresa, mas um dia destes ouvi novo pio de coruja — e iniciei a composição de repente, valendo-me dos meus próprios recursos e sem indagar se isto me traz qualquer vantagem, direta ou indireta.
Continuemos. Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo o caminho dá na venda.
Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita para a horta. Casimiro Lopes pergunta se me falta alguma coisa.
— Não.
Casimiro Lopes acocora-se num canto. Volto a sentar-me, releio estes períodos chinfrins.
Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoivarava isto brincando. Reconheço finalmente que aquela papelada tinha préstimo.
O que é certo é que, a respeito de letras, sou versado em estatística, pecuária, agricultura, escrituração mercantil, conhecimentos inúteis neste gênero.
Não obtive, porque elas não me tentavam e porque me orientei num sentido diferente. O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. Tudo isso é fácil quando está terminado e embira-se em duas linhas, mas para o sujeito que vai começar, olha os quatro cantos e não tem em que se pegue, as dificuldades são terríveis. Há também a capela, que fiz por insinuações de padre Silvestre.
Ocupado com esses empreendimentos, não alcancei a ciência de João Nogueira nem as tolices do Gondim. As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. É tarde para mudar de profissão. E o pequeno que ali está chorando necessita quem o encaminhe e lhe ensine as regras de bem viver.
— Então para que escreve?
— Sei lá!
O pior é que já estraguei diversas folhas e ainda não principiei.
— Maria das Dores, outra xícara de café.
Dois capítulos perdidos. Talvez não fosse mau aproveitar os do Gondim, depois de expurgados.
Graciliano Ramos, "São Bernardo"
Afinal foi bom privar-me da cooperação de padre Silvestre, de João Nogueira e do Gondim. Há fatos que eu não revelaria, cara a cara, a ninguém. Vou narrá-los porque a obra será publicada com pseudônimo. E se souberem que o autor sou eu, naturalmente me chamarão potoqueiro.
Continuemos. Tenciono contar a minha história. Difícil. Talvez deixe de mencionar particularidades úteis, que me pareçam acessórias e dispensáveis. Também pode ser que, habituado a tratar com matutos, não confie suficientemente na compreensão dos leitores e repita passagens insignificantes. De resto isto vai arranjado sem nenhuma ordem, como se vê. Não importa. Na opinião dos caboclos que me servem, todo o caminho dá na venda.
Aqui sentado à mesa da sala de jantar, fumando cachimbo e bebendo café, suspendo às vezes o trabalho moroso, olho a folhagem das laranjeiras que a noite enegrece, digo a mim mesmo que esta pena é um objeto pesado. Não estou acostumado a pensar. Levanto-me, chego à janela que deita para a horta. Casimiro Lopes pergunta se me falta alguma coisa.
— Não.
Casimiro Lopes acocora-se num canto. Volto a sentar-me, releio estes períodos chinfrins.
Ora vejam. Se eu possuísse metade da instrução de Madalena, encoivarava isto brincando. Reconheço finalmente que aquela papelada tinha préstimo.
O que é certo é que, a respeito de letras, sou versado em estatística, pecuária, agricultura, escrituração mercantil, conhecimentos inúteis neste gênero.
Recorrendo a eles, arrisco-me a usar expressões técnicas, desconhecidas do público, e a ser tido por pedante. Saindo daí, a minha ignorância é completa. E não vou, está claro, aos cinquenta anos, munir-me de noções que não obtive na mocidade.
Não obtive, porque elas não me tentavam e porque me orientei num sentido diferente. O meu fito na vida foi apossar-me das terras de S. Bernardo, construir esta casa, plantar algodão, plantar mamona, levantar a serraria e o descaroçador, introduzir nestas brenhas a pomicultura e a avicultura, adquirir um rebanho bovino regular. Tudo isso é fácil quando está terminado e embira-se em duas linhas, mas para o sujeito que vai começar, olha os quatro cantos e não tem em que se pegue, as dificuldades são terríveis. Há também a capela, que fiz por insinuações de padre Silvestre.
Ocupado com esses empreendimentos, não alcancei a ciência de João Nogueira nem as tolices do Gondim. As pessoas que me lerem terão, pois, a bondade de traduzir isto em linguagem literária, se quiserem. Se não quiserem, pouco se perde. Não pretendo bancar escritor. É tarde para mudar de profissão. E o pequeno que ali está chorando necessita quem o encaminhe e lhe ensine as regras de bem viver.
— Então para que escreve?
— Sei lá!
O pior é que já estraguei diversas folhas e ainda não principiei.
— Maria das Dores, outra xícara de café.
Dois capítulos perdidos. Talvez não fosse mau aproveitar os do Gondim, depois de expurgados.
Graciliano Ramos, "São Bernardo"
quinta-feira, outubro 2
Um pobre-diabo
Estendeu a mão ao deputado governista e balbuciou algumas palavras confusas, de que ele mesmo ignorava a significação. O gesto era contrafeito: enquanto o braço avançava timidamente, o resto do corpo se retraía, parecia querer recuar para além da parede. Correu a vista pelos quadros ali pendurados, deteve-se numa paisagem verde e azul, bastante desenxabida. Teve a impressão de que, se continuasse a encolher-se, iria achatar-se como a paisagem — coqueiros verdes e céu azul. A voz era uma espécie de ronco inexpressivo.
— Homem das cavernas, monologou. Criatura paleolítica. Homem das cavernas, sem dúvida.
Mas, em vez de dizer qualquer coisa que melhorasse a sua triste situação, pensou nos trogloditas e, como se achava perturbado, confundiu-os com a multidão que fervilhava lá embaixo, na rua. Avizinhou-se da janela. As pessoas que rolavam nos automóveis apareceram-lhe armadas e ferozes, cobertas de peles cabeludas. Olhou com desgosto a mão que tinha apertado a mão do político influente. Comprida, fina, inútil.
— Criatura paleolítica. Mãos compridas, finas, inúteis.
Esta incoerência irritou-o. Desejou afastar-se, atravessar a porta, entrar no corredor, virar à esquerda, tocar um botão, descer, ziguezaguear à toa pela cidade, traço insignificante.
Chegou-se à mesa. Ouvia desatento a voz sonora do político, sentia nela estranho poder, achava natural que na câmara as galerias se excitassem e batessem palmas escutando-a. Notava apenas que ela o jogava para direções contrárias: a porta meio cerrada e a parede onde se penduravam os coqueiros verdes e o céu azul.
Pensou no jogo de bilhar. Massé? Era, devia ser massé. A bola avançava, mas recuava antes de alcançar a tabela ou outra bola. Jogo difícil. Massé? Tinha ouvido a palavra. Ouvido ou lido, não sabia direito. Bola de bilhar. Isto. Bola de bilhar não tem memória.
Em todo o caso o deputado governista era um bom jogador. Via-lhe a mão curta e gorda, bem tratada, muito branca, e lembrava-se dos artigos e dos livros que ela havia redigido. Imaginou-a mexendo-se no papel com segurança, compondo uma prosa gorda, curta e branca, prosa que lhe dava sempre a ideia de toicinho cru. Detestava aquilo, desprezava o autor, um pedante, homem de frases arrumadas com aparato. Lendo-o, sentia-se duplamente roubado. Em primeiro lugar perdia tempo. E como levava uma vida ruim, gastando solas sem proveito em viagens às repartições, achava injustiça a ascensão do outro. Injustiça, evidentemente. Um roubo.
A amargura e o veneno desapareciam. Apertava as mãos úmidas, tentava dominar a carne bamba, que pesava demais, queria despregar-se dos ossos. Se ao menos tivesse uma cadeira para se sentar, a atrapalhação ficaria reduzida. Recostar-se-ia, cruzaria as pernas, balançaria a cabeça aprovando, naturalmente. Pareceria um sujeito educado. Mas assim de pé não se aguentava: ora caía para um lado, ora caía para outro, escorava-se à mesa, não podia resistir ao desejo de subir nela. As nádegas encostavam-se à tábua, pouco a pouco iam ganhando terreno, firmavam-se, uma perna se levantava, balançava.
O político influente passeava sem se fatigar. Dava três passos, parava, voltava-se, dava três passos novamente, tornava a parar, e assim por diante. Máquina bem construída, nenhuma peça prejudicava a função das outras. E falava. Quando se detinha, a mão curta e gorda movia-se traçando vagamente no ar a figura de um vaso, um vaso bojudo que encerrava o discurso.
Que dizia o deputado? Não podia compreender, mas deviam ser coisas graves e corretas, diferentes daquela prosa escrita, gorda e mole. Encolheu-se cheio de respeito, vencido pelo som e pelo gesto conveniente.
Em casa, de pijama e chinelos, em frente do livro ou do jornal, ser-lhe-ia fácil discutir e indignar-se, catar minudências, concluir que estava sendo roubado. Soltaria o papel, acenderia o cigarro, deitar-se-ia na cama. Depois retomaria com rancor o livro ou o jornal, torceria o nariz a um defeito qualquer, e o defeito se alastraria na página inteira como nódoa. Diria injúrias mentalmente ao deputado, comparar-se-ia a ele, queixar-se-ia da sorte.
Agora estava distraído e incapaz de julgar. As palavras do orador perdiam-se, confusas. O que havia era o gesto, o gesto que desenhava no ar figuras bojudas. Teve a impressão extravagante de que a sala se enchia de panelas. Isto lhe causava sério transtorno, porque, andando com firmeza no soalho bem envernizado, o político havia crescido muito. Sumira-se o escritor medíocre. Um sujeito respeitável movia-se com aprumo e dignidade. Os olhos duros e cinzentos contrastavam com a voz suave; a queixada larga avançava, agressiva, armada de fortes dentes amarelos; os cantos da boca pregueavam-se ligeiramente; o rosto vermelho tomava a aparência de uma cara de gato.
Sentiu medo. Quis afastar-se — e percebeu que estava sentado na mesa, diante do orador governista, que se conservava de pé. Escorregou para o chão, envergonhado.
Recordou-se da situação difícil em que se tinha achado muitos anos antes, ao descer de um bonde. Correra perigo imenso, e ainda se arrepiava ao passar por aquela amaldiçoada esquina. Desenroscara-se do banco, pisara no estribo, saltara no asfalto, dera dois passos para a calçada de uma drogaria, onde caixões e um poste pintado de branco fechavam o caminho. Um buzinar de automóvel, à direita, esfriara-lhe o sangue. À esquerda uma carroça de leiteiro ia passar em frente ao bonde parado. Os três veículos combinavam-se perfeitamente: o bonde continuaria a viagem depois da passagem da carroça; o automóvel, sem diminuir a marcha, formaria com a parte traseira dela um ângulo reto. Fora meter-se ali, no espaço minguado. Mexia-se desordenadamente e não conseguia orientar-se. Num segundo revolvera na cabeça muitas coisas desencontradas: cenas da infância, a escola, o professor ranzinza, empregos ordinários, dias de fome, o pigarro antipático da mulher da pensão. A morte buzinava, empurrava-o para todos os lados, fazia-o dançar no asfalto como uma barata doida. Se retrocedesse, não alcançaria o estribo do carro. Com um salto poderia chegar à calçada, mas os caixões cresciam, oscilavam, ameaçavam cair, esmagá-lo antes que o automóvel o tocasse. O poste oscilava, as casas em redor oscilavam, os andares altos da drogaria queriam desabar e obstruir a rua. Apenas o bonde se imobilizara. A carroça de leiteiro movia-se no mesmo lugar, o automóvel rodava uma eternidade sem adiantar-se. Fugira-lhe a consciência. Ia tropeçar, tombar, esquecer as casas, os veículos e as pessoas. Acordara abraçado ao poste, achatando-se como uma lagartixa, forcejando por livrar-se de um objeto áspero que lhe roçava as costas. Pisara a calçada, apoiara-se a um caixão, desmaiado e quase idiota.
A angústia que experimentara naquele dia voltava-lhe agora, ao descer desajeitadamente da mesa. Avançou atordoado no soalho, ouviu passos à direita, temeu recuar, pareceu-lhe que o político ia transformá-lo numa pasta vermelha. Não ousou virar-se para a esquerda, onde qualquer coisa devia fechar-lhe o caminho. Ficou ali de pé, sentindo vagamente que, se conseguisse andar dois metros, evitaria um desastre.
Deu algumas pernadas e encostou-se à parede, respirando a custo. Bem. Estava em segurança. Afirmou que estava em segurança, e a ideia do perigo sumiu-se completamente. A presença do orador governista já não lhe inspirava temor: o que lhe causava era admiração, respeito supersticioso. O olho duro e cinzento continuava a fixar-se nele como um olho de cobra.
— Em segurança.
Apesar de se ter dissipado o pavor que o agarrara ao afastar-se da mesa, não se resolveria a abandonar o refúgio conquistado junto à parede, ao pé da janela.
Quis ver a rua novamente. Se voltasse o rosto, avistaria a chaminé da fábrica, o arranha-céu que tinha uma redação no quinto andar. O elevador subia e descia, repórteres apressados entravam e saíam.
Não se voltou: uma grande preguiça amarrava-o, dava-lhe jeito de estátua.
— Estátua muito mal-arranjada, pensou.
E sorriu, descobrindo que não perdera o discernimento. Tentou aparentar desembaraço, falar. A voz rouca, metálica, fanhosa, escapou-lhe como um grunhido.
Aquela voz horrível sempre lhe causara prejuízos. Conhecendo as desvantagens que ela produzia, calava-se diante de pessoas estranhas, manifestava-se por meio de caretas.
Não sabia precisamente o que dizia naquele instante. Repetiu as últimas palavras do deputado e logo se conteve. O som desagradável trouxe-lhe a ideia de serras chiando em madeira dura. Talvez a repetição fosse inconveniente ou viesse retardada, fora de propósito. Fazia com efeito um minuto que o orador andava em silencio, certamente esperando que ele se despedisse. A mão deixara de agitar-se acariciando a frase redonda, as figuras bojudas como panelas tinham desaparecido.
Bem. Achou que a personagem diminuíra um pouco, tomara proporções quase vulgares. A pupila dura espetava-o, mas o discurso findara — e evidentemente existia redução.
Precisava sair dali, percorrer as avenidas, entrar nos cafés, abalroar os transeuntes, escutar pedaços de conversas, desviar- se dos carros, ver miudinhos os tipos imponentes e dominadores. Aquela entrevista, que lhe havia colado no espírito algumas esperanças, acabava mal. Nem o pedido, laboriosamente preparado, conseguira formular. As esperanças pouco a pouco se desgrudavam — e ele esmorecia, como uma grande ave depenada.
Um arrepio atravessou-lhe a coxa, subiu o tronco e foi morrer nos músculos do pescoço, entortando-lhe o rosto e livrando-o dos olhos maus do orador governista. Examinou com atenção distante a moldura dourada que cercava os coqueiros verdes e o céu azul. Novo arrepio. Uma grande ave depenada e friorenta.
Lembrou-se de outra moldura que lhe havia caído, anos atrás, em cima da cabeça. Escrevia com dificuldade, folheando o dicionário; o quadro pesado se despregara e lhe partira o couro cabeludo.
Desviou-se precipitadamente, levantou o braço para se defender. O político influente interpretou mal o gesto e estendeu-lhe a mão:
— Adeus.
— Muito obrigado, doutor, respondeu sem refletir.
O resto se perdeu num murmúrio. Deu uns passos vacilantes na madeira envernizada e escorregadia, retirou-se tonto, sentindo na cabeça a pancada que lhe tinha rachado o couro cabeludo, anos atrás.
Ao cerrar a porta, respirou com alívio. Meteu-se num corredor escuro, dobrou esquinas, parou, apertou um botão, acendeu um cigarro, pensou nos telegramas estrangeiros lidos pela manhã. Penetrando no elevador, mastigava o cigarro, nervoso. À medida que descia tranquilizava-se. E ao pisar na calçada, criticava livros, mentalmente. A literatura do político era com efeito ridícula.
Remoeu as coisas desparafusadas que ele escrevera. Malucas, absolutamente malucas. Roeu as unhas com fúria e multiplicou o deputado:
— Cretinos.
— Homem das cavernas, monologou. Criatura paleolítica. Homem das cavernas, sem dúvida.
Mas, em vez de dizer qualquer coisa que melhorasse a sua triste situação, pensou nos trogloditas e, como se achava perturbado, confundiu-os com a multidão que fervilhava lá embaixo, na rua. Avizinhou-se da janela. As pessoas que rolavam nos automóveis apareceram-lhe armadas e ferozes, cobertas de peles cabeludas. Olhou com desgosto a mão que tinha apertado a mão do político influente. Comprida, fina, inútil.
A chaminé da fábrica elevava-se a distância. Anúncios verdes, vermelhos, acendiam-se e apagavam-se. O letreiro de um jornal reluzia em frente, num quinto andar. Àquela hora o elevador enchia-se, tipos suados, de roupas frouxas, entravam e saíam. Os ônibus e os bondes moviam-se devagar, como formigas, e a carga deles aumentava ou diminuía nos postes, uma parte esgueirava-se na sombra — linhas insignificantes dentro da noite.
— Criatura paleolítica. Mãos compridas, finas, inúteis.
Esta incoerência irritou-o. Desejou afastar-se, atravessar a porta, entrar no corredor, virar à esquerda, tocar um botão, descer, ziguezaguear à toa pela cidade, traço insignificante.
Chegou-se à mesa. Ouvia desatento a voz sonora do político, sentia nela estranho poder, achava natural que na câmara as galerias se excitassem e batessem palmas escutando-a. Notava apenas que ela o jogava para direções contrárias: a porta meio cerrada e a parede onde se penduravam os coqueiros verdes e o céu azul.
Pensou no jogo de bilhar. Massé? Era, devia ser massé. A bola avançava, mas recuava antes de alcançar a tabela ou outra bola. Jogo difícil. Massé? Tinha ouvido a palavra. Ouvido ou lido, não sabia direito. Bola de bilhar. Isto. Bola de bilhar não tem memória.
Em todo o caso o deputado governista era um bom jogador. Via-lhe a mão curta e gorda, bem tratada, muito branca, e lembrava-se dos artigos e dos livros que ela havia redigido. Imaginou-a mexendo-se no papel com segurança, compondo uma prosa gorda, curta e branca, prosa que lhe dava sempre a ideia de toicinho cru. Detestava aquilo, desprezava o autor, um pedante, homem de frases arrumadas com aparato. Lendo-o, sentia-se duplamente roubado. Em primeiro lugar perdia tempo. E como levava uma vida ruim, gastando solas sem proveito em viagens às repartições, achava injustiça a ascensão do outro. Injustiça, evidentemente. Um roubo.
A amargura e o veneno desapareciam. Apertava as mãos úmidas, tentava dominar a carne bamba, que pesava demais, queria despregar-se dos ossos. Se ao menos tivesse uma cadeira para se sentar, a atrapalhação ficaria reduzida. Recostar-se-ia, cruzaria as pernas, balançaria a cabeça aprovando, naturalmente. Pareceria um sujeito educado. Mas assim de pé não se aguentava: ora caía para um lado, ora caía para outro, escorava-se à mesa, não podia resistir ao desejo de subir nela. As nádegas encostavam-se à tábua, pouco a pouco iam ganhando terreno, firmavam-se, uma perna se levantava, balançava.
O político influente passeava sem se fatigar. Dava três passos, parava, voltava-se, dava três passos novamente, tornava a parar, e assim por diante. Máquina bem construída, nenhuma peça prejudicava a função das outras. E falava. Quando se detinha, a mão curta e gorda movia-se traçando vagamente no ar a figura de um vaso, um vaso bojudo que encerrava o discurso.
Que dizia o deputado? Não podia compreender, mas deviam ser coisas graves e corretas, diferentes daquela prosa escrita, gorda e mole. Encolheu-se cheio de respeito, vencido pelo som e pelo gesto conveniente.
Em casa, de pijama e chinelos, em frente do livro ou do jornal, ser-lhe-ia fácil discutir e indignar-se, catar minudências, concluir que estava sendo roubado. Soltaria o papel, acenderia o cigarro, deitar-se-ia na cama. Depois retomaria com rancor o livro ou o jornal, torceria o nariz a um defeito qualquer, e o defeito se alastraria na página inteira como nódoa. Diria injúrias mentalmente ao deputado, comparar-se-ia a ele, queixar-se-ia da sorte.
Agora estava distraído e incapaz de julgar. As palavras do orador perdiam-se, confusas. O que havia era o gesto, o gesto que desenhava no ar figuras bojudas. Teve a impressão extravagante de que a sala se enchia de panelas. Isto lhe causava sério transtorno, porque, andando com firmeza no soalho bem envernizado, o político havia crescido muito. Sumira-se o escritor medíocre. Um sujeito respeitável movia-se com aprumo e dignidade. Os olhos duros e cinzentos contrastavam com a voz suave; a queixada larga avançava, agressiva, armada de fortes dentes amarelos; os cantos da boca pregueavam-se ligeiramente; o rosto vermelho tomava a aparência de uma cara de gato.
Sentiu medo. Quis afastar-se — e percebeu que estava sentado na mesa, diante do orador governista, que se conservava de pé. Escorregou para o chão, envergonhado.
Recordou-se da situação difícil em que se tinha achado muitos anos antes, ao descer de um bonde. Correra perigo imenso, e ainda se arrepiava ao passar por aquela amaldiçoada esquina. Desenroscara-se do banco, pisara no estribo, saltara no asfalto, dera dois passos para a calçada de uma drogaria, onde caixões e um poste pintado de branco fechavam o caminho. Um buzinar de automóvel, à direita, esfriara-lhe o sangue. À esquerda uma carroça de leiteiro ia passar em frente ao bonde parado. Os três veículos combinavam-se perfeitamente: o bonde continuaria a viagem depois da passagem da carroça; o automóvel, sem diminuir a marcha, formaria com a parte traseira dela um ângulo reto. Fora meter-se ali, no espaço minguado. Mexia-se desordenadamente e não conseguia orientar-se. Num segundo revolvera na cabeça muitas coisas desencontradas: cenas da infância, a escola, o professor ranzinza, empregos ordinários, dias de fome, o pigarro antipático da mulher da pensão. A morte buzinava, empurrava-o para todos os lados, fazia-o dançar no asfalto como uma barata doida. Se retrocedesse, não alcançaria o estribo do carro. Com um salto poderia chegar à calçada, mas os caixões cresciam, oscilavam, ameaçavam cair, esmagá-lo antes que o automóvel o tocasse. O poste oscilava, as casas em redor oscilavam, os andares altos da drogaria queriam desabar e obstruir a rua. Apenas o bonde se imobilizara. A carroça de leiteiro movia-se no mesmo lugar, o automóvel rodava uma eternidade sem adiantar-se. Fugira-lhe a consciência. Ia tropeçar, tombar, esquecer as casas, os veículos e as pessoas. Acordara abraçado ao poste, achatando-se como uma lagartixa, forcejando por livrar-se de um objeto áspero que lhe roçava as costas. Pisara a calçada, apoiara-se a um caixão, desmaiado e quase idiota.
A angústia que experimentara naquele dia voltava-lhe agora, ao descer desajeitadamente da mesa. Avançou atordoado no soalho, ouviu passos à direita, temeu recuar, pareceu-lhe que o político ia transformá-lo numa pasta vermelha. Não ousou virar-se para a esquerda, onde qualquer coisa devia fechar-lhe o caminho. Ficou ali de pé, sentindo vagamente que, se conseguisse andar dois metros, evitaria um desastre.
Deu algumas pernadas e encostou-se à parede, respirando a custo. Bem. Estava em segurança. Afirmou que estava em segurança, e a ideia do perigo sumiu-se completamente. A presença do orador governista já não lhe inspirava temor: o que lhe causava era admiração, respeito supersticioso. O olho duro e cinzento continuava a fixar-se nele como um olho de cobra.
— Em segurança.
Apesar de se ter dissipado o pavor que o agarrara ao afastar-se da mesa, não se resolveria a abandonar o refúgio conquistado junto à parede, ao pé da janela.
Quis ver a rua novamente. Se voltasse o rosto, avistaria a chaminé da fábrica, o arranha-céu que tinha uma redação no quinto andar. O elevador subia e descia, repórteres apressados entravam e saíam.
Não se voltou: uma grande preguiça amarrava-o, dava-lhe jeito de estátua.
— Estátua muito mal-arranjada, pensou.
E sorriu, descobrindo que não perdera o discernimento. Tentou aparentar desembaraço, falar. A voz rouca, metálica, fanhosa, escapou-lhe como um grunhido.
Aquela voz horrível sempre lhe causara prejuízos. Conhecendo as desvantagens que ela produzia, calava-se diante de pessoas estranhas, manifestava-se por meio de caretas.
Não sabia precisamente o que dizia naquele instante. Repetiu as últimas palavras do deputado e logo se conteve. O som desagradável trouxe-lhe a ideia de serras chiando em madeira dura. Talvez a repetição fosse inconveniente ou viesse retardada, fora de propósito. Fazia com efeito um minuto que o orador andava em silencio, certamente esperando que ele se despedisse. A mão deixara de agitar-se acariciando a frase redonda, as figuras bojudas como panelas tinham desaparecido.
Bem. Achou que a personagem diminuíra um pouco, tomara proporções quase vulgares. A pupila dura espetava-o, mas o discurso findara — e evidentemente existia redução.
Precisava sair dali, percorrer as avenidas, entrar nos cafés, abalroar os transeuntes, escutar pedaços de conversas, desviar- se dos carros, ver miudinhos os tipos imponentes e dominadores. Aquela entrevista, que lhe havia colado no espírito algumas esperanças, acabava mal. Nem o pedido, laboriosamente preparado, conseguira formular. As esperanças pouco a pouco se desgrudavam — e ele esmorecia, como uma grande ave depenada.
Um arrepio atravessou-lhe a coxa, subiu o tronco e foi morrer nos músculos do pescoço, entortando-lhe o rosto e livrando-o dos olhos maus do orador governista. Examinou com atenção distante a moldura dourada que cercava os coqueiros verdes e o céu azul. Novo arrepio. Uma grande ave depenada e friorenta.
Lembrou-se de outra moldura que lhe havia caído, anos atrás, em cima da cabeça. Escrevia com dificuldade, folheando o dicionário; o quadro pesado se despregara e lhe partira o couro cabeludo.
Desviou-se precipitadamente, levantou o braço para se defender. O político influente interpretou mal o gesto e estendeu-lhe a mão:
— Adeus.
— Muito obrigado, doutor, respondeu sem refletir.
O resto se perdeu num murmúrio. Deu uns passos vacilantes na madeira envernizada e escorregadia, retirou-se tonto, sentindo na cabeça a pancada que lhe tinha rachado o couro cabeludo, anos atrás.
Ao cerrar a porta, respirou com alívio. Meteu-se num corredor escuro, dobrou esquinas, parou, apertou um botão, acendeu um cigarro, pensou nos telegramas estrangeiros lidos pela manhã. Penetrando no elevador, mastigava o cigarro, nervoso. À medida que descia tranquilizava-se. E ao pisar na calçada, criticava livros, mentalmente. A literatura do político era com efeito ridícula.
Remoeu as coisas desparafusadas que ele escrevera. Malucas, absolutamente malucas. Roeu as unhas com fúria e multiplicou o deputado:
— Cretinos.
Graciliano Ramos
Meninos
Sentado à soleira da porta
Menino triste
Que nunca leu Julio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna
Contempla o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim.
É triste a luta de classes.
Menino triste
Que nunca leu Julio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna
Contempla o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim.
É triste a luta de classes.
Murilo Mendes
Destoando
Era a típica paisagem universitária durante o intervalo do almoço. E, no entanto, ao observar aquela cena familiar, dei-me conta de uma coisa. Todas as pessoas, cada uma à sua maneira, pareciam felizes. Não saberia dizer se estavam realmente felizes da vida ou se não passava de uma encenação. Em todo o caso, naquele agradável início de tarde em finais de setembro, toda a gente parecia satisfeita, e isso fez com que me sentisse ainda mais solitário. Como se fosse eu o único a destoar na paisagem.
Haruki Murakami, "Norwegian Wood"
Pé ante pé
Nariz pontudo, olhar agudo, gesto de veludo. Isso dito, está descrito o Sapateiro Real. Não do Rei, que aquele reino não possuía nenhum. Mas da Rainha, donas do cetro e da coroa.
E tampouco apenas dela, pois transbordava para uma só pessoa o talento do Sapateiro. Também das damas de companhia e, por vezes, de raras cortesãs e raríssimos cortesãos escolhidos pelo real dedo.
Entre esses cortesãos, eis que um dia veio a incluir-se o Grande General, assim chamado menos pela estatura, que era até das mais comezinhas, do que pelas incontáveis vitórias nos campos de batalha. Querendo justamente recompensá-lo pela última delas, e não havendo no reino mais medalhas que lhe pudessem ser presas ao peito, nem mais espaço no peito em que pudessem prender medalhas, pareceu à Rainha que homenagem condigna seria ordenar que um belo par de botas fosse para ele confeccionado pelo Sapateiro Real.
Mal sabia que, embora profissional inigualável, este pouco ou nada entendia de botas. Seus dedos hábeis estavam mais afeitos a sapatinhos delicados, babuchas, coisinhas de veludo e de cetim enfeitadas com laços e empoleiradas nos biquinhos dos saltos. Mesmo os calçados masculinos em que tão raramente se via empenhado destinavam-se à corte, e eram quase tão graciosos quanto os das damas. Botas nunca haviam saído das suas mãos.
Assim mesmo, esmerou-se. Durante dias trabalhou o couro pesado, as grossas solas, os duros saltos. Tudo lhe era alheio. Franzia-se o cenho, feriam-se os dedos. Mas o martelinho batia, as agulhas subiam e desciam. E afinal, quando as botas ficaram prontas, sapecou-lhes um brilhante par de fivelas de prata, e abriu-se ele próprio num sorriso.
Ansioso para estreá-las e não tendo nenhuma oportunidade disponível, o General tratou de providenciar uma. À primeira provocação de um vizinho inimigo, declarou inevitável a batalha. E lá se foi, com as altas botas luzidias e o chapéu emplumado, à frente dos seus soldados. Verdejava o campo que logo estaria vermelho, o inimigo erguia os mosquetes de um lado, os oficiais, desembainhavam as espadas do outro. O General deu o sinal. Os trombeteiros tocaram o ataque. Lançaram-se os soldados para a frente.
Mas, ao invés de sentir-se levado contra o adversário por heróica coragem, o General sentiu que seus pés retrocediam, levando-o inapelavelmente na direção oposta. A tropa boquiaberta viu seu líder sair correndo, de costas. E, embora sem entender a inusitada manobra militar, seguiu seu exemplo. Caíam alguns por falta de habilidade, tropeçavam outros, enquanto a maioria recuava como um bando de escorpiões, abandonando o campo de batalha sob as gargalhadas do inimigo.
Sem fôlego, sem glória e sem chapéu de plumas, sentou-se enfim no chão o General. Descalçou as botas, e os pés moveram-se livres confirmando suas suspeitas. Eram elas as responsáveis, elas que, com suas fivelas de prata e seu brilho enganoso, haviam comandado seus passos rumo à degradação.
A cabeça do Sapateiro só não rolou porque dela gostavam os pés reais. E porque contrito penitenciou-se, confessando que por falta de hábito se havia enganado com as grossas solas, costurando-as – e com quanto esmero! – de trás para a frente. Isso nunca mais voltaria a acontecer, garantiu.
E a Rainha, para mostrar-lhe que o havia perdoado, e para amansar o General, ordenou que fizesse para este outro par de calçados. Não mais botas, porém, que o reino não podia correr tamanho risco. Seriam sapatos, semelhantes àqueles usados na corte.
Dessa vez, o Sapateiro não precisou franzir o cenho nem ferir os dedos. Sapatos cortesãos era tudo o que sabia fazer. E sabia fazê-los melhor que ninguém. Em breve estariam prontos.
E em breve o General os calçou. E com eles nos pés foi plantar-se com suas tropas naquele mesmo campo de batalha que havia presenciado sua desonra. Enfileirava-se, de um lado, o inimigo, erguendo os mosquetes. Desembainhavam-se, do outro, as espadas. O General levantou o braço, dando a ordem. Os trombeteiros sopraram em seus instrumentos. As primeiras notas do toque de ataque saltaram no ar. As tropas saltaram para a frente.
Mas ao som das notas, os sapatos, feitos para a corte e preparados para os bailes, começaram a dançar. Girava o General, alternando os pés em saltitos. A tropa estarrecida, porém treinada para a obediência, mais uma vez seguiu seus passos. Oficiais e soldados rodopiaram, sozinhos, e aos pares, bailarinos de armas na mão pisoteando com os pés ágeis o campo cheio de papoulas, enquanto ao longe, cada vez mais longe, ecoavam as risadas do adversário.
Dessa vez, nem a benevolência da Rainha foi o suficiente para impedir que o Sapateiro fosse trancado na mais alta torre do reino, à espera do cadafalso.
E agora ali estava ele, sentado na pedra fria, olhando lá no alto, bem no alto, a única janela da torre, e além dela o céu azul.
Durante a tarde inteira olhou, deixando gastar-se aquele azul que talvez fosse o seu último.
E o azul aos poucos gasto fez-se violeta. E o violeta cada vez mais escuro foi cortado por uma silhueta negra, depois outra, e outra. Morcegos lançavam-se na noite. Num assomo de ternura, o Sapateiro lembrou-se da sua oficina, dos sapatinhos todos pendurados no teto sobre a sua cabeça, lado a lado, par a par, montando guarda ao seu fazer, pendentes como morcegos no sono diurno.
Lá em cima entreviu outra sombra rasgante. Então descalçou os sapatos. Com muito cuidado atou-os pelos cordões. Depois, metendo a mão por dentro de um e o polegar por dentro do outro, segurou-os bem juntos, bem firmes, suspendendo-os acima do chão.
Como se despertassem ao seu toque, os sapatos estremeceram. Devagar começaram a mover-se, adejaram como duas asas negras. Duas asas que batendo a princípio lentas, depois cada vez mais rápidas, subiram erguendo o Sapateiro. E no escuro que já invadia a torre como água num poço, o levaram até a janela cruzando com ele o céu violeta.
E tampouco apenas dela, pois transbordava para uma só pessoa o talento do Sapateiro. Também das damas de companhia e, por vezes, de raras cortesãs e raríssimos cortesãos escolhidos pelo real dedo.
Entre esses cortesãos, eis que um dia veio a incluir-se o Grande General, assim chamado menos pela estatura, que era até das mais comezinhas, do que pelas incontáveis vitórias nos campos de batalha. Querendo justamente recompensá-lo pela última delas, e não havendo no reino mais medalhas que lhe pudessem ser presas ao peito, nem mais espaço no peito em que pudessem prender medalhas, pareceu à Rainha que homenagem condigna seria ordenar que um belo par de botas fosse para ele confeccionado pelo Sapateiro Real.
Mal sabia que, embora profissional inigualável, este pouco ou nada entendia de botas. Seus dedos hábeis estavam mais afeitos a sapatinhos delicados, babuchas, coisinhas de veludo e de cetim enfeitadas com laços e empoleiradas nos biquinhos dos saltos. Mesmo os calçados masculinos em que tão raramente se via empenhado destinavam-se à corte, e eram quase tão graciosos quanto os das damas. Botas nunca haviam saído das suas mãos.
Assim mesmo, esmerou-se. Durante dias trabalhou o couro pesado, as grossas solas, os duros saltos. Tudo lhe era alheio. Franzia-se o cenho, feriam-se os dedos. Mas o martelinho batia, as agulhas subiam e desciam. E afinal, quando as botas ficaram prontas, sapecou-lhes um brilhante par de fivelas de prata, e abriu-se ele próprio num sorriso.
Ansioso para estreá-las e não tendo nenhuma oportunidade disponível, o General tratou de providenciar uma. À primeira provocação de um vizinho inimigo, declarou inevitável a batalha. E lá se foi, com as altas botas luzidias e o chapéu emplumado, à frente dos seus soldados. Verdejava o campo que logo estaria vermelho, o inimigo erguia os mosquetes de um lado, os oficiais, desembainhavam as espadas do outro. O General deu o sinal. Os trombeteiros tocaram o ataque. Lançaram-se os soldados para a frente.
Mas, ao invés de sentir-se levado contra o adversário por heróica coragem, o General sentiu que seus pés retrocediam, levando-o inapelavelmente na direção oposta. A tropa boquiaberta viu seu líder sair correndo, de costas. E, embora sem entender a inusitada manobra militar, seguiu seu exemplo. Caíam alguns por falta de habilidade, tropeçavam outros, enquanto a maioria recuava como um bando de escorpiões, abandonando o campo de batalha sob as gargalhadas do inimigo.
Sem fôlego, sem glória e sem chapéu de plumas, sentou-se enfim no chão o General. Descalçou as botas, e os pés moveram-se livres confirmando suas suspeitas. Eram elas as responsáveis, elas que, com suas fivelas de prata e seu brilho enganoso, haviam comandado seus passos rumo à degradação.
A cabeça do Sapateiro só não rolou porque dela gostavam os pés reais. E porque contrito penitenciou-se, confessando que por falta de hábito se havia enganado com as grossas solas, costurando-as – e com quanto esmero! – de trás para a frente. Isso nunca mais voltaria a acontecer, garantiu.
E a Rainha, para mostrar-lhe que o havia perdoado, e para amansar o General, ordenou que fizesse para este outro par de calçados. Não mais botas, porém, que o reino não podia correr tamanho risco. Seriam sapatos, semelhantes àqueles usados na corte.
Dessa vez, o Sapateiro não precisou franzir o cenho nem ferir os dedos. Sapatos cortesãos era tudo o que sabia fazer. E sabia fazê-los melhor que ninguém. Em breve estariam prontos.
E em breve o General os calçou. E com eles nos pés foi plantar-se com suas tropas naquele mesmo campo de batalha que havia presenciado sua desonra. Enfileirava-se, de um lado, o inimigo, erguendo os mosquetes. Desembainhavam-se, do outro, as espadas. O General levantou o braço, dando a ordem. Os trombeteiros sopraram em seus instrumentos. As primeiras notas do toque de ataque saltaram no ar. As tropas saltaram para a frente.
Mas ao som das notas, os sapatos, feitos para a corte e preparados para os bailes, começaram a dançar. Girava o General, alternando os pés em saltitos. A tropa estarrecida, porém treinada para a obediência, mais uma vez seguiu seus passos. Oficiais e soldados rodopiaram, sozinhos, e aos pares, bailarinos de armas na mão pisoteando com os pés ágeis o campo cheio de papoulas, enquanto ao longe, cada vez mais longe, ecoavam as risadas do adversário.
Dessa vez, nem a benevolência da Rainha foi o suficiente para impedir que o Sapateiro fosse trancado na mais alta torre do reino, à espera do cadafalso.
E agora ali estava ele, sentado na pedra fria, olhando lá no alto, bem no alto, a única janela da torre, e além dela o céu azul.
Durante a tarde inteira olhou, deixando gastar-se aquele azul que talvez fosse o seu último.
E o azul aos poucos gasto fez-se violeta. E o violeta cada vez mais escuro foi cortado por uma silhueta negra, depois outra, e outra. Morcegos lançavam-se na noite. Num assomo de ternura, o Sapateiro lembrou-se da sua oficina, dos sapatinhos todos pendurados no teto sobre a sua cabeça, lado a lado, par a par, montando guarda ao seu fazer, pendentes como morcegos no sono diurno.
Lá em cima entreviu outra sombra rasgante. Então descalçou os sapatos. Com muito cuidado atou-os pelos cordões. Depois, metendo a mão por dentro de um e o polegar por dentro do outro, segurou-os bem juntos, bem firmes, suspendendo-os acima do chão.
Como se despertassem ao seu toque, os sapatos estremeceram. Devagar começaram a mover-se, adejaram como duas asas negras. Duas asas que batendo a princípio lentas, depois cada vez mais rápidas, subiram erguendo o Sapateiro. E no escuro que já invadia a torre como água num poço, o levaram até a janela cruzando com ele o céu violeta.
Marina Colasanti
A ladainha da dor
(Ao Sr. A. A. Teixeira de Vasconcelos)
O músico Berlioz, ao voltar das bandas moles da Itália e das ilhas da Grécia de lívidos escarpamentos, sem serenidades idílicas e sem mitos — recebeu nas ruínas das Sorveiras, junto de Nizza, onde trabalhava na sua sinfonia de Harold, toda cheia de mar, esta carta vinda de França:
"O pintor Lyser voltou da Boémia com a sua doidice elegíaca. Pedi- lhe o retrato de Paganini como tu querias, mas ele disse-me, em segredo, que fora o diabo que lhe guiara a mão naqueles traços, e queria conservar essa lembrança do diabo, um velho amigo. Tem esse cartão numa pasta, entre um desenho do velho Cláudio Loreno e um retrato de Dante.
Ontem, ao cair da tarde, estávamos ambos sentados junto da janela. O ar entrava todo emaranhado nos cordões verdes das trepadeiras; nós estávamos calados e abandonados à doçura divina das coisas.
O pobre Lyser, com os seus grandes cabelos caídos, tomou o retrato de Paganini e desenhou, em volta, toda a sorte de entrelaçamentos de folhagens, de penumbras delicadas, de dissipações de nuvens: e, entre aquelas eflorescências, escreveu os nomes de Dante, de Hamlet, de Romeu e de Sancho Pança, dizendo com a sua voz dolente: "Paganini tinha alguma coisa de todos estes homens". Depois, no cimo do cartão, desenhou a figura. de Ofélia levada pela corrente, e um morcego, com as asas dobradas, e olhando tristemente, de entre as canas debruçadas sobre o rio, o corpo branco sumir-se, levado serenamente como no seu elemento, e os grandes cabelos louros emaranhados nos musgos da água: e por baixo escreveu: "Duvida Ofélia do meu amor, da verdade luminosa das estrelas, dos coloridos das folhas, da luz branca e séria do sol". E depois, com a voz séria: "Paganini sobretudo era um morcego..."
É assim aquele pobre Lyser com a sua triste loucura. Sabes que lhe morreu a irmã? No dia do enterro, Lyser acompanhou o corpo com a sua rabeca debaixo do braço e fustigando com o arco as ervas molhadas. O dia estava nublado. " Minha pobre irmã ,disse ele, que nem pode levar presa no seu lindo vestido uma réstia de sol!" Sabes a religião que Lyser tem pelo Sol. Passa dias inteiros deitado entre as frescuras dos caminhos, sob a grande luz sonora do sol. Nessa noite em que a irmã foi enterrada, foi sentar-se junto da cova tocando as velhas árias de Lully, e, de vez em quando, compunha as dobras de um xale que tinha lançado sobre a sepultura. Assim esteve perdido numa saudade mais doce que a lua, e mais profunda que a noite. Como o céu estava nublado, ele dizia, de vez em quando, à morta:" Não tenhas pena, cá fora nem estrelas há ".
Foram-no buscar de madrugada, e ele vinha lento, dependurando-se do fato do coveiro como uma criança, para ouvir os uivos dos cães e o chiar dos carros.
Dias depois, voltou ao cemitério e o coveiro não o deixou entrar; o pobre Lyser ficou junto das grades com os olhos cheios de lágrimas. "É uma coisa de pressa que tenho a dizer a minha irmã", afirmava ele com a voz passada de suplicações. O coveiro estava dentro falando com uma mulher de cabelos cor de vinho; e como a quisesse prender num abraço bárbaro e rijo, a rapariga, ao fugir-lhe, caiu sobre uma sepultura toda coberta de violetas; o coveiro ergueu-a, sacudiu-lhe a terra dos vestidos, e deu com o pé rude na terra da sepultura resmungando: "Malditos tropeços!"
Por fim, veio abrir a grade enferrujado ao pobre Lyser e com uma grande voz:
"Vá, que já são horas de entrar sem licença." Lyser sumiu-se entre os ciprestes, debruçou-se sobre a cova e escreveu na brancura da pedra: "Luísa, se lá em cima encontrares a estrela Vésper, pergunta-lhe de que tintas se faz o cor-de-rosa da tarde e os seus reflexos de roxo-pálido; preciso sabê-lo. Ontem dei o teu xale branco a uma pobre: diz-me se queres que te traga alguns dos teus vestidos. Olha, se passares de noite por estas alamedas, não te aproximes da casa do coveiro, vive lá uma má mulher."
Dias depois chamou-me e disse-me. " Sabe? começo a acreditar que minha irmã morreu. Por isso, peço-lhe uma coisa: quando tiver alguma camélia não a esmague, talvez seja feita do seio, da pobre rapariga." E afastou-se, arrastando os seus sapatos como se estivessem pesados de água: mas de repente voltando-se e com a voz cheia de suplicações, acrescentou: "Nem as violetas; talvez sejam feitas dos olhos dela!" Então, tomou-me pela manga e levou-me para entre árvores onde havia o sol, o coro das colmeias, os cheiros de feno e os coloridos frescos dos frutos: ele ia com a face toda tomada pela cor quente e fecunda da vida.
" Não sabe? dizia-me o pobre Lyser com a sua voz lenta e doce como um escorrer de mel; não sabe? Muita rapariga, que dizia as cantigas das eiras e dançava debaixo dos plátanos, morre nos frios de Fevereiro. Há de ter visto, por esse tempo, os pobres namorados que andam chorando sobre as covas, com os cabelos caídos. Então aqueles corpos das raparigas desfazem-se. Alguém, que sabe e que vê, aproveita aquelas formas e aqueles coloridos; da pele do seio, fazem-se pétalas de camélia, dos olhos tristes fazem-se violetas, da cor dos lábios fazem-se os rainúnculos, dos hálitos perdidos fazem-se os cheiros bons, e do olhar, da meiguice, do desejo delas faz-se a Primavera, o doce ar das madrugadas de Maio. De modo que de noite as flores que estão nos vasos, na sombra das alcovas, conversam das suas existências passadas; falam das danças ruidosas à guitarra; daquela manhã em que a ponta do seio veio espreitar, pela abertura do vestido, os olhos do namorado; daquela tarde em que a face se vestiu de cor-de-rosa para receber a visita de um bigode louro; daquela noite em que as pálpebras castas acudiram aos olhos, que estavam perdidos e quase a dizer sim. E se uma noite espreitar as flores que estão nos castos paraísos das alcovas, há de vê-las sair dos vasos, entrelaçarem as formas e os coloridos e fazerem na sombra a vaga semelhança de um corpo feminino."
É assim o pintor Lyser. Fez-se noite naquela alma, e, por isso, ela tem todas as qualidades da noite: o sombrio, o vago, o negro, o azul, o lânguido, o estrelado.
Agora deseja morrer e ser enterrado numa paisagem casta, assoalhada, murmurosa, para se julgar protegido e coberto pela alma errante do seu amigo Gáudio Loreno.
Quando a luz do sol se retira, prende-se, como um manto de seda que se arrasta entre ervas secas e ramagens, ao dorso de uma onda, ao cimo ruidoso de uma árvore, à proa de uma barca de pesca; assim aquele espírito ao retirar-se daquele corpo, se prende ainda a tudo o que na vida é superior, e elevado, e meigo - ao amor, à melancolia, à compaixão, à arte.
Quando cheguei do Báltico soube que Paganini se retirara de França: tive a respeito dele grandes conversações com o rabequista Sica, que pensa em fazer para o Verão unia peregrinação pela Síria.
Estávamos horas debaixo das tílias, falando do quimérico espírito de Paganini, até que as estrelas apareciam, contemplativas e augustas. Sica contou-me toda a legenda idílica e bárbara de Paganini: os seus amores em Verona, aquela cantora enfezada, de mãos macias e sentimentos velados, envolta em grandes sedas, e aquele abade de fivelas luzentes, com quem ela ia debaixo dos veludos silenciosos, num entrelaçamento de braços, em doce e azulada viagem pelo país de Citera. Depois contou-me toda a sua trabalhosa odisseia, de prisões e de degredos: aquelas noites em que ele, poderoso e solitário, entrava na confidência dos negros soluços do mar: noites dolorosas de lágrimas, em que aquele trágico homem, enroscado nas palhas do seu cárcere, olhava ao longe o mar Mediterrâneo, amolecido por aquela moleza que escorre dos astros, e da voluptuosidade da noite desconhecida e fecunda.
Dizia-me Sica que Paganini lhe contava que, sempre às horas escuras, via as fivelas do abade luzirem na noite. " Às vezes o remorso é bondoso, afirmava ele, encarna-se em coisas que têm uma vida, uma carnação, um sangue, uma moleza, que se podem abrandar, a quem se pode suplicar; mas aquelas fivelas metálicas, inertes, rígidas, eram um remorso frio, surdo, inflexível, faziam-me subir ao rosto o suor do antigo Josafá."
Dizia também Paganini, que uma das suas grandes torturas, no cárcere, fora assistir pela visão, à decomposição fria do corpo da pobre cantora Marietta. Ele via aquele corpo sem óleos, nem sacramentos, debaixo das terras limosas e túmidas de seiva, esverdear-se entre as ossadas. Via de noite, perto de si, aquela terrível decomposição das carnes, aquelas brancuras inertes, aquelas moles curvas sugadas pela terra. Via, aterrado, os cardos, as papoulas, as gramíneas, os ciprestes serenos comerem a sua bem-amada fria, muda, esverdeada e inchada!
Então, ali, tomou o ódio da Natureza: ele atravessava sempre as frescas fecundidades, as searas, todas as verdes formas da vida, os campos e as granjas, com um horror judaico e místico. Só perdoava ao mar: e às vezes, depois, na Dinamarca, ia para junto das águas do mar do Norte, tocar na rabeca as velhas cantigas escandinavas e as baladas rúnicas; e desejava que, depois de morto, o seu corpo pudesse nadar, durante a eternidade, nos verdes embalos da água.
Foram terríveis todos aqueles anos de prisão.
O rabequista Sica contou-me depois todas as viagens de Paganini; com os estudantes da nova Alemanha, indo pelos burgos, pelos povoados, pelas cabanas de lareiras sonolentas, cantando às estrelas e dizendo, na sua rabeca, sob a lucidez do céu do Norte, as velhas baladas da Turíngia.
Contou-me o amor da duquesa de Weimar por Paganini; e como uma noite de concerto, em duas cordas da rabeca, ele disse o diálogo misterioso de duas vozes que se falavam debaixo do arvoredo, depois entre as sedas de cortinas, ao fresco ar dum balcão, e depois ainda na terra, debaixo das raízes dos ciprestes, e, por fim, indefinidas, tênues, luminosas, entre o encruzamento sagrado dos raios dos astros.
Era uma alusão desconhecida, que encheu de lágrimas a duquesa de Weimar.
Aquele homem, ultimamente, tinha o peito cheio de mortos. Dele retirara-se o elemento humano: já não tinha a compaixão, o riso, o amor, a indignação, a paternidade, a emoção.
Lento, com os seus cabelos caídos, lívido, com as terríveis rugas da face semelhantes aos ff duma rabeca, com as mãos transparentes, cheias de agilidade e de deslocações com os seus grandes casacos escuros de pregas hieráticas, atravessava os povoados, os silêncios, as cenas resplandecentes, poderoso e solitário, procurando, sempre, aos pés, uma cova onde não se esfolhassem árvores, onde não nascessem ervas, sem saber que na noite, na humidade, nas choças, nas pedreiras, nas estradas, nas costas, há uma raça que sofre, e que há beiços lívidos da fome, e que há febres silenciosas, e amores desertos, e suores de angústia, e apodrecimentos de honras, e uivos de almas aflitas, e lentos e frios esvaecimentos de pudores e de belezas.
Sica contou-me também o grande poder musical de Paganini e a sua atitude nos concertos, cheia de abaixamentos e servilidades; e contou-me também, meu amigo, aquela noite gloriosa e flamejante em que se tocava a tua sinfonia de Romeu e Julieta, e em que ele veio, entre os aplausos e as vozes de coroação, ajoelhar e beijar-te as mãos, dizendo com os olhos cheios de água :— Sois outro Beethoven!
Ultimamente, como sabes, tinha uma doença de garganta que o emudeceu; trazia então um livro branco em que escrevia o que pensava nas conversações da noite; aquela doença não o vergou mais; ele tinha já o silêncio - estoicismo da alma, e refugiou-se na mudez - estoicismo do corpo.
Passava então com o rabequista Sica horas inteiras tocando rabeca ou guitarra.
Ultimamente preocupava-o muito o ter de deixar a sua rabeca só, depois de morrer; e escrevia no seu livro: " Quando eu estiver para morrer, pensar que a hei de deixar aqui, entre estas mulheres de aço, estes jornalistas lívidos e os agiotas calvos, no meio desta multidão esfomeada de materialidades! que se há de encher de pó a um canto, ela, cheia de alma e de legenda!"
No entanto, ele acreditava que, no dia em que morresse, a sua rabeca havia de estalar e os pedaços, apodrecidos na terra ir-se-iam confundir com o corpo dele nos átomos das árvores, ou das estrelas, ou das águas. E escrevia então: "Que felicidade poder ter a mesma folhagem, dar a mesma luz, lançar a mesma espuma!"
Mas, por fim, olhava para a rabeca com um ar triste e descrente; às vezes tomava a guitarra e ia tocar nela para junto da rabeca, com um gesto de carícias brandas, com um lento correr de dedos, como se estivesse vestindo as cordas com a harmonia viva que tirava da alma; ele queria pôr todos os seus interiores divinos naquele gemer de guitarra, para fazer morrer de ciúmes a sua velha rabeca abandonada.
Por esse tempo, um dia que ele estava com Sica, escreveu assim: "Já me não fio na minha rabeca; acredito que ela não há de lamentar a minha morte. Não morre, não! Há de dar-se ao primeiro que a tomar nos braços; há de dar-se com sufocações lascivas, e dizer-lhe os mesmos segredos místicos, voluptuosos e iluminados que me dizia a mim... Que importa à rabeca que o pobre músico apodreça debaixo da terra?! "
Ultimamente o músico Sica necessitou d ir à costa normanda, porque tinha lá seu pai, velho marinheiro, morrendo junto das águas; e quando voltou coberto de lutos e soluços, disseram-lhe que Paganini tinha partido para o Sul.
" Adeus, não te demores em Nizza, acaba depressa a tua sinfonia do Harold e recomenda-me ao nosso velho amigo — o Mar."
Tempo depois, o homem que tinha mandado esta carta, recebeu estoutra de Berlioz:
"Estou ainda todo frio das visões desta noite.
Sabes que moro nas Sorveiras, que são umas ruínas junto do mar, pedras bem conhecidas por toda a populaça do ar: abrigam-se ali, como numa pousada, os viajantes sombrios da atmosfera, que são as chuvas esguedelhadas, os ventos uivadores, os granizos , as moles brumas e os nevoeiros. Em redor estão espalhados os casebres dos pescadores todos conchegados, como as ovelhas, quando anda temporal no monte; a costa é terrível e, no entanto, o mar tem , às vezes, serenidades só semelhantes ao calmo olhar dum idiota.
Este povo trigueiro de pescadores sai, logo de madrugada ,para os balouços da água nas suas lanchas esguias, carunchosas, todas cheias de legenda e do cheiro das pescas: logo na alvorada se sente em baixo, junto da voz da maresia, aquelas cantigas fortes de deitar redes, robustas como calabres, e sãs como o sol. É uma bela vida!
Durante o Verão, nas sestas silenciosas do mar, todos andam na pesca, os velhos, as crianças rotas, resplandecentes e sujas, e as mães de forte seio - essas belas mulheres da costa da Itália ,que eram tão desejadas pelos marinheiros gregos e fenícios, que tinham visto Mileto e Abido e Corinto.
Agora que o Outono começa, esta pobre gente deixa as redes rasgarem-se ao vento, e vai para o interior dos povoados juntar-se nos campos à pobre gente curvada, que lavra e que semeia.
Ontem fui, numa barca de pescador, até ao ponto em que o Var desagua. Sabes que é neste tempo que as pombas emigram para o Sul; reúnem-se em bandos gemedores e vão, por cima do Mediterrâneo, fazendo nódoas brancas pelo ar azulado. Quando voltei, o Sol descia: o barco vinha levado de um modo silencioso e casto pelos serenos embalos ondulosos. O mar tinha uma serenidade olímpica.
Eu havia-me abandonado às molezas da tarde, e, todo estirado à popa, via o céu cobrir-se de uma cor rosada, como dum rubor de castidade. As estrelas começavam a aparecer. Donde vinham elas? E donde é que vem a noite de tão longe que vem suada de luz? Eu via- as tremer e pensava que elas deviam ter frio e medo, lá em cima, nas solidões, sem deuses. Àquelas horas também aparecem as ondinas na água; quem sabe se as estrelas são mulheres de um elemento desconhecido, que vêm de noite em teorias sagradas, celebrando um rito elegíaco? Quem sabe se são árvores agitadas por um vento, que deixam cair estes negros frutos - a melancolia, o amor, a sensualidade?
Depois ri-me destas imaginações; mas nas águas do Mediterrâneo, ao anoitecer, num barco de pesca, vendo ao longe as linhas moles da costa de Itália, e sobre os montes os fogos dos pastores, não podia ver as estrelas como nas verdades e nos positivismos modernos, e esqueci Arago, Berthelot e o velho Laplace.
E depois pensava como desejava morrer, que era nos braços da bem- amada, sol da minha natureza, sem dores mordentes, sem febres silenciosas, e ir assim entre as fulgurações do desejo e os deslumbramentos da alma, e os beijos vermelhos e transfiguradores, e os entrelaçamentos divinos, sob o seu olhar santo, ir, num lento desmaio da carne, para a frialdade da terra e ali sentir-me ,lentamente, dissolver pelas humidades fecundas, pelas seivas brancas, pelas espumas das nascentes, pelas raízes das florescências!
Ora, quando assim vínhamos, vi, na linha escura e áspera da costa, uma massa de arvoredos e, por entre a sombra, uma luz elegíaca.
– Que luz é aquela, meu velho? — disse eu da popa.
O pescador suspendeu as rijas ondulações dos remos, que ficaram direitos, escorrendo, todos esverdeados dos musgos da água.
– Aquela luz, senhor, é da casa das Serenas. A estas horas está ali, abandonado, um pobre homem que morreu lá ontem. Tinha chegado aqui há pouco, e era mais amarelo que a cera do altar; até na costa diziam os velhos que ele se vendera ao Diabo! Deus me perdoe por falar assim nisto, de noite, em cima das águas. Ah! senhor, diziam que tocava na sua rabeca maldita que nem o Céu… Chamavam-lhe Paganini.
E o pescador meteu os remos na água, cantando com um embalo da voz:
Altra volta gieri bele,
Blanch’e rossa com’un fiore
Ma ora nó. Non san piu biele
Consumatc dal’amore.
E depois, voltando-se e com a voz ensurdecida pelo clamor das marés, continuou:
– E os padres agora não lhe querem cantar as suas ladainhas e enterrá-lo em terra santa. Se fosse meu parente e tal sucedesse, ia para o fundo do mar. Debaixo da água anda muito corpo de patrões e pilotos: eles não morreram, não; andam ainda vivos; e, quando um pobre homem que tem mulher e filhos deita as suas redes, em dia de vento, quando o peixe anda arredio, eles costumam afugentar a pescaria, com ramos de coral para as bandas da rede!… O pescador falava assim, lentamente, com a voz pesada da religião das legendas.
Eu levava os olhos rasos de água e pensava que nunca tinha ouvido tocar o triste Paganini: sempre que ele deu os seus concertos, eu estava longe da França.
Entrei nas Sorveiras com o peito cheio de friezas e de mortalidades. Quis trabalhar, mas sentia-me dissolvido na pesada materialidade das coisas.
Tomaram-me uns moles cansaços e fiquei sem pensamento, sem desejos, inerte e silencioso como um pombal donde fugiram todas as pombas. Sentia apenas o miar dos gatos lascivos e o uivar dos cães que andam de noite na praia, esfomeados. O mar estava pesado de gemidos, sob a noite lenta e mística.
Ora , quando assim estava, ouvi, distante, como vindo dos lugares hieráticos das nuvens e das vias-lácteas, o gemido de uma rabeca. — Quem é que, àquelas horas, numa costa áspera de ventos imensos, quando os pescadores dormem nas frialdades da cinza da lareira enrodilhados nos farrapos dos mantéus - tocava assim rabeca junto do mar?
Fui, amedrontado ao meu antigo balcão gótico e olhei pelas transparências da noite. Nada. As ondas choravam o seu choro místico e as estrelas estavam na sua imobilidade donde se exalam religiões. Cerrei as portadas e voltei, com o peito sacudido por um soluço de medo, para junto do braseiro: então ouvi de novo aquele som triste da rabeca estender-se lentamente pelo mar, como uma névoa sonora. Fiquei todo tomado de tremores e de frios: e ouvi então, distintamente, com os ouvidos da carne, a música de uma rabeca, acompanhada, surdamente, pelo mar.
Ao princípio foi uma melodia de fresca serenata, que a água acompanhava com um marulho húmido e alegre: e ao mesmo tempo, ao longe, havia o gemer rítmico do vento.
Então, durante uns momentos, eu ouvi unia música estranha da rabeca, acompanhada pelo mar, onde havia gemidos, dilacerações e vozes pesadas de lágrimas, e melodias trágicas com dores da Natureza, e sempre, por entre os sons alegres e meigos, uma tristeza surda e lenta corria, como a água corre, lodosa, entre os juncos e os canaviais.
Havia vozes de rabeca, aflitas e bárbaras: e às vezes doces mugidos sinistros do mar, pareciam presos por uma melodia da rabeca, delgada, ténue, clara, como um fio de som. Eu não te sei dizer o que era aquela música sobrenatural, elegíaca, selvagem, trágica, suave, e escarnecedora!
Por fim, de repente, toda aquela orquestra poderosa se calou, como um bando de abutres e aves de noite gritando aflitas, com trágicas palpitações de asas, que vêm pousar, num silêncio, sobre um rochedo das águas. Então senti, de entre aquela amontoação apocalíptica de harmonias, desprender-se, solitária, a voz da rabeca, e vir, de leve tocar, junto do meu balcão com meiguice, com moleza, com volúpia — as variações do Carnaval de Veneza.
Ninguém me pode tirar do coração, que foi a alma de Paganini que deixou o seu corpo na natureza solitária das Serenas, e veio dizer o adeus da música ao seu velho amigo.
"Adeus, meu meigo artista! Sofre e transfigura-te pela dor: eu aqui estou, cheio de saudade da nossa doce França, junto das águas tristes do Mediterrâneo.
Creio que depois da noite de ontem, nunca mais terei o riso sonoro e são. Adeus! dei os teus recados ao Mar, que te manda, como voz de saudação, o terrível temporal que, agora, vai na costa.”
O homem a quem esta carta foi escrita, era um artista, um pintor como Lantara, vivendo, descuidado, na boémia errante das misérias, das jovialidades e das primaveras. Mas a alma não se maculou com os contactos do corpo: no meio daquelas loucuras esteve sempre como uma pomba adormecida. Aquele pobre rapaz vivia numa trapeira, onde trabalhava sem sol, naquelas alturas silenciosas e castas onde vivem e crescem as flores do bem: depois enlouqueceu e foi recolhido a um hospital: e ali era sagradamente velado por uma enfermeira doce, delicada e branca como uma Virgem de ouro fino de um livro de legendas: o pintor, que, como o seu amigo Lyser, ainda depois de doido desenhava, pediu um dia à enfermeira a sua touca engomada e lisa, e com um lápis desenhou ali, como um agradecimento de alma, toda a sorte de delicadas imaginações — asas abertas, coroas de folhagens, ondas que vinham beijar um pé branco, coroações de caridades.
Uma noite, a enfermeira ouviu um gemido, e veio encontrar o pobre pintor com as mãos postas diante de um retábulo alumiado; a doce rapariga cuidou, no seu coração, que ele se encomendava à Virgem; escutou: o pobre rapaz doido estava rezando ao seu velho amigo Cláudio Loreno. Quando sentiu a enfermeira, voltou-se, e disse-lhe quase a chorar: " Deixo o meu corpo aos rios, às árvores, às abelhas, aos montes, às searas, a toda a Mãe-Natureza." Depois curvou-se, beijou a orla do vestido da enfermeira e ficou-se enroscado no chão, frio e inerte.
A enfermeira pousou a luz do retábulo junto do corpo, tirou a toalha da Virgem e estendeu-a sobre a face pálida do triste, transfigurada pela beleza sagrada e espiritual da morte.
Ao outro dia de madrugada, quatro homens que riam das farsas da taberna, e cantavam más cantigas, levaram aquele branco corpo à vala dos pobres.
Eça de Queiroz, "Prosas Bárbaras"
quarta-feira, outubro 1
A última crônica
A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
Fernando Sabino, "O Tabuleiro de Damas"
Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "Parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.
Fernando Sabino, "O Tabuleiro de Damas"
Quando os pássaros cantam
Quando os pássaros cantam,
estarão chamando as flores nos campos,
ou estão falando às árvores,
ou apenas fazem eco ao murmúrio dos riachos?
Pois o Homem, mesmo com seus conhecimentos,
não consegue saber o que canta o pássaro,
nem o que murmura o riacho,
nem o que sussurram as ondas
quando tocam as praias vagarosa e suavemente.
Mesmo com sua percepção,
o homem não pode entender o que diz a chuva
quando cai sobre as folhas das árvores,
ou quando bate lentamente nos vidros das janelas.
Ele não pode saber o que a brisa segreda às flores nos campos.
estarão chamando as flores nos campos,
ou estão falando às árvores,
ou apenas fazem eco ao murmúrio dos riachos?
Pois o Homem, mesmo com seus conhecimentos,
não consegue saber o que canta o pássaro,
nem o que murmura o riacho,
nem o que sussurram as ondas
quando tocam as praias vagarosa e suavemente.
Mesmo com sua percepção,
o homem não pode entender o que diz a chuva
quando cai sobre as folhas das árvores,
ou quando bate lentamente nos vidros das janelas.
Ele não pode saber o que a brisa segreda às flores nos campos.
Khalil Gibran
Moça na chuva
Chovia, não direi a potes, mas a bules de chá, e a moça disse que ia dar uma circulada por aí.
— Menina, com esse tempo e com esses tamancos? — a mãe estranhou.
— Ora, mammy (este vocábulo é vernáculo de longa data), chuva é genial de transar na rua, morou?
Mãe, se não concorda, pior para ela. Mesmo assim, insistiu:
— Bota ao menos um sapato fechado, pra não voltar com o calcanhar sujo de lama.
— Calcanhar sujo é um barato!
Riu, tchauzinho, saiu. Moça na chuva: ficam mais bonitas na chuva, ar de andorinha assustada, pula aqui, desguia ali, molha menos do que homem, até nem molha. Há quem as confunda com um raio de sol. Moça é o sol da chuva, sentenciou o poeta Brandãozinho, dezoito anos, extasiado. O pai, amadurecido, corrige:
— Moça é o sol, a lua, as estrelas e tudo mais que brilha.
— Pai, você, hem?
— Cale a boca, juvenil, e admire a luz brincando n’água.
As ruas cariocas desmentem a falta de rios no Rio de Janeiro. Quem disse que eles foram canalizados e correm sob nossos pés, nas entranhas da terra? É à altura dos sapatos, ou mais acima, que deslizam para o mar. E tem cachoeiras quase majestosas, despencando das construções, com a colaboração dos aparelhos de ar-condicionado, que não param nunca de chover. Lagos, lagoas, lagoinhas diversificam a paisagem fluvipluvial.
— Veneza!
Quem exclamou, não sei. E não foi preso. A negra floresta dos guarda-chuvas esgueira-se entre fachadas e navios de obras, produzindo outro entupimento, paralelo ao do trânsito. Automóvel no asfalto, guarda-chuva no ar: quem pode? Pode a garota de tamancos altíssimos, tamanqueando, tloque tloque tloque, nem precisa cantar ó abre alas que eu quero passar, as alas abrem-se para Moisés, tloque tloque, a chuva cai com especial requinte sobre a figurinha leve, tloque, molha suave, ou nem, tloque.
Nós, os encharcados, abençoamos a moça: que prodigiosa invenção. E antiga. As mais remotas pinturas a retratam. Pode usar tamanco, botina em forma de pata de elefante, de boca de jacaré, de torneira, de pneu, do diabo-que-te-carregue, é sempre a charmantérrima, parisiense, hindu, sergipana, esquimó. Para quem sabe ver. Há quem não saiba, os infelizes.
Foi fazer compras? Compra de quê? Do colar de primeiríssima necessidade, para combinar com a blusa que ela viu na revista e não encontrou na boutique? Do biquíni para quando fizer sol, pois quando fizer sol não haverá tempo de comprar biquíni? De outro tamanco? Ou não ia comprar nada, foi o assanhamento de sair na chuva, curtir a chuva, prazer que moleque descalço tem ao máximo, e os civilizados vão esquecendo?
Chuva mansa, chuva criadeira, chuva criança, essa gostosura. Vento que não levanta saia, não há mais saias, calça comprida que modela e revela, mas defende. Aljôfar lucilando no jeans ou na seda esticada, pingos que não querem escorrer, tão bacana ficar pendentes do corpo jovem móvel ágil. Estátuas nervosas na chuva, as moças tamanqueiam, e tloque e ritmo e tloque e ploque.
— Esse tamanco imundo em cima do tapete! Esse calcanhar não-sei-que-diga! — a mãe indignada.
Mas que graça teria a vida sem tamanco bem grosso, de dois andares, sem chuva de vez em quando? Torço para chover esta manhã, do contrário ninguém vai gostar da crônica.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
— Menina, com esse tempo e com esses tamancos? — a mãe estranhou.
— Ora, mammy (este vocábulo é vernáculo de longa data), chuva é genial de transar na rua, morou?
Mãe, se não concorda, pior para ela. Mesmo assim, insistiu:
— Bota ao menos um sapato fechado, pra não voltar com o calcanhar sujo de lama.
— Calcanhar sujo é um barato!
Riu, tchauzinho, saiu. Moça na chuva: ficam mais bonitas na chuva, ar de andorinha assustada, pula aqui, desguia ali, molha menos do que homem, até nem molha. Há quem as confunda com um raio de sol. Moça é o sol da chuva, sentenciou o poeta Brandãozinho, dezoito anos, extasiado. O pai, amadurecido, corrige:
— Moça é o sol, a lua, as estrelas e tudo mais que brilha.
— Pai, você, hem?
— Cale a boca, juvenil, e admire a luz brincando n’água.
As ruas cariocas desmentem a falta de rios no Rio de Janeiro. Quem disse que eles foram canalizados e correm sob nossos pés, nas entranhas da terra? É à altura dos sapatos, ou mais acima, que deslizam para o mar. E tem cachoeiras quase majestosas, despencando das construções, com a colaboração dos aparelhos de ar-condicionado, que não param nunca de chover. Lagos, lagoas, lagoinhas diversificam a paisagem fluvipluvial.
— Veneza!
Quem exclamou, não sei. E não foi preso. A negra floresta dos guarda-chuvas esgueira-se entre fachadas e navios de obras, produzindo outro entupimento, paralelo ao do trânsito. Automóvel no asfalto, guarda-chuva no ar: quem pode? Pode a garota de tamancos altíssimos, tamanqueando, tloque tloque tloque, nem precisa cantar ó abre alas que eu quero passar, as alas abrem-se para Moisés, tloque tloque, a chuva cai com especial requinte sobre a figurinha leve, tloque, molha suave, ou nem, tloque.
Nós, os encharcados, abençoamos a moça: que prodigiosa invenção. E antiga. As mais remotas pinturas a retratam. Pode usar tamanco, botina em forma de pata de elefante, de boca de jacaré, de torneira, de pneu, do diabo-que-te-carregue, é sempre a charmantérrima, parisiense, hindu, sergipana, esquimó. Para quem sabe ver. Há quem não saiba, os infelizes.
Foi fazer compras? Compra de quê? Do colar de primeiríssima necessidade, para combinar com a blusa que ela viu na revista e não encontrou na boutique? Do biquíni para quando fizer sol, pois quando fizer sol não haverá tempo de comprar biquíni? De outro tamanco? Ou não ia comprar nada, foi o assanhamento de sair na chuva, curtir a chuva, prazer que moleque descalço tem ao máximo, e os civilizados vão esquecendo?
Chuva mansa, chuva criadeira, chuva criança, essa gostosura. Vento que não levanta saia, não há mais saias, calça comprida que modela e revela, mas defende. Aljôfar lucilando no jeans ou na seda esticada, pingos que não querem escorrer, tão bacana ficar pendentes do corpo jovem móvel ágil. Estátuas nervosas na chuva, as moças tamanqueiam, e tloque e ritmo e tloque e ploque.
Foi a lugar nenhum, rodou, andorinhou, volta para casa contente de não fazer nada, apenas se inseriu no contexto fluente da chuva, tomou parte na chuva, chuvisricou.
— Esse tamanco imundo em cima do tapete! Esse calcanhar não-sei-que-diga! — a mãe indignada.
Mas que graça teria a vida sem tamanco bem grosso, de dois andares, sem chuva de vez em quando? Torço para chover esta manhã, do contrário ninguém vai gostar da crônica.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Feliz!
Deitado no alto do carro de feno... com os braços e as pernas abertos em X... e as nuvens, os voos passando por cima... Por que estradas de abril viajei assim um dia? De que tempos, de que terras guardei essa antiga lembrança, que talvez seja a mais feliz das minhas falsas recordações?
Mário Quintana, "Sapato Florido"
Meu tio mais novo quer se matar
Senti que alguma coisa estava errada assim que entrei no jardim. A espreguiçadeira estava no lugar de costume, mas vovô não. Por terra estavam o livro arroxeado, a bolsa de tabaco e o cachimbo que havia tempo esfriara.
Quando empurrei o portão do quintal, quase gritei de espanto. Vovô estava de pé, coisa inusual, tão rara que ele até me pareceu outra pessoa. Falava com alguém, um homem de chapéu preto que eu nunca vira. Estavam tão entretidos na conversa que nem me notaram, dir-se-ia que era eu o desconhecido. Cuide principalmente de não esconder o revólver, dizia o homem do chapéu. Se alguém cismar de se matar, é mais fácil não ter um.
Ah, que será isso, pensei, enquanto subia a escada. No corredor do andar de cima, quase esbarrei na tia mais nova. Ela me abraçou num impulso melancólico cujo motivo não atinei. Parecia chorosa e culpada. Eu já reparara que mulheres bonitas pareciam ainda mais belas quando tinham alguma culpa.
- É você que vai se matar? - perguntei.
Ela me olhou com uns olhos arregalados de espanto.
- Quem te disse?
- Ouvi vovô falando com outro homem.
- Papai disse a alguém que eu queria me matar?
Cochichei.
- Não ouvi falarem seu nome, mas nesta casa... uma... alguém ia se matar. Foi o que ouvi... E que não era para esconder o revólver, era para deixar onde está.
- Você está variando - interrompeu a tia, cheia de fúria. Já ia embora, mas voltou-se subitamente.-Agora escute, seu bobo. O que você ouviu, ouviu errado e não deve contar para ninguém mais, entendeu? São segredos de família, não devem sair daqui, entendeu?
Ela continuou falando, inflamada, e no fim de cada frase voltava a dizer: "Entendeu?". Não sei onde iria parar com toda aquela fúria, mas, de repente, mudou de idéia. Aproximou o rosto de meu ouvido e numa voz macia me explicou que, embora ela tivesse culpa, era outro quem queria se matar. Esse outro era o irmão dela, quer dizer, meu tio mais novo, mas eu devia esquecer aquilo.
Minha cabeça deu um nó. Ela era culpada, mas não era ela que queria se matar. Era e não era. Prometi que ia esquecer, mas que pelo menos ela me contasse o que fizera de errado.
- Não fiz nada de errado - disse, pensativa. - Nada de errado - acrescentou, depois de uma pausa.
Ela repetiu várias vezes aquilo, e eu, a duras penas, entendi que realmente não fizera nada de errado, a não ser, um dia, sem querer, ter visto uma coisa... Uma coisa que nunca devia ter visto...
- E agora chega - disse ela. - Já falei mais do que devia. Você não vai me trair, vai?
Abraçou-me. Como de costume, cheirava bem. Quando se afastou, os cabelos louros se sacudiram inquietos, pareciam agravar a sua culpa.
Vagabundeei um tempo pela casa, à toa, mas não vi meu tio. Ele estava trancado no "empate", como chamávamos a sala da lareira, e só Deus sabe o que fazia. Aos meus olhos ele ganhara mais importância que nunca. Eu daria tudo para saber o que tinha acontecido.
A tia mais velha estendia as mantas no quintal. Eu tinha certeza de que ela sabia do mistério, e também de que não iria me contar. Pelos seus olhos escuros, cavos, e especialmente por sua timidez, ela tinha criado fama de inteligente, enquanto a mais nova, junto com os cabelos louros cacheados e os olhos como que desenhados por perigosos cacos de vidro, concentrara toda a maluquice da família.
Vovô finalmente se espichara na espreguiçadeira, com o livro diante de si, mas era sabido que a única chance de falar com ele seria ao anoitecer, quando ele se deixava levar pelo violino dos ciganos. Embora o regime tivesse mudado, a família estava ligada aos comunistas e vovô não sofrera nenhuma condenação, só o confisco das propriedades, de modo que os ciganos ainda viviam na varanda de casa, e à noitinha, tal como antes, tocavam violino.
Meu tio mais velho devia saber do caso melhor que ninguém (mais que irmãos, os dois eram amigos, tinham apenas um ano de diferença de idade e toda manhã iam juntos ao colégio), mas, sendo meio surdo, era a pessoa menos adequada para se ter uma conversa em segredo.
Mesmo assim me aproximei e perguntei onde estava o outro. Quem?, perguntou. O gabola?
Boquiaberto, escutei uma saraivada de palavrões como nunca tinha ouvido. Na qualidade de mais velho, naturalmente ele tinha o direito de espinafrar o caçula por aquela besteira de suicídio, mas a raiva dele tinha algo mais profundo.
Enquanto o ouvia, minha cabeça virava numa confusão. Segundo ele, em vez de ser digno de pena (como se não bastasse a perda de cabelos, agora mais aquilo), o tio mais novo era dissimulado e maluco. Quase o acusava de ter pretendido o suicídio por mania de grandeza.
O tio mais velho falava num crescendo. Junto com a roupa suja aparentemente lavava também suas opiniões.
Eu gostava igualmente dos dois tios. Gostava de tudo neles. Do modo como andavam ao voltarem do colégio, bonés de ginasianos na cabeça, dos livros que tinham no quarto, das lições de latim que faziam em conjunto e, principalmente, de quando conversavam exatamente em latim, para que os outros não entendessem. Dominus. Divide et impera. In extenso.
Mas a admiração partilhada não me impedia de enxergar, ora em um, ora em outro, uma aura de maior mistério. Pouco antes, por exemplo, o tio mais velho, ao barafustar pela casa ainda com uma atadura na cabeça, depois de uma operação no ouvido, transformara-se no meu ídolo. O mais novo, como que a perceber-se em desvantagem, e ver no suicídio o único modo de recuperar sua importância, pegara o revólver. Diante daquilo, só restava ao maior ir outra vez ao hospital enfaixar a cabeça com o dr. Babamet Grande, tal como da outra vez.
Em outras palavras, tudo explodia.
Com os olhos cintilando de um brilho maldoso, o tio maior continuava a resmungar palavras incompreensíveis: gnomo dos segredinhos, ser ou não ser, eis a questão, ha-ha, mistérios do Louvre, he-he.
Eu não queria mais ouvir aquilo. Assim, entristecido, saí do quarto. Quando descia a escada, ele gritou de longe:
- De qualquer modo, não fale com ninguém sobre isso.
Espantoso como todos insistiam que eu não devia falar com ninguém sobre aquele assunto. Ao cair da tarde, ao voltar para casa achei-a sem vida. Ao contrário de outras vezes, o almoço com vovô não fora alegre. Havia a mesma bureka gostosa e, principalmente, as mesmas sobremesas com figos que tinham feito a fama de vovó, mas nada importava.
Por causa do tio mais novo, que continuava trancado no "empate", faltavam as tiradas surpreendentes e, em especial, as palavras secretas em latim.
Eu estava convencido de que não existiam no mundo duas casas mais diferentes entre si que a de vovô e a nossa, em Palorto. Ninguém nunca imaginaria que ficavam na mesma cidade, ou até no mesmo país.
Às vezes me parecia que a única coisa semelhante entre as duas eram os mistérios. Enquanto eu me aproximava de Palorto, ia pensando exatamente neles. Na verdade, quebrava a cabeça para aquilatar se, com o novo segredo do suicídio, a casa de vovô suplantaria a nossa em enigmas. Até o momento os dois mistérios principais estavam divididos equitativamente, um para cada casa. O nosso era a cela, enquanto o de lá era o misterioso irmão de vovô.
A cela era, como dizia o nome, uma prisão. Só as casas mais velhas da cidade tinham uma assim. Era um aposento cavado na pedra, perto da coluna principal. Não tinha porta, só um alçapão que se abria de cima, para descarregar o prisioneiro. Depois, a escada era erguida e o alçapão, fechado.
Tudo isso acontecia nos tempos antigos. A tia contara que naquela época havia dois tipos de prisão, porém o doméstico era o principal. O outro, do Estado, segundo ela era mais para fazer alarde que para prender.
Com muito esforço eu conseguira captar algo do que minha tia contava. A prisão de alguém, a condenação, o trancafiamento ou a saída da cela, tudo transcorria em silêncio e em segredo, dentro dos muros de casa. Sem polícia, sem juízes e sem júri.
Mesmo vovó nunca chegara a ver uma cela ser usada desde os tempos de noiva em Palorto. Antes sim, todas as histórias contavam. A mais assombrosa delas era a do tataravô, cujo nome era o mesmo que o meu. Certa vez ele acordara no meio da noite ao lembrar de uma antiga culpa sua. Levantem, mulheres, bradara, preparem um estrado e a bilha d'água, que vou me enfiar na cela. E assim fizera de fato, por algumas semanas, até que suas contas lhe dissessem que havia cumprido sua pena.
Ao contrário da cela, cujo alçapão ainda estava ali e podia ser tocado, o segredo da casa dos avós era invisível e nebuloso. Tratava-se de um irmão de vovô, um irmão que nunca ninguém vira. Normalmente ninguém nunca falava dele, e quando se fazia alguma referência era em voz baixa e em monossílabos.
Ele não fora condenado nem fizera nada de vergonhoso, como eu chegara a pensar. Apenas morava muito longe, no norte da Albânia. E além disso tinha outra religião. A tia mais velha me explicara que isso não era motivo para arregalar os olhos de espanto. Um ramo do tronco dos Dobatë permanecera católico, coisa semelhante acontecera com algumas velhas famílias, inclusive a nossa, em Palorto.
Na realidade, conforme eu deduzira dos raros murmúrios sobre o caso, havia muito tempo se esperava que o irmão de vovô aparecesse. Mas ele nunca viera. Nem mesmo na véspera ou no desenlace de um grande acontecimento. Ele não viera, por exemplo, quando foi proclamada a Monarquia, tampouco na semana em que ela veio abaixo. E assim por diante: o mesmo acontecera com o cometa de 1942, mais tarde com a chegada dos alemães e a seguir com a dos comunistas. Depois disso, alguém dissera: Agora ele não vem mais.
Eu achava que viria.
Quando empurrei o portão do quintal, quase gritei de espanto. Vovô estava de pé, coisa inusual, tão rara que ele até me pareceu outra pessoa. Falava com alguém, um homem de chapéu preto que eu nunca vira. Estavam tão entretidos na conversa que nem me notaram, dir-se-ia que era eu o desconhecido. Cuide principalmente de não esconder o revólver, dizia o homem do chapéu. Se alguém cismar de se matar, é mais fácil não ter um.
Ah, que será isso, pensei, enquanto subia a escada. No corredor do andar de cima, quase esbarrei na tia mais nova. Ela me abraçou num impulso melancólico cujo motivo não atinei. Parecia chorosa e culpada. Eu já reparara que mulheres bonitas pareciam ainda mais belas quando tinham alguma culpa.
- É você que vai se matar? - perguntei.
Ela me olhou com uns olhos arregalados de espanto.
- Quem te disse?
- Ouvi vovô falando com outro homem.
- Papai disse a alguém que eu queria me matar?
Cochichei.
- Não ouvi falarem seu nome, mas nesta casa... uma... alguém ia se matar. Foi o que ouvi... E que não era para esconder o revólver, era para deixar onde está.
- Você está variando - interrompeu a tia, cheia de fúria. Já ia embora, mas voltou-se subitamente.-Agora escute, seu bobo. O que você ouviu, ouviu errado e não deve contar para ninguém mais, entendeu? São segredos de família, não devem sair daqui, entendeu?
Ela continuou falando, inflamada, e no fim de cada frase voltava a dizer: "Entendeu?". Não sei onde iria parar com toda aquela fúria, mas, de repente, mudou de idéia. Aproximou o rosto de meu ouvido e numa voz macia me explicou que, embora ela tivesse culpa, era outro quem queria se matar. Esse outro era o irmão dela, quer dizer, meu tio mais novo, mas eu devia esquecer aquilo.
Minha cabeça deu um nó. Ela era culpada, mas não era ela que queria se matar. Era e não era. Prometi que ia esquecer, mas que pelo menos ela me contasse o que fizera de errado.
- Não fiz nada de errado - disse, pensativa. - Nada de errado - acrescentou, depois de uma pausa.
Ela repetiu várias vezes aquilo, e eu, a duras penas, entendi que realmente não fizera nada de errado, a não ser, um dia, sem querer, ter visto uma coisa... Uma coisa que nunca devia ter visto...
- E agora chega - disse ela. - Já falei mais do que devia. Você não vai me trair, vai?
Abraçou-me. Como de costume, cheirava bem. Quando se afastou, os cabelos louros se sacudiram inquietos, pareciam agravar a sua culpa.
Vagabundeei um tempo pela casa, à toa, mas não vi meu tio. Ele estava trancado no "empate", como chamávamos a sala da lareira, e só Deus sabe o que fazia. Aos meus olhos ele ganhara mais importância que nunca. Eu daria tudo para saber o que tinha acontecido.
A tia mais velha estendia as mantas no quintal. Eu tinha certeza de que ela sabia do mistério, e também de que não iria me contar. Pelos seus olhos escuros, cavos, e especialmente por sua timidez, ela tinha criado fama de inteligente, enquanto a mais nova, junto com os cabelos louros cacheados e os olhos como que desenhados por perigosos cacos de vidro, concentrara toda a maluquice da família.
Vovô finalmente se espichara na espreguiçadeira, com o livro diante de si, mas era sabido que a única chance de falar com ele seria ao anoitecer, quando ele se deixava levar pelo violino dos ciganos. Embora o regime tivesse mudado, a família estava ligada aos comunistas e vovô não sofrera nenhuma condenação, só o confisco das propriedades, de modo que os ciganos ainda viviam na varanda de casa, e à noitinha, tal como antes, tocavam violino.
Meu tio mais velho devia saber do caso melhor que ninguém (mais que irmãos, os dois eram amigos, tinham apenas um ano de diferença de idade e toda manhã iam juntos ao colégio), mas, sendo meio surdo, era a pessoa menos adequada para se ter uma conversa em segredo.
Mesmo assim me aproximei e perguntei onde estava o outro. Quem?, perguntou. O gabola?
Boquiaberto, escutei uma saraivada de palavrões como nunca tinha ouvido. Na qualidade de mais velho, naturalmente ele tinha o direito de espinafrar o caçula por aquela besteira de suicídio, mas a raiva dele tinha algo mais profundo.
Enquanto o ouvia, minha cabeça virava numa confusão. Segundo ele, em vez de ser digno de pena (como se não bastasse a perda de cabelos, agora mais aquilo), o tio mais novo era dissimulado e maluco. Quase o acusava de ter pretendido o suicídio por mania de grandeza.
O tio mais velho falava num crescendo. Junto com a roupa suja aparentemente lavava também suas opiniões.
Eu gostava igualmente dos dois tios. Gostava de tudo neles. Do modo como andavam ao voltarem do colégio, bonés de ginasianos na cabeça, dos livros que tinham no quarto, das lições de latim que faziam em conjunto e, principalmente, de quando conversavam exatamente em latim, para que os outros não entendessem. Dominus. Divide et impera. In extenso.
Mas a admiração partilhada não me impedia de enxergar, ora em um, ora em outro, uma aura de maior mistério. Pouco antes, por exemplo, o tio mais velho, ao barafustar pela casa ainda com uma atadura na cabeça, depois de uma operação no ouvido, transformara-se no meu ídolo. O mais novo, como que a perceber-se em desvantagem, e ver no suicídio o único modo de recuperar sua importância, pegara o revólver. Diante daquilo, só restava ao maior ir outra vez ao hospital enfaixar a cabeça com o dr. Babamet Grande, tal como da outra vez.
Em outras palavras, tudo explodia.
Com os olhos cintilando de um brilho maldoso, o tio maior continuava a resmungar palavras incompreensíveis: gnomo dos segredinhos, ser ou não ser, eis a questão, ha-ha, mistérios do Louvre, he-he.
Eu não queria mais ouvir aquilo. Assim, entristecido, saí do quarto. Quando descia a escada, ele gritou de longe:
- De qualquer modo, não fale com ninguém sobre isso.
Espantoso como todos insistiam que eu não devia falar com ninguém sobre aquele assunto. Ao cair da tarde, ao voltar para casa achei-a sem vida. Ao contrário de outras vezes, o almoço com vovô não fora alegre. Havia a mesma bureka gostosa e, principalmente, as mesmas sobremesas com figos que tinham feito a fama de vovó, mas nada importava.
Por causa do tio mais novo, que continuava trancado no "empate", faltavam as tiradas surpreendentes e, em especial, as palavras secretas em latim.
Eu estava convencido de que não existiam no mundo duas casas mais diferentes entre si que a de vovô e a nossa, em Palorto. Ninguém nunca imaginaria que ficavam na mesma cidade, ou até no mesmo país.
Às vezes me parecia que a única coisa semelhante entre as duas eram os mistérios. Enquanto eu me aproximava de Palorto, ia pensando exatamente neles. Na verdade, quebrava a cabeça para aquilatar se, com o novo segredo do suicídio, a casa de vovô suplantaria a nossa em enigmas. Até o momento os dois mistérios principais estavam divididos equitativamente, um para cada casa. O nosso era a cela, enquanto o de lá era o misterioso irmão de vovô.
A cela era, como dizia o nome, uma prisão. Só as casas mais velhas da cidade tinham uma assim. Era um aposento cavado na pedra, perto da coluna principal. Não tinha porta, só um alçapão que se abria de cima, para descarregar o prisioneiro. Depois, a escada era erguida e o alçapão, fechado.
Tudo isso acontecia nos tempos antigos. A tia contara que naquela época havia dois tipos de prisão, porém o doméstico era o principal. O outro, do Estado, segundo ela era mais para fazer alarde que para prender.
Com muito esforço eu conseguira captar algo do que minha tia contava. A prisão de alguém, a condenação, o trancafiamento ou a saída da cela, tudo transcorria em silêncio e em segredo, dentro dos muros de casa. Sem polícia, sem juízes e sem júri.
Mesmo vovó nunca chegara a ver uma cela ser usada desde os tempos de noiva em Palorto. Antes sim, todas as histórias contavam. A mais assombrosa delas era a do tataravô, cujo nome era o mesmo que o meu. Certa vez ele acordara no meio da noite ao lembrar de uma antiga culpa sua. Levantem, mulheres, bradara, preparem um estrado e a bilha d'água, que vou me enfiar na cela. E assim fizera de fato, por algumas semanas, até que suas contas lhe dissessem que havia cumprido sua pena.
Ao contrário da cela, cujo alçapão ainda estava ali e podia ser tocado, o segredo da casa dos avós era invisível e nebuloso. Tratava-se de um irmão de vovô, um irmão que nunca ninguém vira. Normalmente ninguém nunca falava dele, e quando se fazia alguma referência era em voz baixa e em monossílabos.
Ele não fora condenado nem fizera nada de vergonhoso, como eu chegara a pensar. Apenas morava muito longe, no norte da Albânia. E além disso tinha outra religião. A tia mais velha me explicara que isso não era motivo para arregalar os olhos de espanto. Um ramo do tronco dos Dobatë permanecera católico, coisa semelhante acontecera com algumas velhas famílias, inclusive a nossa, em Palorto.
Na realidade, conforme eu deduzira dos raros murmúrios sobre o caso, havia muito tempo se esperava que o irmão de vovô aparecesse. Mas ele nunca viera. Nem mesmo na véspera ou no desenlace de um grande acontecimento. Ele não viera, por exemplo, quando foi proclamada a Monarquia, tampouco na semana em que ela veio abaixo. E assim por diante: o mesmo acontecera com o cometa de 1942, mais tarde com a chegada dos alemães e a seguir com a dos comunistas. Depois disso, alguém dissera: Agora ele não vem mais.
Eu achava que viria.
Ismail Kadaré, "Uma questão de loucura"
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