terça-feira, junho 21

Leitor, para sempre leitor

 


Livros e caracóis

Um bibliófilo pobre tem infinitas ocasiões de sofrer. Os livros não lhe fogem das mãos mas, em compensação, passam pelo ar, a voo de pássaro, a voo de preços.
No entanto, entre muitas explorações, surge a pérola.

Lembro-me da surpresa do livreiro Garcia Rico, em Madri, em 1934, quando propus comprar dele uma antiga edição de Góngora que custava apenas 100 pesetas, em mensalidades de 20. Era bem pouco dinheiro mas eu não o tinha. Paguei pontualmente ao longo daquele semestre. Era a edição de Foppens, editor flamengo do século XVII que imprimiu em incomparáveis e magníficos caracteres as obras dos mestres espanhóis do Século de Ouro.

Não gosto de ler Quevedo senão naquelas edições onde os sonetos se desdobram em linha de combate com férreos navios. Depois me internei na selva das livrarias, pelos desvãos suburbanos das de segunda mão ou pelas naves catedralícias das grandiosas livrarias da França e da Inglaterra. Saía com as mãos empoeiradas mas de vez em quando obtive algum tesouro – ou pelo menos a alegria de pensar que assim fora.

Prêmios literários marcantes e sonantes me ajudaram a adquirir certos exemplares de preços extravagantes. Minha biblioteca passou a ser considerável. Os antigos livros de poesia relampejavam nela e minha inclinação para a história natural encheu-a de grandiosos livros de botânica com iluminuras coloridas; e livros de pássaros, de insetos ou de peixes. Encontrei pelo mundo milagroso livros de viagens, Quixotes incríveis, impressos por Ibarra, infólios de Dante com os maravilhosos tipos bodôni. Até alguns Molières em edições limitadas, “Ad usum delphini”, para o filho do rei da França.


Mas em realidade o melhor que colecionei em minha vida foram meus caracóis. Deram-me o prazer de sua prodigiosa estrutura: a pureza lunar de uma porcelana misteriosa agregada à multiplicidade das formas, táteis, góticas, funcionais.
Milhares de pequenas portas submarinas se abriram para meu conhecimento desde aquele dia em que D. Carlos de la Torre, ilustre malacólogo de Cuba, me presenteou com os melhores exemplares de sua coleção. Desde então e ao acaso de minhas viagens, percorri os sete mares espreitando-os e buscando-os. Mas devo reconhecer que foi o mar de Paris que, entre uma onda e outra, descobriu para mim mais caracóis. Paris havia transmigrado todo o nácar dos oceanos para suas lojas naturalistas, para seus “mercados de pulgas”. Mais fácil que meter as mãos nas rochas de Veracruz ou Baja California foi encontrar sob o sargaço urbano, entre lâmpadas rotas e sapatos velhos, a delicada silhueta da Oliva Textil. Ou surpreender a lança de quartzo que se alonga, como um verso de água, na Rosellaria Fusus. Ninguém me tirará o deslumbramento de ter tirado do mar o Espondylus Roseo, grande ostra tacheada de espinhos de coral. E mais adiante entreabrir o Espondylus Blanco, de espinhos nevados como estalagmites de uma gruta gongórica.

Alguns destes troféus poderiam ser históricos. Lembro que no Museu de Pequim abriram a caixa mais sagrada dos moluscos do mar da China para me fazer presente do segundo dos dois únicos exemplares da Thatcheria Mirabilis. E assim pude arrebanhar o tesouro dessa inacreditável obra com que o oceano presenteou a China no estilo de templos e pagodes que perduram naquelas latitudes.

Demorei trinta anos para juntar tantos livros. Minhas prateleiras guardavam incunábulos e outros volumes que me comoviam; Quevedo, Cervantes e Góngora, em edições originais, assim como Laforgue, Rimbaud e Lautréamont. Estas páginas me pareciam conservar o tato dos poetas amados. Tinha manuscritos de Rimbaud. Paul Éluard me deu de presente em Paris, por meu aniversário, as duas cartas de Isabelle Rimbaud para sua mãe, escritas no hospital de Marselha onde o nômade teve uma perna amputada. Eram tesouros ambicionados pela Biblioteca Nacional de Paris e pelos vorazes bibliófilos de Chicago.

Tanto corria eu pelo mundo que minha biblioteca cresceu desmedidamente, ultrapassando as condições de uma biblioteca particular. Certo dia presenteei a grande coleção de caracóis que levei vinte anos para juntar e aqueles cinco mil volumes escolhidos por mim com o maior amor em todos os países. Presenteei-os à universidade de minha pátria. Foram recebidos como dádiva cintilante pelas bonitas palavras de um reitor.

Qualquer homem esclarecido pensará no regozijo com que receberiam no Chile essa doação minha. Mas existem também homens não esclarecidos. Um crítico oficial escreveu artigos furiosos. Protestava com veemência contra meu gesto. Quando se poderá interceptar o comunismo internacional?, proclamava. Outro senhor fez no parlamento um discurso inflamado contra a universidade por ter aceito meus maravilhosos cunábulos e incunábulos, ameaçando cortar os subsídios que ela recebia do Instituto Nacional. O articulista e o parlamentar lançaram uma onda de gelo sobre o pequeno mundo chileno. O reitor da universidade ia e vinha pelos corredores do congresso. desarvorado.

O certo é que se passaram vinte anos do fato e ninguém tornou a ver nem meus livros nem meus caracóis. É como se houvessem retornado às livrarias e ao oceano.
Pablo Neruda, "Confesso que vivi"

Perda de tempo? Não: pilar da cidadania

Existe uma parcela da sociedade brasileira — talvez pequena, mas certamente aguerrida, a julgar pelas mensagens furiosas que de lá me chegaram ao longo dos anos — que considera a linguagem um não assunto. Escrever sobre ela seria o modo mais garantido de perder tempo, uma revoltante inutilidade.

Trata-se de um equívoco de grandes proporções. As palavras nos falam dos pés à cabeça, do nascimento à morte, estejamos dormindo ou acordados. Ainda assim, para essas pessoas, não se pode falar delas. Como se a linguagem fosse um ponto cego, uma paisagem que, de tão vista, já não conseguimos ver. Apontá-la é inútil porque parece não haver nada lá.

Certa vez o escritor americano David Foster Wallace abriu um discurso de paraninfo contando uma fábula singela. Dois peixes jovens cruzam com um peixe mais velho, que lhes pergunta:

— Como está a água hoje, rapazes?

Os dois não respondem e, quando o veterano se afasta, se entreolham:

— Água? O que é água?

Sérgio Rodrigues, "Viva a língua brasileira"

segunda-feira, junho 20

Nave espacial

 


Minha vida como pivete

Não há segundo ato nas vidas americanas, disse Scott Fitzgerald, mas há nas vidas brasileiras: segundo, terceiro, décimo atos. Num desses atos – misteriosos são os desígnios da Providência – fui um pivete.

Não por muito tempo, devo dizer. Na verdade, por muito pouco tempo, e em circunstâncias especiais. Aconteceu no Bom Fim, e numa época em que o bairro ainda não era barra-pesada. Nós estávamos na rua João Telles, uma noite, e jogávamos futebol no meio da rua. O futebol não é um esporte silencioso, e algazarra nós fazíamos, não muita, mas o suficiente para incomodar um dos moradores, que veio à janela e mandou-nos embora. Seguiu-se uma áspera troca de palavras, e a janela fechou-se, no que parecia uma retirada.

Não era. Enquanto continuávamos o jogo, o homem chamava a polícia. Minutos depois encostava na rua uma viatura da PM. Podíamos, ou devíamos ter fugido: na verdade, porém, não nos ocorria que o objetivo das forças da lei era o nosso precário futebol. Para nossa surpresa os policiais vieram em nossa direção. Um deles olhou-me (nunca imaginei ter aparência perigosa) e, abrindo a porta do camburão, ordenou:

- Entra!

Vacilei. Olhei lá dentro. Era um compartimento escuro e apertado aquele, um lugar de aparência sombria. Mas o pior era o significado de entrar ali. Quando a porta se fechasse, com estrondo, sobre mim, eu não apenas estaria separado de meu bairro, de meus amigos, de minha família. Eu estaria penetrando numa outra realidade, tão escura, apertada e sombria quanto o compartimento dos presos no camburão. Eu estaria ingressando na marginalidade, e quem me garantia que dela sairia? Não seria aquele o meu primeiro passo numa carreira (talvez bem-sucedida; talvez trágica; quem conhece os desígnios da Providência?) de gângster?

O policial esperava, impaciente, e eu não me decidia, mas aí o destino interveio, sob a forma de um morador. Dirigindo-se aos homens da lei, ele ponderou que não valia a pena me levar, mesmo porque me conhecia e estava seguro de que eu era um bom guri.

- Garanto que ele não incomoda mais – repetia.

Os homens se olharam e resolveram que não valia a pena gastar uma ficha policial comigo. De modo que depois de algumas ameaças embarcaram na viatura e se foram.

Era o Bom Fim, não a Candelária; era o Brasil, não a Europa Oriental. Escapei do Holocausto porque meus pais vieram para este país, onde nasci. E escapei porque havia alguém ali para dizer que, apesar das aparências, eu era um bom guri. Tive sorte. Temos, todos nós, muita sorte. Em nome desta sorte devemos pensar, cada vez que olhamos um suposto pivete, que ele pode, afinal, ser um bom guri.

Moacyr Scliar

O melhor presente

Após uma tentativa, frustrada, regressei finalmente ao Brasil, aonde não vinha desde o início da pandemia. A primeira tentativa, para participar do Salão Carioca do Livro, falhou, ao receber um teste positivo para a Covid, dois dias antes da viagem. Desta vez deu tudo certo, tendo conseguido desembarcar em Teresina, a convite do Salão do Livro do Piauí.

Para um escritor, festivais literários são importantes porque nos permitem avaliar a forma como os leitores estão recebendo os nossos livros, algo que o colapso da crítica literária tornou ainda mais urgente. São também uma oportunidade para rever amigos e descobrir outros escritores. 

Festivais virtuais, como aqueles que a pandemia popularizou, não permitem nada disso. Estou certo de que vieram para ficar, como tantas outras invenções pandêmicas, e que continuarão conosco, mesmo depois que o vírus deixar de ser notícia — mas acho que nunca me habituarei a eles. 

Além do mais, estava ansioso por abraçar pessoas. Gosto da confusão que se gera após os debates, com os leitores pedindo autógrafos, selfies e beijos. Agrada-me, sobretudo, a surpresa que tais encontros permitem. 

Há 30 anos que frequento festivais literários e já me aconteceu um pouco de tudo. Algumas vezes enfrentei multidões; outras encontrei-me diante de meia dúzia de pessoas, que não faziam a menor ideia de quem eu era. Recordo uma ocasião, numa aldeia perdida, no interior da Normandia, em que palestrei para uma plateia de duas pessoas — e as duas adormeceram enquanto eu contava piadas no meu francês hesitante.

Por vezes, os leitores trazem-nos presentes: poemas, livros, doces ou histórias. Gosto sobretudo das histórias. “Vou lhe contar uma história que daria um romance” — começam. Muitas vezes são histórias que realmente dariam um romance. Não, contudo, um romance escrito por mim. Nessas alturas, sempre insisto com os meus leitores para que eles próprios escrevam a história. 

Certa madrugada, numa pequena cidade do leste da Alemanha, fui acordado pelo zumbido agressivo do telefone do quarto do hotel onde me haviam alojado. Era o recepcionista, dizendo-me que alguém esperava por mim, no hall. Vesti-me às pressas e desci, despenteado, mal-humorado, e um pouco assustado. Quem poderia querer falar comigo às seis da manhã? Era um jovem angolano. Viera para a Alemanha dois anos antes. Trabalhava na construção civil, durante o dia, e de noite estudava enfermagem. Ao comentar sobre a minha palestra com os outros operários, quase todos alemães, estes haviam troçado dele, duvidando que na África existissem escritores. Então, o meu jovem compatriota desafiara-os a todos, e, na noite anterior, tinha ido com eles assistir ao debate.

— Quero agradecer-lhe porque me devolveu o orgulho de ser angolano — Disse-me. — Pensei em oferecer-lhe alguma coisa, mas sou pobre. Depois lembrei-me desta caneta, que o meu pai me deu quando eu saí de Angola, e que era do meu avô. Agora é sua!

Estendeu-me a caneta. Foi o melhor presente que recebi em toda a minha vida.

sábado, junho 18

Manhã de flores e leitura


 

História de uma guariba

– Um domingo destes, contou Alexandre aos amigos, vesti o guarda-peito e o gibão, cobri-me com o chapéu de couro, acendi o cachimbo, pus o aió a tiracolo, peguei a espingarda, resolvido a desenferrujá-la, se aparecesse caça graúda. Saí pelo terreiro, dei umas voltas nos arredores, andei, virei, mexi, afinal entrei numa vereda, subi a ladeira dos preás e, sem encontrar bicho que merecesse uma carga de chumbo e um dedal de pólvora, cheguei à imburana, perto da cerca de ramos. Aí, como o calor apertasse, tirei o aió, o chapéu, o gibão e o guarda-peito, estirei- me no chão e passei uma hora de papo para cima, fumando e pensando nos aperreios deste mundo velho. Sentia-me bem triste, meus amigos, bem desanimado. Eu, homem de família, nascido na grandeza, criado na fartura, tendo o que precisava, do bom e do melhor, estava por baixo, muito por baixo: deitado em garranchos e folhas secas, a cabeça num travesseiro de couros dobrados. Fui- me amadornando, o cachimbo me caiu dos dentes, fiquei assim meio leso, nem adormecido nem acordado, vendo e ouvindo as coisas em redor e misturando tudo a casos antigos. De repente uns gritinhos finos me chamaram a atenção. Esfreguei os olhos, sentei-me, espalhei aquelas embrulhadas que se juntavam no meu interior. E enxerguei uma espécie de velho barbudo saltando, fazendo caretas, guinchando e assobiando, como se mangasse de mim. Atentando na visagem esquisita, reconheci uma guariba. Levei mais que depressa a lazarina ao rosto, mas não pude atirar: o animal sacudia-se danadamente, sem oferecer alvo. Depois saltou por cima de uma touceira de macambira e virou fumaça. Larguei- me atrás dele, andei meia hora examinando marcas de pés no chão, ramos quebrados, cabelos nas cascas dos paus. Na verdade eu estava com pouca sorte naquele dia: os sinais diminuíram, tomaram diversas direções, sumiram-se completamente. Aí os gritinhos e os assobios voltaram. Pareciam vir de todos os lados, e eu não conseguia adivinhar onde se escondia a peste do bicho. Disse comigo, arreliado: — “Aqui há mandinga, na certa. Das coisas deste mundo nunca tive medo, com os poderes de Deus, mas em negócios de feitiçaria não entro. Fujo e entrego os pontos. Deve andar na vadiação pelo menos meia dúzia de guaribas.” Uns risinhos safados me responderam pela direita e pela esquerda, por diante e por detrás. Fiz o pelo-sinal, rezei o credo, agarrei-me à Virgem Maria e dispus-me a entrar em casa. Aquela história começava a azucrinar-me. Ora sim senhores. Acreditam vossemecês que não acertei o caminho? É exato, achei-me numa atrapalhação, areado pela primeira vez na vida, completamente desorientado. Incrível, meus amigos, a coisa mais espantosa que até hoje me aconteceu. Ali pertinho de casa, com o sol nas alturas, as árvores iluminadas, tudo muito claro, perdido no mato, eu, um sujeito costumado a varar capueira no lombo de bicho brabo. Não podia haver disparate maior. Tenho vergonha de contar isto. Nunca me vi, antes ou depois, em situação igual. Se pudesse fumar, descansar, espairecer uns minutos, talvez conseguisse livrar-me do embaraço, arrumar as ideias que me fervilhavam no espírito. Infelizmente o cachimbo tinha ficado debaixo da imburana. E, sem chapéu, aguentando a quentura do meio-dia num verão puxado, sentia o miolo derreter-se e a vista escurecer. Decidi acompanhar os rastos da guariba, na esperança de que eles me levassem a alguma estrada. Não levaram. Tomei outro rumo. Trabalho perdido: uma confusão dos pecados. E, à toa, joguei-me para a frente, embirando-me nos cipós, furando-me os espinhos, falando assim cá por dentro: — “Agora nem volto nem torço. Nesta marcha vou até o fim do mundo. Todo o caminho dá na venda.” Andei uma légua, pouco mais ou menos. Os assobios e os gritos desapareceram. Ri-me de mim mesmo, achando graça naquela trapalhada: — “Isto não tem pé nem cabeça. Sonhei, provavelmente, estive sonhando e variando. Peguei no sono, levantei-me sem acordar direito e corri de um lado para outro, vendo e ouvindo coisas que não existem.” Pensando assim, entrei num carreiro que me pareceu conhecido. Encontrei uma cerca de ramos e um formigueiro de formiga branca, subi uma ladeira, alcancei o alto de um monte, onde topei a imburana. Bem. Respirei aliviado: era ali que eu tinha adormecido pela manhã. Estava perto de casa, a umas quinhentas braças ou menos. Procurei os couros que havia largado no chão e não percebi nem sombra deles. — “Que diabo é isto?” perguntei cá comigo. E comecei a arear-me de novo, julguei que talvez a imburana não fosse o pé de pau visto poucas horas antes. No meio da desordem enxerguei na terra folhas secas e gravetos espalhados. Tinha-me deitado ali, de papo para o ar, sem dúvida. Mas onde estavam meus arreios? Era o que eu não podia saber. Tudo naquele dia me andava pelo avesso. Disse baixinho: — “Valha-me Nossa Senhora do Amparo. Com certeza desci hoje da cama com o pé esquerdo e não fiz as minhas orações em regra! Foi por isso que o demônio se soltou e buliu comigo.” Deitei-me, resolvido a descansar um instante, porque o calor não era deste mundo e a cabeça me ardia desesperadamente. Fechei os olhos, tornei a abri-los, chateado: aquele desconchavo todo e por fim o desaparecimento dos picuás não me deixavam sossegar. Nessa altura, descobri lá em cima, quase escondida na folhagem da imburana, a guariba escanchada num galho, vestida no guarda-peito e no gibão, com o chapéu na cabeça. Trazia o aió a tiracolo. Meteu a mão nele, tirou o corrimboque, bateu a pedra de fogo, acendeu o cachimbo, e pôs-se a fumar regalada, balançando-se. Os senhores já viram bicho fumar? Era cada baforada que ninguém imagina. Pafo! pafo! pafo! Perdi os estribos com semelhante desaforo, gritei: — “Seiscentos diabos!” E levantei a espingarda: queria botar as coisas em pratos limpos, saber se aquela infeliz era vivente de fôlego ou alma penada. Aí se deu um caso extraordinário. A guariba conheceu as minhas intenções, pregou-me o olho e falou desse jeito: — “Seu Alexandre, vamos fazer um negócio? Vá criar seus filhos, que eu vou criar os meus.” Atirou-me lá de cima o cachimbo, o aió, o gibão, o guarda-peito e o chapéu. Fiquei assombrado, de queixo caído, nem tive coragem de atirar. Aceitei a proposta e deixei que a desgraçada fosse embora em paz.
Graciliano Ramos

A história dos 15 mil livros de Gabriel García Márquez queimados por Pinochet

Em 28 de outubro de 1986, após vários dias de viagem, o navio a vapor Peban, do Panamá, finalmente atracou no porto chileno de Valparaíso. Enquanto se preparava para preencher os documentos da alfândega, a tripulação recebeu a notícia de que parte da carga seria apreendida.

O capitão, que tinha certeza de que toda carga de seu navio estava em ordem, perguntou que mercadoria eles iriam reter.

A resposta foi a que ele menos esperava: os livros.

Especificamente, 15 mil exemplares de "A aventura clandestina de Miguel Littín no Chile", escrito pelo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura Gabriel García Márquez. Os livros tinham sido enviados do porto de Boaventura, na Colômbia, país natal de García Márquez.

Os livros eram destinados a Arturo Navarro, representante da editora Oveja Negra no Chile. Na época, a editora era a responsável pela publicação dos livros do escritor no Chile.

O livro conta as dificuldades do cineasta chileno Miguel Littín, que vivia no exílio desde o golpe que levou Augusto Pinochet ao poder em 1973.

Littín havia retornado ao Chile por duas semanas em 1985, 12 anos após o golpe, para filmar secretamente um documentário sobre o que estava acontecendo no país.

Chamado Acta Central de Chile (Ato Central do Chile), o filme estreou no Festival de Cinema de Veneza de 1986.

Mas o livro de García Márquez foi mais longe: contava sobretudo detalhes que não constavam nas imagens, como o encontro de Littín, que se passara por empresário uruguaio, com o próprio Pinochet nos corredores do Palácio de la Moneda, onde o presidente de fato não o reconheceu.

"Fiquei sabendo da apreensão dos livros duas semanas depois porque estava fora do país", lembra Arturo Navarro tomando um café sob a nave central do Museu Nacional da Memória, no coração de Santiago.

Navarro havia retornado de uma viagem aos Estados Unidos para visitar sua família quando encontrou uma mensagem de alerta na secretária eletrônica de sua casa.

Era do seu despachante aduaneiro e ele descreveu uma situação crítica: "Arturo, me disseram que os livros foram queimados".

Documento revela que o regime militar chileno queimou os livros

Para Navarro, a remessa era essencial: era o principal produto que ele esperava expor durante a feira do livro de Santiago, que aconteceria algumas semanas depois do incidente.

Navarro havia sido funcionário da Editorial Nacional Quimantú (amplamente perseguida pelo regime) e tinha visto de perto os militares destruírem livros. Mas ele também sabia que o regime de Pinochet havia relaxado suas políticas de censura.

Nesse contexto, ele acreditou que a apreensão poderia ter sido mais um mal-entendido do que um ato de repressão e decidiu viajar para Valparaíso para resolver o problema pessoalmente.

"O livro já havia sido publicado em capítulos no Chile por uma revista (Análisis) meses antes", diz Navarro. "No entanto, o que me preocupou é que, segundo a imprensa, a apreensão dos livros deveu-se ao mau estado dos contêineres, o que me pareceu uma desculpa incomum.

Quando Navarro se aproximou do prédio militar onde poderia tentar resgatar os livros, percebeu imediatamente a tensão que se fazia sentir no governo naqueles dias.

Um mês e meio antes, em 7 de setembro, militantes da Frente Patriótica Manuel Rodríguez tinham estado muito perto de matar Augusto Pinochet, em um ataque feroz quando voltava para Santiago de sua residência em Cajón del Maipó, a cerca de 50 quilômetros da capital. O ataque deixou cinco guarda-costas mortos e vários feridos.

"No prédio pude conversar com um militar de médio escalão a quem pedi que pelo menos me permitisse devolver os livros a Lima", conta. "Mas depois de fazer algumas ligações, ele finalmente me disse: 'Navarro, já queimamos os livros'."

A versão na mídia foi mantida: contêineres em mau estado, o que poderia explicar a apreensão, mas nunca a incineração.

Para Navarro, estava claro que a ordem tinha vindo de cima e, mesmo que ele não tivesse provas, ele não ficaria parado até que as pessoas soubessem que o regime de Pinochet havia ordenado a queima de 15 mil volumes de nada menos que um ganhador do Prêmio Nobel.

"Ainda defendo que foi um capricho de Pinochet: ele não queria ver um livro, muito menos depois do ataque, que descreve basicamente como eles o fizeram de trouxa", diz Navarro.

A notícia o deixou desanimado e sem cópias para a feira.

Mas Navarro convocou coletivas de imprensa para divulgar o ocorrido, fez a denúncia pertinente perante a Câmara do Livro do Chile e, embora não houvesse muito eco no país, a notícia foi publicada mundo afora.

Navarro guarda recortes de jornais da Grécia, Holanda e Estados Unidos que falam dos livros queimados.

"Eu realmente não acreditei em nada que eles me contaram. Nem mesmo que eles foram queimados", diz Navarro.

Um de seus colegas recomendou que a melhor forma de obter uma resposta do regime seria pelos canais diplomáticos, então ele decidiu ir à embaixada colombiana, país de origem dos livros.

"Lá conheci Libardo Buitrago, o cônsul colombiano, que se ofereceu para me ajudar."

Pouco depois, por pressão do país estrangeiro, um documento muito revelador chegou ao cônsul, uma carta datada de 9 de janeiro de 1987, assinada pelo vice-almirante John Howard Balaresque, que não só confirmava a cremação dos livros, mas também as razões: as cópias de "A aventura clandestina de Miguel Littín no Chile" foram queimadas como "uma medida de censura prévia" sob o argumento de que o conteúdo "transgrediu abertamente as disposições constitucionais".

"Aquele papel é o único documento oficial existente em que o regime Pinochet aceita que queimou livros e que foi feito por meio de censura. Algo impossível de obter naqueles tempos", diz Navarro. "E agora está aqui, no Museu da Memória."

O documento, com assinatura oficial, serviu à editora Oveja para poder cobrar o seguro, mas também implantou na cabeça de Navarro uma certeza que nunca o abandonou: a cultura seria a chave para o fim do regime.

"Essa repressão dos livros, da cultura, daria uma reviravolta e acabaria sendo um dos principais motivos para que Pinochet deixasse o poder. Porque eram os cantores, os artistas, os escritores que seriam fundamentais na campanha pelo voto no plebiscito de 1988 que poria fim à ditadura", conclui.

sexta-feira, junho 17

Leitura surreal

 


Uma rosa é uma rosa

Uma rosa é uma rosa é uma rosa, uma das frases mais famosa da literatura, foi escrita por Gertrude Stein (1874-1946), escritora e poeta feminista, mensageira de uma poesia inovadora nos Estados Unidos. A frase motivou ao longo dos anos várias versões e variações através de músicas, óperas, filmes e paródias. Artistas famosos usaram-na em suas criações e, entre eles, Ernest Hemingway, Charles Chaplin, Aldous Huxley, Stephen King e Vinícius de Moraes com seu Rancho das Flores.

Howard McWilliam)

Precisamos nesse momento de elogio ao sublime ser íntimos de outra rosa, que nos faz sentir como a vida é bela quando a encontramos formosa no jardim da cidade ou no da sua casa. É feita de seda e fragrância, gosta de acontecer no momento singular da natureza. Em ritual de carícia, ilumina o ar quando se entreabre no sonho suave da flora.

Gostaria que fosse duradoura, não fugaz como acontece, pois em seu destino frágil de rosa fica murcha mal desponta. Assim se apresenta na sua aparição ligeira, vocação para que seja admirada em terna nervura, provocando suspiros e desejos, sugerindo a ideia de que o amor entre os seus protagonistas se faz necessário que seja bafejado com os ares da rosa.

Se você quiser ver sua mulher sorrir de contente, diga, quando sentar à mesa para a refeição matinal, que ela amanheceu bonita como uma rosa. Se ela quiser saber de onde foi que você achou essa rosa, que se parece com ela, não hesite em dizer que foi no Jardim de Dona Bela, só o seu coração conhecia, amava visitá-la todos os dias. Acrescente que de repente encontrou com aquela rosa agora, ali mesmo em sua frente, sentada à cabeceira da mesa. Radiante apresentava-se em ritual de amor fazendo com que seu coração tivesse a sensação de que sua casa fosse de fato na manhã formosa um jardim, igual ao de Dona Bela.

Os poucos leitores dessa crônica já perceberam que dentro de mim habita uma rosa, que sopra seu hálito delicado mal a manhã desperta. Justamente é essa, que nunca some, dadivosa em ritmo de cores e sons na alma flora. Tem habituais cuidados comigo, acha nesse instante que eu não deva prosseguir com a crônica, tentando dizer sobre o que é uma rosa. Ora, uma rosa é uma rosa com sua beleza fascinante, observa, será que alguém vai conseguir descrevê-la dentro da perfeição de suas linhas harmoniosas? Desenhada pelos dedos de Deus, nunca na minha escrita pobre vou chegar perto de sua beleza provinda da natureza, que é inimitável, sua delicadeza com finas saliências, seu jeito iluminado que trescala um sentimento que perfuma e encanta.

Verdade, nunca saberei decifrar o quanto essa rosa que acalma os olhos é misteriosa, seja qual for a cor que expresse o seu estar na vida, em qualquer estação, embora dê preferência que aconteça na primavera quando há trinados e voos alegres para celebrar esse dom da flora. Se uma rosa é uma rosa, uma só vale todos os poemas escritos pelos melhores poetas de todos os tempos. Inalcançável é a sua perfeita aparição, sem concorrente entre as flores não se presta ao decalque da mais apurada sensibilidade do poeta genial, tendo em vista que suas particularidades formadas por pétala e sonho pertencem somente a ela.

Rosa no verde é felicidade, no branco sinal de tranquilidade. Ambas as duas são generosas. Rosas no peito são bem-vindas, tão queridas, acariciam o coração ao toque do violão suave. A essa altura, em que tento mostrar minha admiração pela rainha das flores, penso que posso encerrar essa crônica recorrendo a Ataulfo Alves, poeta de nosso cancioneiro popular, que gostava de cantar o amor embalado com a beleza da rosa. Ele disse: “Quando morrer não quero choro nem vela, quero uma rosa amarela, gravada com o nome dela“.
Cyro de Mattos

O direito de escrever

Quem mais sofre desse mal é o artista de cinema em Hollywood. A padronização do público, a opinião do público, a pressão do público. Deanna Durbin fracassou por quê? Porque o público gostava da menina Deanna Durbin, magrinha e adolescente, cantando coisas ingênuas, por exemplo "Noite feliz", no telefone, para o papai ouvir. Mas Deanna ficou mulher, quis ser cantora adulta, o público achou que estava sendo desconsiderado, refugou Deanna. Nós, que jamais gostamos de Deanna, menina moça ou velha, não ligamos para a sentença do público; e por causa disso não percebemos a tragédia da rapariga. Mas tragédia houve, e dessas, por lá, estão acontecendo todo dia. O público gosta de receber aquilo a que está acostumado. E detesta que um camarada a quem ele se acostumou, mude de cara ou de sistema. 

O sujeito escreve uma coisa de determinada maneira, ou apresenta certo tipo no palco, ou compõe uma música para ser cantada de madrugada, entre bêbedos. O público gostou, aplaudiu. Nas águas do primeiro êxito o sujeito em questão – escritor, poeta, ator ou músico – prepara nova obrinha parecida com a primeira. O público torna a aplaudir. Pronto, aí o pobre sujeito está perdido. Porque passou a pertencer ao seu êxito, fica escravo daquele sucesso (sei que é galicismo, obrigada; digo porque acho bonito, que é que tem?) – fica pois escravo daquele sucesso, e do trilho inicial não pode mais se afastar. Pode lhe vir inspiração em qualquer outro sentido. Pode ser ele tentado a seguir caminhos novos – mas é arriscadíssimo deixar-se cair em tentação. É quase certo que o seu público não gostará. O público provavelmente achará péssimo. 

Se o cronista Rubem Braga, um dos amados do público, deixar de repente de fazer suas crônicas e passar a escrever poemas lindíssimos, tão lindíssimos quanto às crônicas, o público que até hoje o amou lerá os poemas com a sensação de que está sendo furtado; sim, furtado de todas aquelas que ele estava esperando e que, sub-repticiamente, às suas costas, sem o seu consentimento, foram viradas em poemas. E reclamará, e não comprará o livro de poesias como comprava o livro de crônicas, embora um seja tão bom quanto o outro; mas acontece que, com poemas, ele não está acostumado.

Outro ponto a debater é a experiência de imparcialidade que ousam fazer à gente. Por que ser imparcial? Todo artista produz para externar suas paixões, seus recalques, seus conflitos íntimos. Então como é que pode ser imparcial? Por uma comparação: se eu faço uma crônica a favor do Flamengo, todo o mundo cai em cima de mim dizendo: "Ela só escreve isso e aquilo porque é F1amengo". Ora, meu Deus do Céu, e haverá motivo mais legítimo para se escrever pró-Flamengo do que ser Flamengo? (que eu, aliás, sou Vasco, com muita honra!). 

Pessoas que escrevem, como as que pintam ou representam, são pessoas complicadas, parciais, cheias de personalismo, preferências, tais como as demais pessoas do mundo. E o público gosta da gente justamente quando lhe lisonjeamos as preferências e os personalismos. Aquele de nós que tem mais êxito é precisamente aquele cujas referidas paixões, personalismos etc., melhor coincidem com os da maioria. 

De onde se conclui que além de impraticável, é ingênua essa exigência de imparcialidade. Imparciais, impassíveis e frios são os compêndios de geometria. E quem é que paga para ler um compêndio de geometria? Não, a exigência da imparcialidade só aparece quando a gente está contrariando a opinião do leitor. Ele então, pensando que se mostra muito justo (mas está é danado da vida) vem logo com a história da imparcialidade. O que ele quer dizer porém é isto: "Já que você não concorda comigo, pelo menos não dê opinião – que eu assim tiro as conclusões que mais me agradem."

Pois eu me recuso. O distinto público desculpe, mas recuso. Não abro mão do direito de opinar, e opinar errado, inclusive. Se o distinto público acha ruim, paciência. Sei que, como escribas assalariados, nós todos, para viver, dependemos do dinheiro do distinto público. Mas como é que dizia aquele boticário que vendeu o veneno a Romeu, no quinto ato da tragédia? "Tu compras a minha pobreza, mas não compras o meu consentimento". A tradução é livre, mas a ideia é essa. O distinto público compra os nossos escritinhos. Paga às vezes mal, às vezes generosamente. Mas compra só o direito de ler. O resto é nosso. Goste ou jogue fora, não nos obrigue a cortejar as suas opiniões. Se eu sou Vasco, continuo Vasco, até o dia do Juízo. Falo bem de quem quero, falo mal se acho que devo. Amo, detesto, prezo e admiro, zombo de quem meu coração pede. E já que começamos com citações, citemos Marion de Lorme, sim aquela moça heroína do drama de Victor Hugo – outro colega que também sofria da mania de ter opiniões próprias e pagou o diabo por isso. Sim, citemos Marion, logo no primeiro ato: "Je fais ce que je veux, et je veux ce que je dois. Je suis libre, monsieur."

Rachel de Queiroz

quinta-feira, junho 16

Porta de livraria

 


Em defesa do leitor

Agora à tarde, tive um sonho. Eu chegava a uma seção eleitoral para votar. Não tinha dúvidas a respeito de meu voto. Na cabine, para meu espanto, via que o nome de meu candidato não constava da lista oferecida pela urna eletrônica.
Desorientado, me dirigi ao presidente da mesa. Ele me passou, então, uma lista oficial de candidatos, com o timbre da República, para provar que o nome que eu procurava não existia. “Você o inventou”, ele me disse, “só lhe resta escolher outro nome”.

O sonho não é tão absurdo quanto parece. Não fala da democracia brasileira, fala de mim – de quem mais? Trata, na verdade, das dificuldades que enfrento para encontrar um nome que defina o que faço.

Antes de pegar no sono, eu lia A clave do poético, coleção de ensaios de Benedito Nunes organizada por Victor Sales Pinheiro (Companhia das Letras). Detivera-me, com especial interesse, no ensaio que abre o livro, “Meu caminho na crítica”, uma reflexão de Benedito a respeito de sua formação.

Benedito Nunes tem uma trajetória intelectual densa, construída na leitura rigorosa e no embate teórico. Enquanto ele estudava e refletia, eu me desesperava nas redações de jornal, lutando contra as armadilhas da realidade. Ambos miramos a literatura, mas cada um de uma posição.

Afirma Benedito que o crítico lê, sempre, em nome de uma teoria. Enquanto lê, aplica princípios intelectuais ao livro. Alguma filosofia sempre está implícita na crítica literária. “Os métodos da crítica sempre têm uma maneira a priori, por assim dizer filosófica, de conceber e de avaliar o alcance do texto”.

Críticos literários leem, sempre, munidos de certa bagagem. Eles são como aquele viajante que, ao desembarcar em um aeroporto, quer abraçar o amigo que o espera, mas não pode, e se limita a acenar, porque tem as mãos cheias de malas. Esse viajante (ler é viajar) lê, sempre, em função de algo que envolve o livro – seja a linguagem, a sociedade, a história. Por mais que não queira, ele aplica seu percurso intelectual (sua bagagem) ao livro que abre.

Ainda que não idealize o poder da teoria e que evite o olhar dogmático do especialista, quando lê, esse viajante interpõe sempre um a priori – uma lente espessa e dura – entre ele e a escrita. Num esforço comovente para se livrar da bagagem que o oprime, o próprio Benedito se define como “um tipo híbrido”, que procura se colocar entre o a priori (a bagagem) e seu objeto (o amigo). Que busca outro lugar: outro nome.

Diz Benedito: “Não pretendi nem pretendo aplicar a filosofia, como método uniforme, ao conhecimento da literatura”. Tampouco tentou o contrário: fazer da literatura instrumento de ilustração de verdades filosóficas. Foge das duas posições – busca uma terceira, ainda sem nome.

Qual é a luta de Benedito? Onde está a beleza de seu projeto? Ela aparece naquele momento em que, ao desembarcar, o viajante larga suas valises no chão e corre para beijar o amigo. Não que ele vá recusar a posse da bagagem. Também não irá abandoná-la, não só porque ela lhe pertence, mas porque ela é parte de si. No entanto, se não largar a bagagem, irá sufocar o amigo com seu peso. Abraçará não o amigo, mas a si mesmo.

Quanto a mim, que leio desde pequeno, nunca desejei construir certezas ou sistemas a partir do que leio. Sinto-me mais próximo dos românticos, que defendiam a existência de uma intuição intelectual. Intuição, como diz Benedito, “capaz de criar o objeto no momento de conhecê-lo”. Do leitor comum, desamparado e de mãos vazias, que lê não porque deve, ou porque busca, mas porque ama.

Ao largar a bagagem no saguão e avançar sozinho, as mãos limpas, o leitor se dá a liberdade de reinventar o livro que lê. Leitores comuns, que desembarcam na literatura vindos das mais longínquas procedências – a educação, a psicanálise, a física, as artes plásticas – compõem a maioria dos frequentadores (lá ia eu usar a odiosa palavra, “alunos”) de meus círculos de leitura.

Todos eles, é verdade, carregam também suas bagagens intelectuais. Cada um deles lê com o que tem (a educação, a psicanálise, a física etc.). Mais que isso: lê com o que “é”.

A diferença é que, em nenhum momento, eles supõem que suas valises possam conter, ou delimitar, ou ainda esclarecer aquilo que leem. Uma psicanalista (Carmen da Poian), um físico (Daniel Weller), um educador (Márcio Lemgruber), uma pintora (Guita Soifer) leem sem nada buscar ou desejar – e é por isso que a literatura os captura.

É verdade: mesmo deixando para trás, no saguão, suas bagagens singulares, ainda carregam grande parte delas dentro de si. É com esses restos, preciosos, que eles se põem a ler. Quando abrem um livro, imitam os leitores românticos: em vez de decifrar o que leem, querem ser fisgados pelas palavras. São (re)inventores. São (co)autores.

Deles não se exige coerência, rigor, argumentação. Só se pede uma coisa: que se entreguem e, assim, na experiência da aventura, reconstruam o livro a partir do que conseguem ler. Não leem para testar teorias, ou para vigiar estilos, ou para conferir procedências. Leem para ser.

Não existem leitores “puros” – trazemos sempre alguma bagagem nas mãos. Mas existem leitores leigos: aqueles que largam suas valises pelo caminho e correm, de coração aberto, em direção a um livro. Mais ainda: aqueles que, ao se aproximarem de um livro, despem seus mantôs e sobretudos, abandonam chapéus e cachecóis, e se expõem, de corpo aberto, ao fogo da leitura.
São esses os leitores que me interessam: os que não encontram seu nome na lista oficial de candidatos a leitor. Esta é, também, minha utopia: ler como um leitor inventor, e não como um leitor que sabe o que quer.

A grandeza de Benedito Nunes é que, mesmo arrastando atrás de si uma vasta e preciosa bagagem, ele consegue ler com o coração desarmado. Surpreende-se, espanta-se, deixa-se afetar pelo que lê. E desse atordoamento faz sua crítica.
O próprio Benedito relembra, a propósito, uma ideia de Clarice Lispector: “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias”.

José Castello, "Sábados inquietos"

Auto da cabra

Madrugada. O hospital , como o Rio de Janeiro, dorme. O porteiro vê diante de si uma cabrinha malhada, e pensa que está sonhando.

- Bom palpite. Veio mesmo na hora. Ando com tanta prestação atrasada, meu Deus.

A cabra olha-o fixamente:

- Está bem, filhinha. Agora pode ir passear. Depois você volta , sim?

Ela não se mexe ,séria.

- Vai , cabrinha, vai. Seja camarada. Preciso sonhar outras coisas. É a única hora em que sou dono de tudo, entende?

O animal chega-se mais perto dele, roça-lhe o braço. Sentindo-lhe o cheiro, o homem percebe que é de verdade, e recua.

- Essa, não ! O que é que você veio fazer aqui, criatura? Dê o fora, vamos .

Repele-a com um gesto manso , porém a cabra não se move, encarando-o sempre.

- Aiaiai! Bonito.Desculpe, mas a senhora tem de sair com urgência, isto aqui é um estabelecimento público. ( Achando pouco convincente a razão.)Bem, se é público devia ser para todos , mas você compreende….( Empurra-a docemente para fora, e volta à cadeira.)

- O quê? Voltou? Mas isso é hora de me visitar , filha? Está sem sono? Que é que há? Gosto muito de criação, mas aqui no hospital, antes do dia clarear……( Acaricia-lhe o pescoço.) Que é isso! Você está molhada? Essa coisa pegajosa….O quê; sangue?!?! Por que não me disse logo cabrinha de Deus? Por que ficou olhando assim feito boba? Tem razão : eu é que não entendi, devia ter sacado logo. E como vai ser? Os doutores daqui são um estouro, mas cabra é diferente, não sei se eles topam. Sabe de uma coisa ? Eu mesmo vou te operar!!!

Corre à sala de cirurgia, toma um bisturi, uma pinça : à farmácia pega mercúrio-cromo, sulfa e gaze; e num canto do hospital , ajudado por dois serventes , enquanto o dia vai nascendo , extrai do pescoço da cabra uma bala de calibre 22, ali cravada quando o bichinho, ignorando os costumes cariocas da noite , passara perto de uns homens que conversavam à porta de um bar .

O animal deixa-se operar com a maior serenidade. Seus olhos envolvem o porteiro numa carícia agradecida.

- Marcolina. Dou-lhe este nome em lembrança de uma cabra que tive quando garoto, no Icó. Está satisfeita , Marcolina?

- Muito, Francisco.

Sem reparar que a cabra aceitara o diálogo, e sabia seu nome, Francisco continuou:

- Como você teve a ideia de vir ao Miguel Couto? O Hospital Veterinário é na Lapa.

- Eu sei, Francisco. Mas você não trabalha na Lapa, trabalha no Miguel Couto.

- E daí?

- Daí, preferi ficar por aqui mesmo e me entregar a seus cuidados.

- Você me conhecia?

- Não posso explicar mais do que isso, Francisco.As cabras não sabem muito dessas coisas. Sei que estou bem ao seu lado, que você me salvou. Obrigada , Francisco.

E lambendo-lhe afetuosamente a mão fechou os olhos para dormir; bem que precisava.

Aí Francisco levou um susto, saltou para o lado:

- Que negócio é este???cabra falando? Nunca vi coisa igual na minha vida. E logo comigo, meu pai do céu!!!

A cabra descerrou um olho sonolento , e por cima das barbas parecia esboçar um sorriso:

- Mas você não se chama Francisco, não tem nome do santo que mais gostava dos animais neste mundo?Que tem isso, trocar umas palavrinhas com você? Olhe, amanhã vou pedir ao Ariano Suassuna que escreva um auto de cabra, em que você vai para o céu, ouviu?

Final 
Que um dia Francis Jammes abra
lá no alto, seu azul aprisco,
Mande entrar Marcolina, a cabra
e seu bom amigo Francisco
Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, junho 15

Direito de ler

A literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas
Antonio Cândido, "O direito à literatura"

Cultura a serviço do povo

Quentin Blake
Camaradas:

Não sei bem se o que lhes vou dizer nesta conversa ligeira combina com o título dela, anunciado no jornal. Escapou-me a notícia, é possível que me afaste um pouco da matéria comunicada aos leitores.

Bem. Para não estarmos com prólogos, entro no assunto e declaro que, na minha fraca opinião, antes de vermos no livro um veículo de cultura, devemos considerá-lo simples mercadoria. Evidentemente ele não é uma graça de Deus, como a luz do sol e a água da fonte: encerra o esforço de numerosas pessoas, do trabalho complexo do autor à rija labuta do impressor. Sem levarmos em conta as fases anteriores e posteriores a isso: a fabricação do papel, da tinta, das máquinas, dos cordéis; a distribuição, a propaganda e até o que neste momento realizamos, pois, confessemos honestamente, exercemos aqui o ofício de camelôs.

Esta minha declaração chocha retira ao livro, objeto pouco mais ou menos inútil à massa e apenas acessível aos iniciados, o caráter de coisa misteriosa a que desde a infância nos habituamos. Criou-se uma espécie de tabu vantajoso à classe dominante: a sabedoria dos compêndios foi durante séculos e continua a ser meio de opressão. Sujeitos hábeis reuniram ideias safadas e adularam, sem nenhuma vergonha, os seus patrões horrorosos. A imprensa sadia é instituição velha, anterior aos tipógrafos, já usada pelos escribas do Egito.

Deixemos os escribas do Egito. Se meter-me em funduras, daqui a pouco estarei falando difícil, empregando a linguagem que desvia dos pensamentos arrumados na folha o homem da multidão. Volto ao que afirmei no começo: o livro é mercadoria. As metralhadoras também são mercadorias, que, até hoje utilizadas contra o povo, irão resguardá-lo. É intuitivo, porém, que de nada servirão se ele não souber manejá-las.

A verdade é que nem todos os livros cantam loas aos tiranos. A desgraça dessa gente é perceber que as suas armaduras racham, a sua força se esvai, os seus defensores se transformam de repente em inimigos. A palavra escrita é arma de dois gumes. A literatura velha arqueja e sucumbe; a literatura nova fere com vigor a reação desesperada. Não nos ocupamos da primeira, está visto; deixaremos que se enterre, no silêncio, na penumbra e no mofo, com algum latim resmungado pelos críticos da LEC. A segunda é a que nos traz a esta sala, encerra-se nos volumes aqui expostos. Precisamos conhecê-la de perto. É claro que nada ganharemos olhando, com respeito, esses volumes protegidos por uma vitrina. Indispensável sabermos o que há dentro deles. Vimos numa capa o nome de Máximo Gorki e experimentamos o desejo de largar uns palpites sobre ele, atrapalhando tudo. Recuamos a tempo — e na reunião da célula ouvimos, bastante chateados, referências ao admirável russo, num informe. Contudo, a recordação da vitrina permanece, garantimos que Máximo Gorki é notável. Temos de cor uma lista de personagens célebres, afirmamos a celebridade, mas seria difícil dizermos em que ela se baseia. Asserções que nos fizeram na escola, repetidas longamente, foram aceitas afinal. Em vão tentamos adivinhar como subiram certos figurões das letras nacionais. Vi um tipo quase chorar lendo a notícia da morte de um literato conde.

Necessário conhecermos a razão dos nossos entusiasmos, não nos comovermos à toa. Vamos ver se a página impressa é digna de admiração. Tratemos, pois, de adquiri-la: é para ser vendida que se exibe além do vidro. Terra de leitura escassa. Vemos filas para banha, açúcar, pão, carne, o diabo, mas não conceberíamos fila diante de uma livraria. Realmente ali não se vendem comestíveis. Contudo é bom um sujeito ler algumas vezes, ao menos para fingir importância na presença do chefe ou da namorada. Literatura ao alcance da massa? Muito bem. O livro está perto, à mão, na vitrina. Foi redigido cuidadosamente: no interior dele não há cercas de arame farpado, evitaram-se atoleiros, rios cheios, pedras escorregadias e pinguelas, enfim qualquer inteligência razoável pode transitar ali facilmente, por todos os lados. Agora esperemos que o homem do povo se mexa, dê alguns passos até o balcão da livraria, peça o volume. E pague, naturalmente, pois os cidadãos que mourejam naquilo não vivem no éter.
Graciliano Ramosdiscurso no Rio, 28 de fevereiro de 1947

terça-feira, junho 14

Ray Bradbury


Eu queria escrever uns versos para Ray Bradbury,
o primeiro que, depois da infância, conseguiu encantar-me com suas histórias mágicas
como no tempo em que acreditávamos no Menino Jesus
que vinha deixar presentes de Natal em nossos sapatos empoeirados de meninos
e nada tinha a ver com a impenetrável Santíssima Trindade.
Era no tempo das verdadeiras princesas,
nossas belíssimas primeiras namoradas
— não essas que saem periodicamente nos jornais.
Era no tempo dos reis verdadeiramente heráldicos como os das cartas de jogar
e do bravo São Jorge, com seu cavalo branco, sua lança e seu dragão.
Era no tempo em que o cavaleiro Dom Quixote
realmente lutava com gigantes,
os quais se disfarçavam em moinhos de vento.
Todo esse encantamento de uma idade perdida
Ray Bradbury o transportou para a Idade Estelar
e os nossos antigos balõezinhos de cor
agora são mundos girando no ar.
Depois de tantos anos de cínico materialismo
Ray Bradbury é a nossa segunda vovozinha velha
que nos vai desfiando suas histórias à beira do abismo
— e nos enche de susto, esperança e amor.

Mário Quintana, "Esconderijos do tempo"

Prontos para o dia

 


Súplica por uma árvore

Um dia, um professor comovido falava-me de árvores. Seu avô conhecera Andersen, esse pequeno deus que encantou para sempre a infância, todas as infâncias, com suas maravilhosas historias. Mas, além de conhecer Andersen, o avô desse comovido professor legara a seus descendentes uma recordação extremamente terna: ao sentir que se aproximava o fim de sua vida, pediu que o transportassem aos lugares amados, onde brincara em menino, para abraçar e beijar as árvores daquele mundo antigo – mundo de sonho, pureza, poesia – povoado de crianças, ramos, flores, pássaros... O professor comovido transportava-se a esse tempo de ternura, pensava nesse avô tão sensível, e continuava a participar, com ele, dessa cordialidade geral, desse agradecido amor à Natureza que, em silêncio, nos rodeia com a sua proteção, mesmo obscura e enigmática.

Lembrei-me de tudo isso ao contemplar uma árvore que não conheço, e cujo tronco há quinze dias se encontra ferido, lascado pelo choque de um táxi desgovernado. Segundo os técnicos, se não for socorrida, essa árvore deverá morrer dentro em breve: pois a pancada que a atingiu afetou-a na profundidade de sua vida.
Cecília Meireles, "O que se diz e o que se entende"