quinta-feira, setembro 25
Ode à Paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos.
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos.
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História, deixa passar a Vida!
Natália Correia
Prólogo
Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho.
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.
Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos.
João Nogueira queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem.
Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem as suas manias.
Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam.
Trabalhamos alguns dias. À tardinha Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes, trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a consertar com dois ou três homens, alcançava S. Bernardo. Comentava os telegramas dos jornais, atacava o governo, bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, comandava com submissão:
— Vamos a isso.
Íamos para o alpendre, mergulhávamos em cadeiras de vime e ajeitávamos o enredo, fumando, olhando as novilhas caracus que pastavam no prado, embaixo, e mais longe, à entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.
A princípio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada um prestava atenção às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me fervilhavam na cabeça.
O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:
— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.
— Não pode? perguntei com assombro. E por quê?
Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
Levantei-me e encostei-me à balaustrada para ver de perto o touro limosino que Marciano conduzia ao estábulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena. Em seguida enchi o cachimbo:
— É o diabo, Gondim. O mingau virou água. Três tentativas falhadas num mês!
Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquimedes a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despesas e poria o meu nome na capa.
Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos.
João Nogueira queria o romance em língua de Camões, com períodos formados de trás para diante. Calculem.
Padre Silvestre recebeu-me friamente. Depois da revolução de Outubro, tornou-se uma fera, exige devassas rigorosas e castigos para os que não usaram lenços vermelhos. Torceu-me a cara. E éramos amigos. Patriota. Está direito: cada qual tem as suas manias.
Afastei-o da combinação e concentrei as minhas esperanças em Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam.
Trabalhamos alguns dias. À tardinha Azevedo Gondim entregava a redação ao Arquimedes, trancava a gaveta onde guarda os níqueis e as pratas, tomava a bicicleta e, pedalando meia hora pela estrada de rodagem que ultimamente Casimiro Lopes andava a consertar com dois ou três homens, alcançava S. Bernardo. Comentava os telegramas dos jornais, atacava o governo, bebia um copo de conhaque que Maria das Dores lhe trazia e, sentindo-se necessário, comandava com submissão:
— Vamos a isso.
Íamos para o alpendre, mergulhávamos em cadeiras de vime e ajeitávamos o enredo, fumando, olhando as novilhas caracus que pastavam no prado, embaixo, e mais longe, à entrada da mata, o telhado vermelho da serraria.
A princípio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada um prestava atenção às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as ideias confusas que me fervilhavam na cabeça.
O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:
— Vá para o inferno, Gondim. Você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!
Azevedo Gondim apagou o sorriso, engoliu em seco, apanhou os cacos da sua pequenina vaidade e replicou amuado que um artista não pode escrever como fala.
— Não pode? perguntei com assombro. E por quê?
Azevedo Gondim respondeu que não pode porque não pode.
— Foi assim que sempre se fez. A literatura é a literatura, seu Paulo. A gente discute, briga, trata de negócios naturalmente, mas arranjar palavras com tinta é outra coisa. Se eu fosse escrever como falo, ninguém me lia.
Levantei-me e encostei-me à balaustrada para ver de perto o touro limosino que Marciano conduzia ao estábulo. Uma cigarra começou a chiar. A velha Margarida veio vindo pelo paredão do açude, curvada em duas. Na torre da igreja uma coruja piou. Estremeci, pensei em Madalena. Em seguida enchi o cachimbo:
— É o diabo, Gondim. O mingau virou água. Três tentativas falhadas num mês!
Beba conhaque, Gondim.
Graciliano Ramos, "S. Bernardo"
Graciliano Ramos, "S. Bernardo"
Ruína
Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros, "Ensaios fotográficos".
Manoel de Barros, "Ensaios fotográficos".
Bar
A moça chegou com sapatinho baixo, saia curta, cabelos lisos castanhos arrumados em rabo-de-cavalo, sorriu dentes branquinhos muito pequenos, como de primeira dentição, e falou o senhor me deixa telefonar? de maneira inescapável.
O homem da caixa registradora estava olhando o movimento do bar, tomando conta de maneira meio preguiçosa, sem fixar muito os olhos no que o rapaz do balcão já havia servido aos dois fregueses silenciosos, demorando-os mais no bêbado que balançava-se à porta do botequim ameaçando entrar e afinal parando-os no recheio da blusinha preta sem mangas que estava à sua frente, o que o fez despertar completamente com um e a senhora o que é?
A moça constatou contrariada que havia desperdiçado a primeira carga de charme e mostrou novamente seus pequeninos dentes, agora fazendo a precisadinha urgente, dizendo eu posso telefonar? com ar de quem entrega ao outro todas as esperanças.
O homem falou pois não e levantou a mão meio gorda do teclado da caixa registradora, abaixou-a olhando para o bêbado que subia o degrau da porta, retirou de uma prateleira debaixo da registradora um telefone preto onde ainda estava gravado no meio do disco o selo da antiga Companhia Telefônica Brasileira e empurrou-o para a moça dizendo não demore por favor que já vamos fechar.
A moça tirou o fone do gancho e murmurou baixinho putz, sopesou ostensivamente o aparelho e disse bajuladora pesadinho hein?
O homem sorriu atingido pela seta da lisonja dizendo éééé antigo.
A moça levou o fone ao ouvido e discou 277281 com um dedo bem tratado de unha lilás.
O homem da caixa tirou os olhos do dedo, pegou um lápis enganchado na orelha direita e anotou a milhar explicando é pra o bicho, não se importando se a moça ouvia ou não e devolveu o lápis à orelha enquanto olhava o bêbado que navegava agora à beira do balcão.
A moça falou quer fazer o favor de chamar o Otacílio e ficou esperando.
Um homem chegou ao lado dela cheirando a cigarro, falou para o caixa me dá um miníster, olhou intensamente os olhos dela e imediatamente os seios.
A moça enrubesceu e se tocou rápida procurando o botão aberto que nem havia e protegeu-se expirando o ar com o diafragma e avançando os ombros para disfarçar o volume do peito.
A caixa registradora fez tlin, um carro freou rangendo pneus e uma voz forte gritou filha da puta com um muito longo.
O homem da caixa deu o troco ao homem que comprara cigarros e falou faz de conta que não ouviu nada menina isso aqui é assim mesmo.
O homem que comprara cigarros afastou-se e foi ver da porta o que estava acontecendo na rua.
A moça voltou-se simpática para o homem da caixa mas parou atenta aos sons do fone, mudou de atenta a decepcionada e falou depois de instantes diz que é a Julinha.
O homem que comprara cigarros parou na porta, abriu o maço de cigarros e acendeu um.
O homem da caixa falou ô José esse aí tem de pagar primeiro e o rapaz do balcão parou de servir a cachaça para o bêbado e falou qualquer coisa com ele enquanto o homem da caixa procurava explicar-se dizendo depois não paga e ainda espanta freguês.
A moça sorriu condescendente.
O homem fumava à porta e olhava as pernas dela.
A moça pôs uma perna na frente da outra defendendo-se cinqüenta por cento e falou de repente alegre oi! demorou hein? E procurando um pouco de privacidade virou-se dizendo ficou com raiva de mim?
O homem da caixa fingia-se distraído mas ouvia o que ela dizia.
Pensei. Não me ligou.
O bêbado navegou contornando arrecifes e chegou ao caixa com uma nota de quinhentos na mão.
Mas não é isso, não é nada disso.
O homem da caixa disse pode servir José.
Não sei… fiquei com medo, só isso.
O bêbado começou o cruzeiro de volta.
Não, não. Não é de você. Acho que é assim mesmo, não é?
A caixa registradora fez tlin marcando quinhentos cruzeiros.
Poxa, Otacílio, pensa. O tanto de coisa que vem na cabeça da gente numa hora dessas. Vocês acham tudo fácil.
A cara do homem da caixa estava um pouco mais desperta e maliciosa.
Claro que é difícil. É só querer ver o lado da gente, pô.
O rapaz do balcão tirou o mesmo copo meio servido e a mesma garrafa e completou a dose do bêbado.
Tá legal. Eu também acho: vamos esquecer o que aconteceu ontem. Falou.
O bêbado olhou atentamente para o copo como se meditasse mas na verdade apenas esperando o momento certo de conjugar o movimento do navio com o de levar o copo à boca e quando o conseguiu bebeu tudo de uma vez com uma careta e um arrepio.
A moça ouviu com ar travesso o que Otacílio dizia e sorriu excitada seus dentes branquinhos.
O homem da caixa olhou para o homem da porta e a cumplicidade masculina brotou nos olhares.
Não, sábado não dá. Aí já passou. Ora, como. Passou do dia, Ota, não dá. Não dá pra explicar aqui. Você não entende? Tem dia que dá e tem dia que não dá, pô.
O homem da caixa piscou para o homem que fumava na porta como quem diz você que tava certo.
Uai, só daqui a uns quinze dias. Lógico que eu me informei.
A moça viu o olhar do homem da porta e virou-lhe as costas.
Hoje!? Tá louco?
O homem que fumava ficou olhando-a por trás.
Papai não vai deixar. Só se… Só se eu falar com a mamãe e ela falar com ele.
Alguém chegou e falou cobra duas cervejas e me dá um drops desse aqui ó hortelã.
Ora, que que eu vou falar. Não sei, pô. Eu dou um jeito. Pode deixar que eu me viro.
A caixa fez tlin e o homem foi embora sem que ela o visse.
Não, eu vou. De qualquer jeito eu vou. Agora eu que tou querendo.
A moça olhou para o homem da caixa e fugiu depressa daquela cara agora debochada.
Então me espera. Eu vou aí. Chau.
A moça desligou e ficou uns instantes com o olhar baixo tomando coragem e depois falou para o homem posso ligar só mais unzinho?
O homem da caixa falou pode alongando o o muito liberal e olhando fixamente de cima a sugestão do decote.
A moça procurou um ponto neutro para olhar e achou o rapaz que lavava copos atrás do balcão, enquanto esperava o sinal do telefone, depois discou 474729 e ficou olhando o ambiente.
Uma armadilha azul fluorescente de eletrocutar moscas aguardava vítimas.
O rapaz do balcão olhava-a furtivamente e murmurou gostosa, de dentes trincados.
O bêbado esperava o melhor momento de descer do degrau para a rua com um pé no chão e outro no ar, como alguém inseguro que se prepara para descer de um bonde andando.
O homem da porta juntou os cinco dedos da mão direita e levou-os à boca num beijinho transmitindo ao homem da caixa sua opinião sobre ela.
O homem da caixa respondeu segurando a pontinha da orelha direita como quem diz é uma delícia.
A moça murmurou será que saíram? explicando-se para ninguém.
Os dois homens silenciosos que bebiam cerveja encostados no balcão não estavam mais lá.
A moça ficou de lado e o homem da caixa fez um galeio para ver um pouco mais de peitinho pelo vão lateral da blusinha sem mangas.
A moça emitiu um ah de alívio, puxou o fio até onde dava e meio abaixou-se de costas para dizer mamãe? é Júlia com uma voz abafada por braços e mãos e concentrada no que ia dizer.
O homem da porta, o rapaz do balcão e o homem da caixa se olharam rapidamente.
Olha, eu jantei aqui na cidade com a Marilda. Ora, mamãe, a senhora conhece a Marilda, até já dormiu aí em casa. É, é essa. Olha: agora a gente vai ao cinema, viu? Que tarde, mamãe, tem uma sessão às dez e meia. Se ficar muito tarde eu vou dormir na casa dela. É só porque é mais perto, mamãe, senão a gente ia praí. Não tem. A senhora sabe que não tem. A senhora fala com papai pra mim? Não, eu não vou falar. Tá bom. Eu ligo depois do cinema. Só pra confirmar, hein, porque o mais certo é a gente ir pra lá. Um beijo. Bota a gatinha pra dentro, viu? Chau.
A moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é.
O homem da caixa não estava mais lá e falou pra você não é nada gostosa, atrás dela.
A moça se voltou rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas.
Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela.
Ivan Ângelo, “A Face Horrível”
O homem da caixa registradora estava olhando o movimento do bar, tomando conta de maneira meio preguiçosa, sem fixar muito os olhos no que o rapaz do balcão já havia servido aos dois fregueses silenciosos, demorando-os mais no bêbado que balançava-se à porta do botequim ameaçando entrar e afinal parando-os no recheio da blusinha preta sem mangas que estava à sua frente, o que o fez despertar completamente com um e a senhora o que é?
A moça constatou contrariada que havia desperdiçado a primeira carga de charme e mostrou novamente seus pequeninos dentes, agora fazendo a precisadinha urgente, dizendo eu posso telefonar? com ar de quem entrega ao outro todas as esperanças.
O homem falou pois não e levantou a mão meio gorda do teclado da caixa registradora, abaixou-a olhando para o bêbado que subia o degrau da porta, retirou de uma prateleira debaixo da registradora um telefone preto onde ainda estava gravado no meio do disco o selo da antiga Companhia Telefônica Brasileira e empurrou-o para a moça dizendo não demore por favor que já vamos fechar.
A moça tirou o fone do gancho e murmurou baixinho putz, sopesou ostensivamente o aparelho e disse bajuladora pesadinho hein?
O homem sorriu atingido pela seta da lisonja dizendo éééé antigo.
A moça levou o fone ao ouvido e discou 277281 com um dedo bem tratado de unha lilás.
O homem da caixa tirou os olhos do dedo, pegou um lápis enganchado na orelha direita e anotou a milhar explicando é pra o bicho, não se importando se a moça ouvia ou não e devolveu o lápis à orelha enquanto olhava o bêbado que navegava agora à beira do balcão.
A moça falou quer fazer o favor de chamar o Otacílio e ficou esperando.
Um homem chegou ao lado dela cheirando a cigarro, falou para o caixa me dá um miníster, olhou intensamente os olhos dela e imediatamente os seios.
A moça enrubesceu e se tocou rápida procurando o botão aberto que nem havia e protegeu-se expirando o ar com o diafragma e avançando os ombros para disfarçar o volume do peito.
A caixa registradora fez tlin, um carro freou rangendo pneus e uma voz forte gritou filha da puta com um muito longo.
O homem da caixa deu o troco ao homem que comprara cigarros e falou faz de conta que não ouviu nada menina isso aqui é assim mesmo.
O homem que comprara cigarros afastou-se e foi ver da porta o que estava acontecendo na rua.
A moça voltou-se simpática para o homem da caixa mas parou atenta aos sons do fone, mudou de atenta a decepcionada e falou depois de instantes diz que é a Julinha.
O homem que comprara cigarros parou na porta, abriu o maço de cigarros e acendeu um.
O homem da caixa falou ô José esse aí tem de pagar primeiro e o rapaz do balcão parou de servir a cachaça para o bêbado e falou qualquer coisa com ele enquanto o homem da caixa procurava explicar-se dizendo depois não paga e ainda espanta freguês.
A moça sorriu condescendente.
O homem fumava à porta e olhava as pernas dela.
A moça pôs uma perna na frente da outra defendendo-se cinqüenta por cento e falou de repente alegre oi! demorou hein? E procurando um pouco de privacidade virou-se dizendo ficou com raiva de mim?
O homem da caixa fingia-se distraído mas ouvia o que ela dizia.
Pensei. Não me ligou.
O bêbado navegou contornando arrecifes e chegou ao caixa com uma nota de quinhentos na mão.
Mas não é isso, não é nada disso.
O homem da caixa disse pode servir José.
Não sei… fiquei com medo, só isso.
O bêbado começou o cruzeiro de volta.
Não, não. Não é de você. Acho que é assim mesmo, não é?
A caixa registradora fez tlin marcando quinhentos cruzeiros.
Poxa, Otacílio, pensa. O tanto de coisa que vem na cabeça da gente numa hora dessas. Vocês acham tudo fácil.
A cara do homem da caixa estava um pouco mais desperta e maliciosa.
Claro que é difícil. É só querer ver o lado da gente, pô.
O rapaz do balcão tirou o mesmo copo meio servido e a mesma garrafa e completou a dose do bêbado.
Tá legal. Eu também acho: vamos esquecer o que aconteceu ontem. Falou.
O bêbado olhou atentamente para o copo como se meditasse mas na verdade apenas esperando o momento certo de conjugar o movimento do navio com o de levar o copo à boca e quando o conseguiu bebeu tudo de uma vez com uma careta e um arrepio.
A moça ouviu com ar travesso o que Otacílio dizia e sorriu excitada seus dentes branquinhos.
O homem da caixa olhou para o homem da porta e a cumplicidade masculina brotou nos olhares.
Não, sábado não dá. Aí já passou. Ora, como. Passou do dia, Ota, não dá. Não dá pra explicar aqui. Você não entende? Tem dia que dá e tem dia que não dá, pô.
O homem da caixa piscou para o homem que fumava na porta como quem diz você que tava certo.
Uai, só daqui a uns quinze dias. Lógico que eu me informei.
A moça viu o olhar do homem da porta e virou-lhe as costas.
Hoje!? Tá louco?
O homem que fumava ficou olhando-a por trás.
Papai não vai deixar. Só se… Só se eu falar com a mamãe e ela falar com ele.
Alguém chegou e falou cobra duas cervejas e me dá um drops desse aqui ó hortelã.
Ora, que que eu vou falar. Não sei, pô. Eu dou um jeito. Pode deixar que eu me viro.
A caixa fez tlin e o homem foi embora sem que ela o visse.
Não, eu vou. De qualquer jeito eu vou. Agora eu que tou querendo.
A moça olhou para o homem da caixa e fugiu depressa daquela cara agora debochada.
Então me espera. Eu vou aí. Chau.
A moça desligou e ficou uns instantes com o olhar baixo tomando coragem e depois falou para o homem posso ligar só mais unzinho?
O homem da caixa falou pode alongando o o muito liberal e olhando fixamente de cima a sugestão do decote.
A moça procurou um ponto neutro para olhar e achou o rapaz que lavava copos atrás do balcão, enquanto esperava o sinal do telefone, depois discou 474729 e ficou olhando o ambiente.
Uma armadilha azul fluorescente de eletrocutar moscas aguardava vítimas.
O rapaz do balcão olhava-a furtivamente e murmurou gostosa, de dentes trincados.
O bêbado esperava o melhor momento de descer do degrau para a rua com um pé no chão e outro no ar, como alguém inseguro que se prepara para descer de um bonde andando.
O homem da porta juntou os cinco dedos da mão direita e levou-os à boca num beijinho transmitindo ao homem da caixa sua opinião sobre ela.
O homem da caixa respondeu segurando a pontinha da orelha direita como quem diz é uma delícia.
A moça murmurou será que saíram? explicando-se para ninguém.
Os dois homens silenciosos que bebiam cerveja encostados no balcão não estavam mais lá.
A moça ficou de lado e o homem da caixa fez um galeio para ver um pouco mais de peitinho pelo vão lateral da blusinha sem mangas.
A moça emitiu um ah de alívio, puxou o fio até onde dava e meio abaixou-se de costas para dizer mamãe? é Júlia com uma voz abafada por braços e mãos e concentrada no que ia dizer.
O homem da porta, o rapaz do balcão e o homem da caixa se olharam rapidamente.
Olha, eu jantei aqui na cidade com a Marilda. Ora, mamãe, a senhora conhece a Marilda, até já dormiu aí em casa. É, é essa. Olha: agora a gente vai ao cinema, viu? Que tarde, mamãe, tem uma sessão às dez e meia. Se ficar muito tarde eu vou dormir na casa dela. É só porque é mais perto, mamãe, senão a gente ia praí. Não tem. A senhora sabe que não tem. A senhora fala com papai pra mim? Não, eu não vou falar. Tá bom. Eu ligo depois do cinema. Só pra confirmar, hein, porque o mais certo é a gente ir pra lá. Um beijo. Bota a gatinha pra dentro, viu? Chau.
A moça ergueu-se, desligou o telefone e perguntou quanto é.
O homem da caixa não estava mais lá e falou pra você não é nada gostosa, atrás dela.
A moça se voltou rápida e viu que todas as portas do bar estavam fechadas.
Os três homens, narinas dilatadas, formavam um meio círculo em torno dela.
Ivan Ângelo, “A Face Horrível”
quarta-feira, setembro 24
Pedra filosofal
Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
António Gedeão
Solilóquio
Vão tirar o terminal do meu ônibus do centro da cidade, vão tirar do centro da cidade o meu ônibus, vão me tirar do centro da cidade?
Vão tirar da cidade o centro da cidade, vão tirar da cidade toda a cidade, vão fazer o que da cidade?
Vão plantar uma cidade nova no lugar da cidade carcomida, vão desistir de manter as ruínas da cidade, vão decretar que cidade não é mais de a gente viver?
Vão fazer ruas de cima para baixo, em forma de cisterna, para o que já se abrem os competentes buracos e se desaconselha andar na superfície para não prejudicar as obras?
Vão me dar passagem entre o tapume e a pista de corridas, entre o poço e a poça de lama, ou não vão deixar mais que use as pernas e os pés por estarem definitivamente fora de moda?
Vão permitir que eu siga o meu itinerário de trabalho sobre a capota dos automóveis, saltando de uma para outra depois de treinado em academia de técnica pedestre, ou vão estatuir que eu e mais nove concidadãos de bom físico carreguemos nas costas o automóvel, a fim de que automóveis e nós possamos chegar a destino, passando no que outrora se chamava de rua?
Vão dizer quantas pessoas podem sair de casa, a quantas horas, por quanto tempo, e por onde será permitido caminhar, durante quantos minutos, para que as turmas seguintes não sejam prejudicadas na regalia de ir e vir na cidade entupida?
Vão acabar com a cidade, todas as cidades, vão acabar com homem e a mulher também, vão fazer o quê, depois que eles mesmos acabarem?
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Vão tirar da cidade o centro da cidade, vão tirar da cidade toda a cidade, vão fazer o que da cidade?
Vão plantar uma cidade nova no lugar da cidade carcomida, vão desistir de manter as ruínas da cidade, vão decretar que cidade não é mais de a gente viver?
Vão fazer ruas de cima para baixo, em forma de cisterna, para o que já se abrem os competentes buracos e se desaconselha andar na superfície para não prejudicar as obras?
Vão me dar passagem entre o tapume e a pista de corridas, entre o poço e a poça de lama, ou não vão deixar mais que use as pernas e os pés por estarem definitivamente fora de moda?
Vão permitir que eu siga o meu itinerário de trabalho sobre a capota dos automóveis, saltando de uma para outra depois de treinado em academia de técnica pedestre, ou vão estatuir que eu e mais nove concidadãos de bom físico carreguemos nas costas o automóvel, a fim de que automóveis e nós possamos chegar a destino, passando no que outrora se chamava de rua?
Vão dizer quantas pessoas podem sair de casa, a quantas horas, por quanto tempo, e por onde será permitido caminhar, durante quantos minutos, para que as turmas seguintes não sejam prejudicadas na regalia de ir e vir na cidade entupida?
Vão acabar com a cidade, todas as cidades, vão acabar com homem e a mulher também, vão fazer o quê, depois que eles mesmos acabarem?
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"
Serão tristes as oliveiras?
Aquela senhora que conheci no comboio, olhando pela janela, disse-me a certa altura que a oliveira é uma árvore triste. Olhei também e estive quase a concordar. Agora felicito-me, porque não foi preciso. Lembro-me que a senhora ia vestida de preto. Talvez lhe tivesse morrido alguém. Às oliveiras daquele olival que passava lá fora é que eu tenho a certeza de que não faltava nada: nem sol, nem uma leve brisa, nem um fruto grado, prometedor. E perguntei para mim, ao descer do comboio:
- Porque maltratamos as oliveiras?
Ruy Belo, "Homem de palabra[s]"
Nhola dos Anjos e a cheia do Corumbá
— Fio, fais um zóio de boi lá fora pra nóis.
O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole — outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo equilátero.
Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:
— Pronto, vó.
— O rio já encheu mais? — perguntou ela.
— Chi, tá um mar d’água! Qué vê, espia, — e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto, pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um “ar de estupor” e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram.
Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal.
O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, — que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, — tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.
— Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajudá, nóis se muda.
Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso.
A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher te pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.
Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo — ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo.
A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo.
Já tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo, de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente.
No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a decadência. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas.
“— Este ano, se Deus ajudá, nóis se muda.” Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido: “— Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis”. Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado.
A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, —
o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.
Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte — era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia.
No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado.
— Ocê bota a gente hoje em riba do jirau, viu? — pediu ela ao filho. — Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.
Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta.
Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar.
Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro.
— Adonde será que tá o chulinho?
Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam nágua com um barulhinho brincalhão — tchibungue — tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as pernas inúteis de mãe Nhola:
— Nossa Senhora d’Abadia do Muquém!
— Meu Divino Padre Eterno!
O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira, cuias, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorções diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.
— Cá, nego, cá, nego — Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pêlo molhado, trêmulo, e começou a lamber a cara do menino.
O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco. — que se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva, — e que arrastava as palhas, as taquaras da parede, os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras.
Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada.
— E o chulinho? — perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro.
Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcançar as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores, sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.
— É o mato? — perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite.
Sim. O mato se aproximava, discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável — deviam ser as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis, mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza.
Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar à cachoeira, cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentando enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.
A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir, sob pena de irem todos para o fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.
As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis, arrastando as pernas mortas que as águas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava, abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho, que era perrengue e estava grudado nele.
Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d’água espirrou no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.
Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe, se tivesse pernas vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo.
Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse…
Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas escorrendo ao longo do rio?
Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira, cujo ronco escurecia mais ainda a treva?
— Mãe, ô mãe!
— Mãe, a senhora tá aí?
E as águas escachoantes, rugindo, espumejando, refletindo cinicamente a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado, estuporado.
— Mãe, ô mãe! Eu num sabia que era raso.
— Pera aí, mãe.
O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele adentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos.
— Mãe! — lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite, até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.
Bernardo Élis, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”
O menino saiu do rancho com um baixeiro na cabeça, e no terreiro, debaixo da chuva miúda e continuada, enfincou o calcanhar na lama, rodou sobre ele o pé, riscando com o dedão uma circunferência no chão mole — outra e mais outra. Três círculos entrelaçados, cujos centros formavam um triângulo equilátero.
Isto era simpatia para fazer estiar. E o menino voltou:
— Pronto, vó.
— O rio já encheu mais? — perguntou ela.
— Chi, tá um mar d’água! Qué vê, espia, — e apontou com o dedo para fora do rancho. A velha foi até a porta e lançou a vista. Para todo lado havia água. Somente para o sul, para a várzea, é que estava mais enxuto, pois o braço do rio aí era pequeno. A velha voltou para dentro, arrastando-se pelo chão, feito um cachorro, cadela, aliás: era entrevada. Havia vinte anos apanhara um “ar de estupor” e desde então nunca mais se valera das pernas, que murcharam e se estorceram.
Começou a escurecer nevroticamente. Uma noite que vinha vagarosamente, irremediavelmente, como o progresso de uma doença fatal.
O Quelemente, filho da velha, entrou. Estava ensopadinho da silva. Dependurou numa forquilha a caroça, — que é a maneira mais analfabeta de se esconder da chuva, — tirou a camisa molhada do corpo e se agachou na beira da fornalha.
— Mãe, o vau tá que tá sumino a gente. Este ano mesmo, se Deus ajudá, nóis se muda.
Onde ele se agachou, estava agora uma lagoa, da água escorrida da calça de algodão grosso.
A velha trouxe-lhe um prato de folha e ele começou a tirar, com a colher te pau, o feijão quente da panela de barro. Era um feijão brancacento, cascudo, cozido sem gordura. Derrubou farinha de mandioca em cima, mexeu e pôs-se a fazer grandes capitães com a mão, com que entrouxava a bocarra.
Agora a gente só ouvia o ronco do rio lá embaixo — ronco confuso, rouco, ora mais forte, ora mais fraco, como se fosse um zunzum subterrâneo.
A calça de algodão cru do roceiro fumegava ante o calor da fornalha, como se pegasse fogo.
Já tinha pra mais de oitenta anos que os dos Anjos moravam ali na foz do Capivari no Corumbá. O rancho se erguia num morrote a cavaleiro de terrenos baixos e paludosos. A casa ficava num triângulo, de que dois lados eram formados por rios, e o terceiro, por uma vargem de buritis. Nos tempos de cheias os habitantes ficavam ilhados, mas a passagem da várzea era rasa e podia-se vadear perfeitamente.
No tempo da guerra do Lopes, ou antes ainda, o avô de Quelemente veio de Minas e montou ali sua fazenda de gado, pois a formação geográfica construíra um excelente apartador. O gado, porém, quando o velho morreu, já estava quase extinto pelas ervas daninhas. Daí para cá foi a decadência. No lugar da casa de telhas, que ruiu, ergueram um rancho de palhas. A erva se incumbiu de arrasar o resto do gado e as febres as pessoas.
“— Este ano, se Deus ajudá, nóis se muda.” Há quarenta anos a velha Nhola vinha ouvindo aquela conversa fiada. A princípio fora seu marido: “— Nóis precisa de mudá, pruquê senão a água leva nóis”. Ele morreu de maleita e os outros continuaram no lugar. Depois era o filho que falava assim, mas nunca se mudara. Casara-se ali: tivera um filho; a mulher dele, nora de Nhola, morreu de maleita. E ainda continuaram no mesmo lugar a velha Nhola, o filho Quelemente e o neto, um biruzinho sempre perrengado.
A chuva caía meticulosamente, sem pressa de cessar. A palha do rancho porejava água, fedia a podre, derrubando dentro da casa uma infinidade de bichos que a sua podridão gerava. Ratos, sapos, baratas, grilos, aranhas, —
o diabo refugiava-se ali dentro, fugindo à inundação, que aos poucos ia galgando a perambeira do morrote.
Quelemente saiu ao terreiro e olhou a noite. Não havia céu, não havia horizonte — era aquela coisa confusa, translúcida e pegajosa. Clareava as trevas o branco leitoso das águas que cercavam o rancho. Ali pras bandas da vargem é que ainda se divisava o vulto negro e mal recortado do mato. Nem uma estrela. Nem um pirilampo. Nem um relâmpago. A noite era feito um grande cadáver, de olhos abertos e embaciados. Os gritos friorentos das marrecas povoavam de terror o ronco medonho da cheia.
No canto escuro do quarto, o pito da velha Nhola acendia-se e apagava-se sinistramente, alumiando seu rosto macilento e fuxicado.
— Ocê bota a gente hoje em riba do jirau, viu? — pediu ela ao filho. — Com essa chuveira de dilúvio, tudo quanto é mundice entra pro rancho e eu num quero drumi no chão não.
Ela receava a baita cascavel que inda agorinha atravessara a cozinha numa intimidade pachorrenta.
Quelemente sentiu um frio ruim no lombo. Ele dormia com a roupa ensopada, mas aquele frio que estava sentindo era diferente. Foi puxar o baixeiro e nisto esbarrou com água. Pulou do jirau no chão e a água subiu-lhe ao umbigo. Sentiu um aperto no coração e uma tonteira enjoada. O rancho estava viscosamente iluminado pelo reflexo do líquido. Uma luz cansada e incômoda, que não permitia divisar os contornos das coisas. Dirigiu-se ao jirau da velha. Ela estava agachada sobre ele, com um brilho aziago no olhar.
Lá fora o barulhão confuso, subterrâneo, sublinhado pelo uivo de um cachorro.
— Adonde será que tá o chulinho?
Foi quando uma parede do rancho começou a desmoronar. Os torrões de barro do pau-a-pique se desprendiam dos amarrilhos de embiras e caíam nágua com um barulhinho brincalhão — tchibungue — tibungue. De repente, foi-se todo o pano de parede. As águas agitadas vieram banhar as pernas inúteis de mãe Nhola:
— Nossa Senhora d’Abadia do Muquém!
— Meu Divino Padre Eterno!
O menino chorava aos berros, tratando de subir pelos ombros da estuporada e alcançar o teto. Dentro da casa, boiavam pedaços de madeira, cuias, coités, trapos e a superfície do líquido tinha umas contorções diabólicas de espasmos epiléticos, entre as espumas alvas.
— Cá, nego, cá, nego — Nhola chamou o chulinho que vinha nadando pelo quarto, soprando a água. O animal subiu ao jirau e sacudiu o pêlo molhado, trêmulo, e começou a lamber a cara do menino.
O teto agora começava a desabar, estralando, arriando as palhas no rio, com um vagar irritante, com uma calma perversa de suplício. Pelo vão da parede desconjuntada podia-se ver o lençol branco. — que se diluía na cortina diáfana, leitosa do espaço repleto de chuva, — e que arrastava as palhas, as taquaras da parede, os detritos da habitação. Tudo isso descia em longa fila, aos mansos boléus das ondas, ora valsando em torvelinhos, ora parando nos remansos enganadores. A porta do rancho também ia descendo. Era feita de paus de buritis amarrados por embiras.
Quelemente nadou, apanhou-a, colocou em cima a mãe e o filho, tirou do teto uma ripa mais comprida para servir de varejão, e lá se foram derivando, nessa jangada improvisada.
— E o chulinho? — perguntou o menino, mas a única resposta foi mesmo o uivo do cachorro.
Quelemente tentava atirar a jangada para a vargem, a fim de alcançar as árvores. A embarcação mantinha-se a coisa de dois dedos acima da superfície das águas, mas sustinha satisfatoriamente a carga. O que era preciso era alcançar a vargem, agarrar-se aos galhos das árvores, sair por esse único ponto mais próximo e mais seguro. Daí em diante o rio pegava a estreitar-se entre barrancos atacados, até cair na cachoeira. Era preciso evitar essa passagem, fugir dela. Ainda se se tivesse certeza de que a enchente houvesse passado acima do barranco e extravasado pela campina adjacente a ele, podia-se salvar por ali. Do contrário, depois de cair no canal, o jeito era mesmo espatifar-se na cachoeira.
— É o mato? — perguntou engasgadamente Nhola, cujos olhos de pua furavam o breu da noite.
Sim. O mato se aproximava, discerniam-se sobre o líquido grandes manchas, sonambulicamente pesadas, emergindo do insondável — deviam ser as copas das árvores. De súbito, porém, a sirga não alcançou mais o fundo. A correnteza pegou a jangada de chofre, fê-la tornear rapidamente e arrebatou-a no lombo espumarento. As três pessoas agarraram-se freneticamente aos buritis, mas um tronco de árvore que derivava chocou-se com a embarcação, que agora corria na garupa da correnteza.
Quelemente viu a velha cair nágua, com o choque, mas não pôde nem mover-se: procurava, por milhares de cálculos, escapar à cachoeira, cujo rugido se aproximava de uma maneira desesperadora. Investigava a treva, tentando enxergar os barrancos altos daquele ponto do curso. Esforçava-se para identificar o local e atinar com um meio capaz de os salvar daquele estrugir encapetado da cachoeira.
A velha debatia-se, presa ainda à jangada por uma mão, despendendo esforços impossíveis por subir novamente para os buritis. Nisso Quelemente notou que a jangada já não suportava três pessoas. O choque com o tronco de árvore havia arrebentado os atilhos e metade dos buritis havia-se desligado e rodado. A velha não podia subir, sob pena de irem todos para o fundo. Ali já não cabia ninguém. Era o rio que reclamava uma vítima.
As águas roncavam e cambalhotavam espumejantes na noite escura que cegava os olhos, varrida de um vento frio e sibilante. A nado, não havia força capaz de romper a correnteza nesse ponto. Mas a velha tentava energicamente trepar novamente para os buritis, arrastando as pernas mortas que as águas metiam por baixo da jangada. Quelemente notou que aquele esforço da velha estava fazendo a embarcação perder a estabilidade. Ela já estava quase abaixo das águas. A velha não podia subir. Não podia. Era a morte que chegava, abraçando Quelemente com o manto líquido das águas sem fim. Tapando a sua respiração, tapando seus ouvidos, seus olhos, enchendo sua boca de água, sufocando-o, sufocando-o, apertando sua garganta. Matando seu filho, que era perrengue e estava grudado nele.
Quelemente segurou-se bem aos buritis e atirou um coice valente na cara aflissurada da velha Nhola. Ela afundou-se para tornar a aparecer, presa ainda à borda da jangada, os olhos fuzilando numa expressão de incompreensão e terror espantado. Novo coice melhor aplicado e um tufo d’água espirrou no escuro. Aquele último coice, entretanto, desequilibrou a jangada, que fugiu das mãos de Quelemente, desamparando-o no meio do rio.
Ao cair, porém, sem querer, ele sentiu sob seus pés o chão seguro. Ali era um lugar raso. Devia ser a campina adjacente ao barranco. Era raso. O diabo da correnteza, porém, o arrastava, de tão forte. A mãe, se tivesse pernas vivas, certamente teria tomado pé, estaria salva. Suas pernas, entretanto, eram uns molambos sem governo, um estorvo.
Ah! se ele soubesse que aquilo era raso, não teria dado dois coices na cara da velha, não teria matado uma entrevada que queria subir para a jangada num lugar raso, onde ninguém se afogaria se a jangada afundasse…
Mas quem sabe ela estava ali, com as unhas metidas no chão, as pernas escorrendo ao longo do rio?
Quem sabe ela não tinha rodado? Não tinha caído na cachoeira, cujo ronco escurecia mais ainda a treva?
— Mãe, ô mãe!
— Mãe, a senhora tá aí?
E as águas escachoantes, rugindo, espumejando, refletindo cinicamente a treva do céu parado, do céu defunto, do céu entrevado, estuporado.
— Mãe, ô mãe! Eu num sabia que era raso.
— Pera aí, mãe.
O barulho do rio ora crescia, ora morria e Quelemente foi-se metendo por ele adentro. A água barrenta e furiosa tinha vozes de pesadelo, resmungo de fantasmas, timbres de mãe ninando filhos doentes, uivos ásperos de cães danados. Abriam-se estranhas gargantas resfolegantes nos torvelinhos malucos e as espumas de noivado ficavam boiando por cima, como flores sobre túmulos.
— Mãe! — lá se foi Quelemente, gritando dentro da noite, até que a água lhe encheu a boca aberta, lhe tapou o nariz, lhe encheu os olhos arregalados, lhe entupiu os ouvidos abertos à voz da mãe que não respondia, e foi deixá-lo, empazinado, nalgum perau distante, abaixo da cachoeira.
Bernardo Élis, “Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século”
terça-feira, setembro 23
Passagem da noite
É noite. Sinto que é noite
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
E noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
não porque a sombra descesse
(bem me importa a face negra)
mas porque dentro de mim,
no fundo de mim, o grito
se calou, fez-se desânimo.
Sinto que nós somos noite,
que palpitamos no escuro
e em noite nos dissolvemos.
Sinto que é noite no vento,
noite nas águas, na pedra.
E que adianta uma lâmpada?
E que adianta uma voz?
E noite no meu amigo.
É noite no submarino.
É noite na roça grande.
É noite, não é morte, é noite
de sono espesso e sem praia.
Não é dor, nem paz, é noite,
é perfeitamente a noite.
Mas salve, olhar de alegria!
E salve, dia que surge!
Os corpos saltam do sono,
o mundo se recompõe.
Que gozo na bicicleta!
Existir: seja como for.
A fraterna entrega do pão.
Amar: mesmo nas canções.
De novo andar: as distâncias,
as cores, posse das ruas.
Tudo que à noite perdemos
se nos confia outra vez.
Obrigado, coisas fiéis!
Saber que ainda há florestas,
sinos, palavras; que a terra
prossegue seu giro, e o tempo
não murchou; não nos diluímos.
Chupar o gosto do dia!
Clara manhã, obrigado,
o essencial é viver!
Carlos Drummond de Andrade
O dragão
A noite soprava na grama curta do pântano; não havia nenhum outro movimento. Anos se passaram sem que um único pássaro tivesse voado na grande concha cega do céu. Muito tempo atrás, um punhado de pequenas pedras havia simulado vida quando se despedaçaram e se transformaram em pó. Agora, apenas a noite se movia nas almas dos dois homens curvados ao lado de sua solitária fogueira na desolação; a escuridão corria calmamente em suas veias e pulsava silenciosamente em suas têmporas e pulsos.
A luz da fogueira dançava para cima e para baixo em seus rostos selvagens e transbordava em seus olhos, em fiapos alaranjados. Eles ouviam a fraca respiração fria um do outro, e o piscar de lagarto de suas pálpebras. Finalmente, um dos homens atiçou o fogo com a espada.
“Não faças isso, idiota; vais nos denunciar.”
“Não importa”, disse o segundo homem. “O dragão pode sentir nosso cheiro a quilômetros de distância, de qualquer jeito. Por Deus, está frio. Gostaria de estar de volta no castelo.”
“É da morte, e não de sono, que estamos atrás...”
“Por quê? Por quê? O dragão nunca põe o pé na cidade!”
“Silêncio, tolo! Ele devora homens que viajam sozinhos de nossa cidade para outra!”
“Deixemos que sejam comidos e voltemos para casa!”
“Agora espera; ouve!”
Os dois homens ficaram paralisados.
Esperaram um longo tempo, mas havia apenas o sacudir da pelagem nervosa de seus cavalos, como pandeiros de veludo tilintando as fivelas dos arreios, suavemente, suavemente.
“Ah”, suspirou o segundo homem. “Que terra de pesadelos. Tudo acontece aqui. Alguém apaga o sol; é noite. E então, e então, ah, doce mortalidade, ouve! Este dragão, dizem que seus olhos são fogo. Seu hálito, um gás branco; pode-se vê-lo atravessar em chamas as terras escuras. Ele corre com enxofre e estrondo e ateia fogo à grama. As ovelhas entram em pânico e morrem loucas. As mulheres dão à luz monstros. A fúria do dragão é tal que as paredes da torre viram pó. Suas vítimas, ao alvorecer, ficam espalhadas aqui e ali, sobre as colinas. Quantos cavaleiros, eu pergunto, partiram no encalço desse monstro e falharam, assim como também poderemos falhar?”
“Chega disso!”
“Passou da conta! Lá fora, nesta desolação, não sei dizer em que ano estamos!”
“Novecentos anos desde a Natividade.”
“Não, não”, sussurrou o segundo homem, os olhos fechados. “Neste pântano não existe Tempo, só existe a Eternidade. Acho que se eu voltasse correndo pela estrada, a cidade teria desaparecido, as pessoas ainda não nascidas, as coisas mudadas, os castelos ainda pedreiras, as madeiras ainda não cortadas das florestas; não perguntes como sei; o pântano sabe e me conta. E aqui estamos sentados sozinhos, na terra do dragão de fogo, que Deus nos proteja!”
“Se estás com medo, coloca a armadura!”
“De que adianta? O dragão aparece do nada; não podemos adivinhar onde ele mora. Ele desaparece na fumaça; não sabemos para onde vai. Deveras, com nossa armadura, morreremos bem vestidos.”
Com o colete de prata meio vestido, o segundo homem parou novamente e virou a cabeça.
Do outro lado do campo mal iluminado, cheio de noite e nada, vindo do coração do próprio pântano, chegava o vento cheio da areia que usavam para marcar o tempo. Havia sóis negros queimando no coração deste vento novo e um milhão de folhas queimadas, arrancadas de alguma árvore de outono além do horizonte. O vento desmanchava paisagens, espichava ossos como cera branca, fazia o sangue rodar e engrossar até virar um precipitado lamacento no cérebro. O vento era mil almas morrendo e todo o Tempo confundido e em trânsito. Era uma fumaça dentro de um círculo de neblina dentro de uma escuridão, e este lugar era um lugar de ninguém e não havia nem ano nem hora, mas apenas esses homens no vazio sem rosto de repentina geada, tempestade e branco trovão que se movia por trás da grande vidraça cadente de vidro verde que era o relâmpago. Uma tromba d’água encharcou a grama; tudo desapareceu até que houve um silêncio sem respiração e os dois homens esperando sozinhos com o calor de seus corpos em uma estação fria.
“Lá”, cochichou o primeiro homem. “Oh, lá...”
A quilômetros de distância, precipitando-se com um grande chamado e um rugido... o dragão.
Em silêncio, os homens afivelaram suas armaduras e montaram em seus cavalos.
A desolação da meia-noite era rompida por um jorro monstruoso, enquanto o dragão chegava mais perto, mais perto; seu olhar amarelo resplandecente projetava-se acima de uma colina e então, dobra a dobra do corpo escuro, visto à distância, portanto indistinto, coleou por sobre aquela colina e mergulhou desaparecendo em um vale.
“Rápido!”
Eles esporearam os cavalos avançando até um pequeno vale.
“É aqui que ele passa!”
Agarraram suas lanças com os punhos cobertos de malha metálica e cegaram os cavalos puxando as viseiras por sobre os olhos deles.
“Deus!”
“Sim, usemos o nome d’Ele.”
Naquele instante, o dragão circundou uma colina, seus monstruosos olhos âmbar pousaram sobre eles, acendendo faíscas e brilhos vermelhos em suas armaduras. Com um grito estridente e terrível e uma fúria rangente avançou.
“Piedade, piedade!”
A lança se enfiou debaixo do olho amarelo sem pálpebra, entortou, atirou o homem pelos ares. O dragão atingiu-o, derrubou-o no chão, esmigalhou-o. Ao passar, o peso negro de seu ombro esmagou o que restava do cavalo e do cavaleiro, arrastando-os por trezentos metros contra a lateral de um rochedo, gritando, gritando, um grito agudo, o fogo por toda parte, em volta, sob ele, um fogo de sol róseo, amarelo, laranja com grandes colunas de fumaça cegante.
“Viu isso?”, gritou uma voz. “Exatamente como lhe contei!”
“A mesma coisa! A mesma coisa! Um cavaleiro de armadura, macacos me mordam! Nós o atingimos!”
“Você vai parar?”
“Parei uma vez; não encontrei nada. Não gosto de parar neste pântano. Me dá calafrios. Tenho impressão que...”
“Mas atingimos alguma coisa!”
“Apitei bastante para ele; o sujeito nem se mexeu!”
Uma explosão de vapor abriu a neblina.
“Vamos conseguir chegar a Stokely a tempo. Mais carvão, hein, Fred?”
Um outro assovio fez cair orvalho do céu vazio. O trem noturno, em fogo e fúria, lançou-se através de uma valeta, subiu e desapareceu ao longe, por sobre a terra fria, em direção ao norte, deixando fumaça negra e vapor se dissolvendo no ar entorpecido minutos depois de ter passado e ir-se para sempre.
Ray Bradbury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
A luz da fogueira dançava para cima e para baixo em seus rostos selvagens e transbordava em seus olhos, em fiapos alaranjados. Eles ouviam a fraca respiração fria um do outro, e o piscar de lagarto de suas pálpebras. Finalmente, um dos homens atiçou o fogo com a espada.
“Não faças isso, idiota; vais nos denunciar.”
“Não importa”, disse o segundo homem. “O dragão pode sentir nosso cheiro a quilômetros de distância, de qualquer jeito. Por Deus, está frio. Gostaria de estar de volta no castelo.”
“É da morte, e não de sono, que estamos atrás...”
“Por quê? Por quê? O dragão nunca põe o pé na cidade!”
“Silêncio, tolo! Ele devora homens que viajam sozinhos de nossa cidade para outra!”
“Deixemos que sejam comidos e voltemos para casa!”
“Agora espera; ouve!”
Os dois homens ficaram paralisados.
Esperaram um longo tempo, mas havia apenas o sacudir da pelagem nervosa de seus cavalos, como pandeiros de veludo tilintando as fivelas dos arreios, suavemente, suavemente.
“Ah”, suspirou o segundo homem. “Que terra de pesadelos. Tudo acontece aqui. Alguém apaga o sol; é noite. E então, e então, ah, doce mortalidade, ouve! Este dragão, dizem que seus olhos são fogo. Seu hálito, um gás branco; pode-se vê-lo atravessar em chamas as terras escuras. Ele corre com enxofre e estrondo e ateia fogo à grama. As ovelhas entram em pânico e morrem loucas. As mulheres dão à luz monstros. A fúria do dragão é tal que as paredes da torre viram pó. Suas vítimas, ao alvorecer, ficam espalhadas aqui e ali, sobre as colinas. Quantos cavaleiros, eu pergunto, partiram no encalço desse monstro e falharam, assim como também poderemos falhar?”
“Chega disso!”
“Passou da conta! Lá fora, nesta desolação, não sei dizer em que ano estamos!”
“Novecentos anos desde a Natividade.”
“Não, não”, sussurrou o segundo homem, os olhos fechados. “Neste pântano não existe Tempo, só existe a Eternidade. Acho que se eu voltasse correndo pela estrada, a cidade teria desaparecido, as pessoas ainda não nascidas, as coisas mudadas, os castelos ainda pedreiras, as madeiras ainda não cortadas das florestas; não perguntes como sei; o pântano sabe e me conta. E aqui estamos sentados sozinhos, na terra do dragão de fogo, que Deus nos proteja!”
“Se estás com medo, coloca a armadura!”
“De que adianta? O dragão aparece do nada; não podemos adivinhar onde ele mora. Ele desaparece na fumaça; não sabemos para onde vai. Deveras, com nossa armadura, morreremos bem vestidos.”
Com o colete de prata meio vestido, o segundo homem parou novamente e virou a cabeça.
Do outro lado do campo mal iluminado, cheio de noite e nada, vindo do coração do próprio pântano, chegava o vento cheio da areia que usavam para marcar o tempo. Havia sóis negros queimando no coração deste vento novo e um milhão de folhas queimadas, arrancadas de alguma árvore de outono além do horizonte. O vento desmanchava paisagens, espichava ossos como cera branca, fazia o sangue rodar e engrossar até virar um precipitado lamacento no cérebro. O vento era mil almas morrendo e todo o Tempo confundido e em trânsito. Era uma fumaça dentro de um círculo de neblina dentro de uma escuridão, e este lugar era um lugar de ninguém e não havia nem ano nem hora, mas apenas esses homens no vazio sem rosto de repentina geada, tempestade e branco trovão que se movia por trás da grande vidraça cadente de vidro verde que era o relâmpago. Uma tromba d’água encharcou a grama; tudo desapareceu até que houve um silêncio sem respiração e os dois homens esperando sozinhos com o calor de seus corpos em uma estação fria.
“Lá”, cochichou o primeiro homem. “Oh, lá...”
A quilômetros de distância, precipitando-se com um grande chamado e um rugido... o dragão.
Em silêncio, os homens afivelaram suas armaduras e montaram em seus cavalos.
A desolação da meia-noite era rompida por um jorro monstruoso, enquanto o dragão chegava mais perto, mais perto; seu olhar amarelo resplandecente projetava-se acima de uma colina e então, dobra a dobra do corpo escuro, visto à distância, portanto indistinto, coleou por sobre aquela colina e mergulhou desaparecendo em um vale.
“Rápido!”
Eles esporearam os cavalos avançando até um pequeno vale.
“É aqui que ele passa!”
Agarraram suas lanças com os punhos cobertos de malha metálica e cegaram os cavalos puxando as viseiras por sobre os olhos deles.
“Deus!”
“Sim, usemos o nome d’Ele.”
Naquele instante, o dragão circundou uma colina, seus monstruosos olhos âmbar pousaram sobre eles, acendendo faíscas e brilhos vermelhos em suas armaduras. Com um grito estridente e terrível e uma fúria rangente avançou.
“Piedade, piedade!”
A lança se enfiou debaixo do olho amarelo sem pálpebra, entortou, atirou o homem pelos ares. O dragão atingiu-o, derrubou-o no chão, esmigalhou-o. Ao passar, o peso negro de seu ombro esmagou o que restava do cavalo e do cavaleiro, arrastando-os por trezentos metros contra a lateral de um rochedo, gritando, gritando, um grito agudo, o fogo por toda parte, em volta, sob ele, um fogo de sol róseo, amarelo, laranja com grandes colunas de fumaça cegante.
“Viu isso?”, gritou uma voz. “Exatamente como lhe contei!”
“A mesma coisa! A mesma coisa! Um cavaleiro de armadura, macacos me mordam! Nós o atingimos!”
“Você vai parar?”
“Parei uma vez; não encontrei nada. Não gosto de parar neste pântano. Me dá calafrios. Tenho impressão que...”
“Mas atingimos alguma coisa!”
“Apitei bastante para ele; o sujeito nem se mexeu!”
Uma explosão de vapor abriu a neblina.
“Vamos conseguir chegar a Stokely a tempo. Mais carvão, hein, Fred?”
Um outro assovio fez cair orvalho do céu vazio. O trem noturno, em fogo e fúria, lançou-se através de uma valeta, subiu e desapareceu ao longe, por sobre a terra fria, em direção ao norte, deixando fumaça negra e vapor se dissolvendo no ar entorpecido minutos depois de ter passado e ir-se para sempre.
Ray Bradbury, "A cidade inteira dorme e outros contos breves"
A leitura de um romance
Ao contemplar uma pintura de grandes proporções, sentimo-nos empolgados por estar na presença de tudo ao mesmo tempo e queremos entrar no quadro. Quando estamos no meio de um volumoso romance, sentimos o estonteante prazer de estar num mundo que não conseguimos ver em sua inteireza. Para ver tudo temos de constantemente transformar os momentos separados em quadros mentais. É esse processo de transformação que torna a leitura de um romance uma tarefa mais pessoal, mais colaborativa que a contemplação de um quadro.
Orhan Pamuk
Orhan Pamuk
Offenbach
A curiosidade de Offenbach não tem limites animais: basta que alguém de nós pare diante das janelas que dão para rua, para ver Offenbach, atrás e abaixo, tentando olhar o que olhamos, por todos os meios, chegando a miar para que o carreguem ou suba ao televisor e, espichando o pescoço, olhar também o que olhamos.
Um dia chegou em casa a bela G. Ch., numa visita breve, e Offenbach, talvez reconhecendo-a, caprichou seu caminhar à Dietrich para atravessar a sala em direção ao estúdio e para inspirar a simpatia eterna à visita: a mesma coisa acontece com qualquer visitante receptivo aos gatos.
Ver Offenbach comer ou tomar água é outro deleite: não pode haver maior finura em atos tão animais. Sua língua sobe e desce na água com uma regularidade metronômica, e, ao comer, morde gentilmente a carne e a engole pouco a pouco, à medida que é mastigada por seus débeis dentes.
Offenbach é um espetáculo de ver até dormindo, sobretudo dormindo. Nos dias de sol ele se regala com a luz e o calor, estirando uma pata à frente enquanto coloca sobre ela a cabeça à maneira de almofada. Nos dias frios se recolhe como uma galinha chocando, perto de um dos radiadores, convertendo-se numa verdadeira bola de pelos, apenas a cabeça saindo de dentro do abrigo natural. Outras vezes usa como travesseiro os objetos mais diferentes: o cabo do telefone, a perna de um radiador, o próprio chão, enquanto seu corpo descansa num coxim. Outras vezes… mas basta.
Guillermo Cabrera Infante, "Os melhores contos de cães e gatos"
Um dia chegou em casa a bela G. Ch., numa visita breve, e Offenbach, talvez reconhecendo-a, caprichou seu caminhar à Dietrich para atravessar a sala em direção ao estúdio e para inspirar a simpatia eterna à visita: a mesma coisa acontece com qualquer visitante receptivo aos gatos.
Ver Offenbach comer ou tomar água é outro deleite: não pode haver maior finura em atos tão animais. Sua língua sobe e desce na água com uma regularidade metronômica, e, ao comer, morde gentilmente a carne e a engole pouco a pouco, à medida que é mastigada por seus débeis dentes.
Offenbach é um espetáculo de ver até dormindo, sobretudo dormindo. Nos dias de sol ele se regala com a luz e o calor, estirando uma pata à frente enquanto coloca sobre ela a cabeça à maneira de almofada. Nos dias frios se recolhe como uma galinha chocando, perto de um dos radiadores, convertendo-se numa verdadeira bola de pelos, apenas a cabeça saindo de dentro do abrigo natural. Outras vezes usa como travesseiro os objetos mais diferentes: o cabo do telefone, a perna de um radiador, o próprio chão, enquanto seu corpo descansa num coxim. Outras vezes… mas basta.
Guillermo Cabrera Infante, "Os melhores contos de cães e gatos"
segunda-feira, setembro 22
Frutos
A bondade da mangueira
não é o fruto.
É a sombra.
A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.
Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.
Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.
A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.
O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore
A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.
Para o homem
vale a polpa.
Para a terra
só a semente conta.
Mia Couto, "Tradutor de chuvas"
não é o fruto.
É a sombra.
A térrea,
quotidiana,
abnegada sombra:
no inverso do suor colhida,
no avesso da mão guardada.
Há a estação dos frutos.
Ninguém celebra a estação das sombras.
Assim, o amor e a paixão:
um, fruto; outro, sombra.
A suave e cruel mordedura
do fruto em tua boca:
mais do que entrar em ti
eu quero ser tu.
O que em mim espanta:
não a obra do tempo
mas a viagem do Sol na seiva da árvore
A arte da mangueira
é a veste de sombra
embrulhando o seu ventre solar.
Para o homem
vale a polpa.
Para a terra
só a semente conta.
Mia Couto, "Tradutor de chuvas"
'Leitura performática': ostentar livros virou mania entre celebridades, tiktokers e até personagens de 'Vale Tudo'
https://s2-oglobo.glbimg.com/Pcvyf8_yhpq7Hby2125Sm-aCwp0=/0x0:1280x595/888x0/smart/filters:strip_icc()/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/Q/b/bydbKDQPOD28hLxQ4rNA/sc-leituraperformatica-site.jpg
Uma selfie com um livro, uma estante instagramável, um post com a lista de “leituras do mês”. Na era das redes sociais, o ato de ler virou espetáculo. A exibição pública do livro pesa tanto ou mais do que a experiência íntima da leitura.
Esta mudança cultural tem nome: “performative reading” (leitura performática, em tradução livre). A expressão não indica, necessariamente, o hábito de simular leituras, mas o de compartilhar sua fome de livros para o restante do mundo.
Entre os leitores performativos, encontram-se celebridades globais como a diva pop Dua Lipa, que compartilha listas de títulos favoritos. Ou a cantora teen Olivia Rodrigo, que fez questão de mostrar o exemplar de “A hora da estrela” que carregava na bolsa.
O fenômeno também é impulsionado pelo BookTok, como é conhecida a comunidade dedicada a livros no TikTok. No Brasil, chegou à novela das 21h da TV Globo, que trata as obras literárias lidas pelas personagens como uma espécie de extensão da personalidade delas. Em episódio recente de “Vale tudo”, a aspirante a influencer Maria de Fátima (Bella Campos) se fotografou com um título da poeta Cecília Meireles. Mesmo não sendo muito chegada à literatura, a personagem usou a obra para performar uma aura cult.
— Na sociedade do espetáculo, não importa tanto a experiência emocional que um livro desperta, mas a imagem que ele projeta para o olhar do outro — diz o psicanalista e pesquisador André Alves, cofundador da página @floatvibes, que analisa tendências contemporâneas. — Tudo é feito para esse olhar publicizado, que convoca o engajamento o tempo todo.
Enquanto registros de livros se multiplicam, pesquisas sobre hábitos de leitura assustam especialistas. A última edição do Retratos da Leitura registrou a maior queda já medida desde o início da pesquisa no Brasil. E um levantamento feito pelo University College London e pela Universidade da Flórida mostrou que o número de pessoas que leem por prazer despencou 40% em 20 anos nos EUA. No TikTok, um vídeo viral dá dicas de como “ler” títulos em um dia usando o ChatGPT. Basta anexar um PDF da obra e pedir para a plataforma resumir tópicos, tramas, personagens etc.
— A necessidade de produzir conteúdo constante faz com que muitos priorizem quantidade em vez de qualidade — diz o jornalista e booktoker Rodrigo De Lorenzi. — Muitas vezes, a “leitura” se resume a folhear páginas, fotografar a capa ou citar um trecho fora de contexto, sem aprofundamento ou real compreensão do conteúdo.
Da oralização pública dos escritos sagrados pelos monges aos saraus poéticos, a leitura sempre foi acompanhada de sociabilidade. Essa dimensão comunicacional, porém, ganhou novas configurações e usos com os leitores conectados do século XXI.
— Hoje, o livro pode ser ao mesmo tempo acessório de moda, símbolo de status, artefato cultural, objeto de performance e tantas outras camadas, a depender das características de sua produção, circulação e recepção — diz Jean Silveira Rossi, pesquisador das práticas de leitura e das culturas digitais.
Séculos antes da invenção da fotografia e do Instagram, as damas da sociedade já tinham o costume de posar com livros para pintores. Historiadora da Universidade de São Paulo, Marisa Midori cita o célebre retrato de Madame de Pompadour com uma Enciclopédia de Diderot. Censurada pelo governo da época, a obra aparece como símbolo de distinção, poder e rebeldia.
— A performance da leitura antecede as redes sociais — diz Midori. — A diferença é que agora o celular invadiu as nossas vidas a ponto de registrar até os momentos íntimos. É como se não tivéssemos mais uma separação entre vida pública e privada.
Desde que a pandemia popularizou lives e chamadas de vídeo dentro dos lares, as estantes de livros ficaram mais públicas do que nunca. O neologismo bookshelfie combina as palavras inglesas book (livro), shelf (prateleira) e selfie para descrever os registros das nossas bibliotecas. Em julho, a influencer Rafa Kalimann foi alvo de críticas ao pagar R$ 10 mil em livros para supostamente embelezar a casa. A polêmica pôs em evidência o nicho dos coffee table books, ou livros decorativos.
Diretora da Queen Books, referência na importação de livros do segmento, Debora Medeiros diz que as edições de luxo não são apenas objetos de status. Elas ajudam a definir a personalidade dos donos da casa.
— Basta olhar esses livros para entender os interesses da pessoa, sem que ela precise dizer uma palavra — diz ela. — Quem ama viajar pode ter livros sobre destinos marcantes, quem é fascinado por moda pode exibir títulos sobre suas grifes favoritas. Os livros de culinária da editora inglesa Phaidon, lindíssimos, além de informativos, ficam maravilhosos em uma cozinha.
Para Midori, a expressão “leitura performática” traduz o efeito imediato das redes sociais. Ou seja, transforma em instantaneidade uma prática que exige tempo e introspecção. Contudo, o fenômeno teria um lado positivo, de acordo com a historiadora.
— Pelo menos, isso está ajudando a manter os livros em circulação — diz Midori. — Talvez a leitura não tenha desaparecido e apenas tenha sido incorporada ao fluxo das redes. Fotografar, compartilhar e comentar pode ser um novo modo de ler em comunidade.
Porque Lulu Bergantim não atravessou o Rubicon
Lulu Bergantim veio de longe, fez dois discursos, explicou por que não atravessou o Rubicon, coisa que ninguém entendeu, expediu dois socos na Tomada da Bastilha, o que também ninguém entendeu, entrou na política e foi eleito na ponta dos votos de Curralzinho Novo. No dia da posse, depois dos dobrados da Banda Carlos Gomes e dos versos atirados no rosto de Lulu Bergantim pela professora Andrelina Tupinambá, o novo prefeito de Curralzinho sacou do paletó na vista de todo mundo, arregaçou as mangas e disse:
— Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!
E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
— Ou vai ou racha!
E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:
— Agora a gente vai fazer serviço de tatu!
O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
— Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.
Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:
— Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!
Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.
José Cândido de Carvalho, "Os cem melhores contos brasileiros do século"
— Já falaram, já comeram biscoitinhos de araruta e licor de jenipapo. Agora é trabalhar!
E sem mais aquela, atravessou a sala da posse, ganhou a porta e caiu de enxada nos matos que infestavam a Rua do Cais. O povo, de boca aberta, não lembrava em cem anos de ter acontecido um prefeito desse porte. Cajuca Viana, presidente da Câmara de Vereadores, para não ficar por baixo, pegou também no instrumento e foi concorrer com Lulu Bergantim nos trabalhos de limpeza. Com pouco mais, toda a cidade de Curralzinho estava no pau da enxada. Era um enxadar de possessos! Até a professora Andrelina Tupinambá, de óculos, entrou no serviço de faxina. E assim, de limpeza em limpeza, as ruas de Curralzinho ficaram novinhas em folha, saltando na ponta das pedras. E uma tarde, de brocha na mão, Lulu caiu em trabalho de caiação. Era assobiando "O teu-cabelo-não-nega, mulata, porque-és-mulata-na-cor" que o ilustre sujeito público comandava as brochas de sua jurisdição. Lambuzada de cal, Curralzinho pulava nos sapatos, branquinha mais que asa de anjo. E de melhoria em melhoria, a cidade foi andando na frente dos safanões de Lulu Bergantim. Às vezes, na sacada do casarão da prefeitura, Lulu ameaçava:
— Ou vai ou racha!
E uma noite, trepado no coreto da Praça das Acácias, gritou:
— Agora a gente vai fazer serviço de tatu!
O povo todo, uma picareta só, começou a esburacar ruas e becos de modo a deixar passar encanamento de água. Em um quarto de ano Curralzinho já gozava, como dizia cheio de vírgulas e crases o Sentinela Municipal do "salutar benefício do chamado precioso líquido". Por força de uma proposta de Cazuza Militão, dentista prático e grão-mestre da Loja Maçônica José Bonifácio, fizeram correr o pires da subscrição de modo a montar Lulu Bergantim em forma de estátua, na Praça das Acácias. E andava o bronze no meio do trabalho de fundição quando Lulu Bergantim, de repente, resolveu deixar o ofício de prefeito. Correu todo mundo com pedidos e apelações. O promotor público Belinho Santos fez discurso. E discurso fez, com a faixa de provedor-mor da Santa Casa no peito, o Major Penelão de Aguiar. E Lulu firme:
— Não abro mão! Vou embora para Ponte Nova. Já remeti telegrama avisativo de minha chegada.
Em verdade Lulu Bergantim não foi por conta própria. Vieram buscar Lulu em viagem especial, uma vez que era fugido do Hospício Santa Isabel de Inhangapi de Lavras. Na despedida de Lulu Bergantim pingava tristeza dos olhos e dos telhados de Curralzinho Novo. E ao dobrar a última rua da cidade, estendeu o braço e afirmou:
— Por essas e por outras é que não atravessei o Rubicon!
Lulu foi embora embarcado em nunca-mais. Sua estátua ficou no melhor pedestal da Praça das Acácias. Lulu em mangas de camisa, de enxada na mão. Para sempre, Lulu Bergantim.
José Cândido de Carvalho, "Os cem melhores contos brasileiros do século"
Na torre
Para esquecer miss Hinton (para esquecer o inesquecível), o velho poeta irlandês deixou a Inglaterra. Na impávida luz do camarote, no Byzantium, pensou a noite inteira na mulher amada: ela gostava bem pouco dele; nem sequer o conhecia seriamente; nem sequer tinha lido seus livros. De manhã desembarcou em Dublin. "Acaso a procurei devidamente?", refletiu. "Acaso a encontrei?" No solitário trem, continuou a pensar: "Ninguém é um só. Sem dúvida nela existe a moça que está destinada a mim e que não encontrarei nesta vida". Depois o lago apareceu sob uma chuva tênue e opaca, e sobre a cabeça do poeta voaram trinta e sete cisnes. Bem avançado o dia, chegou à porta da torre. Um raio de sol, como uma pálida espada, atravessou as nuvens e ensaiou uma espécie de anacrônico amanhecer. A caseira lhe entregou um telegrama. O poeta o leu, deixou-o cair e, sem responder as perguntas da velha, abriu a porta e subiu correndo a interminável escada de caracol, e muitas vezes pensou que ia desfalecer. Com a vista enevoada, extenuado, enlevado, chegou ao topo da torre, onde miss Hinton o esperava tomando chá, no jardim de sua casa, em Westmorland, e também correndo descalça na areia, em uma tarde de outono, contra um céu de furiosas gaivotas, e cozinhando, na casa de umas amigas, o célebre Plum Pudding Hinton (receita de sua avó paterna), e dançando, encantadoramente fantasiada de lavadeira, em uma festa beneficente, e lendo risonhamente com sua amiga miss Farr um poema que ele lhe dedicara, e guardando (sozinha, horas depois), em um cofre de palha com forro de seda violeta, esse mesmo poema, e soprando bolhas de sabão, e fazendo exercícios respiratórios, e expirando e sorrindo, na companhia do piloto norte-americano Peter de Paola, ao volante de um automóvel, para uma fotografia publicitária, e tossindo, congestionada pelo esforço de nascer, e dando, ao filho da governanta, sua primeira laranjada com óleo de rícino, e assistindo, com um grupo de jovens da sociedade, primeira exposição londrina de arte cubista, e jazendo em seu ataúde, e recebendo o segundo prêmio de "deck-tennis", a bordo do Berengaria, e gritando apavorada, na rua, de noite, enquanto um letreiro luminoso anunciava: "Florio's Café", e caminhando por uma alameda em Westmorland. A caseira recolheu o papel, que um golpe de vento carregara até o maciço de agapantos. Leu: "Lamentamos informar que Barbara Hinton morreu ontem noite".
Bioy Casares
Assinar:
Postagens (Atom)

















/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2025/Q/b/bydbKDQPOD28hLxQ4rNA/sc-leituraperformatica-site.jpg)

