quarta-feira, junho 10

Moro aqui

Ando pela grama, meto o pé na poça e sinto meio água, meio lama entre os dedos. Reconheço onde estou: é onde moro.

Moro numa ladeira inclinada. Em dias de chuva fraca, os carros derrapam na subida; nos de toró, a água desce querendo ser cachoeira. A correnteza é tão forte que nem dá para apostar corrida de palito de sorvete, embora não pareça que a criançada hoje em dia ande interessada nisso. Aqui as moças têm pernas modeladas pelo esforço na subida e o controle na descida.

Vivo a um quarteirão da praia e às vezes ganho uma brisa de presente. No fim de tarde, é hora de visitar a areia ainda quente de sol, desviar dos sargaços e dos siris medrosos que logo se escondem, nem desconfiam que sou de paz. De madrugada, muita gente passa na esquina debaixo da minha janela: um homem canta uma música que ninguém mais canta, amigos riem alto mesmo que a história não tenha graça, e alguns casais brigam tão feio que a gente tem que gritar da janela para apartar.

Aqui existo, entre o poste que já estava quando nasci e essa árvore que cresceu comigo.

Moro na rue Delambre, 26, num apartamento emprestado por um amigo, e posso gastar quinze dólares por dia. Defendo uns trocados tocando violão no metrô. Minha sobrevivência consiste no bandejão do restaurante universitário e o bolinho tailandês na esquina, que deixa um amarelo esverdeado no guardanapo, imagina no estômago.

Balas perdidas cruzam o céu de onde moro à procura de um alvo, de preferência inocente. Às vezes estou no divã, outras na estrada; ora num retiro, ora no meio do sururu que irrompeu no boteco.

Sou morador de um prédio, tenho alguns vizinhos, não toco tuba nem treino sapateado, falo pouco nas reuniões de condomínio (quando vou) e assim espero não estar aborrecendo ninguém. Se um dia precisar de extintor de incêndio, vou ter que procurar porque – agora me dou conta – nunca reparei onde ficam.

Moro numa espuma de cerveja, num córrego de águas frias, numa conversa com quem nem conheço. Onde o vento deixou o cisco, uma lonjura onde nem drone alcança. Nos dias limpos, tenho vista comprida, consigo ver longe, até a décima montanha. Depois dela vem o mundo. Moro no porão de uma casa antiga, fumo escondido dos meus pais, o cheiro do cigarro se mistura ao dos móveis e trastes velhos, e não preciso me preocupar com as caranguejeiras, elas estão ocupadas com outras coisas.

Lá onde moro não conheço ninguém, posso ser um canalha, enfiar o dedo no nariz e pintar o cabelo de azul turquesa sem escandalizar a sociedade. Já aqui, conheço tanta gente, que não posso nem tomar um pileque e trançar as pernas que o pessoal vai comentar.

Já morei num lugar frio e escuro, mas isso faz tempo, mudei para as bandas da esperança. Não houve discurso, música ou fogos à minha chegada. Sou morador mais das melancolias, embora busque as alegrias feito um vira-latas. Por isso vivo em tantos lugares, a procura não tem sossego.

Em boa parte do tempo, moro nessa rede com vista para o Cristo, pensando mais nas idas que nas vindas. Durmo, acordo, penso, escrevo, cochilo, acordo, escrevo, não necessariamente nessa ordem. Ano passado, choveu tanajura, esse ano deu pitanga, jabuticaba, teve visitas e os insetos estão estranhamente mais sossegados que o costume.

Moro aqui. Mas, quando me dou conta, o aqui fica lá.

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