quarta-feira, junho 10

O rio da cólera

1624 – Cidade do México

A multidão, que cobre toda a praça maior e as ruas vizinhas, lança maldições e pedras ao palácio do vice-rei. As pedradas e os gritos, traidor, ladrão, cachorro, Judas, se arrebentam contra os portais e os portões, fechados a pedra e cal. Os insultos ao vice-rei se misturam com os vivas ao bispo, que o excomungou por ter especulado com o pão desta cidade. Há tempos que o vice-rei vinha estocando todo o milho e o trigo em seus celeiros privados; e assim brinca, a seu bel-prazer, com os preços. A multidão está em brasa. Enforquem ele! Paulada! Matem ele a pauladas! Uns pedem a cabeça do oficial que profanou a igreja, arrastando para fora dela o arcebispo; outros exigem linchar Mejía, testa de ferro do vice-rei em seus negócios; e dois querem fritar em azeite o vice-rei estocador.

Aparecem picaretas, chuços, alabardas; ouvem-se tiros de pistolas e mosquetões. Mãos invisíveis hasteiam o pendão do rei, no teto do palácio, e pedem auxílio os gritos das trombetas; mas ninguém acode para defender o vice-rei encurralado. Os principais do reino fecharam-se em seus palácios e juízes e oficiais escorreram pelos buracos. Nenhum soldado obedece ordens.

As paredes da prisão da esquina não aguentam o ataque. Os presos se incorporam à maré furiosa. Caem os portões do palácio, o fogo devora as portas e a multidão invade os salões, furacão que arranca cortinas, arrebenta baús e devora o que encontra.

O vice rei, disfarçado de frade, fugiu por um túnel secreto, rumo ao convento de São Francisco.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

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