segunda-feira, outubro 12

Um teólogo da morte

Os anjos comunicaram-me que, quando Melanchton faleceu, ofereceram-lhe no outro mundo uma casa ilusoriamente igual à que tivera na Terra. (Para quase todos os recém-chegados à eternidade acontece o mesmo e por isso acreditam que não morreram.) Os objetos domésticos eram iguais: a mesa, a escrivaninha com suas gavetas, a biblioteca. Logo que Melanchton acordou naquele domicílio, reatou suas tarefas literárias como se não fosse um cadáver, e escreveu durante alguns dias sobre a justificação pela fé. Como era seu costume, não disse nenhuma palavra sobre a caridade. Os anjos notaram aquela omissão e mandaram pessoas interrogá-lo. Melanchton disse-lhes: “Demonstrei irrefutavelmente que a alma pode prescindir da caridade e que, para entrar no céu, basta a fé”. Dizia aquelas coisas com soberba e não sabia que já estava morto e que seu lugar não era o céu. Quando os anjos ouviram aquele discurso, abandonaram-no.

Em poucas semanas, os móveis começaram a virar fantasmas até ficar invisíveis, exceto a poltrona, a mesa, as folhas de papel e o tinteiro. Além disso, as paredes do aposento mancharam-se de cal, e o piso, de um verniz amarelo. Até sua roupa já era muito mais ordinária. Continuava, porém, escrevendo, mas, como persistisse na negação da caridade, transladaram-no a um ateliê subterrâneo, onde havia outros teólogos como ele. Lá passou alguns dias encarcerado e começou a duvidar de sua tese e permitiram-lhe voltar. Sua roupa era de couro sem curtir, mas procurou imaginar que tudo tinha sido uma mera alucinação e continuou elevando a fé e depreciando a caridade. Num entardecer sentiu frio.

Percorreu então a casa e verificou que os outros aposentos já não correspondiam aos de sua moradia na Terra. Um deles estava repleto de instrumentos desconhecidos; outro tinha diminuído tanto que era impossível entrar; outro não havia mudado, mas as janelas e portas davam para grandes dunas. O quarto do fundo estava cheio de pessoas que o adoravam e que lhe repetiam que nenhum teólogo era tão sábio como ele. Aquela adoração agradou-o, mas, como algumas daquelas pessoas não tinham rosto e outros pareciam mortos, acabou por detestá-los e por desconfiar. Resolveu então escrever um elogio da caridade, mas as páginas escritas hoje apareciam amanhã apagadas. Isso aconteceu porque as compunha sem convicção.

Recebia muitas visitas de pessoas mortas havia pouco, mas sentia vergonha de se mostrar num alojamento tão sórdido. Para fazê-las crer que estava no céu, combinou com um bruxo dos do quarto do fundo, e este as enganava com simulacros de esplendor e serenidade. Mal as visitas se retiravam, reapareciam a pobreza e a cal, e às vezes um pouco antes.

As últimas notícias de Melanchton dizem que o mago e um dos homens sem rosto o levaram para as dunas e que agora é como um criado dos demônios.
(
Do livro Arcana coelestia, de Emanuel Swedenborg)
Jorge Luís Borges, "História universal da infâmia"

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