terça-feira, outubro 8

O Brasil que lê

Todo mundo faz aquela cara de eu já sabia diante das pesquisas da Câmara Nacional do Livro, da Unesco e do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) sobre o hábito de leitura dos brasileiros. Fui a um evento literário em que tomei conhecimento de uma pesquisa, com outra lógica, e que me fez refletir: existe, sim, um Brasil que lê.

Julianna Swaney

A pesquisa, que questiona a “oficial”, foi divulgada em primeira mão na Festa Literária do Alto do Moura (Flal). O Alto é uma comunidade a sete quilômetros do centro de Caruaru, Pernambuco. Não é uma feira de livros e nem comporta debate com estrelas do mercado editorial. Está na terceira edição, é realizada em pequenas tendas, no meio da rua e gratuitamente. Reúne o pessoal “descolado” da literatura, estudantes, professores, a diversidade em peso, e por isso mesmo é alternativa, original e cheia de novidades.

Organizado pelo Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e o Releitura (pessoal das bibliotecas comunitárias) o objetivo da Flal é debater literatura com quem escreve e com quem lê; e incentivar a leitura. Para isso, envolve a comunidade com oficinas, debates e intervenções artísticas. A literatura dialoga, durante o evento, com o cinema, teatro, palhaçaria, fotografia, contação de histórias, musica etc.

Num dos debates, a pesquisadora Carmem Lúcia Bandeira, do Releitura, apresentou o levantamento que acaba de virar livro: “O Brasil que lê – Bibliotecas comunitárias na formação de leitores”. Surpreendente: o Brasil que lê fica invisibilizado pela mídia e pela sociedade de consumo. Essa pesquisa foi realizada em 140 bibliotecas comunitárias de 11 estados, sob a coordenação de Cida Fernando, Elisa Machado e Ester Rosa.

Aquelas pesquisas que dizem que o brasileiro lê pouco, segundo Carminha, têm como fonte as livrarias. A grande parte do povo brasileiro não tem condições de comprar livros novos e caros e a metodologia induz a informar que essas pessoas não leem. “As pesquisas oficiais são baseadas na venda de livros e atende à lógica privatista e individualista das livrarias”. As pesquisas, feitas nesse universo, misturam alho com bugalho. Venda com hábito de leituras.

Elas nunca consideram a realidade das bibliotecas. “Essas pesquisas não entendem que o universo das bibliotecas existe. É como se as bibliotecas, sobretudo as comunitárias, fizessem parte de um universo oculto”. Nelas, o sistema de empréstimo é intenso, segundo o Releitura. São livros que, na maioria das vezes, vêm de doações e viram um bem comum e coletivo. A leitura circula através do empréstimo e da circulação dos acervos.

A pesquisa do Releitura, na minha opinião, é importante em diversos aspectos. Ela dá um passo à frente da velha discussão que fica travada na identificação de causa e efeito sobre hábitos de leitura. Ao reconhecer que há um Brasil que lê, põe o dedo na ferida, porque leva a um questionamento: se há um povo que curte leitura, por que não apoiar as instituições que acreditam que as transformações sociais são possíveis através das leituras? E os políticos, as chamadas autoridades constituídas, por que não se comprometem política e academicamente com projetos de formação de leitores, colaborando assim para uma cidadania plena?

Todos sabem que a o exercício da leitura, assim como o da escrita, pode garantir a participação consciente da população nos destinos da sociedade. Aí está o X da questão. Por isso, apenas acreditar e lamentar que o Brasil não lê, como dizem as pesquisas oficiais, é cômodo.
Cícero Belmar

segunda-feira, outubro 7

Terraço para o mundo


Falando de livro...

Passeio pelo meu bairro, no frio gostoso da manhã, percorrendo os "sebos" das livrarias jeitosamente colocados do lado de fora das portas. Escolhos dois romances antigos para combinar com o ambiente
Elsie Lessa, "Canta que a vida é um dia"

Ilumina-te


Deus, Adão e Eva

No primeiro minuto da primeira palestra das seis que prometera dar, Deus, quando começou a falar do plano geral do ciclo, foi interrompido por um estudante de olhos viciosos: “Não é melhor o Senhor ir direto para Adão e Eva?”

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No fim da palestra, curvando-se para agradecer os aplausos, Deus mostrou conhecer melhor do que ninguém suas criaturas. Com um sorriso, convidou: Agora,, espaço aberto para os comentários e para as críticas.”

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Meu patrimônio é a tristeza. Não tenho grades nem alarmes em casa.

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Ela gostava de desencaminhar meninos loirinhos. Nas fotos daquele tempo, vejo que eu era bem o tipo, mas ela jamais me notou, nem nunca me levou para a cama em que sufocava de beijos as jovens vítimas, antes de devorá-las.

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Era uma dessas mulheres diante das quais toda erudição se envergonha por não conseguir nomear com exatidão a beleza do ombro, que exigia definição mesmo quando circunstancialmente coberto por uma toalha de banho.

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Tão seguro parecia o morto que não parecia ser aquela sua primeira vez.

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Sonhou que com Borges tomava um ônibus para Estocolmo na Barão de Paranapiacaba.

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Dizer que escrevo com toda a honestidade não melhora um parágrafo meu. Mas como me faz bem dizer.

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Um gramático está sempre pronto para corrigir tudo que dizes, meu caro apedeuta, estejas tu na Lapa ou estejas tu nas Perdizes.

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Um gato iraniano é um gato persa, e vice-versa.

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Hoje na rua com sua roupa nova vi o rei. Ele me olhou, eu corei.

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Você acredita ter um pacto com a poesia, assim como eu acreditei um dia.

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Havemos de manter algum lirismo, ainda que para consumo exclusivamente próprio.

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Morreria venturosamente pela poesia, se já não estivesse comprometido com o amor.

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O poeta velho esqueceu-se da definição de rosa.

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Um haicai ou vem sozinho ou chega no bico de um passarinho.

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Continuo aqui, onde me ignoraram. Todos os dias, já, e todas as caravanas passaram.
Raul Drewnick

domingo, outubro 6

Na pré-história ?


Proust sai do armário com oito contos inéditos

São textos muito fin de siècle, com o inconfundível aroma decadente e sensual do crepúsculo do século XIX. Há contos policialescos, ao estilo de Edgar Allan Poe, e um que cairia bem em uma antologia de contos fantásticos. Na maneira de captar os movimentos da alma humana e nos esboços de cenas e personagens se percebe o gênio em estado de incubação. Mas ainda são isso, esboços: alguns inacabados, outros imprecisos e mal resolvidos; exercícios de estilo, experiências de laboratório juvenil. E tudo com um tema de fundo, mais ou menos explícito, que em sua época poderia desaconselhar sua publicação: a homossexualidade.

A publicação na França, na próxima semana, de Le mystérieux correspondant et autres nouvelles inédites (O Misterioso Correspondente e outros Contos Inéditos) é o grande acontecimento da reentrée (expressão que na França e na Bélgica francófona significa um período comercial que concentra grande número de publicações de novos livros de todos os tipos e que ocorre todos os anos entre o final de agosto e o início de novembro). O livro contém nove contos – oito inéditos – de Marcel Proust (1871-1922), o autor de Em Busca Do Tempo Perdido. Publicado pela Éditions de Fallois e editado pelo professor Luc Fraisse, permite se aproximar do que Bernard de Fallois, fundador da editora falecido em 2018, chamou em um de seus ensaios de “Proust antes de Proust”. Ou seja, o escritor quando ainda não o era: o artista em plena aprendizagem.


Os contos de O Misterioso Correspondente… se encaixariam perfeitamente em Os Prazeres e os Dias, livro publicado, com pouca repercussão, em 1896, 17 anos antes do primeiro volume de seu monumental ciclo de romances. Por que Proust não os incluiu? “Uma razão é que talvez não estivesse satisfeito com esses contos e os deixou de lado”, diz Fraisse na sede da Éditions de Fallois em Paris. “Outra razão é que metade desses contos coloca em jogo sua homossexualidade”, acrescenta. Uma terceira razão é “estética”: já havia textos que evocavam a homossexualidade em Os Prazeres e os Dias; acrescentar mais o desequilibraria.

O conto que dá título ao livro é a história de uma mulher que precisa do amor de uma amiga para se curar de uma doença mortal. Outros, como ‘A Consciência de Amá-lo’, não falam diretamente da homossexualidade, mas apresentam personagens que vivem como uma maldição sua diferença, suas “delicadezas incompreendidas”, sua vida em que “todo mundo machucará, ferirá, os que não amarem e ainda mais os que amarem”. “Os relatos mostram que, ao contrário de um de seus contemporâneos como André Gide, Proust a vive como um drama”, diz Fraisse.

Há décadas que não se publicava uma ficção inédita de Proust. A última ocorreu nos anos cinquenta. Foi o próprio Fallois que descobriu Jean Santeuil, o romance que prefigurava Em Busca do Tempo Perdido. Também o ensaio Contra Sainte-Beuve: notas sobre crítica e literatura. Desde então se publicou a correspondência do escritor. Mas não as obras de ficção que dormiam nos arquivos. Os contos de O Misterioso Correspondente… pertencem à mesma época de Os Prazeres e os Dias, obra irregular da juventude. Proust foi o anti-Rimbaud, um caso exemplar de autor que atingiu sua genialidade na maturidade, após anos de trabalhosa aprendizagem. Somente com seus contos do final do século XIX seria um autor esquecido. O Misterioso Correspondente… confirma tal afirmação.

Sempre úteis


Quarent'anos

Venho de um tempo em que os computadores nas escolas só funcionavam se soubéssemos códigos longuíssimos. Um tempo em que gêmeos eram uma ocorrência rara e o anonimato ainda era possível. Vi até hoje três eclipses lunares, um deles em São João Del-Rei. Tenho amigos que dão nome a bibliotecas. Alguns já comemoraram seus quarent’anos e não é sem uma discreta glória que ainda sorriem.

Venho de um tempo em que Hilda Hilst era ouro raro nas livrarias. Hilda Hilst, Orides Fontela, João Cabral, Jorge Amado, João Ubaldo, todos vivos. Um tempo em que a campanha nacional era pelo desarmamento. Tive de chegar a 2019 para saber o que significa terçadada, que, na ignorância do que seja, parece até coisa bonita, e é uma forma bizarra de violência pela qual um índio caiapó morreu outro dia.

Lembro de recortar e guardar todas as fotos que encontrava, nos jornais e nas revistas, do massacre das crianças de Beslan, fotos de mães e avós desesperadas, fotos dos meninos sobreviventes, magros e nus, de olhar pasmo. Lembro de uma mãozinha de bebê cor de ferrugem de sangue coagulado em que se enrolava um pequeno terço. Estava saindo de uma aula de jornalismo quando o primeiro avião atingiu uma das torres gêmeas e alguém falou no começo de uma Terceira Guerra. Lembro de ver numa manchete de jornal o teto bombardeado de um mercado na Síria que parecia um céu de estrelas se abrindo à luz do dia. Venho de um tempo em que as entrevistas de rádio com repórter em campo eram feitas pelo orelhão. Um tempo de orelhões, fitas-cassete e cartas entre amigas.

Meu sobrinho, que vi com a idade que agora tem minha filha, hoje é um mestrando que lê Nietzsche. Lembro de ver “Thelma e Louise” no cinema. Lembro da comoção geral quando morreu Tom Jobim. E de ver Charles Aznavour ir diminuindo de tamanho, ano após ano, se esfumaçando nos palcos, mas nunca morrendo. Eu devia ter a idade do menino Salvatore quando estreou “Cinema Paradiso”. Lembro de um longo ensaio de Susan Sontag, num jornal de domingo, com fotos dos prisioneiros torturados de Guantánamo.

São algumas coisas que me ocorrem neste quadragésimo outubro de vida. O luxo que é ter tempo, dias simples e, tanto quanto possível, um ritmo lento. A sorte que é não ter enlouquecido ainda, num país hoje tão propício à loucura. A sorte que é ter mãe por perto e gente amiga com seus lumes nas janelas, continuando. O desejo que dá de escrever um bilhete de amor inocentemente indecente, que dissesse: deixe-me ficar aqui, só mais um pouco, na sua mente. A alegria (a tal glória) discreta e muda, de ainda sentir esse desejo.
Mariana Ianelli

sexta-feira, outubro 4

Falando de livro...

A maioria das pessoas que possuem livros é fraca e tímida. Não sabe recusar. O livros vão-se, as estantes ficam... Ficam vazias
Ribeiro Couto, "Conversa inocente"

Flor


Nos tempos do seu Joãozito

João Sabino Pereira, prático provisionado, acaba de morrer. E é inevitável a frase feita para significar o que realmente aconteceu, isto é, para dizer que em Poços de Caldas desaparece com ele não um homem mas uma instituição. Desaparece a velha farmácia dos piluleiros e dos almofarizes, da qual ele foi entre nós o derradeiro dos figurantes. Morrendo aos 78 anos, era dos tempos em que a farmácia não lidava com muitos remédios que não fossem produzidos pela mão dos seus auxiliares ou dos seus farmacêuticos, os velhos tempos em que eles em qualquer parte se acusavam pelo cheiro peculiar ao mundo botânico e ao mundo químico em que viviam mergulhados.

O farmacêutico (ou o boticário) era o homem que sabia de que se compunham os remédios, para que fim seriam eles e como prepará-las. Bem diferente dos dias de hoje, onde farmácias e drogarias pouco se distinguem de lojas com seus caixeiros. O contato dessa rapaziada de agora com o seu público é no geral o contato polido e passageiro entre comerciante e freguês. Nos tempos de seu Joãozito menino ou rapazola, trabalhando como um noviço ou como prático, a gente da farmácia dava ao seu cliente, no vidro de remédio, muito de si mesma, de sua inteligência, de sua habilidade, de seu aprendizado e de seu calor humano, pois eram a essa altura tão grandes as incertezas da medicina e tão longos, aplicados e complicados os trabalhos da farmácia. Como que ia em cada vidro de remédio, de mistura com ciência e arte, os votos, as esperanças, a alma e o sangue do farmacêutico. Assim entre o doente e a farmácia se estreitavam os laços samaritanos, a aproximação se fazia através dos vínculos de uma avultada responsabilidade profissional.

Não fosse ainda nossa vila tão pequena, todos se conhecendo tão de perto e se interessando tanto uns pelos outros. Não havia estranhos. Mesmo os "banhistas" recém-chegados logo se sentiam à vontade. Era quase um sistema de convívio em família, a existência comum envolvendo mais um sentido de serviços mútuos que de negócios. Por isso todos trabalhavam e poucos enriqueciam. A intimidade abolia praxes e conveniências. Nada funcionava sob interesses rígidos ou horários curtos e implacáveis. O comércio fechava às nove da noite e nos domingos às três da tarde. E isso porque afinal era preciso fechar de algum modo. As farmácias, essas eram as últimas a cerrar as portas e não conheciam domingos nem feriados. Estavam como que em "sessão permanente". Não adiantava mesmo fechar, a clientela era como gente de casa e precisando vinha a qualquer hora.

Pertenceram a esse tempo a farmácia de seu Sá, ou José Antônio Augusto de Sá, a de seu Westin, ou Eduardo Pio Westin, a do seu Luizinho, ou "major" Luiz Loyolla, os primeiros farmacêuticos de que a cidade tem notícia. Eram homens ilustrados, prestantes e de íntegro caráter. Outros se lhes seguiram, como Teófilo Lobato, Leônidas Clemente Ferreira, Maurílio Figueiredo, Djalma Paiva, Artur Andrade, João Porfírio Brandão, para citar os mais antigos e aqueles cuja vida teve entre nós um maior sentido de integração e permanência. A eles todos, em cuja disciplina aprendera o seu ofício, a eles todos, por ter começado na adolescência, seu Joãozito sobreviveu. Dirigiu, como prático provisionado, a sua própria farmácia, chamada Farmácia Santo Antônio, a qual sempre foi, como ele mesmo, singela, pequena, tranquila e infatigável. Seu Joãozito estava de tal modo integrado nela como um homem num "pulmão de aço". Através dela, por ela e com ela é que ele respirava, é que ele vivia. Morava dentro dela, dentro dela passou sua existência, criando e educando sua família e suportando um trabalho para o qual não escolhia nem tempo nem hora.

Os que altas horas da noite já passaram pela angústia de precisar de remédios sabem o quanto de resistência, de bravura, de bondade e de noção do seu dever havia naquele velhinho que aparecia prontamente para atender à campainha da Farmácia Santo Antônio. Através de quantas gerações, através de quantas e quantas noites, seu Joãozito não soube o que era dormir tranquilamente! É que ele com isso tinha um lucro extra – dirão alguns. Seria decerto um ambicioso. Não. Após sessenta anos de vida em farmácia, graças a Deus esse homem honrado morreu pobre. O que o sustentava não era o lucro de ganhar, era o lucro de dar, de que apenas o seu coração se enriquecia, servindo, socorrendo, ajudando.

Deus sabe o quanto a farmácia pode ser nobre, dessa difícil e insondável nobreza das pequeninas coisas de todas as horas. Só não o sabem os que a transferiram e ainda a transferem para o bolso dos Rockefellers da indústria de remédios e a transformam num cúmplice instrumento da mais nefanda espoliação do nosso povo. A indústria de remédios foi amparada e se ergueu – diziam – para que os medicamentos, produzidos em grande quantidade, saíssem melhores e mais baratos. Deu-se o contrário. Avoluma-se espantosamente o número de medicamentos inúteis, ordinários ou maléfícos, e todos sem distinção se vendem caríssimos. Quando, no tempo de seu Joãozito, os farmacêuticos ainda manipulavam, inúmeros remédios eram melhores, a começar pelo preço.

É inelutável que se voltem as páginas ao livro do Tempo e que a história do homem a cada período altere os cenários e mude os personagens. Não se pode pretender que o mundo da penicilina e da cortisona seja idêntico ao do unguento napolitano e das pílulas de iodofórmio. O que raros perguntam, entretanto, é se todas as coisas modernas e de ordinário festejadas representam adiantamento indiscutível, melhoria definitiva e se elas valeram a pena.

Aí está na vida de seu Joãozito e no tempo em que ele exerceu a sua profissão muitas lições que não deviam caducar, mas salvar-se aos padrões renovadores, às vezes tão apressados, radicais e injustos.

É necessário que a cidade, que por sessenta anos se valeu do seu trabalho obscuro, dedicado, incessante e indispensável, não emudeça como os musgos sobre o cimento do seu túmulo, mas que se edifique na sua vida e na sua morte e tenha neste instante uma voz que pronuncie o seu nome com a veneração e o respeito, com o fervor, o devotamento e a humildade com que ele sempre a serviu. Seria uma indignidade esquecermos em Poços de Caldas esse velho vigilante da saúde. Seria falta inescusável não exaltarmos esse rijo trabalhador que, ao se fazer tão útil como pequenino e pobre, aumentou as dimensões morais de sua classe e concorreu com exemplar simplicidade para nobilitar também a nossa condição humana.

quinta-feira, outubro 3

Pausa de meditação

Dianne Dengel

Mundo encantado

Os livros impressionavam-me tremendamente. Simples folhas de papel permitiam arquitetar um mundo tão real quanto aquele que era apreendido pelos sentidos.

Ademais, o mundo dos livros - à semelhança do que ocorre com a comida enlatada - era de certa forma mais rico e mais saboroso que o dia a dia convencional. Na vida diária, por exemplo, encontra-se uma porção de gente sem se chegar a conhecê-la verdadeiramente, ao passo que nos livros fica-se sabendo inclusive o que essas pessoas pensam e planejam fazer
Jerzy Kosinski, "O pássaro pintado"

Programão


De repente

E de repente, caminhando nesse dia de novembro, atribulado de deveres, no ano trigésimo quinto de minha história confusa e malbaratada, quando todas as amarguras já bebi, nem de todo sábio, nem de todo bobo, não tendo outro propósito no espírito senão o de abrir bem os olhos, pegar os objetos, ouvir, provar os vinhos turvos, respirar este aroma vegetal de outras tardes antigas, receber, enfim, a dádiva dos sentidos e cumpri-la, aquecendo-me ao sol, molhando-me na chuva e no mar, de repente, em meu caminho, cruzando por um cego embriagado e crianças de uniforme, imaginando com remorso que a gente esperdiça tempo demais a trabalhar sem amor, de repente, sem qualquer disposição para o jornalismo, grave e sereno às quatro horas da tarde, empenhado em não deixar o dia partir inutilmente, dedicando-me com toda a honestidade a enamorar-me do mundo e deste momento inelutável, como quem segura um vaso de louça, de repente, repito, ocorreu-me de novo o milagre, e doeu-me — coisa espantosa — uma saudade magnífica de Paris na primavera, os plátanos agitando as ramas no ar silente, os bancos à beira do rio, onde li e reli que sob a ponte Mirabeau corre o Sena, e a alegria sempre vinha após a pena, e era uma saudade mais de mim a vadiar pelas ruas e os bosques, indo e vindo pelo cais da margem esquerda, remexendo livros empoeirados, admirando a cor e o imponderável de Paris, brincando com as pontes o eterno jogo da poesia, afeiçoando-me até morrer pela ilha de São Luís, as torres góticas encostadas em luz de ouro, e outras cores, outras ramagens, ruas que faziam por si mesmas o meu destino, os vinhos tintos do crepúsculo, as brisas eufóricas, uma saudade, disse eu, sem jeito, feérica, rue Gît-Le-Cœur, rue de Hautefeuille, rue de la Harpe, rue du Chat Qui Pêche, uma saudade que me dispersava, fatalizando-me suavemente, inclinando-me às águas quiméricas do tempo, como me perco no olhar de quem amo.

terça-feira, outubro 1

Leitura na relva

Joel Robison

Crepúsculo

O sol é viril, a noite é feminina e eu não sei de onde me vem tanta incompetência de viver a hora do crepúsculo. Sim, há o colégio interno, com os eucaliptos gesticulantes, perfumes vegetais mesclados na brisa, o trisso das andorinhas e as milícias da saudade a marchar dentro de meu coração patético e pateta. Mas não creio que só isso explique o meu medo e a minha reserva. Eu, que a despeito de tudo aprendi a amar a vida, a respeitar as pessoas que se sentem naturais dentro do mundo, não gosto do crepúsculo. Sinto um princípio de náusea, uma irrealidade que me enjoa corpo e alma, uma desconfiança, uma antipatia cósmica. Andei em muitas ruas, bebi vinhos violentos em cidades estrangeiras, dei guarda a uma estrada, senti vergonhosas vontades de chorar um pouco dentro de um trem ou de um avião, conheço o timbre dos sinos antigos, vi as figuras de minhas namoradas se desfazendo entre a luz e a noite, olhos arrogantes que de repente ficavam humildes, e tenho inveja dos que sabem aonde ir na hora do crepúsculo. E nas viagens rodoviárias, quando os companheiros se calam, e a música do rádio assume o mundo, e a gente se interroga o que fazer na vida. Se entro num bar, é como um autômato incoerente, cujo coração de lata se estiola. Posso amar tudo, ser tudo, fingir-me de tudo, mas não na hora descompassada do ocaso, quando não é, e a noite é nada. Todas as janelas se cercam de grades quando ele chega, todas as paisagens como se fossem vistas e recordadas com aflição, todos os pensamentos se contraem, absurdamente, todos os sentimentos se minimizam. A terra não é nada, apenas um drama cansado e de mau gosto. Ah, meu Cesário Verde querido, meu irmão, como sou a tua alma quando contemplo a tua Lisboa ao anoitecer! Como falei contigo sobre a soturnidade, o bulício, o Tejo, a maresia, o gás extravasado perturbando, os carros de aluguel, a cor monótona, o tinir de louças e talheres, os lojistas enfadados, as varinas hercúleas num cardume negro, o peixe podre, as burguesinhas do catolicismo, o chorar doente dos pianos, o cheiro salutar e honesto a pão no forno, e Madri, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Robinson em minha ilha crepuscular, espero o naufrágio de todos os dias. O céu tem a cor das ratazanas, a hora é esquerda, torta, e não ousa dizer o seu nome. Penso nos entardeceres lentos do Paço no tempo do rei, nos pavões imperiais de São Cristóvão, e nós todos ainda mortos, poeira imperceptível no crepúsculo.

Assim começa...


Livros livres

Livros devem ser livres. Plurais. Ideias alheias em confronto com as nossas nos enriquecem. Sem imposição de pensamento único. Mesmo se o que está escrito em algum livro for uma bobagem.

Cannaday Chapman

Algo alentador no país hoje é a sede de leitura. Apesar das dificuldades. O ensino é capenga. Bibliotecas desatualizadas, só abertas em horário comercial. Indústria livreira em crise. Grandes livrarias fechando. Compras governamentais para escolas suspensas.

Mas na contramão, há sinais animadores. Pequenas livrarias resistem. Clubes de livros e blogs literários proliferam. Professores insistem em explorar com seus alunos o potencial que pulsa na literatura. Festas literárias se multiplicam por incontáveis cidades no interior .

Livros nos dão modelos (como o “Rondon” de Larry Rother) ou mostram males a combater — da escravidão (na obra de Laurentino Gomes) ao autoritarismo ( na de Lilia Schwarcz).

Não adianta vetarem Míriam Leitão e Sérgio Abranches em Jaraguá do Sul — isso lhes dá maior ressonância. Não adianta proibir uma HQ com beijo gay — isso faz 14.000 livros sobre o tema serem distribuídos de graça. Não adianta um diretor da Funarte ofender Fernanda Montenegro — o público a cobre de carinho, o apoio a nossa atriz maior viraliza nas redes. A velha lição: “você corta um verso, eu escrevo outro.”

A cultura resiste às ameaças do obscurantismo, cuja inspiração resulta das trevas que dominam o poder do Estado, como lembrou o ministro Celso de Mello.

E por falar em resistência: onde se meteram nossos estudantes antenados, no dia em que milhões de jovens saíram em defesa do meio ambiente, em mais de 150 países? Tão combativos ao ocupar escolas durante meses em 2016, tão aguerridos ao tomar as ruas quando não era só pelos 20 centavos de aumento na passagem em 2013, agora que nossas florestas ardem e o mundo protesta, eles não ligam a mínima? As raras manifestações aqui mal tinham meia dúzia de gatos pingados. Em sua maioria grisalhos. Que silêncio é esse? Cadê o gás da moçada?
Ana Maria Machado