segunda-feira, julho 8

Terrível

Os passos lentos levantam poeira do chão seco. O estádio redondo já não tem grama, de tão pisoteado. Vestindo camisolões, centenas de homens caminham à toa, uns atrás dos outros, sem entender porque foram capturados e são mantidos ali.

Formam um bando sujo e malnutrido, com sede e fome sob o sol escaldante. Os camisolões exibem manchas escuras à altura dos joelhos e respingos de sangue por toda parte. Um tipo de fosso foi cavado à margem do círculo, onde os homens se revezam para fazer as necessidades. Assim, o cheiro das fezes e urina soma-se ao dos corpos suados e sem banho, e o pó levantado pelos passos adere às peles e cabelos, dando-lhes a aparência de estátuas de barro móveis.

Três vezes ao dia, alto-falantes comandam rezas e todos precisam segui-las de joelhos, com o rosto voltado para o solo. Nem todos entendem o que diz aquela voz estrangeira, mas agem como manada, seguindo o exemplo dos que estão à frente.




Às vezes, por exaustão, revolta ou loucura, um ou outro detento não se ajoelha. Rapidamente, guardas, girando no ar suas espadas, chegam até o contraventor e o decapitam, sumariamente. Uma outra equipe surge em seguida, recolhendo o corpo e a cabeça lançada a metros de distância. Vão direto para o crematório, no lado externo do estádio.

Do lado de fora, também é permitida a presença de mulheres e crianças que desejam resgatar seus entes queridos aprisionados. A esperança delas impressiona, porque nada garante que voltarão a encontrar pai, marido, irmão, filho, neto arrancados de seus lares no meio da noite e levados para trás do alambrado guardado por vigilantes armados.

Os dias se sucedem na rotina macabra. Os que morrem são substituídos por novas levas de suspeitos, que jamais terão chance de provar inocência. Só à noite há um pouco de paz, quando os homens dormem espremidos naquele pouco espaço abarrotado de infelizes.

Sem notícias de fora, não imaginam o que poderá acontecer e continuam caminhando em círculos, sem destino, do amanhecer até a noite, orando para um deus desconhecido que não os socorre e contando apenas com o consolo das estrelas.

– Mãe, acorde! Você estava tendo um pesadelo daqueles, melhor levantar. Noite terrível, hein?

Os donos da língua

A estória que vos vou contar aconteceu no tempo em que os animais falavam, ou melhor, em que falavam todos o mesmo idioma.

O Senhor Cão, o animal mais velho da floresta, era uma espécie de guardião do verbo. Na verdade via-se a si próprio como o legítimo proprietário da fala.

- A palavra foi criada pelos cães, os quais, por gentileza, a emprestaram aos outros animais - explicava aos filhos. - O vosso avô, o Velho Cão, andou por toda esta floresta, descobrindo e nomeando as coisas: rios, lagos, rochedos, montes e vales, árvores, ervas, flores, frutos, os pequenos insectos, nevoeiros, chuvas,o lodo e a lama. Enfim, tudo. O que nós, cães, não conhecemos, não existe; o que não tem nome, não existe. Assim, a existência da floresta deve-se a nós. Este é um Mundo Cão.


A Senhora Sucuri não gostava de ouvir aquele discurso. Era o animal maior da floresta, falava tão bem como o Senhor Cão, e, como ele, usava chapéu. "A língua pertence a todos", dizia, "da mesma forma que um rio constrói o seu caminho e depois é ele esse caminho, assim nós fazemos uma lingua e a seguir ela nos refaz". A Senhora Palanca achava o mesmo, mas era mais dramática: "A língua sou eu!"; e o Senhor Papagaio repetia: "A língua sou eu, a língua sou eu!". Tímida, a Corça propunha uma outra formulação: "A minha Pátria é a minha língua"; e o Senhor Papagaio repetia: "A minha Pátria é a minha língua, a minha Pátria é a minha lingua".

Um dia o Senhor Cão foi passear para a zona mais remota da floresta, como costumava fazer, empurrado pelo desejo de descobrir coisas novas às quais pudesse dar nome (e existência). A luz era escassa, húmida e verde, naqueles deslimites. Uma lama espessa escondia o chão. As próprias árvores pareciam perigosas.

Algumas tinham os troncos cobertos de picos, outras de resina ácida, flores de uma melancolia crepuscular devoravam tudo em seu redor.

Ali, meio imerso na lama, o Senhor Cão descobriu o esqueleto de um animal desconhecido. Aproximou-se para o estudar melhor, ansioso por lhe dar um nome, agregando-o dessa forma à floresta, ao universo, à imensidão das coisas existentes, mas não lhe ocorreu nada. Ficou assim muito tempo, rondando aquela morte que lhe desorganizava o pensamento. "Como te chamas?", perguntou, já desesperado, e então, para seu grande espanto, o esqueleto ergueu-se e respondeu: "O meu nome? Nunca tive nome.

O Senhor Cão assustou-se:

- O nome é um resumo da alma - disse -, tudo o que existe ou existiu, ou até que se acredita que possa vir a existir, tem de ter um nome.

O esqueleto chocalhou os ossos, indiferente à perplexidade do outro:

- Eu nunca tive. Vivi e morri sem que ninguém me nomeasse.

Naquela tarde os outros animais viram o Senhor Cão regressar a casa de cabeça baixa. Achava-se um falhado. Descobrira algo de novo na Floresta e não fora capaz de lhe dar um nome. Adoeceu de desgosto. Alguns dias depois, preocupada, a Senhora Corça foi saber o que se passava e encontrou o Cão às portas da morte.

"Morro", disse-lhe este, "sem ter cumprido o meu papel nesta Floresta". E morreu.

Durante uma semana os animais choraram, dançaram e beberam o morto, conforme a tradição, e depois lançaram o seu cadáver ao rio, e o rio arrastou-o até à zona mais remota da floresta.

Anos depois, ou séculos, não importa, o cão foi parar junto às ossadas do animal desconhecido.

- Estou a conhecer-te - disse o esqueleto. - Tu és o cão. Aquele que se julgava o dono da língua. Mas morreste e a língua continua. Os outros animais servem-se dela, agora, como se fosse um perpétuo Domingo.

- Já alguém te deu um nome? - quis saber o cão - Só isso me interessa.

O outro riu-se:

- Sim - disse -, chamam-me Escuridão.
Pepetela

sábado, julho 6

Viagem fantástica


 

Poema

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mario Quintana, "Antologia Poética"

O mar

Banho de mar no recife era “banho salgado”, e só se tomava com ordem médica, das cinco às sete da manhã. Antes do sol.

As roupas de banho das mulheres começavam numa touca, seguindo-se um casaco-sunga escuro (com aplicações róseas ou azuis) até os joelhos e sapatos de borracha.

Não devia confessar, mas sou do tempo do “banho salgado”. Acordávamos com a noite fechada, entrávamos em nossas roupas de banho e partíamos. De carro, para a Boa Viagem. Em jejum. Ai de quem tomasse café e caísse no mar. Contavam-se casos de pessoas que envesgaram ou ficaram com a boca torta. Tinha que ser em jejum como o da comunhão. Nem água.


A família só descia do automóvel depois que o chofer, pessoa de confiança, fizesse um reconhecimento da área e garantisse que não havia ninguém (homem) ali por perto.

Na praia, a pessoa mais velha mandava que todos fizesse o “pelo sinal” e tirava uma ave-maria, a que todos respondiam, encomendando a alma a Deus, no caso de afogamento ou congestão.

– Botaram algodão nos ouvidos?

– Botamos.

Davam-se as mãos, moços e crianças, entravam no mar, até a cintura.

– Um, dois três ... e já!

E mergulhavam agoniados, de mãos dadas, olhos, ouvidos, boca e nariz tapados.

Essas minhas lembranças vêm de 1928. Apenas 33 anos. Mas o mar era uma novidade. Um desconhecido. Fazia-se cerimônia com ele. Tinha-se medo dele. Mar de 1928 era ainda o mar de Castro Alves. Soleníssimo: “Stamos em pleno mar!” Fazia medo. O mar de hoje é o de Caymmi. Abrandou. Tornou-se íntimo. Ninguém respeita.

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar...

Daquele mar do Recife, ficou uma lembrança: o cheiro dos sargaços. A quem os teve, sargaços na infância, por mais que ande, por mais feliz que esteja, faltará alguma coisa.

Antônio Maria

O homem

Era uma tarde do fim de novembro, já sem nenhum outono.

A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.

Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.

Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.

Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.


Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.

Como contar o seu gesto?

Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: a sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultanea-mente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.

Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.

A multidão não parava de passar. Era o centro do Centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.

Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde demais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.

Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.

Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.

Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.

Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.

Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.

Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trêmulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.

E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

“Pai, pai, por que me abandonaste?”

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exatamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

“Pai, pai, por que me abandonaste?”

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.

Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.

Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.

Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.

Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exatamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.

A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.

Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo. Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.

Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado.

Pelas ruas.
Sophia de Mello Andresen, "Contos exemplares"

quarta-feira, julho 3

Bons tempos

 


De pombos e de gatos

Um dos meus grandes encantos em Florença, onde, em 1952, passei cerca de um mês, era ver da janela do meu quinto andar, no Hotel Nazionale, a madrugada toscana romper sobre a piazza Santa Maria Novella. Habituei-me de tal modo a isso que, nos meus hábitos de noctâmbulo, esticava a noite até o amanhecer, só pelo prazer de ver a luz rósea do sol florentino descobrir e incendiar os mármores da fachada da igreja de Santa Maria Novella, bem como o claustro verde que fica à sua esquerda e as elegantes arcadas do fundo, onde existem as terracotas de Andrea e Giovanni della Robbia. Mas o prazer desse minuto de luz acabaria por resultar monótono, não se lhe seguisse um dos mais extraordinários divertissements a que já me foi dado assistir, misto de balé, cinema e circo romano, sem falar que cheio de ensinamentos sobre a vida e arte de viver perigosamente.

O caso é que, aos primeiros vestígios de luz, começava-se a ouvir por ali em torno um brando ruflar de asas que, com o despontar do Sol, crescia num espesso burburinho ao qual vinham se unir doces arrulhos. E o ambiente, em suas cores rosa, verde, laranja e terracota, adquiria uma maciez de plumas; e logo asas brancas e trigueiras começavam a tatalar em largos voos e algumas desciam em voos rasantes; e toda uma população de pombos, habitantes daqueles mil escaninhos, como só pode proporcionar a arquitetura antiga, vinha pousar na praça.

A coisa ficava assim por uns poucos minutos; e em breve apareciam, infalivelmente, no belo logradouro, três padres e cinco gatos. Cabe dizer, em nome da verdade, que os padres chegavam bem menos sorrateiramente que os gatos e, estou certo, com intenções muito menos maléficas; pois se vinham os padres para se aquecer um pouco ao sol e ler seus breviários, os gatos surgiam, esgueirando-se das ruas laterais, para cumprir uma fatalidade do seu destino, que é de comer pombos. E com a malícia que lhes é peculiar, colocavam-se pacientemente em posições estratégicas, sob automóveis encostados ao meio-fio, à espera do momento azado para o bote.

Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem-disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja a de, eventualmente, se entredevorarem quando engaiolados. Mas no caso especial da piazza de Santa Maria Novella, devo confessar que era torcida incondicional dos pombos; e só passei a torcer pelos gatos no final, quando, defrontado com a realidade de sua terrível humilhação, e provável neurose subsequente, achei que não faria nenhuma falta à comunidade a desaparição de uma meia dúzia de columbinos, em beneficio do sistema nervoso dos pobres gatos. Pois era quase doloroso ver o fracasso constante de suas desesperadas tentativas de caçar um pombinho que fosse. E garanto que eles empregavam todas as técnicas tradicionais dos gatos, desde a paciente emboscada, até a carreira às cegas, com saltos desordenados para todos os lados.

Tudo em vão. Porque, a cada arremetida, os pombos limitavam-se a dar pequenos voos que criavam verdadeiros túneis para os gatos, que os percorriam em furiosas e inúteis investidas. E o pior é que cada pombo, passado o rojão, pousava como se nada tivesse havido, e continuava na sua estúpida ciscação do chão da praça, na mais total indiferença diante de seu velho inimigo. Coisa que, positivamente, devia deixar os gatos loucos. Haja visto um que um dia eu vi, depois de numerosos ataques frustrados, a morder como um possesso o pneu de um Chevrolet, e por cuja sanidade mental não poria da maneira alguma a mão na Bíblia.
Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"

Leia como alpinista

Ler sem pensar, ler distraidamente, é como passar por entre belas paisagens com os olhos vendados. Tampouco devemos ler para esquecer-nos a nós e à nossa vida quotidiana, mas, ao contrário, para reassumirmos em nossas mãos firmes e da maneira mais consciente e madura, a nossa própria existência. Devemos ir aos livros não como alunos tímidos que temessem aproximar-se de mestres frios e indiferentes; não como os ociosos que passam o tempo a beber. E sim, como alpinistas a galgar as alturas; como guerreiros que correm ao quartel para buscar armas. E não como quem estivesse a fugir de si mesmo, sem vontade de viver
. Herman Hesse

Poema

Oh! aquele menininho que dizia
“Fessora, eu posso ir lá fora?”
Mas apenas ficava um momento
Bebendo o vento azul…
Agora não preciso pedir licença a ninguém.
Mesmo porque não existe paisagem lá fora:
Somente cimento.
O vento não mais me fareja a face como um cão amigo…
Mas o azul irreversível persiste em meus olhos.

Mário Quintana, "Antologia Poética"

As estrutura da bolha de sabão

Era o que ele estudava. “A estrutura, quer dizer a estrutura” - ele repetia e abria a mão branquíssima ao esboçar o gesto redondo. Eu ficava olhando seu gesto impreciso, porque uma bolha de sabão é mesmo imprecisa, nem sólida nem líquida, nem realidade nem sonho. Película e oco. “A estrutura da bolha de sabão, compreende?” Não compreendia. Não tinha importância. Importante era o quintal de minha meninice com seus verdes canudos de mamoeiro, quando cortava os mais tenros que sopravam as bolas maiores, mais perfeitas. Uma de cada vez. Amor calculado, porque, se me afobava, o sopro desencadeava o processo e um delírio de cachos escorriam pelo canudo e vinham rebentar na minha boca, a espuma descendo pelo queixo. Molhando o peito. Então eu jogava longe o canudo e caneca. Para recomeçar no dia seguinte, sim, as bolhas de sabão. Mas e a estrutura? “A estrutura” - ele insistia. E seu gesto delgado de envolvimento e fuga parecia tocar mas guardava distância, cuidado, cuidadinho, ô a paciência. A paixão.

No escuro eu sentia essa paixão contornando sutilíssima meu corpo. Estou me espiritualizando, eu disse e ele riu fazendo fremir os dedos-asas, a mão distendida imitando libélula na superfície da água, mas sem se comprometer com o fundo, divagações à flor da pele, ô, amor de ritual sem sangue. Sem grito. Amor de transparência e membranas, condenado à ruptura.

Ainda fechei a janela para retê-la, mas com sua superfície que refletia tudo ela avançou cega contra o vidro. Milhares de olhos e não enxergava. Deixou um círculo de espuma. Foi simplesmente isso, pensei quando ele tomou a mulher pelo braço e perguntou: “Vocês já se conheciam?” Sabia muito bem que nunca tínhamos nos visto mas gostava dessas frases acolchoando situações, pessoas. Estávamos num bar e seus olhos de egípcia se retraíam, apertados. A fumaça, pensei. Aumentavam e diminuíam até que se reduziram a dois riscos de lápis-lazúli e assim ficaram. A boca polpuda também se apertou, mesquinha. Tem boca à-toa, pensei. Artificiosamente sensual, à-toa. Mas como é que um homem como ele, um físico que estudava a estrutura das bolhas, podia amar uma mulher assim. Mistérios, eu disse e ele sorriu, nos divertíamos em dizer fragmentos de ideias, peças soltas dum jogo que jogávamos meio ao acaso, sem encaixe.


Convidaram-me e sentei, os joelhos de ambos encostados nos meus, a mesa pequena enfeixando copos e hálitos. Me refugiei nos cubos de gelo amontoados no fundo do copo, ele podia estudar a estrutura do gelo, não era mais fácil? Mas ele queria fazer perguntas. Uma antiga amizade? Uma antiga amizade. Ah. Fomos colegas? Não, nos conhecemos numa praia, onde? Enfim, uma praia. Ah. Aos poucos o ciúme foi tomando forma e transbordando espesso como um licor azul-verde, do tom da pintura dos seus olhos. Escorreu pelas nossas roupas, empapou a toalha da mesa, pingou gota a gota. Usava um perfume adocicado. Veio a dor de cabeça: “Estou com tanta dor de cabeça”, repetiu não sei quantas vezes. Uma dor fulgurante que começava na nuca e se irradiava até a testa, na altura das sobrancelhas. Empurrou o copo de uísque. “Fulgurante”. Empurrou para trás a cadeira e antes que empurrasse a mesa ele pediu a conta. Noutra ocasião a gente poderia se ver, de acordo? Sim, noutra ocasião, é lógico. Na rua, ele pensou em me beijar de leve, como sempre, mas ficou desamparado e eu o tranquilizei, está bem, querido, está tudo bem, entendi. Tomo um taxi, não tem problema, vá depressa, vá. Quando me voltei, já dobravam a esquina. Que palavras estariam dizendo enquanto dobravam a esquina? Fingi me interessar pela valise de plástico de xadrez vermelho, estava diante de uma vitrine de valises. Me vi perplexa no vidro. Mas como era possível. Choro em casa, resolvi. Em casa telefonei a um amigo, fomos jantar e ele concluiu que o meu cientista estava felicíssimo.

Felicíssimo, repeti quando no dia seguinte cedo ele telefonou para explicar. Cortei a explicação com o felicíssimo e lá do outro lado da linha senti-o sorrir como uma bolha de sabão sorriria. Realmente, a única coisa inquietante era aquele ciúme. Mudei logo de assunto com o licoroso pressentimento de que ela ouvia na extensão, oh, o teatro. A poesia. Então ela desligou.

O segundo encontro foi numa exposição de pintura. No começo, aquela cordialidade. A boca pródiga. Ele me puxou para ver um quadro de que tinha gostado muito. Não ficamos distante dela nem cinco minutos. Quando voltamos, os olhos já estavam reduzidos aos dois riscos. Passou a mão na nuca. Furtivamente acariciou a testa. Despedi-me correndo antes da dor fulgurante. Vai virar sinusite, pensei. A sinusite do ciúme, bom nome para um quadro ou ensaio.

“Ele está doente, sabia? Aquele cara que estuda bolhas, não é seu amigo?” Em redor, a massa latejante de gente, música. Calor. Quem é que está doente? Eu perguntei. Sabia perfeitamente que se tratava dele, mas precisei perguntar de novo. É preciso perguntar uma, duas vezes para ouvir a mesma resposta, que aquele cara, aquele que estuda essa frescura da bolha, não era meu amigo? Pois estava muito doente, quem contou foi a própria mulher, bonita, sem dúvida, mas um pouco sobre a grossa, fora casada com o primo dum amigo, um industrial meio nazista que veio para cá com passaporte falso, até a Interpol já estava avisada, durante a guerra se associou com um tipo que se dizia conde italiano mas não passava dum contrabandista muito grande. Estendi a mão e agarrei seu braço porque a ramificação da conversa se alastrava pelas veredas, eu mal podia vislumbrar o desdobramento da raiz varando por entre pernas, sapatos, croquetes pisados, palitos, fugia pela escada na descida vertiginosa até a porta da rua, espera! eu disse. Espera. Mas que é que ele tem? Esse meu amigo. A bandeja de uísque oscilou perigosamente acima do nível das nossas cabeças. Os copos tilintaram na inclinação para a direita, para a esquerda, deslizando num só bloco na dança dum convés na tempestade. O que ele tinha? O homem bebeu metade do copo antes de responder: não sabia os detalhes e nem se interessava em saber, afinal, a única coisa gozada era um cara estudar a estrutura da bolha, ora que idéia! Tirei-lhe o copo e bebi devagar o resto do uísque com o cubo de gelo colado ao meu lábio, queimando. Não ele, meu Deus. Não ele, eu repeti. Embora grave, curiosamente minha voz varou todas as camadas de barulho como a ponta agudíssima varara todas as camadas do meu peito até tocar no fundo, lá no fundo onde as pontas todas acabam por dar, que nome tinha? Esse fundo, perguntei e fiquei sorrindo para o homem e seu espanto. Expliquei-me que era o jogo que eu costumava jogar com ele, com esse meu amigo, o físico. O infortunante riu. “Juro que nunca pensei que fosse encontrar no mundo um cara que estudasse um troço desses”, resmungou ele voltando-se rápido para apanhar mais dois copos na bandeja, ô, tão longe ia a bandeja e tudo o mais, fazia quanto tempo? “Me diga uma coisa, vocês não viveram juntos?” - lembrou-se o homem de perguntar. Peguei no ar o copo borrifando na tormenta. Estava nua na praia. Mais ou menos, respondi.

Mais ou menos, eu disse ao motorista que perguntou se eu sabia onde ficava essa rua. Tinha pensado em pedir notícias por telefone, mas a extensão me travou. E agora ela abria a porta e o sorriso. Contente de me ver? A mim?! Elogiou minha bolsa. Meu penteado despenteado. Nenhum sinal da sinusite. Mas daqui a pouco vai começar. Fulgurante.

“Foi mesmo um grande susto,” ela disse. “Mas passou, ele está ótimo ou quase”, acrescentou levantando a voz. Do quarto ele poderia nos ouvir se quisesse. Não perguntei nada.

A casa. Aparentemente, não mudara, mas, reparando melhor, tinha menos livros. Mais cheiros: flores de perfume ativo no vaso, óleos perfumados nos móveis. E seu próprio perfume. Objetos frívolos – os múltiplos – substituindo em profusão os únicos, aqueles que ficavam obscuros nas antigas prateleiras da estante. Examinei-a enquanto me mostrava um tapete que tecera nos dias em que ele ficou no hospital. E a fulgurante? Os olhos continuavam bem abertos, a boca descontraída. Ainda não.

“Você poderia ter se levantado, hem, amor? Mas é um preguiçoso”, disse ela quando entramos no quarto. E começou a contar muito animada a história dum ladrão que entrara pelo porão da casa ao lado, “a casa da mãezinha”, acrescentou afagando ligeiramente os pés dele debaixo da manta de lã. Acordaram no meio da noite com o ladrão aos berros, pedindo socorro com a mão na ratoeira, tinha ratos no porão e na véspera a mãezinha armara uma enorme ratoeira para pegar o rei de todos, lembra, amor?

O amor estava de chambre verde, recostado na cama cheia de almofadas. As mãos branquíssimas descansando entrelaçadas na altura do peito. Ao lado, um livro aberto e cujo título deixei para ler depois e não fiquei sabendo. Ele mostrou interesse pelo caso do ladrão, de mim e dela. De quando em quando me olhava interrogativo, sugerindo lembranças, mas eu sabia que era por delicadeza, sempre foi delicadíssimo. Atento e desligado. Onde? Onde estaria com seu chambre largo demais. Era devido àquelas dobras todas que fiquei com a impressão de que emagrecera? Duas vezes enxugou o queixo úmido, transpirava. Enfim, fazia calor.

Comecei a sentir falta de alguma coisa, era do cigarro? Acendi um e ainda a sensação aflitiva de que alguma coisa faltava, mas o que estava errado ali? Na hora da pílula lilás ela foi buscar o copo d’água e então ele me olhou lá do seu mundo de estruturas. Bolhas. Por um instante relaxei completamente: “Não sei onde está mas sei que não está”, eu disse, e ele perguntou: “Jogar?” Rimos um para o outro.

“Engole, amor, engole” - pediu ela segurando-lhe a cabeça. E voltou-se para mim: - “Preciso ir aqui na casa da mãezinha e minha empregada está fora, você se importa em ficar mais um pouco? Não demoro muito, a casa é ao lado”, acrescentou. Ofereceu-me uísque, não queria mesmo? Se quisesse estava tudo na copa, uísque, gelo, ficasse à vontade. Telefone tocando será que eu podia?...

Saiu e fechou a porta. Fechou-nos. Então descobri o que estava faltando, ô Deus. Agora eu sabia que ele ia morrer.

Lygia Fagundes Telles

terça-feira, julho 2

De manhã

 


Pensamentos a esmo sobre cães a esmo

Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento de nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou sua percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu descansar um pouco sem ser pertubado por animais sorrateiros. Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão "venatório" etc. e, finalmente, diz: "Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas". Quanta sabedoria havia aqui. O câozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

Steinbeck e Charley

O cachorro em nossos dias, mudou de função. É claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para suas complicadas profissões, mas em nossa população total de cachorros estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, mas de longe a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou uma mulher. Uma platéia para os tímidos.Um filho para quem não tem filhos. Nas ruas de Nova York, entre as sete e nove da manhã, a gente vê a lenta procissão de cachorro e dono seguindo da rua para a árvore, para o hidrante, para a cesta de lixo. São de apartamento. São levados à rua duas vezes por dia e, embora seja um clichê, é espantoso como dono e cachorro se parecem. Chegam a andar igual, a ter o mesmo tipo de cabeça.

Nos Estados Unidos, estilos e cães mudam. Há a alguns anos o ariedale era o mais popular. Agora é o cocker, mas o poodle está chegando lá. Há uns mil anos consigo lembrar que havia boxers por toda a parte.

Nos Estados Unidos, tendemos a levar ao extremo raças de cães que não trabalham. Criamos colies com cabeça tão comprida e estreita que não conseguem mais encontrar o caminho de casa. O daschshund ideal é tão comprido e baixo que sua espinha cede. Nossos dobermanns são paranóicos. Desenvolvemos um boston bull com cabeça tão grande que os filhotes só podem nascer por cesariana.

Não é sensato lamentar o cão de apartamento. Sua espectativa de vida é quase o dobro do cachorro do campo. Seu tédio, provavelmente, é muitas vezes maior. Certo dia entrei num taxi e dei o endereço de uma loja de animais. O motorista perguntou:

- O senhor quer um cachorro? Porque eu posso lhe arrumar um cachorro. Arranjo cachorros.

- Não é um cachorro, mas como é isso de arranjar cachorros?

- É assim - disse o taxista. - Sábado à noite, num apartamento, tem um sujeito e a mulher secando uma garrafa de gim. Aí pela meia-noite começam a brigar. Ela diz: "Esse seu cachorro danado. Quem é que limpa a sujeira dele e leva ele pra passear e dá comida, e você só chega em casa e faz um carinho na cabeça dele". E o sujeito diz: "Não fale assim do meu cachorro". "Odeio ele, diz ela. "Tá bom colega", diz ele, "se é assim que você quer... Venha Spot", e ele e o cachorro vão pra rua. O sujeito senta num banco, pega o bicho no colo e chora, e depois os dois vão prum bar e o sujeito conta pra todo mundo que mulher nenhuma pode tratar seu amigo assim. Bem, dali a pouco eles fecham o bar e já é tarde e o efeito do álcool começa a passar e o sujeito quer ir pra casa. Aí ele entra no taxi e dá o cachorro pro motorista. Acontece comigo toda noite de sábado.

Já tive alguns cachorros espantosos. Um que recordo com prazer foi um english setter enorme. Via coisas incompreensíveis. Latia durante horas para uma árvore, mas só para aquela árvore. Na estação das uvas só comia uvas, que colhia da parreira, uma uva de cada vez. Na estação das peras vivia de peras derrubadas pelo vento, mas não tocava em maçãs. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais transcedental. Acho que finalmente acabou desacreditando das pessoas. Pensava que eram um sonho seu. Reunia todos os cães da vizinhança e fazia-lhes conferências ou sermões silenciosos e certo dia concentrou sua atenção em mim por uns bons cinco minutos e depois foi embora. Ouvi falar dele em diferentes partes do estado. As pessoas tentavam fazê-lo ficar, mas num ou dois dias ele partia. Minha opinião era que tinha visões e tornou-se missionário. Seu nome era T-Dog. Muito tempo depois, a mais de cem quilometros de distância, vi um letreiro pintado numa cerca que dizia “T-God”. Estou convencido de que ele trocou as letras de seu nome e desde então saiu pelo mundo para levar sua mensagem a todos os cães.

Tive todos os tipos de cachorro, mas há um que sempre quis e nunca tive. Nem sei se ainda existe. Costumava haver no mundo um english bull terrier branco. Era atarracado, mas rápido. Seu fucinho era pontudo e os seus olhos eram triangulares, de forma que sua expressão era de um riso cínico. Era amigável e nada brigão, mas se forçado a lutar era ótimo nisso. Fazia uma ideia favorável e decente de si mesmo e nunca era covarde. Era um cão pensativo, voltado para si mesmo, mas ainda assim tinha uma curiosidade enorme. Era pesado de ossos e ombros. Seu pescoço fazia um belo arco. Às vezes cortavam sua orelha, mas nunca seu rabo elevado. Era um bom cachorro para um passeio. Um cachorro excelente para dormir ao lado da cama de um homem. Era delicado em seus sentimentos. Sempre quis um deles. Me pergunto se ainda existe no mundo.
John Steinbeck

Excelente troca


Gostar de ler é trocar horas de tédio por outras deliciosas
Montesquieu

Meu avô

Vovó morreu sentada ao lado do fogão, cerzindo meias no ovo de madeira. O velho dava-lhe as costas, um de mau com o outro. O ovo de madeira lhe rolou aos pés... Voltou-se para ela, bem quieta na cadeirinha de palha. Cerzira a meia e, ao levar o fio à boca para cortá-lo (tinha todos os dentes aos sessenta anos), morreu.

O velho trancou-se no quarto, a berrar que havia gente interessada na sua morte. Batia na parece com o martelo e, uma noite, a cada pancada seguiu-se um grito. Os filhos arrombaram a porta e tomaram-lhe o martelo das mãos: começara a enterrar um prego na cabeça.

Vovô comia com a colher. Meu pai cortava-lhe a carne no prato e, ao deitar-se, escondia dele facas e garfos. O velho levava para o quarto a sua garrafa de vinho, que os filhos enchiam toda noite, misturando-o com água.

Tinha muito de medo de açúcar na arina. Antes de enfiar-se na cama, de cachimbo e ceroulas, media com cuidado os pulsos e tornozelos, aparava dois pedaços de barbante exatamente naquelas dimensões para verificar, na manhã seguinte, se o corpo havia inchado. Dormia bêbado, esquecido da porta aberta... e os netos entrávamos no quarto, reduzíamos o tamanho dos barbantes e espargíamos açúcar pelo urinol, que amanhecia rodeado de formiguinhas ruivas.

Com saudade da falecida, jurou privar-se de manteiga o resto da vida. E manteiga era do que mais gostava, depois de beber. Vovó não se deu por satisfeita; ele escutava os ruídos da defunta. Que vinha deitar-se, arrastando o vaso debaixo da cama. A garrafa corria no soalho, gorgolejava um resto de vinho azedo. Os brados do meu avô ecoavam pela casa:

– Vá-se embora daqui... Você já morreu, mulher diaba!

Ouvia então as moscas ao redor da cama – era a falecida.

Bem que ele se queixara: “Essa bicha está com cheiro!” E havia queimando folhas de alecrim no quarto.

O velho achou a navalha de meu pai (iria dar pela falta apenas no sábado, quando fizesse a barba) e, antes que a defunta se deitasse na cama, cortou o pescoço de uma orelha a outra. Atirou a navalha pela janela e, sustentando com as mãos a cabeça, seguiu pelo corredor até a cozinha, deitou-se aos pés da cadeirinha de palha – o sangue verteu do assoalho feito água de chuva debaixo da porta.

Mamãe encontrou-o, de manhã, quando foi acender o fogo. Meu pai suspendeu o velho, encostou-o na parede: “Pai, pai, sou eu. Pai, me responda. É o Paulo”. Tinha de firmar a cabeça no pescoço a fim de que ela não rolasse.

De volta do enterro, meu pai sentou-se na cadeirinha de palha, a cabeça nas mãos. Foi ao quarto do vovô, achou sob a cama a garrafa já pela metade. Bebeu o vinho azedo, esfregou os dedos no sangue e chamou pelo velho. Conversava com ele no quarto, bem como pai e filho. Mamãe batia na porta:

– Venha jantar, Paulo. São nove horas.

À noite, ele pregou as portas e janelas. E foi dormir bêbado, a mão suja de sangue.

Dalton Trevisan

Ao crepúsculo, amulher

Ao crepúsculo a mulher bela estava quieta, e me detive a examinar sua cabeça com atenção e o extremado carinho de quem fixa uma flor. Sobre a haste do colo fino estava apenas trêmula; talvez a leve brisa do mar; talvez o estremecimento do seu próprio crepúsculo. Era tão linda assim, entardecendo, que me perguntei se já estávamos preparados, nós, os rudes homens destes tempos, para testemunhar a sua fugaz presença sobre a terra. Foram preciso milênios de luta contra a animalidade, milênios de milênios de sonho para se obter esse desenho delicado e firme. Depois os ombros são subitamente fortes, para suster os braços longos; mas os seios são pequenos, e o corpo esgalgo foge para a cintura breve; logo as ancas readquirem o direito de ser graves, e as coxas são longas, as pernas desse escorço de corça, os tornozelos de raça, os pés repetindo em outro ritmo a exata melodia das mãos.

Ela e o mar entardeciam, mas, a um leve movimento que fez, seus olhos tomaram o brilho doce da adolescência, sua voz era um pouco rouca. Não teve filhos. Talvez pense na filha que não teve... A forma do vaso sagrado não se repetirá nestas gerações turbulentas e talvez desapareça para sempre no crepúsculo que avança. Que fizemos desse sonho de deusa? De tudo o que lhe fizemos só lhe ficou o olhar triste, como diria o pobre Antônio, poeta português. O desejo de alguns a seguiu e a possuiu; outros ainda se erguerão como torvas chamas rubras, e virão crestá-la, eis ali um homem que avança na eterna marcha banal.

Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar Suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha. Sim, foi a própria mão divina em um momento difícil e feliz. Depois Ele disse: anda... E ela começou a andar entre os humanos. Agora está aqui entardecendo; a brisa em seus cabelos pensa melancolias. As unhas são rubras; os cabelos também ela os pintou; é uma mulher de nosso tempo; mas neste momento, perto do mar, é menos uma pessoa que um sonho de onda, fantasia de luz entre nuvens, avideusa trêmula, evanescente e eterna.

Mas para que despetalar palavras tolas sobre sua cabeça? Na verdade não há o que dizer; apenas olhar, olhar como quem reza, e depois, antes que a noite desça de uma vez, partir.
Rubem Braga

segunda-feira, julho 1

A cada um, a melhor posição

 


Leitura

Era um quintal ensombrado, murado alto de pedras,
As macieiras tinham maçãs temporãs, a casca vermelha
de escuríssimo vinho, o gosto caprichado das coisas
fora do seu tempo desejadas.
Ao longo do muro eram talhas de barro.
Eu comia maçãs, bebia a melhor água, sabendo
que lá fora o mundo havia parado de calor.
Depois encontrei meu pai, que me fez festa
e não estava doente e nem tinha morrido, por isso ria,
os lábios de novo e a cara circulados de sangue,
caçava o que fazer pra gastar sua alegria:
onde está meu formão, minha vara de pescar,
cadê minha binga, meu vidro de café?
Eu sempre sonho que uma coisa gera,
nunca nada está morto.
O que não parece vivo, aduba.
O que parece estático, espera.
Adélia Prado, "Bagagem"

Ragnarök

Nos sonhos (escreve Coleridge) as imagens figuram as impressões que pensamos que causam; não sentimos horror porque uma esfinge nos oprime — sonhamos uma esfinge para explicar o horror que sentimos. Se isto é assim, como poderia uma simples crônica de suas formas transmitir o estupor, a exaltação, os alarmes, a ameaça e o júbilo que teceram o sonho dessa noite? Não obstante, tentarei essa crônica; talvez o fato de que uma única cena integrou aquele sonho apague ou mitigue a dificuldade essencial.

O lugar era a Faculdade de Filosofia e Letras; a hora, o entardecer. Tudo (como costuma ocorrer nos sonhos) era pouco nítido; uma ligeira magnificação alterava as coisas. Elegíamos autoridades; eu falava com Pedro Henriques Urefia, que na vigília morreu há muitos anos. Bruscamente aturdiu-nos um clamor de manifestação ou de charanga. Alaridos humanos e animais chegavam de Abaixo. Uma voz gritou: Aí vêm! e depois Os Deuses! Os Deuses!

Quatro ou cinco sujeitos saíram da turba e ocuparam o estrado da Aula Magna. Todos nós aplaudimos, chorando; eram os Deuses que voltavam depois de um desterro de séculos. Alteados pelo estrado, a cabeça lançada para trás e o peito projetado para a frente, receberam com soberba nossa homenagem. Um sustinha um ramo, que se conformava, sem dúvida, à botânica simples dos sonhos; outro, com um largo gesto, estendia uma de suas mãos, que era uma garra; uma das caras de Jano olhava com receio o recurvado bico de Toth. Excitado talvez por nossos aplausos, um, já não sei qual, prorrompeu em um cacarejo vitorioso, incrivelmente áspero, com algo de gargarejo e de assovio. A partir daquele momento, as coisas mudaram.

Tudo começou pela suspeita (talvez exagerada) de que os Deuses não sabiam falar. Séculos de vida fugitiva e selvagem haviam atrofiado neles o lado humano: a lua do Islã e a cruz de Roma tinham sido implacáveis com estes prófugos. Rostos muito baixos, dentaduras amarelas, bigodes ralos de mulatos ou de chineses e beiçolas bestiais tornavam pública a degeneração da estirpe olímpica. Seus adereços não correspondiam a uma pobreza decorosa e decente, mas sim ao luxo malévolo das casas de jogo e dos lupanares de Abaixo. A uma botoeira sangrava um cravo; em um casaco ajustado se adivinhava o vulto de uma adaga. Bruscamente sentimos que eles jogavam sua última cartada, que eram matreiros, ignorantes e cruéis como velhos roedores e que, se nos deixássemos possuir pelo medo ou pela piedade, acabariam por destruir-nos.

Sacamos os pesados revólveres (na hora surgiram revólveres no sonho), e alegremente demos morte aos Deuses.

Jorge Luis Borges, "Livro de Sonhos"

De pombos e de gatos

Um dos meus grandes encantos em Florença, onde, em 1952, passei cerca de um mês, era ver da janela do meu quinto andar, no Hotel Nazionale, a madrugada toscana romper sobre a piazza Santa Maria Novella. Habituei-me de tal modo a isso que, nos meus hábitos de noctâmbulo, esticava a noite até o amanhecer, só pelo prazer de ver a luz rósea do sol florentino descobrir e incendiar os mármores da fachada da igreja de Santa Maria Novella, bem como o claustro verde que fica à sua esquerda e as elegantes arcadas do fundo, onde existem as terracotas de Andrea e Giovanni della Robbia. Mas o prazer desse minuto de luz acabaria por resultar monótono, não se lhe seguisse um dos mais extraordinários divertissements a que já me foi dado assistir, misto de balé, cinema e circo romano, sem falar que cheio de ensinamentos sobre a vida e arte de viver perigosamente.


O caso é que, aos primeiros vestígios de luz, começava-se a ouvir por ali em torno um brando ruflar de asas que, com o despontar do Sol, crescia num espesso burburinho ao qual vinham se unir doces arrulhos. E o ambiente, em suas cores rosa, verde, laranja e terracota, adquiria uma maciez de plumas; e logo asas brancas e trigueiras começavam a tatalar em largos voos e algumas desciam em voos rasantes; e toda uma população de pombos, habitantes daqueles mil escaninhos, como só pode proporcionar a arquitetura antiga, vinha pousar na praça.

A coisa ficava assim por uns poucos minutos; e em breve apareciam, infalivelmente, no belo logradouro, três padres e cinco gatos. Cabe dizer, em nome da verdade, que os padres chegavam bem menos sorrateiramente que os gatos e, estou certo, com intenções muito menos maléficas; pois se vinham os padres para se aquecer um pouco ao sol e ler seus breviários, os gatos surgiam, esgueirando-se das ruas laterais, para cumprir uma fatalidade do seu destino, que é de comer pombos. E com a malícia que lhes é peculiar, colocavam-se pacientemente em posições estratégicas, sob automóveis encostados ao meio-fio, à espera do momento azado para o bote.

Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem-disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja a de, eventualmente, se entredevorarem quando engaiolados. Mas no caso especial da piazza de Santa Maria Novella, devo confessar que era torcida incondicional dos pombos; e só passei a torcer pelos gatos no final, quando, defrontado com a realidade de sua terrível humilhação, e provável neurose subsequente, achei que não faria nenhuma falta à comunidade a desaparição de uma meia dúzia de columbinos, em beneficio do sistema nervoso dos pobres gatos. Pois era quase doloroso ver o fracasso constante de suas desesperadas tentativas de caçar um pombinho que fosse. E garanto que eles empregavam todas as técnicas tradicionais dos gatos, desde a paciente emboscada, até a carreira às cegas, com saltos desordenados para todos os lados.

Tudo em vão. Porque, a cada arremetida, os pombos limitavam-se a dar pequenos voos que criavam verdadeiros túneis para os gatos, que os percorriam em furiosas e inúteis investidas. E o pior é que cada pombo, passado o rojão, pousava como se nada tivesse havido, e continuava na sua estúpida ciscação do chão da praça, na mais total indiferença diante de seu velho inimigo. Coisa que, positivamente, devia deixar os gatos loucos. Haja visto um que um dia eu vi, depois de numerosos ataques frustrados, a morder como um possesso o pneu de um Chevrolet, e por cuja sanidade mental não poria da maneira alguma a mão na Bíblia.

Vinicius de Moraes, "Para viver um grande amor"