domingo, setembro 27

As janelas

Quem olha de fora por uma janela aberta não vê nunca tantas coisas como quem olha uma janela fechada. Não há objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, do que uma janela iluminada por uma candeia. O que se pode ver ao sol é sempre menos interessante do que o que se passa por detrás de uma vidraça. Dentro daquela abertura negra ou luminosa, a vida vive, a vida sonha, a vida sofre.

Para além das vagas de tetos, distingo uma mulher madura, já enrugada, pobre, sempre curvada sobre alguma coisa, e que não sai nunca. Com seu rosto, com sua roupa, com seus gestos, com quase nada, eu refiz a história dessa mulher, ou antes, sua lenda, e às vezes, chorando, conto-a a mim mesmo.

Se fosse um pobre velho, eu teria feito o mesmo com igual facilidade.

Deito-me, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outros que não eu.

Dir-me-ei talvez: — Estás certo de que é essa a lenda verdadeira? Que importa o que pode ser a realidade colocada fora de mim, se ela não me ajudou a viver, a sentir que sou, o que sou?

Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

A doença do Antunes

A fama do doutor Gedeão não cessava de crescer.

Não havia dia em que os jornais não dessem noticia de mais uma proeza por ele feita, dentro ou fora da medicina. Em tal dia, um jornal dizia: “O doutor Gedeão, esse maravilhoso clínico e excelente goal-keeper, acaba de receber um honroso convite do Libertad Foot-ball Club, de São José de Costa Rica, para tomar parte na sua partida anual com o Airoca Foot-ball Club, de Guatemala. Todo o mundo sabe a importância que tem esse desafio internacional e o convite ao nosso patrício representa uma alta homenagem à ciência brasileira e ao foot-ball nacional. O doutor Gedeão, porém, não pôde aceitar o convite, pois a sua atividade mental anda agora norteada para a descoberta da composição da Pomada Vienense, específico muito conhecido para a cura dos calos.”

O doutor Gedeão vivia mais citado nos jornais que o próprio presidente da república e o seu nome era encontrado em todas as seções dos cotidianos. A seção elegante de O Conservador, logo ao dia seguinte da noticia acima, ocupou-se do doutor Gedeão da seguinte maneira: “O doutor Gedeão Cavalcanti apareceu ontem no Lírico inteiramente fashionable. O milagroso clínico saltou do seu coupé completamente nu. Não se descreve o interesse das senhoras e o maior ainda de muitos homens. Eu fiquei babado de gozo.

A fama do doutor corria assim desmedidamente. Deixou em instantes de ser médico do bairro ou da esquina, como dizia Mlle. Lespinasse, para ser o médico da cidade toda, o lente sábio, o literato ilegível à João de Barros, o herói do foot-ball, o obrigado papa-banquetes diários, o Cícero das enfermarias, o mágico dos salões, o poeta dos acrósticos, o dançador dos bailes de bom-tom, etc., etc.

O seu consultório vivia tão cheio que nem a avenida em dia de carnaval, e havia quem dissesse que muitos rapazes preferiam-no, para as proezas de que os cinematógrafos são o teatro habitual.

Era procurado sobretudo pelas senhoras ricas, remediadas e pobres, e todas elas tinham garbo, orgulho, satisfação, emoção na voz quando diziam: – Estou me tratando com o doutor Gedeão.

Moças pobres sacrificavam os orçamentas domésticos para irem ao doutor Gedeão e muitas houve que deixavam de comprar o sapato ou o chapéu da moda para pagar a consulta do famoso doutor. De uma, eu sei que lá foi com enormes sacrifícios para curar-se de um defluxo; e curou-se, embora o doutor Gedeão não lhe tivesse receitado um xarope qualquer, mas um específico de nome arrevesado, grego ou copta, Anakati Tokotuta.

Porque o maravilhoso clínico não gostava das fórmulas e medicamentos vulgares; ele era original na botica que empregava.

O seu consultório ficava em uma rua central, bem perto da avenida, ocupando todo um primeiro andar. As ante-salas eram mobiliadas com gosto e tinham mesmo pela parede quadros e mapas de coisas da arte de curar.

Havia mesmo, no corredor, algumas gravuras de combate ao alcoolismo e era de admirar que estivessem no consultório de um médico, cuja glória o obrigava a ser conviva de banquetes diários, bem e fartamente regados.

Para se ter a felicidade de sofrer um exame de minutos do milagroso clínico, era preciso que se adquirisse a entrada, isto é, o cartão, com antecedência, às vezes de dias. O preço era alto, para evitar que os viciosos do doutor Gedeão não atrapalhassem os que verdadeiramente necessitavam das luzes do célebre clínico.

Custava a consulta cinquenta mil-réis; mas, apesar de tão alto preço, o escritório da celebridade médica era objeto de uma verdadeira romaria e toda a cidade o tinha como uma espécie de Aparecida médica.

José Antunes Bulhões, sócio principal da firma Antunes Bulhões & Cia., estabelecido com armazém de secos e molhados, lá pelas bandas do Campo dos Cardosos, em Cascadura, andava sofrendo de umas dores no estômago que não o deixavam comer com toda liberdade o seu bom cozido, rico de couves e nabos, farto de toucinho e abóbora vermelho, nem mesmo saborear, a seu contento, o caldo que tantas saudades lhe dava da sua aldeia minhota.

Consultou mezinheiros, curandeiros, espíritas, médicos locais e não havia meio de lhe passar de todo aquela insuportável dorzinha que não o permitia comer o cozido, com satisfação e abundância, e tirava-lhe de qualquer modo o sabor do caldo que tanto amava e apreciava.

Era ir para a mesa, lá lhe aparecia a dor e o cozido com os seus pertences, muito cheiroso, rico de couves, farto de toucinho e abóbora, olhava-o, namorava-o e ele namorava o cozido sem animo de mastigá-lo, de devorá-lo, de engoli-lo com aquele ardor que a sua robustez e o seu desejo exigiam.

Antunes era solteiro e quase casto.

Na sua ambição de pequeno comerciante, de humilde aldeão tangido pela vida e pela sociedade para a riqueza e para a fortuna, tinha recalcado todas as satisfações da vida, o amor fecundo ou infecundo, o vestuário, os passeios, a sociabilidade, os divertimentos, para só pensar nos contos de réis que lhe dariam a forra mais tarde do seu quase ascetismo atual, no balcão de uma venda dos subúrbios.

À mesa, porém, ele sacrificava um pouco do seu ideal de opulência e gastava sem pena na carne, nas verduras, nos legumes, no peixe, nas batatas, no bacalhau que, depois de cozido, era o seu prato predileto.

Desta forma, aquela dorzita no estômago o fazia sofrer extraordinariamente. Ele se privava do amor; mas que importava se, daqui a anos, ele pagaria para seu gozo, em dinheiro, em joia, em carruagem, em casamento até, corpos macios, veludosos, cuidados, perfumados, os mais caros que houvesse, aqui ou na Europa; ele se privava de teatros, de roupas finas, mas que importava se, dentro de alguns anos, ele poderia ir aos primeiros teatros daqui ou da Europa, com as mais caras mulheres que escolhesse; mas deixar de comer – isto não! Era preciso que o corpo estivesse sempre bem nutrido para aquela faina de quatorze ou quinze horas, a servir o balcão, a ralhar com os caixeiros, a suportar desaforos dos fregueses e a ter cuidado com os calotes.

Certo dia, ele leu nos jornais a notícia que o doutor Gedeão Cavalcanti tinha tido permissão do governo para dar alguns tiros com os grandes canhões do “Minas Gerais”.

Leu a notícia toda e feriu-lhe o fato da informação dizer: “esse maravilhoso clínico e, certamente, um exímio artilheiro… “

Clínico maravilhoso! Com muito esforço de memória, pôde conseguir recordar-se de que aquele nome já por ele fora lido em qualquer parte. Maravilhoso clínico! Quem sabe se ele o não curaria daquela dorzita ali, no estômago? Meditava assim, quando lhe entra pela venda adentro o Senhor Albano, empregado na Central, funcionário público, homem sério e pontual no pagamento.

Antunes foi-lhe logo perguntando:

— Senhor Albano, o senhor conhece o doutor Gedeão Cavalcanti?

— Gedeão – emendou o outro.

— Isto mesmo. Conhece-o, Senhor Albano?

— Conheço.

— É bom médico?

— Milagroso. Monta a cavalo, joga xadrez, escreve muito bem, é um excelente orador, grande poeta, músico, pintor, goal-keeper dos primeiros…

— Então é um bom médico, não é, Senhor Albano?

— E. Foi quem salvou a Santinha, minha mulher. Custou-me caro… Duas consultas… Cinquenta mil-réis cada uma… Some.

Antunes guardou a informação, mas não se resolveu imediatamente a ir consultar o famoso taumaturgo urbano. Cinquenta mil-réis! E se não ficasse curado com uma única consulta? Mais cinquenta…

Viu na mesa o cozido, olente, fumegante, farto de nabos e couves, rico de toucinho e abóbora vermelha, a namorá-lo e ele a namorar o prato sem poder amá-lo com o ardor e a paixão que o seu desejo pedia. Pensou dias e afinal decidiu-se a descer até à cidade, para ouvir a opinião do doutor Gedeão Cavalcanti sobre a sua dor no estômago, que lhe aparecia de onde em onde.

Vestiu-se o melhor que pôde, dispôs-se a suportar o suplício das botas, pôs o colete, o relógio, a corrente e o medalhão de ouro com a estrela de brilhantes, que parece ser o distintivo dos pequenos e grandes negociantes; e encaminhou-se para a estação da estrada de ferro.

Ei-lo no centro da cidade

Adquiriu a entrada, isto é, o cartão, nas mãos do continuo do consultório, despedindo-se dos seus cinquenta mil-réis com a dor do pai que leva um filho ao cemitério. Ainda se o doutor fosse seu freguês… Mas qual! Aqueles não voltariam mais…

Sentou-se entre cavalheiros bem vestidos e damas perfumadas. Evitou encarar os cavalheiros e teve medo das damas. Sentia bem o seu opróbrio, não de ser taberneiro, mas de só possuir de economias duas miseráveis dezenas de contos… Se tivesse algumas centenas—então, sim! —ele poderia olhar aquela gente com toda a segurança da fortuna, do dinheiro, que havia de alcançar certamente, dentro de anos, o mais breve possível.

Um a um, iam eles entrando para o interior do consultório; e pouco se demoravam. Antunes começou a ficar desconfiado… Diabo! Assim tão depressa?

Teriam todos pago cinquenta mil-réis?

Boa profissão, a de médico! Ah! Se o pai tivesse sabido disso… Mas qual!

Pobre pai! Ele mal podia com o peso da mulher e dos filhos, como havia ele de pagar-lhe mestres? Cada um enriquece como pode…

Foi, por fim, à presença do doutor. Antunes gostou do homem. Tinha um olhar doce, os cabelos já grisalhos, apesar de sua fisionomia moça, umas mãos alvas, polidas…

Perguntou-lhe o médico com muita macieza de voz:

— Que sente o senhor?

Antunes foi-lhe dizendo logo o terrível mal no estômago de que vinha sofrendo, há tanto tempo, mal que desaparecia e aparecia mas que não o deixava nunca. O doutor Gedeão Cavalcanti fê-lo tirar o paletó, o colete, auscultou-o bem, examinou-o demoradamente, tanto de pé como deitado, sentou-se depois, enquanto o negociante recompunha a sua modesta toalete.

Antunes sentou-se também, e esperou que o médico saísse de sua meditação.

Foi rápida. Dentro de um segundo, o famoso clínico dizia com toda segurança:

— O senhor não tem nada.

Antunes ergueu-se de um salto da cadeira e exclamou indignado:

— Então, senhor doutor, eu pago cinqüenta mil-réis e não tenho nada! Esta é boa! Noutra não caio eu!

E saiu furioso do consultório que merecia, da cidade, uma romaria semelhante à da milagrosa Lourdes.
Lima Barreto

sexta-feira, setembro 25

Levitação

 


Os homens que se transformavam em barbantes

Havia uma cidade, grande, desenvolvida. As pessoas que moravam lá eram saudáveis, simpáticas e alegres. Não me lembro o nome da cidade, eu tinha quinze anos quando passei por ela, levado por meu pai. Nessa época, não me preocupava com o nome, e sim com os lugares propriamente.

Acontece que, certo dia, um habitante desta cidade saiu de casa, pela manhã, dirigindo-se ao emprego. Fez todas as coisas de praxe. Cumprimentou os vizinhos, o barbeiro da esquina, o vendeiro, os colegas no ponto do ônibus, agradeceu ao motorista, ao ascensorista, sentou-se em sua mesa.

Nesse dia, no fim do expediente, o homem notou que seu pulso esquerdo parecia mais fino. “Bobagem. Impressão. Acho que estou cansado demais.” Foi para casa, jantou, viu telenovela, dormiu. Na manhã seguinte, o pulso tinha se afinado mais.

E suas canelas pareciam de criança. Chamou a mulher. Ela ficou tão impressionada, que o homem se arrependeu de ter mostrado. Não havia dor, apenas fraqueza.

Partiu para o emprego. Contente, cumprimentando as pessoas e agradecendo ao motorista e ao ascensorista. No meio da tarde, porém, não conseguiu trabalhar. O pulso estava fino e dobrava-se. Maleável, sem consistência. O homem, envergonhado, puxou a manga da camisa. O mais que pôde, para que os colegas não vissem.

Mas viram. O homem tinha o corpo transformado. A cabeça, única coisa normal, caiu sobre a mesa. O torso não era mais grosso que um lápis, suas pernas e braços, finos como cordéis. Mas ele estava lúcido, coerente, o cérebro não tinha sido perturbado. Além do impacto, e da surpresa ante o estranho, o homem continuava o mesmo. Levado para casa, chamaram o médico. E o médico chamou outro médico. Porque:

– Não é o primeiro. É o terceiro, nesta semana.

Os jornais noticiaram, as notícias trouxeram à luz novos casos. Pela cidade inteira acontecia aquilo: as pessoas se adelgaçavam, tornavam-se frágeis. Em pouco tempo, outro fato surgiu, ao lado dos homens que se transformavam em barbantes. Eram os que se transformavam em vidro. Tinham que ter muito cuidado, ao andar pela rua, ao trabalhar, porque podiam se quebrar com qualquer batida. Vez ou outra, os homens de vidro se desfaziam. Em plena rua, à vista de todos. Como o vidro blindex que se estilhaça por inteiro.

Aquela população alegre, saudável, descontraída, começou a viver apavorada. Sem saber se, a qualquer momento, o vírus (seria vírus?) podia atacar. Mudando a pessoa em vidro ou barbante. Muitos começaram a se mudar, indo para cidades distantes. A Secretaria de Saúde analisou o ar, a água, tudo, em busca das causas. O ar era bom, não poluído. E as águas vinham de nascentes puras ou de poços artesianos límpidos. Pensou-se que algumas pessoas podiam estar colocando elementos venenosos na comida ou em caixas-d’água. Investigações nada concluíram.

Até hoje, nada se sabe. A cidade parece estar se habituando com a possibilidade de eventualmente alguém se transmutar. Não causa mais surpresa quando um barbante é levado pelo vento ou, em dias de chuva, é tragado pela enxurrada. Ou quando os vidros se liquefazem, no momento em que uma pessoa vira a esquina e dá um esbarrão noutra. A população se acostumou. O homem se adapta às piores condições, conformando-se com os acontecimentos. Naquela cidade, tudo é frágil, a vida humana tem a espessura de um fio. Ou é delgada como um vidro. Mas isto vai se constituindo na normalidade.
Ignácio de Loyola Brandão, "Cadeiras proibidas"

Paisagem

A névoa que desde manhã fechava
as portas todas ao rio foi-se embora.
A luz é fria: esta é agora
a minha terra, o outono.
Todas as terras são afinal as mesmas
folhas cobrindo a relva, às vezes
cintilando quando o sol rasga a névoa.
Eugénio de Andrade

Wood’stown

O lugar era magnífico para construir uma cidade. Seria preciso, apenas, limpar as margens do rio, abatendo uma parte da floresta, da imensa floresta virgem enraizada ali desde o nascimento do mundo. Então, abrigada em volta por colinas arborizadas, a cidade desceria até o cais de um porto magnífico, instalado na foz do Rio Vermelho, a somente quatro milhas do mar.

Assim que o governo de Washington deu a concessão, carpinteiros e lenhadores puseram-se ao trabalho; mas você nunca viu uma floresta parecida. Enganchada ao solo por todos os seus cipós, por todas as suas raízes, quando nós abatíamos de um lado, ela crescia do outro, rejuvenescendo de seus ferimentos; e cada golpe de machado fazia sair brotos verdes. As ruas, os lugares da cidade recém traçados eram invadidos pela vegetação. As paredes cresciam mais devagar do que as árvores e, assim que construídas, desabavam sob o esforço das raízes sempre vivas.


Para vencer esta resistência na qual diminuíam o ferro dos machados e dos grandes machados, fomos obrigados a recorrer ao fogo. Dia e noite uma fumaça sufocante encheu a densidade das clareiras, enquanto as grandes árvores flambavam como círios. A floresta ainda tentou lutar, retardando o incêndio com enxurradas de seiva e com a frescura sem pressa de suas folhagens. Finalmente chegou o inverno. A neve caiu como uma segunda morte sobre os grandes terrenos cheios de troncos enegrecidos, de raízes consumidas. De agora em diante, poderíamos construir.

Logo uma cidade imensa, toda em madeira como Chicago, estendia-se pelas margens do Rio Vermelho, com suas grandes ruas alinhadas, numeradas, dispostas em círculo em torno das praças, sua Bolsa, seus mercados, suas igrejas, suas escolas e toda uma aparelhagem marítima de galpões, de alfândegas, de docas, de entrepostos, de canteiros de construção para os navios. A cidade de madeira, Wood’stown – como a chamávamos – foi rapidamente povoada pelos ocupantes de cidades novas. Uma atividade febril propagou-se por todos os seus bairros; porém, sobre as colinas circundantes, dominando as ruas cheias de pessoas e o porto abarrotado de navios, uma massa sombria e ameaçadora se estendia em semicírculo. Era a floresta que olhava.

Ela olhava esta cidade insolente, que havia tomado seu lugar à margem do rio, e três mil árvores gigantescas. Toda Wood’stown estava feita com sua vida. Os altos mastros que se balançavam ao longe no porto, estes telhados inumeráveis abaixados uns em direção aos outros, até a última cabana do mais afastado subúrbio, ela havia fornecido tudo, mesmo os instrumentos de trabalho, mesmo os móveis, medindo seus serviços somente pelo comprimento dos galhos. Por isso que rancor terrível ela guardava contra esta cidade de ladrões!

Enquanto o inverno durou, não nos apercebemos de coisa alguma. As pessoas de Wood’stown ouviam às vezes um estralo surdo nos seus telhados, nos seus móveis. De tempos em tempos, uma parede rachava, ou o balcão de loja partia-se em dois ruidosamente. Mas a madeira nova está sujeita a esses acidentes e ninguém dava importância a isso. Entretanto, à aproximação da primavera – uma primavera súbita, violenta, tão rica de seiva que nós sentíamos sob a terra um murmúrio de fontes – o solo começou a se agitar, soerguido por forças invisíveis e ativas. Em cada casa, os móveis, as paredes inchavam, e nós víamos sobre os assoalhos longos inchaços como com a passagem de uma toupeira. Nem portas, nem janelas, nada mais funcionava. – “É a umidade, diziam os habitantes. Com o calor, isto passará”.

De repente, no dia seguinte a um grande temporal vindo do mar, que trouxera o verão nos seus relâmpagos brilhantes e na sua chuva morna, a cidade ao despertar soltou um grito de estupefação. Os telhados vermelhos dos monumentos públicos, os campanários das igrejas, o soalho das casas e até a madeira das camas, tudo estava salpicado com uma cor verde, fina como o mofo, leve como uma renda. De perto, era uma quantidade de brotos microscópicos, onde já se via o enrolamento de folhas. Essa esquisitice da chuva divertiu sem inquietar; mas, antes da noite, buquês de verdura desabrochavam por tudo, sobre móveis, sobre as paredes. Os ramos cresciam a olhos vistos; levemente retidos na mão, nós os sentíamos crescer e debaterem-se como asas.

No dia seguinte, todos os apartamentos tinham o ar de estufas. Cipós acompanhavam os corrimãos da escada. Nas ruas estreitas, galhos uniam-se de um telhado a outro, recobrindo a cidade barulhenta com a sombra das avenidas florestais. Isto se tornava inquietante. Enquanto os sábios reunidos deliberavam sobre o caso da vegetação extraordinária, a multidão comprimia-se do lado de fora para ver os diferentes aspectos do milagre. Os gritos de surpresa, o rumor assombrado de todo este povo inativo dava solenidade a este estranho acontecimento. Subitamente, alguém gritou: “Olhem para floresta” e nós percebemos com terror que em de dois dias o semicírculo verdejante aproximara-se muito. A floresta tinha o ar de descer em direção à cidade. Toda uma vanguarda de espinheiros, de cipós se alongava até as primeiras casas dos subúrbios.

Então, Wood’stown começou a compreender e a ter medo. Evidentemente a floresta vinha reconquistar seu lugar à margem do rio; e suas árvores, derrubadas, dispersadas, transformadas, libertavam-se para ir a frente delas. Como resistir à invasão? Com o fogo, nós nos arriscávamos a incendiar a cidade inteira. E que podiam os machados contra esta seiva que renascia sem cessar, essas raízes monstruosas atacando embaixo o solo, essas milhares de sementes voadoras que germinavam ao se abrir e faziam crescer uma árvore por tudo onde elas caíam?

No entanto, todo mundo se pôs ao trabalho corajosamente com foices, com ancinhos, com machados; e derrubaram uma grande quantidade de ramos. Mas em vão. De hora em hora a confusão de florestas virgens, onde o entrelaçamento de cipós unia entre si brotos gigantescos, invadia as ruas de Wood’stown. A partir de agora os insetos e os répteis faziam irrupção. Havia ninhos em todos os cantos, e grandes bater de asas, e massas de pequenos bicos tagarelas. Em uma noite os celeiros da cidade foram esvaziados por todas as ninhadas recém-nascidas. Em seguida, como por ironia no meio deste desastre, borboletas de todos os tamanhos, de todas as cores, voavam sobre os cachos floridos, e as previdentes abelhas, que procuravam abrigos seguros, instalavam, nos ocos destas árvores rapidamente desenvolvidas, seus favos de mel como uma prova de duração.

Vagamente, pela onda barulhenta de ramos, escutávamos os golpes surdos dos machados e dos grandes machados; mas, no quarto dia, qualquer trabalho foi reconhecido impossível. A grama estava alta demais, densa demais. Os cipós de trepadeira se enroscavam nos braços de lenhadores, reprimindo seus movimentos. Aliás, as casas tinham se tornado inabitáveis; os móveis, carregados de folhas, haviam perdido suas formas. Os tetos desabavam, transpassados pela lança dos iúcas, o longo espinho dos mognos; e no lugar de telhados esparramava-se a imensa cúpula dos carvalhos. Acabou. Tinham de fugir.

Através da rede de plantas e de galhos de árvores, que se estreitava cada vez mais, as pessoas de Wood’stown apavorados se precipitaram em direção ao rio, carregando o máximo que podiam de riquezas, de objetos preciosos. Mas que dificuldade para alcançar a margem! Não havia mais cais. Nada além de gigantescos juncos. Os canteiros marítimos, onde se guardava a madeira de construção, foram substituídos por florestas de pinheiros; e no porto, cheio de flores, os novos navios pareciam ilhotas de verdura. Felizmente havia algumas fragatas blindadas sobre as quais a multidão se refugiou e de onde ela pôde ver a velha floresta unir-se vitoriosamente à floresta nova.

Pouco a pouco as árvores confundiram suas copas e, sob o céu azul e ensolarado, a enorme massa de copas se estendeu das margens do rio ao horizonte distante. Nenhum traço da cidade, nem tos tetos, nem das paredes. De tempos em tempos um barulho surdo de desabamento, último eco da ruína, ou o golpe de machado de algum lenhador enraivecido, ressoava sob a profundidade da folhagem. Depois, nada mais que o silêncio vibrante, barulhento, sussurrante, nuvens de borboletas brancas voavam em círculos sobre a margem deserta, e, ao longe, em direção ao alto mar, um navio que fugia, com três grandes árvores verdes podadas no meio de suas velas, levando os últimos emigrantes do que fora Wood’stown…
Alphonse Daudet

Azo de almirante

Longe, atrás uma de outra, passaram as mais que meia dúzia de canoas, enchusmadas e em celeuma, ao empuxo de remos, a toda a voga. O sol a tombar, o rio brilhando que qual enxada nova, destacavam-se as cabeças no resplandecer. Iam rumo ao Calcanhar, aonde se preparava alguma desordem. De um Hetério eram as canoas, que ele regia. Despropósito? O caso tem mais dúvida.

Eventos vários. Em fatal ano da graça, Hetério sobressaíra, a grande enchente de arrasar no começo de seus caminhos. Fora homem de família, merecedor de silêncio, só no fastio de vi­ver, sem hálito nem bafo. O gênio é punhal de que não se vê o cabo. Não o suspeitavam inclinado ou apontado ao êxito no século.
Na cheia, por chuvas e trombas, desesperara-se o povo, à estraga, em meio ao de repente mar — as águas antepassadas — por cima o Espírito Solto. Hetério teve então a suscitada.

Ajuntou canoas e acudiu, valedor, dado tudo, sabendo lidar com o fato, o jeito de chefe. Ímpetos maiores nunca houve, coisa que parecia glória. Salvou, quantidade. Voltado porém da socorreria, não achou casa nem corpos das filhas e mulher, jamais, que o rio levara.

Não exclamou. Não se pareceu mais com ninguém, ou ébrio por dentro, aquela novidade de caráter. Sacudia, com a cabeça, o perplexo existir, de dó sem parar, em tanta maneira. E nem a bola de bilhar tem caprichos cinemáticos. De modo ou ou­tro, já estava ele adquirindo as boas canoas, de que precisava.

Para o que de efeito. Destruíra-se a ponte da Fôa, cortando a estrada, ali de movimento. Hetério despachou-se para lá, tri­pulantes ele e os filhos, e outros moços, e arranjaram-se ao tra­vessio. Durado mais de ano, versaram aquilo, transpondo gente e carga, de banda para banda. Até cortejos de noivos passaram, sob baldaquim, até enterros, o bispo em pastoral, troços de soldados. Foi tudo justo. Obedeciam os outros a Hetério — o em posição personificada — o na maior, canoa barcaçosa, a caravela com caveiras.

Ao certo, nada explicava, ainda que de humor benigno, homem de cabeça perpétua; cerrando bem a boca é que a gente se convence a si mesmo. Morriam-lhe os inimigos, e ele nem por isso se alegrava, ao menos. Segue-se ver o que quisesse.

A ponte nova repronta, o bom ofício tocava a termo. Heté­rio, entretanto, se reaviara. Descobrira-se, rio acima, uma mu­lher milagreira jejuadora, a quem os crentes acorriam. Vieram também, para passadores, ele e os seus; todo o mundo é, de algum modo, inteligente. Travessavam, com acuração, os peregrinos da santa, aleijados, cegos, doentes de toda loucura e le­pra, o rico triste e o próximo precisado.

Semi-ator, Hetério, em mãos o rosário e o remo amarelo-venado de taipoca, tivesse mudado talvez a lembrança da enchente e de sua ocasião de herói, que já era apenas virtude sem fama, um fragmento de lenda. Ao adiante, assim às águas — outras e outras. No rio nada durava.

Agora, ao pôr-do-sol, desciam as canoas — de enfia-a-fino, serenas, horizonteantes, cheias de rude gente à grita, impelidas no reluzente — de longe, soslonge.

Ainda não.

Seguindo-se antes outros atos. Desaparecida de lá a mulher beata, Hetério com os dele saíram-se imediatamente a mascatear, revendendo aos ribeirinhos mercadorias e miudezas, em faina de ciganos regatões. Sobe e descendo, nessa cabotagem trafegaram até a águas sãofranciscas, ou abocando a outros rios, as canoas mercantes separadas ou juntas, como de estanceio chegaram ao porto de Santo Hipólito e ao Porto-das-Galinhas, abaixo de Traíras, lugares de negócio, no das Velhas, de praias amarelas. Trazia ele então lápis e uma grande caderneta, em que assentava e repassava difíceis contas. Os que o seguiam, pensavam na riqueza.

Daí, vai, começou a construir-se barragem para enorme usina, a do Governo, em tumulto de trabalhadores, mil, totalmente, de dezenas de engenheiros.

Rearvorado, logo Hetério lar­gou-se para lá, com seu lóide de canoas. Vales, a bacia, convertiam-se em remanso de imenso lago, em que podiam navegar com favor e proveito. Empreitaram-se, por fim, a contrato daqueles. Máquinas e casas, nas margens, barracões de madeira — e foi que um dos filhos de Hetério o deixou, para namorar e se casar. Hetério, ora, em oferecido tempo, encontrou um Normão, homem apaixonado, na maior imaginação. A paisagem ali tomava mais luz: fazia-se mais espelho — a represa, lisa — que não retinha, contudo, corpos de afogadas.

E esse Normão, propício, queria reaver sua mulher, que o pai guardava, prudente, de refém, na Fazenda-do-Calcanhar, beira­deã. Enquanto anos; e a usina deu-se por pronta. O rio não dei­xa paz ao canoeiro.

Assim ao de longe, contra raso sol, viu-se a fila de canoas, reta rápida, remadas no brilhar, com homens com armas, de Normão, que rumavam a rixa e fogo. Hetério comandava-as, defi­nitivo severamente decerto, sua figura apropriada, vogavante.

Certo, soube-se.

Aproaram aos fundos da do-Calcanhar, numa gamboa, e ata­caram, de faca em polpa. Troou, curto, o tiroteio. Normão, ven­cedor, raptada em paz a mulher, no ribanceiro acendeu fogueira de festa. As canoas todas entanto se perderam. Só na sua, Heté­rio continuou, a esporte de ir, rio abaixo, popeiro proezista, de levada, estava ferido, não a conduzia de por si, vogavagante; e seu outro filho na briga terminara, baleado.

Adiante, no travessão do Fervor, itaipava perigosa, a canoa fez rombo. Ainda ele mesmo virou-a então, de boca para baixo, num completamento. Safo, escafedeu-se de espumas, bra­cean­te, alcançou o brejo da beira, onde atolado se aquietou.

Acha­ram-no — risonho morto, muito velho, velhaco — a qua­li­dade de sua pessoa.
Guimarães Rosa, "Tutameia"

quinta-feira, setembro 24

Contorcionista

 


Canção de homens e mulheres lamentáveis

Esta noite... esta chuva... estas reticências. Sei lá.

Quem seria capaz de abrir o peito e mostrar a ferida? De dizer o nome? De lembrar, sequer lembrar, o rosto?

Quem seria capaz de contar a história? De chamar o maior amigo, ou melhor, o inimigo, e dizer:

— Estou me sentindo assim, assim, assim...

A humanidade está necessitando, urgentemente, de afeto e milagre. Mas não sabe onde estão as mãos, nem os deuses. E, quando souber, vai achar que as mãos e os deuses são de mentira. Os olhos de todos estarão cheios de medo, os olhos das jovens raparigas, os olhos, os braços, o ventre e as pernas das jovens raparigas, receosos de pagar com os quefazeres do sexo.

Nesta noite, com esta chuva, as jovens raparigas não são importantes. Apenas uma tem importância. Mas quem seria de todo livre e descuidado, a ponto de dizer o seu nome? De pensar o seu nome? Você diria em público o nome da Amada? E suportaria ouvi-lo? Não, não; o nome dela, em sua boca ou na dos outros, é tão proibido como sua nudez (dela). Não há diferença.

E por que você não se transforma no homem banal, que se encharca de álcool, para apregoar a desdita? Seria mais fácil. Talvez alguém lhe chamasse de porco e você revidasse com um soco no rosto, um só rosto, de todo o Gênero Humano. Viria a polícia, que simplifica tudo, generalizando. E tudo se transformaria em notícia: "Preso o alcoólatra, quando injuriava e agredia a Família Brasileira, na pessoa de um sócio do Country".

Há poucos minutos, em meu quarto, na mais completa escuridão, a carência era tanta que tive de escolher entre morrer e escrever estas coisas. Qualquer das escolhas seria desprezível. Preferi esta (escrever), uma opção igualmente piegas, igualmente pífia e sentimental, menos espalhafatosa, porém. A morte, mesmo em combate, é burlesca.

Uma pergunta, que não tem nada a ver com o corpo desta canção. Quem saberia discriminar o ódio do amor? Ninguém. Os psicologistas e analistas têm perdido um tempo enorme.

Ontem à noite, voltando para casa, senti-me espectador de mim mesmo. E confesso que, pela primeira vez, não achei a menor graça. Saíra, pela primeira vez, de óculos e o porteiro do edifício me recebeu com esta agradável pergunta:

— Que é que houve? O senhor está mais velho?

Tirei os óculos e, fitando-o, esperei as desculpas. Mas o homem continuou:

— O que é que houve? De ontem para cá, o senhor envelheceu.

Tinha pensado que, sem os óculos...

Não estou escrevendo para ninguém gostar ou, ao menos, entender. Estou escrevendo, simplesmente, e isto me supre: contrabalança, quando nada. Esta noite, esta chuva — e poderia escrever as coisas mais alegres, esta noite. Neruda, coitado, as mais tristes.

Só há uma vantagem na solidão: poder ir ao banheiro com a porta aberta. Mas isto é muito pouco, para quem não tem sequer a coragem de abrir a camisa e mostrar a ferida.
Antônio Maria, "Com vocês, Antônio Maria"

danos e enganos

Aquele que acredita ter visto o mundo,
não aprendeu a escutar-se no vento.

Aquele que se deitou na terra,
vestiu sonhos como se fossem vidas
e tudo o mais fossem regressos.

Mas aquele que tocou o fruto
provou a inicial doçura do tempo.

E quando tombou
de si mesmo se fez semente.
Mia Couto

Nove letras

Depois do almoço, gosto de observar o céu e sempre o avisto: um urubu adulto, muito grande, quase sempre solitário, que voa em largos círculos acompanhando as correntes de ar quente. Confesso que invejo sua liberdade, a vida que ele vive um dia de cada vez, empenhado apenas em sobreviver. Tão diferente de nós, humanos, presos a compromissos, vaidades, incertezas, com a atenção voltada para o ontem e o amanhã, enquanto o hoje escoa entre os dedos.

Tenho amigos que assistem pais idosos, prisioneiros do dever de cuidadores. Outros zelam por filhos com deficiência, abdicando da própria vida em favor dos dependentes. Quando uma dessas situações chega ao fim, demoram a se adaptar à nova realidade. “Estou cansada de tanto descanso”, revela uma amiga que perdeu a mãe há pouco tempo.

Quando moça, tinha uma teoria sobre doença e morte, querendo mudar o mundo como a Emília de Monteiro Lobato: devíamos ser como eletrodomésticos, manter a boa aparência até o fim e, de repente, parar de funcionar para sempre. Não precisaríamos ser cuidados por terceiros, não atrapalharíamos a vida de ninguém, apenas sairíamos de cena, deixando lembranças.

Aquele urubu não se preocupa com o minuto seguinte nem se encontrará alimento ou será atacado por algum inimigo. Vive intensamente o presente, extraindo dele a plenitude. Não sabe que morrerá um dia, se deixará descendentes, se o ninho será preservado. Suas asas e o ar são o que importam.

Devíamos aprender com a natureza que habitamos. Uma árvore aguenta a seca à espera da chuva, um rio seca na estiagem para depois reaparecer, as flores do deserto ficam encubadas até desabrochar lindamente, em mil cores, e alguns animais hibernam ou permanecem quase mortos, até que as condições externas os chamem de volta à vida.

Chamamos de liberdade o que conhecemos, louvando e reivindicando direitos. Nove letras tão desgastadas, limitadas por regras que nós mesmos criamos em nome de civilização, esquecidos de que somos animais que dividem o planeta com o restante da fauna e da flora, perecíveis e vulneráveis, talvez até mais que os vizinhos. Pois não sabemos voar por conta própria, o frio e o calor em excesso nos matam, perdemos a capacidade de pressentir o perigo, encontrar água debaixo do solo, distinguir alimentos e remédios nas matas encurraladas pelas cidades, parir sozinhas a prole… Viver é para os fortes. Ser livre, também.

O porto

Um porto é um retiro encantador para uma alma cansada das lutas da vida. A largueza do céu, a móvel arquitetura das nuvens, o colorido cambiante do mar, o brilho dos faróis, são um prisma maravilhosamente adequado para distrair o olhar sem cansá-lo nunca.

As formas esguias dos navios, de construção complicada, aos quais a maré imprime oscilações harmoniosas, servem para entreter na alma o gosto do ritmo e da beleza. E há, além disso, uma espécie de prazer misterioso e aristocrático, para quem não tem mais curiosidade nem ambição, em contemplar deitado no mirante ou debruçado no cais, todos os movimentos dos que partem e dos que chegam, dos que ainda têm a força de querer e o desejo de viajar ou fazer fortuna.

Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"

Barata

Aberto o envelope, susto: a barata dentro dele, imóvel, expectante, sobre o cartão!

Quem foi que teve ideia dessa brincadeira repulsiva? E como conseguiu que passasse pelo Correio sem esmagar a barata? Por que ela está viva, vivinha da silva & santos. Não se mexe é de sabida.

— Joga fora essa imundície! Ou antes, não jogue…

Esta é uma barata de lei, com cerca de cento e cinquenta anos de existência. Criação verista de Debret, sua reprodução da capa do convite para a exposição de inéditos do artista é de tal modo convincente que engana qualquer um.

Ou não engana, é a barata mesmo, e mesma. As outras, que circulam entre farelos e sombras, têm existência miseravelmente curta. Desprezadas e combatidas, que ninguém quer saber de barata em casa. Mas se foi Debret que a viu, assuntou, desenhou, coloriu, vale uma nota firme, e a esta hora está alegrando a vista do colecionador que a comprou do marchand Luís Buarque de Holanda:

— Barata linda!

— Amor de barata!

— Que barato de barata!

E a baratinha, iaiá, a baratinha, ioiô, está se rindo por dentro, se é que barata ri, por dentro ou por fora, da vária fortuna dos seres (e das coisas) no plano real e no plano ideal. Barata ao vivo é nojenta, chinele-se a bicha. Barata pintada é arte. Maçã na casa de frutas, ferra-se o dente ou açucara-se em torta, vita brevis, e não se fala mais nisso. A maçã de Cézanne, mas para que a maçã? as cebolas de Cézanne, e mais a garrafa de rouge, o copo com vinho pela metade, a rolha, a faca, a toalha embolada, em Nature Morte aux Oignons, refutam o princípio de destruição inevitável das formas, pelo menos enquanto o quadro existir.

Ideia velha, barata nova. Debret foi mais documentarista do que criador, mas nem por isto sua barata é menos criação. Porque Debret pegou do bicho imundo e disse:

— Agora vou te dar vida longa, maior que a minha, vou te representar.

 Representar é ser outra vez, e mais. Tudo quanto posso fazer por mim, e por nós, é fazer-te e fazer-me. Representando-me, e aos objetos e cenas a que assisto (coroação, feira, inseto), asseguro a tudo a mais-valia de uma vida suplementar, que se chama vida das figuras, das aparências, que são mais do que as essências, pois estas se evolam, e aquelas persistem. Entendeste?

— Não — baratifalou a barata.

Nem era para entender: conversa de pintor ou de grafômano com o mundo em redor não tem sentido não, pois ele pergunta e ele mesmo responde, ou prossegue:

— Pensando melhor, a essência está na aparência, que nos propicia o conhecimento imediato do cosmo. O resto é imaginação ou confirmação. És habitante vil de um planeta confuso, que adotou padrões de classificação baseados em nada. Vil por quê? Por que assim te rotularam? Que achas das criaturas que te rotularam, ó barata minha?

A barata ia responder que por sua vez as achava asquerosas, mas silenciou, por medo ao chinelo, que é sempre argumento contrário às baratas, e fortíssimo.

Preferível que esse cara (foi o seu raciocínio) continue a dizer bobagens e, dizendo-as, se esqueça de me aplastar. Quanto a ele me imortalizar, mesmo discretamente, isto é, por cento e cinquenta ou quinhentos anos, pouco se me dá.

Eu sou aqui e agora, minha finitude me cerca por todos os lados, e tenho que curti-la. No papel, em imagem, não dá pé. Com licença, M. Debret — e escafedeu-se.

— Espera um pouco, falta só completar uma perninha!

Não sei se esperou. Sei que a representação é completa e fiel, tão fiel, tão vera, que a representação da representação, no convite, fez uma senhorita jogar fora papel e envelope, e correr para lavar as mãos:

— Ui, que horror! Uma baratona.

— Calma, ela é pintada.

— E daí? Parece mais real que uma verdadeira!

O maior elogio a Debret que já ouvi.
Carlos Drummond de Andrade, "De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica"

quarta-feira, setembro 23

E no futuro bem perto ...

 


O louco do bairro

Plantado no meio do cruzamento, o louco do bairro é contador dos carros que vão e dos carros que vem.

Os que vem, conta na mão esquerda, dedo a dedo; os que vão, na mão direita, fechando cada mão depois que estica o quinto dedo, então começa a contagem de novo, carro a carro, dedo a dedo.

Se alguém pergunta se está contando os carros direitinho, ele faz careta e gestos aflitos de que não pode falar, está contando os carros!

E também é fiscal do tempo, quando cansa de contar os carros que, mesmo tão bem contadinhos, continuam sempre a passar.

Então vai andando pelo bairro, olhando tudo e nada, cabeça sempre girando mas olhar vago.

Fiscaliza, antes de tudo, se o tempo está passando como sempre.

Ou se o tempo parece que não está passando ou demorando a passar.

Se está sobrando tempo ou faltando tempo.

Como estão os passatempos e os contratempos.

E, sempre anotando tudo na caderneta de vento, não só fiscaliza como também passa a in-ves-ti-gar o tempo!

Aonde foi parar o tempo que passou, que é que aconteceu com o tempo perdido, e que fim levaram os tempos dourados?

Se vai fazer bom tempo ou mau tempo, e que tempo faria se não tivesse feito o tempo que fez.

Porque tem tanta falta de tempo enquanto também sobra tempo?

Porque às vezes fecha o tempo, e porque o tempo sempre abre depois de um tempo?

Quem é que está dando um tempo e pra quem, e quem é que está só dando um tempo ao tempo?

E o que é que anda acontecendo de tempos em tempos? Desde quando, desde o tempo da onça?

Quem é que está ganhando e quem está tomando tempo?! Quem está fora do tempo?… E, principalmente, quem é que está matando tempo?!

Qual a diferença entre tempo que esquenta e esquentou o tempo?

Porque, com tanto tempo, tantos deixam tudo sempre para a última hora?

E o imprevisto é primo ou tio do contratempo?

E porque é que o tempo às vezes parece que estaca e outras vezes parece que estica? Tem algo a ver com o tic-tac do relógio?

Acima de tudo, como é que o tempo, que não se vê, não tem cheiro, nem corpo tem, no entanto está em tudo, já que tudo passa com o tempo, ou não?

Alguém sorri, alguém acena, o louco vai em frente na sua suada fiscalização, na incansável investigação.

Não faz mal a ninguém, diz alguém. Outro diz que o louco só faz bem, palavrão engasga quando ele passa, apartam-se brigas, rancores se refrescam, temores se divertem, o louco só faz bem.

Quem dera, diz outralguém, todos fossem assim. O louco não ouve, voltando apressado para o cruzamento, a tempo de continuar contando os carros, enquanto ainda tem tempo.

Desenho

Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.
Cecília Meireles

Vontade de içar a bandeira branca

4 de Setembro

Às vezes, entra-me a vontade de içar a bandeira branca, subir às ameias e dizer: “Rendo-me.” Não que eu me veja como uma fortaleza, bem pelo contrário, mas sei, como se ela fosse ou nela estivesse, que me andam cercando dois cercos: um, já se sabe, é o dos ódios, invejas e mesquinhices que vou aguentando; o outro, que se vai sabendo, é o dos afectos de muitos que me leem, e esse é o que me derrota. Se este tempo da minha vida tivesse de levar um título, bem poderia ser o do filme de Pedro Almodovar: “Que fiz eu para merecer isto?” Dir-me-ão os mais simpáticos: “Bom, alguma coisa fizeste...” Mas isso, uns quantos livros, valerá tanto que mereça a quadra que me foi dedicada por um pastor de ovelhas (seiscentas parece que tem o rebanho) do Alentejo? Esta, lida ontem na Festa do Avante! e que reza assim:

Tem em conta a luz da mente.
Cada um é como é.
E não pode ser toda a gente
Aquilo que cada um é.

E, como se não fosse bastante, como se não transbordasse já, estava eu depois a assinar livros (três horas ininterruptas de dedicatórias...), aproximam-se duas pessoas, marido e mulher, que colocam diante de mim, com o livro que tinham comprado, um caderninho, um corta-papel e uma nota onde um e outro estavam explicados... O livrinho, feito de papel de sacas de cimento, havia sido escrito por Silvino Leitão Fernandes Costa no campo de concentração do Tarrafal e estava dedicado nestes termos: “Ofereço, ao camarada e amigo T., como prova de consideração.” “T.” era a abreviatura de Teixeira, apelido do homem que estava na minha frente, de seu nome completo José de Sousa Teixeira, preso também, como ele, no Tarrafal. Quanto ao corta-papel, fizera-o Hermínio Martins, ex-marinheiro de um dos barcos que se revoltaram em 8 de Setembro de 1936. Foi ajudante de serralharia do Bento António Gonçalves e morreu antes do 25 de Abril, num sanatório da metrópole. Pensei que tudo isto estava simplesmente a ser-me mostrado, e, ao devolver o livro assinado, restituí também os objectos. Que não, disseram-me, que eram para mim, como lembrança e prova de amizade... Imagine-se como fiquei eu. Agradeci como pude, rodeado pelas dezenas de pessoas que esperavam a sua vez para me pedirem uma assinatura e, com palavras ou sem elas, dizerem que me querem bem.

O livrinho tem dois títulos e compõe-se de quatro partes. O primeiro título, na capa, é “O que será? ...”, o segundo título, na folha seguinte, anuncia “Coisas da vida e próprias dos homens”. A primeira parte transcrevo-a hoje, as outras nos próximos dias (é o mínimo que posso fazer em sinal de gratidão e para que não se perca — se algum dia estes cadernos vierem a ser publicados — a lembrança de um conflito entre amigos e a sua algo extraordinária resolução). Actualizo a ortografia e a pontuação:

“Os livros são coisas preciosas tanto por aquilo que dizem como pelo esforço de raciocínio necessário para os fazer.

“Depois de feitos, servem de auxílio ao desenvolvimento cerebral do homem.

“Conclui-se, pois, que é nos livros onde nós aprendemos tudo quanto desejamos. Tudo depende daquilo que mais nos interessar.

“São ainda eles que trazem até nós, duma forma concreta e abreviada, toda a experiência vivida pelos nossos antepassados, da qual nos servimos e serviremos sempre para encarar o futuro.

“Quando possuímos um ou mais livros, significa isso que se encontram ao nosso dispor e certamente lê-los-emos tantas quantas vezes quisermos ou necessitarmos para a compreensão do sentido que encerram.

“Entretanto, mesmo àqueles que às vezes lemos, embora o seu conteúdo pouco nos interesse, — quer dizer, romances de 4.50 a dúzia, ou coisa semelhante, — alguma coisa nos fica gravada na mente, apesar disso.

“Todos nós sabemos que é verdade tal facto.

“Bem, mas já vai sendo tempo de mudar de “disco”. “O meu objectivo não é falar sobre livros. Nem sequer fazê-los ou ainda discutir.

“Até aqui, simplesmente, pretendo salientar o valor das coisas escritas.

“Porém, para melhor concretização, farei um paralelo entre a escrita e a palavra.

“Supõe que eu percebo de electricidade a “Potes” e estive durante duas horas a falar-te do assunto. De certo não poderias ter apreendido tudo quanto disse. Mas se escrevesse ficaria ao teu alcance o assunto e dar-lhe-ias as voltas que precisasses.

“Agora dirás tu:

“— Mas a que propósito vem isto, não me dizem?

“Depois acrescentarás:

“Sempre há cada maduro!...

“Que mal fiz eu?...

“Calma... o resto vai já a seguir.”

José Saramago, "Cadernos de Lanzarote"

Ato de Natal

Quando a trupe chegou o tomara-que-não-chova ainda não estava armado, mas foi obra dum instante e o cirquinho logo rodeado de tudo quanto era menino da zona se viu, anunciando a Pantomina do Nascimento, que já se estava no dia 24. Véspera do 25, para a noite a pantomima para o dia a Nova-Maior, tomem cantos e danças e passas e doces até na casa dos pobres, perus de papos recheados em casa dos magníficos; e no cirquinho, às seis, Bitom o Palhaço, na casa do 60, chegou, postou-se diante do espelho quadrado, começou a pintar a cara, às sete terminou com 50, às oito, tomando uma cachaça, estava com 40 – era aquilo todos os anos, na noite do 24 para a aurora do 25 – entrou no picadeiro, às nove, com 30; às onze, de novo diante do espelho, era Bitom o Palhacinho, com 0; tirou a tinta, foi caminhando para a infância, os artistas abriram alas, ele foi andando e ficando mais menino, atravessou o picadeiro e desapareceu atrás das cortinas, a Trapezista nova perguntando ao Mestre de Cerimônias: Para onde ele vai? Ao que o Mestre de Cerimônias, fazendo uma cara de espanto, respondeu-lhe meio áspero, meio gozador: Oi, não sabe? Ele vai nascer.
Hermilo Borba Filho

As questões da Inteligência Artificial

Tudo está no começo, as questões surgem, possíveis soluções, expectantes afirmações quanto às derrotas e incertezas na rotina do mundo. Algumas profissões deixarão de existir, já sabemos. Os mais eufóricos aplaudem sem hesitar essa invenção no campo da ciência e tecnologia. Certamente fará com que a humanidade adquira mais conhecimento com muitos ganhos. Já começa a provar isso no uso de nossas atividades, gerando boas expectativas em setores diversos.

Com o abrigo dessa senhora que vem para solucionar questões, desamarrar nós, a humanidade caminhará por outros rumos, não há dúvida. Obstáculos intransponíveis serão superados na passagem da existência. Viveremos melhor com a sua chegada, ela não veio para fazer a maldade, alguns observam. Celebram a portentosa aparição da deusa com atuação incrível para melhorar o nível de vida em nosso estar no mundo.


Mas preocupa o seu uso por esse agente dotado de razão e emoção, o que se desvia da ternura com facilidade, se contradiz na essência porque ainda não conseguiu se libertar da fera que habita em si mesmo. Convive com ela entre incômodos, numa fome sem precedentes, desde o tempo das cavernas. Sanha que muitas vezes se apresenta com as manadas alucinadas e faz horrores em nosso planeta. Na busca do poder, incorrigível, gosta de inventar o extermínio de inocentes, milhões foram levados para o matadouro e reduzidos a cinzas. Como ele gosta de ser o dono de um poder absoluto no império da tragicidade. Às vezes, mata com prazer o semelhante e não enterra

Esse agente ativo, animal político e social, sempre foi a fera de si mesmo. Em sua caminhada famosa dominou o gigante Polifemo, desencantou medusas, descobriu novos mundos de gente remota habitado. Construiu arranha-céus, foi à lua e pretende instalar sua maneira de civilizar o mundo em outros planetas. Busca uma saída para sobreviver no aceno das galáxias ante as previsões temerárias. E, nessa chegada agora com uma inteligência metálica como outro suporte, anunciando que melhor será a vida, compreendida, dominada, usada para se obter benesses, faz pensar enquanto as estações passam indiferentes ao que nós somos em nossa mãe terra.

Outros momentos históricos foram marcados na humanidade como importantes por suas descobertas científicas, que impulsionaram a vida para o bem, e também para o mal. Recordemos o caso de Madame Curie, a primeira mulher que recebeu o Prêmio Nobel duas vezes, em áreas diferentes da ciência. A primeira que ingressou na Academia de Ciências da França. A primeira vítima do machismo cerrado em nações poderosas da Europa, como a França, mas que superou todas as adversidades que se colocaram na sua frente para que não fosse reconhecida a sua dignidade como uma genial cientista.

Pioneira nos estudos da radioatividade, descobriu os elementos rádio e polônio, foi fantástico como sua inteligência impactante abalou a Europa do século XX. Lançou as bases para a física nuclear. Suas pesquisas sobre a natureza da radiação, mesmo em condições precárias, que afetaram a sua saúde, forneceram a base teórica para o desenvolvimento da energia nuclear, que é a base da bomba atômica.

Encontramos na radioatividade descoberta por Curie resultados positivos e negativos. Se as suas descobertas revolucionárias têm aplicações na radioterapia para tratamento do câncer, por exemplo, foram utilizadas infelizmente na guerra com a bomba atômica. Foi então que se cometeu pelo mau uso da descoberta com amor à ciência e à humanidade as tragédias de Hiroshima e Nagasaki.

O que pode advir de negativo com a chegada da Inteligência Artificial? Eu me pergunto se eliminará os escritores de ficção e poesia. Na torcida para que isso nunca aconteça, seja o melhor para a humanidade, resolvi escrever o poema que transcrevo abaixo.

A Canção Reconquistada

O que me diz Hiroshima
negras vastidões desoladas,
o que me diz Nagasaki
ares roxos do sombrio cortejo,
o que me diz o ditador
galope insano do medo,
o que me diz a fera branca
fome louca de réu negro.

Sem esquecer a razão,
sem esquecer o coração,
sem esquecer a oração,
reconquista-se a canção,
é o que me diz a lição.
E sobre ti, vasta emoção
de rosa branca em floração,
cantares de amor choverão.