Para além das vagas de tetos, distingo uma mulher madura, já enrugada, pobre, sempre curvada sobre alguma coisa, e que não sai nunca. Com seu rosto, com sua roupa, com seus gestos, com quase nada, eu refiz a história dessa mulher, ou antes, sua lenda, e às vezes, chorando, conto-a a mim mesmo.
Se fosse um pobre velho, eu teria feito o mesmo com igual facilidade.
Deito-me, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outros que não eu.
Dir-me-ei talvez: — Estás certo de que é essa a lenda verdadeira? Que importa o que pode ser a realidade colocada fora de mim, se ela não me ajudou a viver, a sentir que sou, o que sou?
Charles Baudelaire, "Pequenos poemas em prosa"
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