Depois do almoço, gosto de observar o céu e sempre o avisto: um urubu adulto, muito grande, quase sempre solitário, que voa em largos círculos acompanhando as correntes de ar quente. Confesso que invejo sua liberdade, a vida que ele vive um dia de cada vez, empenhado apenas em sobreviver. Tão diferente de nós, humanos, presos a compromissos, vaidades, incertezas, com a atenção voltada para o ontem e o amanhã, enquanto o hoje escoa entre os dedos.
Tenho amigos que assistem pais idosos, prisioneiros do dever de cuidadores. Outros zelam por filhos com deficiência, abdicando da própria vida em favor dos dependentes. Quando uma dessas situações chega ao fim, demoram a se adaptar à nova realidade. “Estou cansada de tanto descanso”, revela uma amiga que perdeu a mãe há pouco tempo.
Quando moça, tinha uma teoria sobre doença e morte, querendo mudar o mundo como a Emília de Monteiro Lobato: devíamos ser como eletrodomésticos, manter a boa aparência até o fim e, de repente, parar de funcionar para sempre. Não precisaríamos ser cuidados por terceiros, não atrapalharíamos a vida de ninguém, apenas sairíamos de cena, deixando lembranças.
Aquele urubu não se preocupa com o minuto seguinte nem se encontrará alimento ou será atacado por algum inimigo. Vive intensamente o presente, extraindo dele a plenitude. Não sabe que morrerá um dia, se deixará descendentes, se o ninho será preservado. Suas asas e o ar são o que importam.
Devíamos aprender com a natureza que habitamos. Uma árvore aguenta a seca à espera da chuva, um rio seca na estiagem para depois reaparecer, as flores do deserto ficam encubadas até desabrochar lindamente, em mil cores, e alguns animais hibernam ou permanecem quase mortos, até que as condições externas os chamem de volta à vida.
Chamamos de liberdade o que conhecemos, louvando e reivindicando direitos. Nove letras tão desgastadas, limitadas por regras que nós mesmos criamos em nome de civilização, esquecidos de que somos animais que dividem o planeta com o restante da fauna e da flora, perecíveis e vulneráveis, talvez até mais que os vizinhos. Pois não sabemos voar por conta própria, o frio e o calor em excesso nos matam, perdemos a capacidade de pressentir o perigo, encontrar água debaixo do solo, distinguir alimentos e remédios nas matas encurraladas pelas cidades, parir sozinhas a prole… Viver é para os fortes. Ser livre, também.
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