Coisas assim, eu penso e aprendo olhando meu jardim sobrevivente. Óbvias, quem sabe. Pra mim, não: é que nunca antes na vida tive um jardim. Que nem sequer, e ainda bem, é só meu. Tem a mão mais antiga de meu pai, e também o “dedo verde” de minha irmã Cláudia, que me ensina toques espertos contra pragas. Por que existem as pragas. Ah, se existem. E bem mais que as sete bíblicas. Fora os agostos, formigas-cortadeiras, caracóis, lesmas, pulgões, ácaros, cochonilhas e falanges do mal de nome ainda mais esquisito que esse último. Armados até os dentes, lutamos. Todo santo dia. Guerra sem tréguas, Bósnia.
Contabilizo perdas: foram-se a angélica, begônias, lágrimas-de-cristo que eu achava que eram brincos-de-princesa (meu pai jura que voltam), uma dália amarelinha adorada pelos erês de Oxum e outras muitas. A hortênsia empacou, o jasmineiro agonizou, mas resistiu bravo. Já as margaridas ficaram ainda mais folhudas, os gerânios cresceram loucamente e as roseiras se revelaram inesperadamente fortes, com menos de um ano de vida e de um metro de altura. A branca Lygia certos dias chegou a render nada menos que seis rosas. Todas abertas ao mesmo tempo, numa apoteose a Oxalá (sugestão para fantasia carnavalesca). O belo fica ainda mais belo, quando também é forte? Pois é.
E teve certa amarílis, que em julho dei por perdida. Semana passada, arrancando baldes de ervas-daninhas de nojentas raízes brancas estranguladoras, a alegria: como uma ponta de espada brotando da terra, miniexcalibur. Ao contrário, lá estava a amarílis nascendo outra vez. Limpei mais, adorei, conversei, bravo, é isso aí, minha filha, não se entrega não. Happy end? Ledo engano: manhã seguinte, a pontinha de espada não passava de um toco roído durante a noite não sei por que abantesma (só mesmo usando essa palavra) das trevas. Continuamos lutando, juntos, a amarílis e eu. Mas quando você pensa que um perigo medonho passou é porque outro ainda pior está vindo? Oh, Deus. E o perigo-passado realmente deixou você mais forte para o perigo-vindouro? E se só ficou o cansaço e se a amarílis desistir? E se eu desistir e for cuidar das verbenas, cravinas e amores-perfeitos que acabei de plantar?
Aprendem-se coisas, eu dizia. Vezenquando, assustadoras.
Mas lutamos, eu também dizia. E olho agora para trás e vejo na estante às minhas costas, bem à frente de um livro com reproduções de Egon Schiele, aquela árvore japonesa da fortuna e da felicidade, quando percebi que não superaria o inverno, transplantei-a do jardim para o meu quarto. Era um resto negro calcinado pela geada. E quase invisível, um pontinho verde de vida na base. Fui até lá agora e medi: está Com mais de meio palmo de altura empinadíssima, viva.
Então eu agradeço, eu tenho medo e espanto e terror e ao mesmo tempo maravilhamento e outras coisas com e sem nome, mas agradeço. Aos deuses dos jardins, aos deuses dos homens, aos deuses do tempo e até aos das ervas daninhas que nos fazem lutar feito tigres feridos fundo no peito, sim, eu agradeço.
Caio Fernando Abreu, "Pequenas Epifanias"

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