Pássaros de diversas espécies exibem sua orquestra organizada pela natureza, desde o amanhecer até o entardecer, quando então a tarde é levada pelos braços do crepúsculo. Um conjunto de vozes repercute na audiência colorida feita de canto e plumagem. É como gostam de conversar entre elas nas manhãs e tardes essas vozes cheias de encanto, em entendimento perfeito com a natureza enquanto desfiam suas melodias em ciclagem pautada com bemóis e solfejos. Os sons harmoniosos repercutem de acordo com a clave criada pela natureza. Entre solfejos e gorjeios, torneios para saber quem canta mais bonito.Nosso Sítio Beira-Mar é cercado com estacas juntas, o caseiro é conhecido pelo apelido de Dai, moço de índole mansa, temente a Deus. Leitor voraz da Bíblia, a sua esposa Neusa tem os dons da arte culinária, excelente no preparo de iguarias e quitutes. Bastante procurada por seus dotes no preparo de iguarias em época de veraneio. Nesse período não adianta procurá-la para contratar suas artes de cozinheira fina, na festa da passagem do ano tem compromisso com a nossa família para cuidar das iguarias e da casa.
Os cães latem e correm ligeiros. Quem passar na rua, até pode pensar que são ferozes pelos latidos altos e constantes. Nada disso, qualquer um que apareça por lá vai ser recebido por músculos que festejam. Nas suas peripécias diárias são capazes de saltar a cerca ou o muro na parte da frente. Então para que servem no caso de visita indesejável de algum elemento perigoso? Aqui para nós, servem para brincar com os netos que os três filhos nos deram nas estações da vida. Não param de oferecer alegria, os cães são como meninos, inerentes ao alvoroço da brincadeira causado com a turma de netos.
Claro que estão proibidos de tomar banho na piscina com os netos, aí então seria um vexame se isso acontecesse, iam bagunçar a água, sujar e causar aborrecimento ao dono do sítio. A piscina é um dos recantos aprazíveis da esposa Mariza, dos filhos, genro, noras e uns poucos amigos. A churrasqueira é o acampamento costumeiro da rapaziada, a vida ali passa com o jogo de cartas, música que anima o ambiente, o churrasco preparado pelo genro, o tira-gosto acompanhado de bons goles de cerveja.
A cantoria dos pássaros, as frutas doces e madurinhas, mangas, cajus, pitangas, a água de coco dão-me a certeza de que viver assim é um presente do céu. Os dias passam, passam os dias, enquanto o sol brilha pelos fundos do sítio, de frente para o mar. Lá é onde me sento na cadeira, fico olhando a paisagem marinha em movimento ao sabor do vento. Os veranistas chegam cedo à praia, uns circulam a pé na areia, outros de bicicleta, ainda outros se banham nas ondas que batem, voltam batem. Murmuram quando se espalham e formam colares de espuma na areia úmida.
À noite recolho-me no quarto para ler um bom livro, escrever alguma história ou poema que vem mexendo comigo. De manhã cedo acontece o melhor espetáculo da natureza com seu visual que impressiona vivamente. É a hora esplêndida do nascimento do sol, que vem puxado pelos fios de ouro do amanhecer lindo. O astro-rei esplende seus raios de ouro ao redor de seu disco luminoso, espalha inúmeros espelhos pelas ondas, em balanço macio da natureza líquida. É quando ele mais gosta de se admirar nos inúmeros espelhos ao molejo das ondas. Pergunto-me se esse momento, de ouro que brilha no céu e nas águas, não é o sol querendo me mostrar como foi o primeiro dia no paraíso.
No andar superior da casa do sítio escuto o passarinho com seu canto estridente, no alto do coqueiro. Bate as asas seguidas vezes, ao mesmo tempo em que diz: “Bem-te-vi! Bem-te-vi!” Uma vez escutei essa saudação ao astro-rei na Praia da Tiririca, em Itacaré. Agora se repete quando estou na sacada do andar superior admirando o nascimento do sol. De novo acontece o milagre formado pela saudação desse passarinho de asas amarronzadas, peito amarelo, bico comprido, de canto aguerrido quando está saudando o sol.
Como é bonito de escutar esse passarinho no seu clarim festivo. Vê-lo fazer sua saudação ao sol radiante desenhando no céu uma flor gigantesca. Não posso deixar de considerar que sou um espectador privilegiado diante da cena que a natureza generosa oferta-me e não cobra nada. Dá para pensar por que será que ainda tem gente no mundo que não acredita em milagre. Em Deus nem quer ouvir falar.
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