quarta-feira, julho 15

Na era do excesso de estímulo e de julgamentos, ninguém vê o homem no mar

Foi Manuel Bandeira quem disse que Rubem Braga era sempre bom, mas quando não tinha assunto era ótimo. O clássico exemplo de falta de assunto é a crônica “Homem no mar”, na qual ele descreve a vista da varanda entre árvores e telhados, tendo ao fundo um homem nadando no mar.

Esta semana eu me vi num dilema similar. Tendo que entregar meu texto mas sem ideia do que escrever. Os tempos são outros, mas a agonia é a mesma, e me valho deste espaço para reivindicar o mesmo: eu também tenho o direito de não ter assunto.

Ah, mas com tanto acontecendo no mundo, como é que você vai conseguir não ter assunto?

Por meio deste plano para benefício próprio e coletivo, capaz de tornar o Brasil a maior potência da literatura mundial. Segue:

O segundo grupo com maior risco de extinção no país (leitores) deve se organizar para preservar o grupo de maior risco (escritores). Mediante vaquinha, devem adquirir a cobertura em Ipanema sem internet onde nós escritores seremos trancados. Não é para a gente se reproduzir, gente. Desinfetem suas mentes impuras. Se bem que a fantasia de estar trancada num espaço sem internet é inerente ao grupo e altamente sensual, nós somos assim de esquisitos. Mas o que a gente quer mesmo é menos. Menos informação, julgamento, ruídos, vídeos, imagens, notícias e memes. Menos estímulos.

Tomem Rubem Braga, por exemplo. Se fosse um jovem escritor de hoje, entraria nas redes para se inspirar e sofreria de algo que muito conheço, a paralisia pelo excesso. Tantos temas para só um texto, e quem sabe se ele clicar de novo e de novo encontrará o assunto da vez. Seis da tarde, é Rubem sem a crônica e vasto conhecimento sobre receitas com rúcula e conflitos no Oriente Médio. Rubem decide espairecer, publicando no Insta um vídeo de seu canário cantando. Mas agora, em vez de escrever, pensará em curtidas. Decide abrir a internet, rapidinho, para olhar. Tem poucas curtidas e um comentário dizendo Rubem, seu cretino dono de gaiola, torturador de animais. Várias curtidas no comentário. Ele apaga o post, se arrepende e condena, paga o preço em um estado mental oposto ao necessário para a escrita. E tem mais. Rubem Braga publica um livro, avaliado na Amazon por esta figura potencializada pelas redes, o espírito de porco profissional. Diz a avaliação que se Rubem Braga usasse os dedos para tirar meleca em vez de digitar estaria ao menos fazendo algo útil. Virão mil resenhas positivas, mas é a da meleca que Rubem lembrará.

Diante de tanto não teríamos um escritor no ápice de seus talentos, mas um jovem inseguro, ansioso e bloqueado. Sofrendo pelo excesso de estímulo e a intensidade dos julgamentos, mas principalmente por não poder se tornar Rubem Braga. Por ter os textos maravilhosos apodrecendo nele, porque passou um homem nadando lá longe e ele não viu.

Moral da crônica: o melhor conselho para uma aspirante a escritora é: nasça em 1940. Outra moral com adendo: os escritores precisam de menos e os leitores, também. Eu me viro aqui lendo livros. Esta atividade tão 1940, e que ainda funciona bem.

Martha Batalha

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