De repente, nos demos conta de que todo mundo dormia. Minha mãe e meus irmãos tinham dormido bem depressa quando saímos de Bordeaux. Eu falava baixo para não desperta-los. Se me tivessem ouvido contar as historias da família, teriam me proibido com gritos e ameaças. Nossa conversa, em sussurros havia adormecido aos outros três ou quatro passageiros do vagão. Então, este homem e eu éramos os únicos despertos e foi assim que tudo começou, exatamente ao mesmo momento e intensamente com um único olhar.
Naquela época não se falava dessas coisas e especialmente naquelas circunstancias. De repente não conseguíamos mais conversar. Não podíamos nem mesmo nos olhar e permanecemos ali prostrados. Fui eu quem disse que deveríamos dormir para não estar cansados na manhã seguinte. Ele estava próximo à porta e apagou a luz. Entre ele e eu havia um assento vazio. Eu me aconcheguei, dobrei as pernas e fechei os olhos. Ouvi quando ele abriu a porta, saiu e voltou com uma manta que estendeu sobre mim. Abri os olhos para sorrir e agradece. Ele disse: “Durante a noite eles desligam a calefação e de madrugada faz frio”.
Dormi.
Despertei com sua mão quente e suave sobre minhas pernas. Deslizando lentamente pelo meu corpo. Abri os olhos levemente. Percebi que ele olhava atento para os outros no vagão, tinha medo. Com um movimento bem suave, avancei meu corpo em direção a ele e o toquei com meus pés. Eu os entreguei a ele, e ele aceitou. Com os olhos fechados segui cada um de seus movimentos. A principio eram lentos, depois, cada vez mais pausados e contidos, até o final, o deixar se levar pelo gozo tão forte, como se tivesse gritado.
Por um longo período nada aconteceu, apenas o ruído do trem. Parecia ir mais rápido e o ruído passou a ser ensurdecedor. Depois voltou a ser suportável. Colocou outra vez sua mão sobre mim. Era selvagem, ainda estava quente, tinha medo. Apertei com minha mão e a soltei. Deixei ela livre. O ruído do trem voltou a ser forte. A mão se retirou, ficou longe de mim por um bom tempo, já não me lembro, acho que dormi.
Ele retornou.
Acariciou meu corpo inteiro e acariciou meus seios, o ventre, os quadris, com uma espécie de doçura as vezes interrompida pelo desespero do desejo que retorna. As vezes sua mão parava. Uma vez sobre o sexo, tremula, disposta a morder ardente outra vez. E logo se ia. Pensava, raciocinava, se punha amável para dizer adeus à menina. Em torno a mão, o ruído do trem. Em torno ao trem, a noite. O silencio dos corredores dentro do ruído do trem. As paradas que despertavam as pessoas. Ele desceu durante a noite. Quando abri os olhos em Paris, seu assento estava vazio.
Marguerite Duras

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