quinta-feira, março 1

País só deve dominar Leitura em 260 anos

Um relatório inédito do Banco Mundial estima que o Brasil vá demorar 260 anos para atingir o nível educacional de países desenvolvidos em Leitura e 75 anos em Matemática. Isso porque o País tem avançado, mas a passos muito lentos. O cálculo foi feito com base no desempenho dos estudantes brasileiros em todas as edições do Pisa, a avaliação internacional aplicada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento (OCDE). 

Esta é a primeira vez que o World Development Report, relatório anual que discute questões para o desenvolvimento mundial, é dedicado totalmente à educação. A conclusão mais importante do documento é que há uma “crise de aprendizagem” no mundo todo. “Nos últimos 30 anos houve grandes progressos em colocar as crianças nas escolas na maioria dos países, mas infelizmente muitas não entendem o que leem ou não sabem fazer contas”, disse ao Estado o diretor global da área de educação do Banco Mundial, Jaime Saavedra. 

What a sweet scene
Segundo o relatório, 125 milhões de crianças no mundo estão nessa situação. Na América Latina e Caribe, apenas cerca de 40% das crianças nos anos finais do ensino fundamental chegam ao nível considerado mínimo de proficiência em Matemática, enquanto na Europa e Ásia são 80%. Na África Subsaariana, só 10% dos alunos têm níveis aceitáveis de Leitura.  

O texto sistematiza evidências e casos de sucesso de vários países para traçar um panorama da educação mundial. A Coreia do Sul e, mais recentemente, o Peru e o Vietnã são países citados como alguns dos que conseguiram avançar com reformas e novas políticas. Entre as sugestões de iniciativas para tentar reverter o quadro principalmente nos países em desenvolvimento, estão a valorização do professor, a avaliação dos sistemas, a melhor gestão das escolas e o investimento em educação infantil. 

O Brasil é um dos países que fazem parte dessa crise de aprendizagem, apesar de avanços recentes em avaliações. No último Pisa, porém, o País não aumentou sua nota em Leitura e caiu em Matemática. Procurado pelo Estado, o Ministério da Educação não quis comentar o conteúdo do relatório. 

Segundo André Loureiro, economista brasileiro do Banco Mundial, a demora para se atingir níveis de países desenvolvidos só vai acontecer “se o país mantiver o passo em que está”. “Mas há reformas que estão sendo feitas, como a do ensino médio, que têm potencial muito grande de afetar essa trajetória”, acredita. Para ele, a flexibilização do currículo e a diminuição do número de disciplinas devem deixar a escola mais atrativa para os jovens. 

“O Brasil precisa urgentemente de um plano estratégico de educação”, diz a presidente do Movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

Segundo ela, os avanços do País são lentos porque não se sabe quais são os fatores de fracasso e sucesso das políticas. “A gente abandona as políticas e recomeça do zero sem ter aprendido nada com o passado.” Para Priscila, os dois pontos principais desse plano deveriam ser a valorização do professor e da primeira infância. 

“O Brasil teve de expandir o sistema rapidamente para trazer muitas crianças para a escola, precisou de muitos professores e acabou tendo problema com a formação deles”, diz o coordenador de pesquisas do Centro de Políticas Públicas do Insper, Naercio Menezes Filho. Mas, segundo ele, agora o País tem uma oportunidade de corrigir essa questão por causa da queda demográfica. A natalidade diminuiu muito nos últimos anos e o número de alunos no ensino fundamental caiu quase pela metade em 20 anos. “Se mantiver o tamanho das salas, vamos precisar de metade do professores. Podemos selecionar melhor os candidatos.” 

O relatório intitulado Aprendizagem para Realizar a Promessa da Educação será apresentado hoje em São Paulo em um evento na Fundação Getulio Vargas (FGV). O texto enfatiza a importância da educação para impulsionar o “crescimento econômico de longo prazo, incentivar a inovação, reforçar as instituições e promover a coesão social”. Há também dados que demonstram que cidadãos mais bem educados valorizam mais a democracia. 

A escola da Fazenda Canuanã, em Formoso do Araguaia, (TO), projeto do Instituto A Gente Transforma do designer Marcelo Rosenbaum, que recebeu o prêmio de Melhor Edifício de Arquitetura Educacional do mundo, da Building Of The Year

Jaime Savedra, diretor global de Educação do banco Mundial
Por que o relatório do Banco Mundial resolveu focar em educação? 
Precisamos ter certeza de que as pessoas que cuidam das políticas dos países saibam que o capital humano é mais importante que o capital físico. É crucial mostrar o que está acontecendo, os desafios e o que fazer. Porque todo mundo diz que educação é muito importante para o desenvolvimento, mas esse discurso nem sempre se traduz em busca da certeza de que todos na escola estão aprendendo. 
Os países precisam investir mais em educação? 
Em alguns países, a resposta é sim, mas em outros, como o Brasil, o dinheiro precisa ser distribuído melhor pelos níveis de ensino e pelo País. A questão é mais sobre como estamos usando os recursos do que colocar mais.
Quais as principais medidas para resolver a crise de aprendizagem? 
O ponto principal é que os países precisam atrair os melhores profissionais para serem professores. Em Cingapura, Finlândia, Japão, se aumentou o prestígio da carreira. E isso não é só salário, mas a percepção social da carreira. Outra questão é o gerenciamento das escolas. O serviço das escolas é realmente difícil porque é o de fazer uma criança feliz e dar a ela as ferramentas para uma vida produtiva.
Renata Cafardo

quarta-feira, fevereiro 28

Por isso iluminam

If the Lights Go Out.....Reading by Candle Light

A leitora

Fábulas Lendas e Histórias: A LIÇÃO DO JARDINEIRO
A leitora abre o espaço num sopro subtil. 

Lê na violência e no espanto da brancura. 
Principia apaixonada, de surpresa em surpresa. 
Ilumina e inunda e dissemina de arco em arco. 
Ela fala com as pedras do livro, com as sílabas da sombra. 

Ela adere à matéria porosa, à madeira do vento. 
Desce pelos bosques como uma menina descalça. 
Aproxima-se das praias onde o corpo se eleva 
em chama de água. Na imaculada superfície 
ou na espessura latejante, despe-se das formas, 

branca no ar. É um torvelinho harmonioso, 
um pássaro suspenso. A terra ergue-se inteira 
na sede obscura de palavras verticais. 
A água move-se até ao seu princípio puro. 
O poema é um arbusto que não cessa de tremer. 
António Ramos Rosa

Cada leitor com sua chave, e aventura

Soizick Meistern
Soizick Meistern

O cego e o crocodilo

Um dia Abdu preparou uma armadilha na beira do rio para pegar um crocodilo. Que sorte! Pegou um logo em seguida! Mas em vez de levar a presa para o terreiro da sua concessão, resolveu fazer uma senhora marotagem. Catou uma pedra bem grande e arrebentou a cabeça do crocodilo. Depois escondeu o bicho num arbusto. Feito isso, voltou tranquilamente para casa.

Abdu esperou um tempinho e foi convencer o chefe da aldeia a organizar uma caçada de crocodilos. E propôs:

- Quem chegar primeiro com um crocodilo morto ganha uma gorda recompensa.

O chefe pensou um pouco e respondeu:

- Abdu, gostei da ideia! Vamos organizar logo essa caçada!

Naquela mesma tarde, os homens saíram para caçar crocodilo. Abdu sabia que eles praticamente não tinham chance de pegar um antes dele. Voltou correndo para sua cabana, enquanto os caçadores se espalhavam pela beira do rio, com arcos e flechas envenenadas. Abdu sabia que eles voltariam provavelmente de mãos abanando. Estava feliz da vida com a situação: ele seria o único a trazer um crocodilo! Estava tão feliz que correu para a casa da sua doce amada para lhe contar o segredo. A bela Fatu compreenderia a alegria dele...

Encontrou Fatu na soleira de casa. A moça ouviu tudo. Abdu contou como tinha matado o crocodilo, onde tinha escondido, que dali a pouco iria buscá-lo e, como seria o primeiro, ele é que ganharia o prêmio. Enquanto Abdu, com o rosto iluminado de contentamento, revelava sua molecagem à bela amada, um cego passou em silêncio e ouviu a história toda.

"Desta vez eu pego esse espertalhão", disse consigo mesmo o ceguinho, que foi direto para o lugar em que Abdu tinha escondido o crocodilo. Chegando lá, deixou-se cair no barro. Sujou de propósito a roupa e aguardou perto do crocodilo, morto desde a manhã.

Nesse meio tempo, Abdu voltou para casa, vestiu seu lindo bubu azul, finamente bordado, e passou de novo pela casa de Fatu.

- Está na hora - disse à namorada. - A caçada já começou, vou capturar meu crocodilo!

E partiu rindo sozinho na direção do rio, com um enorme bastão na mão. As mulheres que cruzaram com ele se espantaram ao vê-lo tão bem vestido assim, quando todos os homens estavam quase nus na beira do rio, com suas flechas e zagaias.

Abdu explicava a elas:

- Sou tão bom caçador, que vou matar um crocodilo com a maior facilidade e nem vou me sujar! Não tenham dúvida, eu é que vou ganhar a competição!

Nenhum dos caçadores da aldeia tinha conseguido caçar crocodilo algum, quando Abdu chegou no lugar onde tinha escondido sua caça de manhã. Deu com o ceguinho, sentado junto do arbusto. Sem se perturbar, Abdu pegou sua caça e disse ao ceguinho:

- Acabo de matar um crocodilo.

O cego lhe pediu licença para avaliar o peso e o tamanho do bicho. Abdu concordou e colocou o bicho nos ombros do cego. Este deixou o crocodilo cair no barro, e então pôs de novo nos ombros o bichão todo enlameado. Abdu, que agora começava a ficar com pressa, pediu-lhe para devolver o fardo. Mas este, de repente, pôs-se a berrar, pedindo socorro! Abdu entendeu na hora que o ceguinho queria lhe pregar uma peça.

Os outros caçadores chegaram correndo. Abdu quis explicar a situação.

- Chega de conversa! Chega de mentira! - responderam os caçadores, que já tinham sido vítimas das malandragens de Abdu bem mais de uma vez.

Como Abdu continuava a protestar, os caçadores decidiram que cabia ao chefe resolver o assunto.

Foram para a casa do chefe, que todos respeitavam. Lá, primeiro um, depois o outro disseram ter matado o crocodilo.

O chefe, que os ouviu e observou atentamente, declarou:

- Abdu mentiu muitas vezes para a gente. Está sempre querendo nos tapear. Sempre quer ser mais esperto que os outros. É um vigarista, um impostor! Como Abdu, tão bem vestido com seu lindo bubu bordado, pode dizer que está voltando da caça? Olhem só para o ceguinho. Está tão enlameado quanto o crocodilo. Com certeza foi ele que matou o bicho.

Abdu não pôde dizer nada. E o que diria diante daquele raciocínio tão lógico do chefe?

Foi-se embora cabisbaixo. O ceguinho recebeu o prêmio prometido.

É verdade, todo espertalhão sempre acaba encontrando outro mais esperto que ele.

terça-feira, fevereiro 27

Amar é...

Chatos e outros tipos

simena:
“ERNEST ANGE DUEZ
”
Ernest Ange Duez
Dom Quixote era do time dos chatos. Não deixava nem os moinhos em paz.

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A onipresença dos chatos é notícia. Há sempre pelo menos um clamando no deserto.

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Chato persistente é pleonasmo. Chato obstinado é uma praga.

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Diante de um chato, melhor é contar até vinte.

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Gastronomicamente falando, o preferido pelos concretistas é o molho madeira.

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Digam o que disserem os especialistas, o exercício de viver ainda é o mais cansativo.

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Estranho é pensar que os modernistas de 22 andavam de bonde.

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Era um poeta que, julgando ter um rei na barriga, dizia ter sido engravidado pela Poesia.

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Minha querida amiga, eu fico triste quando não me dás atenção e dizes que nada temos em comum. Temos, sim: nós dois não gostamos muito de mim.

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Um poeta corre sempre o venturoso risco de dizer palavras ao vento e vê-las fugir transformadas em pássaros.

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Até os últimos anos do século XX, morrer de amor era tão comum que nos atestados constava a expressão “causas naturais”.

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Que pecado, os mortos de olhos tão fechadamente verdes.

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De um poeta não lido, o sonho de consumo não é consumir, é ser consumido.

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Um poema concreto há de ser sólido do piso até o teto.

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Nos dias em que a presunção nos toma, julgamos estar plagiando Shakespeare.

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Se eu continuar assim morto por mais alguns dias, tenho chance de entrar no Guinness.

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Pretendo morrer poeticamente, quando descobrir como.

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Pode não ser o caso, mas um morto parece sempre estar sabendo muito bem o que faz.

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Pobres mortos: nunca mais o amor, as aflições, a vontade de morrer.

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Boas fotos são aquelas em que não pareço nada comigo.

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Até no campeonato de velhice eu fracassei: fui vice.

Raul Drewnick

Leitura compulsiva

As pessoas e seus livros

Lembro que logo que entrei na faculdade de direito, os olhos do meu pai brilhavam ao me ver perambulando com aquelas dezenas de livros que eu mal compreendia. Francesco Carnelutti, Cândido Dinamarco, Maria Helena Diniz, Franco Montoro, Dalmo Dallari. O simples fato de ver os livros ao meu lado já parecia ser quase suficiente para alegrar aqueles olhos de pai professor, que, no fundo, sabia que frequentemente eu lia sobre teoria geral do direito civil pensando seriamente se meu açaí seria com banana ou com morango.

Até que um dia aquele olhar risonho foi tomado por uma nuvem negra e a expressão pacífica do pisciano ganhou ares de assombro. Ele não podia acreditar no que estava vendo. Ele não queria acreditar que a própria filha, tão Manus e tão alérgica a wasabi quanto ele, pudesse estar cometendo tamanha atrocidade. Ele se aproximou lentamente, como quem estica o pescoço assustado para observar uma vítima de acidente ou um animal selvagem, e me perguntou o que eu estava fazendo.

“Estudando”, eu respondi, um pouco desconcertada com a existência de dúvida perante uma cena tão autoexplicativa. Então ele disse aos solavancos com os olhos arregalados “VO. CÊ. ES. TÁ. GRI. FAN. DO. O. LI. VRO. COM. CA. NE. TA?”. Eu, cada vez mais desnorteada, respondi que sim, estava grifando com marca texto laranja e fazendo anotações com a caneta azul, afinal, o livro era meu, não era da biblioteca. Certo?

Foi então que eu descobri que as pessoas têm relações absolutamente distintas com seus livros. O que parece normalíssimo para alguns, parece um verdadeiro sacrilégio para outros. Temas como emprestar ou não emprestar, doar ou não doar, anotar ou não anotar, dobrar ou não dobrar, tornam-se dilemas tão shakespearianos quanto ser ou não ser.

Eu confesso que realmente adoro anotar coisas nos meus livros. Puxar setas, grifar frases, colocar asteriscos. E não tenho qualquer problema em fazer isso a caneta. Até com caneta vermelha, se for preciso. Meus livros frequentemente se parecem com a bandeira do orgulho gay. No entanto, tenho a mais profunda aversão a pessoas que dobram a pontinha da página para marcar algo que julguem relevante. Isso sim me tira do sério.

Minha mãe faz algumas anotações, mas sempre a lápis. Meu pai é absolutamente incapaz de interferir nas linhas. Quando muito, coloca seu nome na primeira página. Minha tia compra o livro, lê e doa. Acho a coisa mais linda do mundo. E não tenho a menor capacidade de fazer o mesmo. Preferiria doar dinheiro vivo para bibliotecas públicas do que doar meus livros. Simplesmente não consigo evitar esse sentimento egoísta de amar prateleiras gorduchas.

Outro dia minha irmã me perguntou por que eu não tinha um Kindle. Eu, antes de lembrar daquele aparelho para ler livros digitais, confundi Kindle com kinder e me perguntei por que minha irmã achava que eu deveria ter ovos de chocolate recheados com surpresas nessa fase da vida. Mas depois que entendi, respondi, quase ofendida, “Ué Nina, porque eu gosto de livros!”. Ela me olhou com aquela cara de administradora hi-tech e disse “os livros não deixam de ser livros por serem digitais”. Até hoje não sei bem o que pensar, me mantendo no conservadorismo do papel.

Soma-se a isso a traumática experiência de emprestar livros. Quantos livros foram e não voltaram? Quantos livros ficaram nas nossas prateleiras sem que saibamos exatamente quem nos emprestou? Trata-se de uma prática cujos índices de insucesso rondam os 98%.

Ninguém dá atenção para esse assunto, mas a relação das pessoas com os seus livros é tão íntima quanto uma vida de casal. Há pormenores, traumas, manias. Há sutilezas, pânicos, bloqueios. Prefiro que mexam no meu queijo do que mexam nos meus livros. Eu hein, vai que dobram a pontinha da página.

segunda-feira, fevereiro 26

Café nas alturas

Pins legais

Nossa imaginação precisa da literatura mais do que nunca

Vamos partir de uma situação que grande parte de nós já vivenciou. Estamos saindo do cinema, depois de termos visto uma adaptação de um livro do qual gostamos muito. Na verdade, até que gostamos do filme também: o sentido foi mantido, a escolha do elenco foi adequada, e a trilha sonora reforçou a camada afetiva da narrativa. Por que então sentimos que algo está fora do lugar? Eu penso logo em Fim de Caso, do inglês Graham Greene, levado às telas por Neil Jordan. Mas você pode pensar em Harry Potter, em Alice no País das Maravilhas, em qualquer um dos filmes baseados em romances do Cormac McCarthy. No meu caso, eu tinha a Julianne Moore no papel feminino principal, e com ela nada pode dar muito errado, né? Então, por que me senti um pouco traída e com uma sensação de que havia faltado alguma coisa?

O cão que comeu o livro...: As leitoras de Daniela Zekina e uma citação / Women reading by Daniela Zekina and a quote
Daniela Zekina
O que sempre falta em um filme sou eu. Parto dessa ideia simples e poderosa, sugerida pelo teórico Wolfgang Iser em um de seus livros, para afirmar que nunca precisamos tanto ler ficção e poesia quanto hoje, porque nunca precisamos tanto de faíscas que ponham em movimento o mecanismo livre da nossa imaginação. Nenhuma forma de arte ou objeto cultural guarda a potência escondida por aquele monte de palavras impressas na página.

Essa potência vem, entre outros aspectos, do tanto que a literatura exige de nós, leitores. Não falo do esforço de compreender um texto, nem da atenção que as histórias e poemas exigem de nós – embora sejam incontornáveis também. Penso no tanto que precisamos investir de nós, como sujeitos afetivos e como corpos sensíveis, para que as palavras se tornem um mundo no qual penetramos. É sempre bom ver Julianne Moore na tela... O problema é que ela, ali, toma o espaço que, de alguma forma, eu havia preenchido na narrativa quando a li.

Somos bombardeados todo dia, o dia inteiro, por informações. Estamos saturados de dados e de interpretações. A literatura – para além do prazer intelectual, inegável – oferece algo diferente. Trata-se de uma energia que o teórico Hans Ulrich Gumbrecht chama de “presença” e que remete a um contato com o mundo que afeta o corpo do indivíduo para além e para aquém do pensamento racional.

Muitos eventos produzem presença, é claro: jogos e exercícios esportivos, shows de música, encontros com amigos, cerimônias religiosas e relações amorosas e sexuais são exemplos óbvios. Por que, então, defender uma prática eminentemente intelectual, como a experiência literária, com o objetivo de “produzir presença”, isto é, de despertar sensações corpóreas e afetos? A resposta está, como já evoquei mais acima, na potência guardada pela ficção e a poesia para disparar a imaginação. Mas o que é, afinal, a imaginação, essa noção tão corriqueira e sobre a qual refletimos tão pouco?


Proponho pensar a imaginação como um espaço de liberdade ilimitada, no qual, a partir de estímulos do mundo exterior, somos confrontados (mas também despertados) a responder com memórias, sentimentos, crenças e conhecimentos para forjar, em última instância, aquilo de faz de cada um de nós diferente dos demais. A leitura de textos literários é uma forma privilegiada de disparar esse mecanismo imenso, porque demanda de nós todas essas reações de modo ininterrupto, exige que nosso corpo esteja ele próprio presente no espaço ficcional com que nos deparamos, sob pena de não existir espaço ficcional algum.

Mais ainda, a experiência literária nos dá a chance de vivenciarmos possibilidades que, no cotidiano, estão fechadas a nós: de explorarmos essas possibilidades como se estivéssemos, de fato, presentes. E a imaginação é o palco em que a vivência dessas possibilidades é encenada, por meio do jogo entre identificações e rejeições.

Resta pensar por que é tão importante encenar possibilidades. Em primeiro lugar, como o escritor Bernardo Carvalho destacou recentemente, estamos vivendo uma confusão generalizada entre realidade e representação artística, em que esta última vem sofrendo sanções violentas, por se haver perdido a medida da diferença entre o real e a retomada desse real em obras artísticas. Carvalho inicia seu texto afirmando, muito acertadamente, que rejeitar ou proibir a representação ficcional do horror que há no mundo é sintoma de um desespero – o desespero causado pela impossibilidade de eliminarmos o horror real. Além disso, diz ele mais adiante, recusar a legitimidade ou a existência de determinadas obras de arte denota o temor à ambivalência dos nossos próprios desejos, sentimentos e certezas.

Aprendemos desde cedo que, para que haja vida em sociedade, não podemos pôr em prática, na vida cotidiana, toda essa ambivalência. Um dos poderes da obra de arte é, precisamente, o de oferecer uma experiência cuja própria premissa é a existência de paradoxos – afinal, a ficção cria um mundo que, fora dela, não existe, mas no qual precisamos acreditar. A imaginação entra em cena para ampliar as contradições, sem, contudo, tornar a experiência incoerente: estamos, agora, no domínio da associação livre e espontânea entre o que lemos, o que lembramos, o que sabemos e sentimos. Idealmente, ao lermos uma obra literária, não caímos na confusão entre a realidade e a representação dela, e sim nos conectamos a uma realidade cotidianamente inacessível, por meio da interação entre o que o texto propõe e a nossa imaginação. Nesta, acessamos aqueles que somos, mas também aqueles que poderíamos ser – maravilhosos ou terríveis.

Há, ainda, outra defesa para a primazia da literatura como “disparadora” da imaginação. Para ela, recorro a uma história real, que se desenrola neste momento, na Universidade Stanford, uma das melhores do mundo e, além disso, localizada em meio ao Vale do Silício. Lá, hoje se desenvolve boa parte das pesquisas científicas mais importantes sobre inteligência artificial – assunto, aliás, que até pouco tempo atrás só era central em obras de ficção científica (e nem me deixem começar a falar da imaginação de gente como Ursula Le Guin ou Philip K. Dick!)

Em Stanford, encontramos uma dessas figuras que só um ambiente absurdamente privilegiado é capaz de produzir (e de que meritocracia nenhuma, sozinha, pode dar conta): o americano Sam Ginn está no terceiro ano de sua graduação, e irá se formar em ciência da computação e... em literatura comparada (desde 2014, a universidade oferece e incentiva a prática de dupla graduação em computação e em uma área das humanidades). O principal interesse de Sam é na replicação artificial da consciência humana. E um dos principais autores que guiam a pesquisa dele não é um neurocientista ou um programador como ele próprio, mas o filósofo Martin Heidegger (ele fala sobre isso nesta entrevista incrível). Vale contar, também, que, quando não está em sala de aula, Sam atua no laboratório de inteligência artificial da universidade, um trabalho pelo qual recebe, aos 20 anos, um salário que deixaria bastante felizes muitos pesquisadores brasileiros experientes.

No começo deste mês, em um evento em homenagem à obra de Gumbrecht, Sam lembrou a uma plateia formada por professores e pesquisadores de história, filosofia e literatura, que muitas elucubrações que sempre haviam sido do domínio da ficção hoje se tornaram objeto de pesquisas reais. Disse ainda que, se aos cientistas cabem os esforços e a ambição virtualmente irrestritos de inventar o futuro, cabe a nós, das ditas humanidades, oferecer um terreno aberto de discussão sobre esse futuro. Esse terreno constituiria uma base não propriamente ética (o que seria um encargo que excede as nossas capacidades, por mais que alguns de nós se achem aptos a ele...), mas simplesmente humanista, no melhor sentido do termo: um espaço de debate não calcado em posições preconcebidas ou objetivos concretamente delimitados. Entre os futuros imaginados por jovens como ele, Sam mencionou – provocando taquicardia em muitos, e em mim – a possibilidade concreta de uma existência em que a morte terá sido derrotada pela ciência. Se isso será bom ou ruim, não me cabe dizer. Sei apenas que a imaginação humana tem muito trabalho pela frente, e que nenhum esforço da literatura para despertá-la terá sido em vão.

Ligia G. Diniz

Leitora de Verão

Volevo informarvi che ho sentito la definizione di "romanzo turistico".

Biblioteca em expansão

Língua muda

Trocar de computador virou provação a qualquer usuário comum. Quem não se tornou um iniciado em informática tem de percorrer uma estrada acidentada, cada vez mais complexa e sem sentido.

Os sistemas e aplicativos que vêm instalados de fábrica estão repletos de porcarias que nunca serão utilizadas pela maioria de nós. Mas servem para nos impor navegações desnecessárias, na tentativa de vender outras porcarias. E para criar um labirinto insondável, capaz de tornar mais lento e complicado o funcionamento da máquina. Claro, porcarias de difícil remoção, que terminam exigindo a presença — e os custos — de um técnico.

Os chamados cabos crossover ou cabos cruzados nunca foram popularizados e têm operação pouco amigável a usuários comuns, embora sirvam para ligar o computador antigo ao novo e permitir a transferência direta da maior parte do conteúdo instalado. As placas de rede mais modernas prometem o mesmo, mas nem sempre prometer é fazer. Ou seja, alternativas eficientes àquela gincana por HDs internos e externos, pen drives, horas infindáveis de trabalho e paciência continuam inacessíveis à maioria.

Depois de tudo funcionando, a desagradável surpresa para quem, como eu, escreve todos os dias: só existem versões de bons dicionários da língua portuguesa compatíveis até o Windows 7. Liguei para as editoras dos nossos principais dicionários. Péssimo atendimento, falta de informações e nenhum interesse em resolver meu problema — que é de muitos — ou ouvir sugestões de consumidor.

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É possível instalar em paralelo uma máquina virtual, com algum sistema operacional antigo compatível com os dicionários. Ou seja, tem-se a opção de comprar uma máquina de última geração e maquiá-la para parecer mais antiga. Um espetáculo!

Esse é o retrato perfeito dessa modernidade incapaz de entender a importância de uma língua que não foi construída em bits e é guardada na nobreza dos dicionários. O mesmo labirinto da falta de identidade que tenta dar solenidade aos computadores usando o som sintetizado das teclas das velhas máquinas de datilografia. Ou colocando sons de telefones de baquelita nos smartphones.

A chateação transformou-se em desolação quando visitei lojas das principais redes de livrarias, em São Paulo. O “ponto alto” foi encontrar um vendedor de uma delas, no Shopping Iguatemi, que não sabia o que é dicionário. Era muito jovem, vá lá, mas é desolador ver um vendedor de livraria não ter o registro da palavra “dicionário” no próprio repertório linguístico. E ainda perguntar, antipático, “Dicionário?!”, com aquela empáfia enfadonha dos jovens ignorantes. Sim, parece mentira, mas o moço realmente não sabia o que é um dicionário.

Buscou ajuda de um colega mais experiente e o meu quadro de solidão de consumidor mudou pouco: o homem, bem passado dos quarenta, não conseguia conversar a respeito da versão eletrônica do produto porque não tinha qualquer familiaridade com o mundo digital. Balbuciou algo do tipo “Parece que vem um CD dentro do livro” ao me mostrar os exemplares impressos, mas empacou quando eu disse que aquelas versões eram incompatíveis com meu sistema operacional. Saí sem decifrar quais palavras do meu vocabulário ele não conhecia.

E por falar em livrarias, é impressionante essa febre atual de livros sem palavras, que servem apenas para colorir e estão salvando o mercado editorial. Santo Deus! Faz lembrar o que disse o escritor José Saramago diante dos econômicos 140 caracteres do Twitter, antevendo que nessa pisada o homem ainda vai acabar “chegando ao grunhido”.

Continuo sem bons dicionários no computador. Como viajo muito, será bem “animador” tirar da estante para enfiar na mala livrões que pesam, no barato, uma tonelada de ausência de inteligência do mercado digital.

Muito mais grave é testemunhar uma perigosa realidade: a língua portuguesa está virando estrangeira em Pindorama. Quando o dicionário passa a ser tratado com irrelevância, quando o “pai dos burros” vira filho bastardo de cavalos batizados, azar do futuro.

Conversando com um amigo também iniciado em dicionários, constatamos desolados que vamos convivendo com esse fenômeno mais visível nas grandes cidades: livrarias cheias de zumbis. Exemplares primitivos de uma espécie que, não demora, terá polegares diferentes, próprios para teclar em dispositivos cada vez mais minúsculos — como o resultado que geram. E sairão por aí espalhando seus grunhidos digitais.

domingo, fevereiro 25

Cardápio do dia

Os loucos da província

Ele era o louco dos sábados. Um estrambótico simpático, com mania de pacificador, e feioso de dar dó.

Os pontos azuis e vermelhos brilhavam, longe, às oito da manhã, e quase sempre nos sábados quentes do equador. As manchas coloridas cresciam na avenida Getúlio Vargas, se alongavam em figuras geométricas, e quando passavam em frente à janela do meu quarto davam forma e volume ao corpo.

Vermelhos o rosto, o pescoço e a cabeça calva; azuis e brancas as listras do pijama, inesquecível. Ali marchava o Bombalá, o primeiro louco da minha vida de jovem ginasiano.

Marchava descalço, à frente da banda da PM; os soldados-músicos não molestavam seu maestro distraído, de passos incertos e sinuosos. Vez ou outra, Bombalá estacava para admirar um pássaro, que só ele enxergava; depois ria, batia asas e conversava com a ave, que já voava, longe; mas o papo se prolongava num diálogo secreto: o homem na terra, o pássaro no silêncio do espaço, enquanto a banda militar passava como um estrondo de metais e tambores na manhã incomum.

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Foi num sábado tumultuado que a gente viu o Bombalá de muito perto. Qualquer música ao vivo e em movimento o atraía, e dessa vez eram os hinos patrióticos e marchas militares interpretados pelas bandas do Colégio Estadual do Amazonas e do Rui Barbosa.

Ensaiávamos de uniforme completo, tão adaptado ao clima quente e úmido: camisa de manga comprida com abotoaduras, gravata preta com a insígnia dourada, cinturão de couro sobre a calça comprida de flanela cinza, botas e meias pretas. Os alunos do Rui Barbosa usavam um uniforme azul, da cor da bandeira pátria.

As bandas tocavam músicas diferentes, e marchavam em direções opostas, mas na mesma pista da avenida. O encontro era inevitável; o choque e a batalha, imprevisíveis.

Lembro que voaram baquetas e cornetas, a boca de uma tuba sufocou uma cabeça miúda, os metais se chocavam numa gritaria de gralhas, e o Chiado, do segundo ginasial, tombou ensanguentado nas pedras cinzentas.

A valentia e o destemor podiam ser atributos da idade, mas o ódio mútuo era inexplicável. No auge da selvageria surgiu o estrambótico de pijama listrado. Ficou plantado entre os que vinham à direita da avenida e os que iam à esquerda, mas agora tudo estava confuso, fundido na mesma massa de rancor e sangue. Impávido, ele gesticulava como um maestro do outro mundo, e gritava, cheio de alegria: “Cambada de doidos! Eu sou o Bombalá e não sei quem sou, mas vim em paz e quero a paz!”.

Só louco mesmo para alimentar tanta fantasia de paz entre bandos inimigos e furiosos, numa batalha em que todos perderiam. Mas foi assim que terminaram os ensaios para o desfile do Dia da Pátria naquele sábado: 5 de setembro de 1964.

Às vezes, quando a banda da PM dava meia-volta na Getúlio Vargas, o Bombalá prosseguia sua marcha sem cadência na larga avenida, a cabeça raspada, escaldada pelo sol a pino, os pés esfolados pelas pedras em brasa. Da janela do quarto, eu seguia com o olhar o maestro pacificador. Aos poucos a cabeça e o pijama se tornavam pontos vermelhos e azuis, e essa mancha colorida entrava na Joaquim Nabuco, continuava pela Vila Municipal até o fim da cidade, depois se embrenhava na floresta, atravessava o Brasil até aparecer na minha lembrança em pleno carnaval na rua do Sumidouro, onde o fedor do rio Pinheiros é insuportável, e o Bloco dos Duendes batuca e pula numa alegria doida de Bombalá.

Como usar o livro

A você, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão (por supuesto!)

Há algo de muito íntimo em receber um livro com dedicatória: nestes tempos dominados pelo computador e pela pressa, ler algo escrito de próprio punho por pessoa que se estima pode ser uma experiência rara e emocionante

“Para Mercedes, por supuesto”: assim Gabriel García Márquez dedicou, para minha inveja, “O Amor nos Tempos do Cólera” a sua mulher, escancarando todo o seu amor com apenas duas palavrinhas — “por supuesto”. Na edição brasileira que tenho deste livro que há muito tempo acompanha os meus devaneios literários, meu pai escreveu a minha mãe: “Para você, o amor nos tempos do… amor” (romantismo que compensou dedicando “A Terrorista”, de Doris Lessing, com ironia — “Leia, mas não seja”. O conselho deve ter sido seguido, pois o casamento permaneceu firme). Já noutro exemplar, espanhol, um grande amigo me homenageou: “A mi hermano Marcelo Franco, ésta que es la más bonita novela escrita en Latinoamérica en la lengua de Cervantes”. Portanto, mantenho três edições do livro de García Márquez nas minhas estantes sempre atulhadas: uma toda anotada por mim e as duas com dedicatórias — vício de bibliômano.


Ler com atenção e colecionar dedicatórias é com certeza um dos sinais distintivos da bibliomania. Na verdade, uma das formas de reconhecer um bibliomaníaco é o fato de que lemos de fio a pavio qualquer livro: as orelhas, a dedicatória, as notas de rodapé, as referências bibliográficas e até o colofão. Holbrook Jackson, autor de uma preciosidade criminosamente ainda não traduzida no Brasil, “The Anatomy of Bibliomania”, reservou um capítulo inteiro de seu livro para discorrer sobre o prazer de colecionar livros com pedigree, aqueles que têm dedicatórias ou anotações de quem os possuiu. No meu caso, não sou exceção à regra: venho há anos comprando livros dedicados pelos próprios autores e consegui alguns itens dos quais me orgulho com exagero talvez doentio: Pedro Nava, Afonso Arinos, Erico Verissimo, Rubem Braga… Mas se esta faina de acumulação é estranha, Holbrook também nos lembra que a bibliomania causa menos males do que, diz ele, a “sanidade dos sãos”. Acho que procede (aliás, é curioso que a bibliomania seja vista com estranheza enquanto a cinefilia desfruta de status de atividade essencialmente intelectual. Mas não se animem os cinéfilos: a julgar pelos cadernos de cultura dos jornais, a leitura de quadrinhos já está quase ocupando o seu lugar).

Tenho fama de ser bom “dedicador” de livros. Amigos pedem-me conselhos quando se sentem embaraçados com a folha em branco e a necessidade de escrever nela algumas linhas para que o presente fique, por assim dizer, mais personalizado. Creio mesmo que esta minha pequena glória não seja imerecida e, para mantê-la, tenho minhas regras e truques. Revelo aqui apenas um: em desespero, grito por socorro — por exemplo, adaptei para uso próprio, muitas vezes, aquela dedicatória feita por meu pai, “Para você, o amor nos tempos do… amor”. Mas, para minha danação eterna, tendo à verborragia quando Cupido entra em cena. Há alguns anos, quando aquela que desorganizou o que estava organizado entrou em minha vida, passei a dar-lhe dezenas de livros, todos com longas e digressivas dedicatórias. Em troca, ganhava dela livros e presentes com cartões — quando havia algum cartão — com poucas linhas, geralmente algo direto do tipo “Para Marcelo” ou “Feliz aniversário”, e essa concisão, comparada com os meus cartapácios, me roubava noites de sono. Não gosto de pensar que meu caos interno tenha ficado preservado em dezenas de dedicatórias amontoadas em estantes alheias (há aí, percebo agora, uma sutil e freudiana forma de poder na relação entre um verborrágico e uma comedida). Contudo, noutras vezes acertei, ainda que também estivesse confuso: a uma mulher especial que meus transtornos não permitiram que fôssemos além, digamos, de uma espécie de modus vivendi sentimental, dei “Amor em Veneza”, de Andrea di Robilant, e, aproveitando o próprio título impresso na folha de rosto, escrevi: “Para B., AMOR EM VENEZA — e também em Goiânia”.

Em “O Complexo de Portnoy”, de Philip Roth, estruturado como se fosse uma longa sessão de análise, apenas repeti a única frase que o psicanalista diz a Portnoy depois de mais de duzentos e cinquenta páginas de reclamações do seu paciente (talvez, imagino, como reconhecimento da minha própria tagarelice): “Para B.: agora a gente pode começar?”. Tenho o consolo de pensar que ela, daqui a muitos anos, possa dar de cara por acaso, numa tarde preguiçosa ou numa noite insone, com esses livros perdidos nas estantes e, lendo o que escrevi, sinta condescendência pela minha desorganização sentimental, ternura pelo pouco que tivemos e uma vaga decepção pelas promessas não cumpridas dessas dedicatórias.

(Sigo pela senda romântica e me traio revelando outro truque: para os namorados, os sonetos de amor de Camões nunca falham. Ninguém resistiria a estes versos, ainda que eventualmente transcritos sem menção ao autor: “Mas, conquanto não pode haver desgosto/Onde esperança falta, lá me esconde/Amor um mal, que mata e não se vê:/Que dias há que na alma me tem posto/Um não sei quê, que nasce não sei onde,/Vem não sei como, e dói não sei por quê”. Ou estes: “Porque é tamanha a bem-aventurança/O dar-vos quanto tenho e quanto posso/Que, quanto mais vos pago, mais vos devo”. Usem, mas não espalhem a ideia. Ou usem e digam que os versos são do Renato Russo.)

Há um clássico problema decorrente de dedicar livros: pode-se encontrá-los num sebo. Como agir? Bem, há o método “Naipaul” e o método “Shaw”. Parece que V.S. Naipaul teria encontrado um livro por ele dedicado a Paul Theroux, seu amigo fraterno transformado desde então em inimigo íntimo. Já George Bernard Shaw viu num sebo um livro que dedicara certa vez a alguém, comprou-o e dedicou-o novamente — a primeira dedicatória: “Para …, com afeto, G.B.S”; a segunda: “Para …, com renovado afeto, G.B.S.”.

Se essas histórias são realmente verdadeiras, não sei, mas um passeio por sebos em Goiânia mostra amizades e amores traídos à venda e, o que talvez seja pior, expostos à permanente curiosidade de quem nem mesmo pretende comprar aqueles livros. Recebi de amigos algumas pérolas com dedicatórias, como “Marcelo, se já tiver este livro, devolva-o a mim”, ou outra, feita num exemplar de “Jaime Bunda, o Agente Secreto”, do angolano Pepetela, que o pudor, meu casto leitor, me impede de transcrever aqui. Se fosse eu o autor de tão elegantes linhas, não gostaria de vê-las tornadas públicas. Talvez a solução seja usar o clássico “Com amizade” e assinar apenas o primeiro nome, o que diluiria a possibilidade de reconhecimento.

Percebo que derivei pelo rumo das dedicatórias feitas por quem presenteia o livro, então voltemos à vaca fria das dedicatórias feitas pelos próprios escritores. Tenho as minhas preferidas. De imediato, lembro-me de “O Pequeno Príncipe”. Se o encanto do livro perdeu-se por conta das excessivas referências em concursos de miss, ao menos ainda podemos nos deliciar com a dedicatória de Antoine de Saint-Exupéry a Léon Werth. Primeiro, ele pede perdão às crianças “por dedicar este livro a uma pessoa grande”; depois, explica os seus motivos; por fim, ele se emenda: “Todas as pessoas grandes foram um dia crianças. (Mas poucas se lembram disso.) Corrijo, portanto, a dedicatória: a León Werth quando ele era pequeno”.

Muitas outras são as dedicatórias famosas na literatura mundial, desde a de Cervantes, que suplicou longamente ao Duque de Béjar, Marquês de Gibraleón, Conde de Benalcázar e de Bañares, Visconde de Puebla de Alcocer, Senhor das Vilas de Capilla, Curiel e Burgillo para que recebesse o seu “O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha” sob sua proteção, até a de Baudelaire, que encerrou o poema-dedicatória de “As Flores do Mal” com esta quadra (na tradução de Ivan Junqueira): “É o Tédio! — O olhar esquivo à mínima emoção,/Com patíbulos sonha, ao cachimbo agarrado./Tu conheces, leitor, o monstro delicado/— Hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!”. Da pusilanimidade lamurienta à ofensa descarada, pode-se dizer. No Brasil, fiquemos com Machado, que fez Brás Cubas iniciar as “Memórias Póstumas” com uma mórbida — e hoje famosa — dedicatória: “Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas”. O grande Harold Bloom, que considera Machado de Assis uma espécie de milagre, recusa-se a citar essa dedicatória em “Gênio” por achá-la “terrível demais”. Não me consta que o verme tenha reclamado.

Mas esses momentos de pura literatura na forma de dedicatória são exceções. Uma rápida olhada nos livros atulhados na imensa bibliopilha de livros não lidos em que se transformou meu apartamento parece mostrar que mesmo os grandes escritores são adeptos da simplicidade na hora de dedicar os livros que, com certeza, custaram a eles angustiosas horas de ponderações sobre le mot juste — há uma infindável coleção de dedicatórias reduzidas ao mínimo possível: “Para Ida” (Ralph Ellison, “O Homem Invisível”); “Para H.L.” (Philip Roth, “Nêmesis”); “A Phil Stone” (William Faulkner, “O Povoado”); “A Pilar” (José Saramago, “Todos os Nomes”). Às vezes pode ser divertido, mesmo nas mais sucintas dedicatórias, acompanhar as mutações de afeto, como no caso de Hemingway, que começou com “Este livro é para Hadley e para John Hadley Nicanor” (“O Sol Também se Levanta”), homenageando a primeira mulher e o filho, passou por “Este livro é para Martha Gellhorn” (“Por Quem os Sinos Dobram”), sua terceira mulher, e terminou com “A Mary, com amor” (“Do Outro Lado do Rio, Entre as Árvores”), a quarta e última esposa. Não sei se Vinicius de Moraes seguiu o mesmo exemplo, mas, se o fez, talvez não tenha escrito livros suficientes para todas as musas.

sábado, fevereiro 24

Leitura pela manhã

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