segunda-feira, janeiro 7

Anjos também leem

 Olya Grebennik

Assim começa o livro....

Quando Joana Carda riscou o chão com a vara de negrilho, todos os cães de Cerbère começaram a ladrar, lançando em pânico e terror os habitantes, pois desde os tempos mais antigos se acreditava que, ladrando ali animais caninos que sempre tinham sido mudos, estaria o mundo universal próximo de extinguir-se. Como se teria formado a arreigada superstição, ou convicção firme, que é, em muitos casos, a expressão alternativa paralela, ninguém hoje o recorda, embora, por obra e fortuna daquele conhecido jogo de ouvir o conto e repeti-lo com vírgula nova, usassem distrair as avós francesas a seus netinhos com a fábula de que, naquele mesmo lugar, comuna de Cerbère, departamento dos Pirenétis Orientais, ladrara, nas gregas e mitológicas eras, um cão de três cabeças que ao dito nome de Cerbère respondia, se o chamava o barqueiro Caronte, seu tratador. Outra coisa que igualmente não se sabe é por que mutações orgânicas teria passado o famoso e altissonante canídeo até chegar à mudez histórica e comprovada dos seus descendentes de uma cabeça só, degenerados. Porém, e este ponto de doutrina só raros o desconhecem, sobretudo se pertencem à geração veterana, o cão Cérbero, que assim em nossa portuguesa língua se escreve e deve dizer, guardava terrivelmente a entrada do inferno, para que dele não ousassem sair as almas, e então, quiçá por misericórdia final de deuses já moribundos, calaram-se os cães futuros para a toda restante eternidade, a ver se com o silêncio se apagava da memória a ínfera região. Mas, não podendo o sempre durar sempre, como explicitamente nos tem ensinado a idade moderna, bastou que nestes dias, a centenas de quilómetros de Cerbère, em um lugar de Portugal de cujo nome nos lembraremos mais tarde, bastou que a mulher chamada Joana Carda riscasse o chão com a vara de negrilho, para que todos os cães de além saíssem à rua vociferantes, eles que, repete-se, nunca tinham ladrado. Se a Joana Carda alguém vier a perguntar que ideia fora aquela sua de riscar o chão com um pau, gesto antes de adolescente lunática do que de mulher cabal, se não pensara nas consequências de um acto que parecia não ter sentido, e esses, recordai-vos, são os que maior perigo comportam, talvez ela responda, Não sei o que me aconteceu, o pau estava no chão, agarrei-o e fiz o risco, Nem lhe passou pela ideia que poderia ser uma varinha de condão, Para varinha de condão pareceu-me grande, e as varinhas de condão sempre eu ouvi dizer que são feitas de ouro e cristal, com um banho de luz e uma estrela na ponta, Sabia que a vara era de negrilho, Eu de árvores conheço pouco, disseram-me depois que negrilho é o mesmo que ulmeiro, sendo ulmeiro o mesmo que olmo, nenhum deles com poderes sobrenaturais, mesmo variando os nomes, mas, para o caso, estou que um pau de fósforo teria causado o mesmo efeito, Por que diz isso, O que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, não se pode resistir -lhe, mil vezes o ouvi à gente mais velha, Acredita na fatalidade, Acredito no que tem de ser.

domingo, janeiro 6

Leitura subaquática

Giulia Maidecchi

Utilidade pública e...

UTILIDADE PÚBLICA

Se um furacão
ou ventania
causar confusão
e correria
não há um minuto a perder:
no mesmo momento
abra o seu PC
e clique em e-tempo.

COMPARAÇÃO
Não adianta chorar
ir à sacada e bradar
oh tempora, oh mores!

Não somos maus
só temos o azar
de os outros serem melhores.



IDEIA DE BELEZA

Sou outro agora

Não me inquieta mais
a palpitação dos frutos
nem me instiga
a cobiça dos usufrutos

Minha ideia de beleza
é casta como uma flor
ainda não lambida pelo vento
e assim me basta
e há de sempre bastar

Ideias são sonhos
essência

Ideias o vento
não comete a indecência
de meter a mão e despetalar.

LIMIAR

Vivemos já o bastante.
Agora já tanto faz
Se dermos um passo adiante
Ou se dermos dois atrás.

CHAMADA

Na missa de corpo presente
quando o padre pronunciou
o nome do morto
ele inadvertidamente
seu estado esqueceu
e disse educadamente
fulano sou eu.

OPÇÃO

Direito de escolha
para quê,
e com qual fundamento?

Que importa à folha
saber qual será o vento
que a levará ao esquecimento?

O SALTEADOR

Digam o que disserem
o amor é o que é:
um salteador

Segue-nos
persegue-nos
assalta-nos
mata-nos

E se não faz isso
nós nos pomos a perguntar
que droga é essa
de salteador
se não sabe seguir
nem perseguir
nem assaltar
nem matar?

WEB

A amores tolos, virtuais,
E a coisas do mesmo naipe,
Não dê atenção demais,
Fuja logo, corra, skype.

HISTÓRIA

Eu em história sou fraco:
O que fazia um eunuco,
O que fazia um calmuco,
O que fazia um cossaco?

RESERVA

Que outros se matem por ti.
Quando não sobrar nenhum
E te servir um comum,
Eu estarei por aqui.
Raul Drewnick

sábado, janeiro 5

No mundo da lua


Poucos mas necessários

É preciso estar muito entorpecido pela quantidade e pelo curto prazo para não observar que há livros necessários dos quais, no entanto só se vendem 700 ou 800 exemplares. Ainda que não sejam negócio para ninguém, o mundo seria pior sem eles
Juan José Millás

Na biblioteca do castelo

Biblioteca do Castelo de Fonthill, na Pensilvânia (EUA) 

Piscina

Andrea De Santis
Era uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cercada de jardins e, tendo ao lado, uma bela piscina. Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem.

Diariamente desfilavam diante do portão aquelas mulheres silenciosas e magras, lata d’ água na cabeça. De vez em quando surgia sobre a grade a carinha de uma criança, olhos grandes e atentos, espiando o jardim. Outras vezes eram as próprias mulheres que se detinham e ficavam olhando.
Naquela manhã de sábado ele tomava seu gim-tônica no terraço, e a mulher um banho de sol, estirada de maiô à beira da piscina, quando perceberam que alguém os observava pelo portão entreaberto.

Era um ser encardido, cujos trapos em forma de saia não bastavam para defini-la como mulher. Segurava uma lata na mão, e estava parada, à espreita, silenciosa como um bicho. Por um instante as duas mulheres se olharam, separadas pela piscina.

De súbito pareceu à dona de casa que a estranha criatura se esgueirava, portão adentro, sem tirar dela os olhos. Ergue-se um pouco, apoiando-se no cotovelo, e viu com terror que ela se aproximava lentamente: já atingia a piscina, agachava-se junto à borda de azulejos, sempre a olhá-la, em desafio, e agora colhia água com a lata. Depois, sem uma palavra, iniciou uma cautelosa retirada, meio de lado, equilibrando a lata na cabeça – e em pouco sumia-se pelo portão.

Lá no terraço o marido, fascinado, assistiu a toda acena. Não durou mais de um ou dois minutos, mas lhe pareceu sinistra como os instantes tensos de silêncio e de paz que antecedem um combate. Não teve dúvida: na semana seguinte vendeu a casa.

Fernando Sabino. "A mulher do vizinho"

sexta-feira, janeiro 4

Hora de voltar às compras


O túmulo

Henri Bouvet
Um best-seller é o sepulcro dourado de um talento medíocre
Sidney Smith (1771-1845)

Ex-libris

Jean-François Segura

Brasileiro Monteiro Lobato

Descobri os livros na estante de seu Zeca Freire, o farmacêutico, homem atencioso e de bons préstimos. Era o dono da Farmácia Popular, localizada na rua do comércio. Notei que a biblioteca dele tinha livros grandes e pequenos, grossos e finos. Estavam arrumados nas prateleiras de um armário, que ocupava mais da metade da parede do gabinete. Gostava de ficar ali no gabinete do Seu Zeca Freire quando ia encontrar com o amigo Duda, um de seus filhos. Meus olhos curiosos examinavam o título e o nome do autor na lombada de cada volume.

Foi lá que vi pela primeira vez os nomes de Monteiro Lobato, Érico Veríssimo, Humberto de Campos, Machado de Assis, José de Alencar, Paulo Setúbal e Jorge Amado. Foi lá também que o pai do meu amigo perguntou-me se eu já tinha lido algum livro de escritor brasileiro. Respondi que não, pois até aquele momento só tinha lido revistas em quadrinhos, que os meninos de meu tempo chamavam gibi e guri. Além disso, conhecia apenas poucos trechos do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, no trabalho de análise lógica que a professora de português passou para os alunos na classe do primeiro ano ginasial.

Ele perguntou depois se eu não queria conhecer um livro de Monteiro Lobato, autor que escrevia muito bem para as crianças, os jovens e os adultos. Não era um livro grande o que ele queria que eu lesse. Aconselhou que eu fosse lendo sem pressa. Se gostasse, fosse lendo outros livros daquele autor que nunca tinha ouvido falar. Então primeiro li Reinações de Narizinho, livro que dava início à saga do Pica-Pau Amarelo, o sítio de Dona Benta, onde reinava a menina do nariz arrebitado, Pedrinho, Emília, a terrível boneca, e outros personagens.

Reinações de Narizinho puxou-me para a leitura de outros livros de Monteiro Lobato. Como acontecera com o primeiro livro, li As Caçadas de Pedrinho sem tirar os olhos das cenas que me davam prazer, de tão divertidas e bem inventadas. Vibrei com as aventuras de Pedrinho, que saiu vitorioso na caçada de uma onça, como também no ataque que outros animais fizeram ao sítio de Dona Benta.

Aí não parei mais. Fui conhecendo, de livro para livro, um mundo maravilhoso criado por aquele escritor, que impressionava quando compartilhava uma grande quantidade de cenas vividas por personagens que habitavam um território feito de façanhas e mágicos sonhos.

Íntegra e verdadeira, pura curtição da garotada até hoje, a obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural brasileiro. Cabe aos professores orientar os alunos no desenvolvimento de uma leitura crítica. Se há quem se refira, no livro desse escritor brasileiro, à tia Anastácia como ex-escrava e negra, é porque essa era a cor dela. Não se trata de um insulto, essa era a realidade dos afrodescendentes no Brasil dessa época. Uma triste constatação de uma vergonhosa realidade histórica.

Vale lembrar que, a partir da leitura de suas obras, gerações de escritores brasileiros viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um com a sua voz, a repetir seu mesmo destino.
Cyro de Mattos

quinta-feira, janeiro 3

Café da manhã

 

De onde nasce a felicidade


A felicidade não se aprende nos livros, mas pode brotar deles
Eduardo Gianetti

À janela


Os livros

Acabei o livro que me ocupava de manhã à noite há quatro ou cinco dias, mandei para a Editora com as últimas correções e só o tornarei a ver, já impresso, para o ano. É o romance de 2019 e faltam-me agora três para completar o meu trabalho e deixar a obra redonda. Sei bem o que ela vale mas não me compete a mim pronunciar-me acerca disso. Não publicarei mais nada. Continuarei, que remédio, a escrever as crónicas para a revista Visão. Não passam de prosa alimentar, sem qualquer valor literário. Estupidamente publiquei ou consenti a publicação de quatro ou cinco coleções delas. Exijo que não o voltem a fazer. Não têm qualidade. Foi nos romances que joguei a minha vida e sei o que eles valem. As ditas crónicas são, evidentemente, medíocres: é pelos romances que quero ser julgado, não por esses textinhos baratos e sem valor, destinados a ajudarem financeiramente as minhas filhas. A sua qualidade é, no mínimo, questionável. Espero não ter de continuá-las durante muito mais tempo. Do mesmo modo proíbo que se imprimam a cerca de meia dúzia de artigos sobre a relação entre a Medicina e a criação artística que se editaram em revistas de vária índole, acerca de Antero, D. Duarte, Lewis Carrol, etc. e que nada valem também, os poemas mais ou menos juvenis espalhados em revistas dispersas, as primeiras tentativas, falhadas claro, de ficção. Resigno-me a deixar em circulação as Cartas da Guerra pelo seu provável valor documental, como lembrança de uma época horrível da nossa História colectiva em que, em consequência da censura militar e da censura política não pude descer muito fundo no horror de África, para mais com a censura tão atenta a mim em consequência da minha grande amizade com Ernesto Melo Antunes, sem dúvida o militar mais lúcido e corajoso que conheci, eu que vivi tanto tempo entre rapazes inigualáveis de humanidade e coragem, de mistura, claro, com alguns cobardes que sempre existem, e de situações abjectas de que jamais falei, eu que, evidentemente, nunca fui herói de nada. Portanto a única coisa que quero que fique de mim são os romances, a começar em Memória de Elefante e a terminar no último dos três que me falta compor. Tenho um alto conceito da minha obra, não conheço outra assim embora não me creia vaidoso. Trabalhei como um danado, diariamente, anos a fio, de modo que me sinto no direito de repetir a frase de Bocage, depois de dizer aos outros um poema seu:

– Isto é meu, isto não morre


que é a única eternidade a que posso aspirar e que, de qualquer maneira, não me servirá de nada. O que penso aspirar, como quando perguntaram a Evelyn Waugh o que aguardava dos seus leitores, é, como ele respondeu


– Que rezem pela minha alma pecadora.

Ouviste, Bento? Ouviste, Zé Tolentino? Por favor não se esqueçam de rezar pela minha alma pecadora.

quarta-feira, janeiro 2

Novo ano

 Mariana Ruiz Johnson

Filósofos e fantasmas

Filósofos são aqueles meninos que cresceram mas não perderam o vício de perguntar.

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Que maçantes são as epopeias: homens se matando por helenas e doroteias.

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Se poesia dá camisa a alguém, certamente não é aos poetas.

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Os fantasmas suíços não chegam um minuto antes ou depois da meia-noite.

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Insuportáveis são os fantasmas de piratas. Chegam de madrugada, tomam todo o nosso rum e, quando se vão, esquecem na sala o papagaio.

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Fantasmas educados deixam bilhetes na geladeira: desculpem, tomei todo o leite.

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O mais insuportável dos fantasmas que abriguei foi um que garantia ter sido tenor em Milão.

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E houve aquele fantasma, Xavier ou Javert, um nome assim, que certas noites me acordava e me submetia a interrogatório.

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Um fantasma que me fez rir muito foi um que uma noite, tendo bebido toda minha cerveja, amanheceu dormindo na casa do meu cachorro.

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O melhor da psicanálise é apontar para os nossos atos um culpado que nunca somos nós.

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Não sou um poeta persistente. Sou um poeta reincidente.

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Sei bem quanto não valho. Se um dia for plagiar alguém, não será a mim que plagiarei.

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Hipotenusa é uma palavra que faria mais sucesso se saísse dos livros de geometria e frequentasse novelas de terror.

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Imaginei que com a maturidade chegasse o reconhecimento. Quando percebi, já estava velho demais para ser levado a sério.

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Sou místico, de “a” a “u”. Se me mandassem para aquele lugar, eu iria para Katmandu.

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Corre aqui, vem vê-las. Foi para ti que chamei essas estrelas.

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Minha tristeza é daquelas desconfiadas. Se dou uma assobiadinha, fica inquieta. E, se cantarolo, começa a me acusar de traição.

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Uma das desculpas mais habituais dos que insistem em continuar produzindo sonetos é a de que estão cumprindo uma missão.

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Continuemos escrevendo. Se nós não, quem acreditará em nossa vocação?

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Deus sabe como tenho trabalhado para, quando meu dia chegar, ser um morto conceituado. Se for para ser deus, não aceito nenhum menor que Júpiter ou Zeus.
Raul Drewnick

Para ver melhor

 Anatoliy Stankulov

Cães

Um homem muito sábio, escrevendo recentemente sobre o surgimento e o desenvolvimento da nossa espécie, sugere que a domesticação do cachorro teve a mesma importância que o uso do fogo para o primeiro homem. Pela associação com o cachorro, o homem dobrou a percepção e, além disso, o cão - dormindo aos pés do homem primordial - permitiu-lhe descansar um pouco sem ser perturbado por animais sorrateiros. Os usos do cachorro mudam. Um dos primeiros tratados sobre cães em inglês foi escrito por uma abadessa ou prioresa num grande convento religioso. Ela lista o cão de guarda, o de caçar coelhos, o cão da Espanha chamado spaniel e usado para encontrar aves feridas, o cão "venatório" etc. e, finalmente, diz: "Existem aqueles pequenos cães brancos levados por damas para afastar delas as pulgas". Quanta sabedoria havia aqui. O cãozinho de colo não era um enfeite, mas uma necessidade.

O cachorro em nossos dias, mudou de função. É claro que ainda temos cães usados para a caça e os galgos para as corridas, e os pointers, setters e spaniels para as complicadas profissões, mas, na população total de cachorros, estes são minoria. Muitos cães são usados como enfeite, contudo a maior parte serve de consolo para a solidão. O confidente de um homem ou de uma mulher. Uma plateia para os tímidos. Um filho para quem não tem filhos. Nas ruas de Nova York, entre as sete e nove da manhã, vê-se a lenta procissão de cachorro e dono seguindo da rua para a árvore, para a boca de incêndio, para o caixote de lixo. São cães de apartamento. São levados à rua duas vezes por dia e, embora seja um cliché, é espantoso como dono e cachorro se parecem. Chegam a andar igual, a ter o mesmo tipo de cabeça.

Nos Estados Unidos, estilos e cães mudam. Há alguns anos o airedale era o mais popular. Agora é o cocker, mas o poodle está quase lá. Há uns mil anos consigo lembrar de que havia boxers por toda a parte.

Nos Estados Unidos, tendemos a levar ao extremo raças de cães que não trabalham. Criamos collies com cabeça tão comprida e estreita que não conseguem mais encontrar o caminho de casa. O dachshund ideal é tão comprido e baixo que sua espinha cede. Nossos dobermanns são paranóicos. Desenvolvemos um boston bullcom a cabeça tão grande que os filhotes só podem nascer por cesariana.

Não é sensato lamentar o cão de apartamento. Sua expectativa de vida é quase o dobro do cachorro do campo. O seu tédio, provavelmente, é muitas vezes maior. Certo dia entrei num táxi e dei o endereço de uma loja de animais. O motorista perguntou:

- O senhor quer um cachorro? Porque eu posso lhe arrumar um cachorro. Arranjo cachorros.
- Não é um cachorro, mas como é isso de arranjar cachorros?

- É assim - disse o taxista. - Sábado à noite, num apartamento, tem um sujeito e a mulher secando uma garrafa de gin. Aí pela meia-noite começam a brigar. Ela diz: "Esse seu cachorro é danado. Quem é que limpa a sujeira , o leva a passear e dá comida, e quando chega apenas lhe faz um carinho na cabeça. E o sujeito diz: "Não fale assim do meu cachorro". "Odeio-o", diz ela. "Tá bom colega", diz ele, "Se é assim que quer... Venha Spot", e ele e o cachorro vão para a rua. O sujeito senta-se num banco, pega o bicho ao colo e chora. Em seguida, os dois vão para um bar e o sujeito conta para todo mundo que mulher nenhuma pode tratar seu amigo assim. Bem, dali a pouco eles fecham o bar e já é tarde e o efeito do álcool começa a passar e o sujeito quer ir para casa. Aí, entra num taxi e dá o cachorro ao motorista. Acontece comigo todas as noites de sábado.

Já tive alguns cachorros espantosos. Um que recordo com prazer foi um english setter enorme. Via coisas incompreensíveis. Latia durante horas para uma árvore, mas só para aquela árvore. Na estação das uvas só comia uvas, que colhia da parreira, uma uva de cada vez. Na estação das peras vivia de peras derrubadas pelo vento, mas não tocava em maçãs. Com o passar dos anos foi ficando cada vez mais transcendental. Acho que finalmente acabou desacreditando das pessoas. Pensava que eram um sonho seu. Reunia todos os cães da vizinhança e fazia-lhes conferências ou sermões silenciosos e certo dia concentrou a atenção em mim por uns bons cinco minutos e depois foi embora. Ouvi falar dele em diferentes partes do estado. As pessoas tentavam fazê-lo ficar, mas num ou dois dias ele partia. Minha opinião era que tinha visões e tornou-se missionário. O seu nome era T-Dog. Muito tempo depois, a mais de cem quilómetros de distância, vi um letreiro pintado numa cerca que dizia “T-God”. Estou convencido de que ele trocou as letras de seu nome e desde então saiu pelo mundo para levar sua mensagem a todos os cães.

Tive todos os tipos de cachorro, mas há um que sempre quis e nunca tive. Nem sei se ainda existe. Costumava haver no mundo um english bull terrier branco. Era atarracado, mas rápido. O seu focinho era pontiagudo e os seus olhos eram triangulares, de forma que a expressão era de um riso cínico. Era amigável e nada brigão, mas se fosse forçado a lutar era óptimo. Fazia uma ideia favorável e decente de si mesmo e nunca era covarde. Era um cão pensativo, voltado para si mesmo, mas ainda assim tinha uma curiosidade enorme. Era pesado de ossos e ombros.O pescoço fazia um belo arco. Às vezes cortavam a orelha, mas nunca o rabo elevado. Era um bom cachorro para um passeio. Um cachorro excelente para dormir ao lado da cama de um homem. Era delicado em seus sentimentos. Sempre quis um deles. Pergunto-me se ainda existe no mundo.
John Steinbeck, "A América e os americanos"