quarta-feira, setembro 2

As sire­nes toca­ram a noite intei­ra sem parar...

Mefítico. O fedor vem dos cadá­ve­res, do lixo e dos excre­men­tos que se amon­toam além dos Círculos Oficiais Permitidos, para lá dos Acampamentos Paupérrimos. Que não me ouçam desig­nar tais regiões pelos ape­li­dos popu­la­res. Mal sei o que me pode acon­te­cer. Isolamento, acho.

Tentaram tudo para eli­mi­nar esse chei­ro de morte e decom­po­si­ção que nos ago­nia con­ti­nua­men­te. Será que ten­ta­ram? Nada con­se­gui­ram. Os cami­nhões, ale­gre­men­te pin­ta­dos de ama­re­lo e verde, des­pe­jam mor­tos, noite e dia. Sabemos, por­que tais coi­sas sem­pre se sabem. É assim.

Não há tempo para cre­mar todos os cor­pos. Empilham e espe­ram. Os esgo­tos se abrem ao ar livre, des­car­re­gam, em vago­ne­tes, na vala seca do rio. O lixo forma seten­ta e sete coli­nas que ondu­lam, habi­ta­das, todas. E o sol, vio­len­to demais, cor­rói e apo­dre­ce a carne em pou­cas horas.

O chei­ro infe­to dos mor­tos se mis­tu­ra ao dos inse­ti­ci­das impo­ten­tes e aos for­móis. Acre, faz o nariz san­grar em tar­des de inver­são atmos­fé­ri­ca. Atravessa as más­ca­ras obri­ga­tó­rias, res­se­ca a boca, os olhos lacri­me­jam, racha a pele. Ao nível do chão, os ani­mais mor­rem.

Forma­-se uma atmos­fe­ra pes­ti­len­cial que uma bate­ria de ven­ti­la­do­res pos­san­tes pro­cu­ra inu­til­men­te expul­sar. Para longe dos limi­tes dos oikou­me­nê, pala­vra que os soció­lo­gos, ocio­sos, recu­pe­ram da anti­gui­da­de, a fim de desig­nar o espa­ço exí­guo em que vive­mos. Vivemos?

Virei­-me assus­ta­do. Adelaide nunca tinha dado um grito em trin­ta e dois anos de casa­dos. Treze para as oito. Em qua­tro minu­tos deveria estar no ponto, ou per­de­ria o S­-7.58, minha con­du­ção auto­ri­za­da. Estranho, ela sabia. E por que então resol­via me atra­sar ainda mais?

– O que foi?

– O pale­tó! Esqueceu?

– Não aguen­to esse pale­tó. Passo o dia suan­do.

– Mas sem ele não te dei­xam tra­ba­lhar.

– Tomara.

Adelaide me olhou, aris­ca. Inquieto, enca­rei o rosto dela e me per­gun­tei. Pergunta que não tenho cora­gem de enfren­tar. Se eu admi­tir, ela se des­ven­da. Toma forma, cris­ta­li­za, reve­la. Será que depois de tan­tos anos com­pen­sa ver? Reagir agora? E se vales­se a pena?

Tomávamos o café da manhã jun­tos, todos os dias. Depois ela me acom­pa­nha­va até a porta. Eu colo­ca­va o cha­péu (vol­tou o seu uso), aca­ri­cia­va seu ombro esquer­do (nem sei mais se há pra­zer nisto) e con­sul­ta­va o reló­gio. Ficava angus­tia­do se não esti­ves­se den­tro do horá­rio.

– Olha a nebli­na, está baixa. Vai esquen­tar muito.

Cada dia, a nebli­na desce. Quando envol­ver tudo, vamos supor­tar? Seis meses atrás, pai­ra­va no espa­ço como a cúpu­la de uma cate­dral gigan­tes­ca. O mor­ma­ço res­cal­da a cida­de, infla­ma a gente. Às vezes, a nebli­na some, fica o fedor que dá ânsias de vômi­to. A cabe­ça arde.

– Conseguiu dor­mir?

– Com as sire­nes tocan­do a noite intei­ra?

– Era alar­me de roubo?

– Incêndio. Me deixa com os ner­vos estou­ra­dos. A falta de sono até aguen­to. Mas os alar­mes me per­tur­bam.

– Não chega o calor infer­nal duran­te o dia? Ainda tem incên­dio à noite?

– Está tudo res­se­ca­do.

– Lembra­-se daque­le tempo em que os galões de gaso­li­na estou­ra­vam? Os pré­dios ardiam sem parar? Havia um depó­si­to em cada casa, logo depois do nefas­to perío­do de Racionamentos Incríveis.

Trouxe o pale­tó cinza. Tecido sin­té­ti­co que imper­mea­bi­li­za. Não deixa pas­sar calor, anun­cia­ram. Nada. Igual à casi­mi­ra. Me abafa. Vi sobre a mesa os calen­dá­rios sendo empi­lha­dos, ela esta­va reti­ran­do das pare­des. Puxa! Hoje deve ser 5 de janei­ro. O que me inte­res­sa?

Os calen­dá­rios desta casa per­ma­ne­cem sem­pre no pri­mei­ro do ano. O 1 ver­me­lho, fra­ter­ni­da­de uni­ver­sal. O ver­me­lho des­bo­ta, torna­-se rosa­do ao fim do ano. Todos os dias, Adelaide limpa. Horas e horas tiran­do o pó das folhi­nhas, na sala, cozi­nha, quar­to. Ansiosamente.

O 1 eter­no. Não é pre­ci­so mar­car o tempo, basta aban­do­ná­-lo, ela me disse uma vez. De que adian­ta saber que dia é hoje? As horas, sim, são impor­tan­tes. O dia é bem divi­di­do. Cada hora uma coisa certa. Melhor viver um dia só, sem fim. O que tiver de acon­te­cer, é den­tro dele.

Agora me dou conta. Não pare­cia coisa dela. Mulher quie­ta, ex­-escri­tu­rá­ria de estra­da de ferro. Nunca fala­va. Aceitava as coi­sas e só mos­tra­va irri­ta­ção calan­do­-se e coçan­do em baixo dos olhos. O lugar coça­do tor­na­va­-se enru­ga­do e os olhos alon­ga­vam­-se, como os de uma japo­ne­sa.

No come­ço do ano, reco­lhia os calen­dá­rios, fazia um pa­­co­te com papel­-pardo. No dia 5, ao sair, pedia: “Não se esque­ça do papel”. Repetiu, trin­ta e dois anos. Nunca me lem­bra­va, ela jamais se esque­cia. Dizia a frase, irre­me­dia­vel­men­te, ao nos des­pe­dir­mos, treze para as oito.

A subs­ti­tui­ção dos calen­dá­rios era auto­má­ti­ca no dia 5 de janei­ro. Pela manhã, Adelaide reti­ra­va­-os. Nesse dia, eu não fica­va na cida­de, vol­ta­va na hora do almo­ço. Depois de comer, sem­pre me dei­ta­va um pouco. Mas, agora, o quar­to aba­fa­do e o suor não me dei­xam dor­mir.

Mesmo assim, fico no quar­to. Ao sair, vejo os novos calen­dá­rios no lugar. E, sobre a mesa, o embru­lho de papel­-pardo. Devo levá­-lo ao anti­go quar­to de empre­ga­da, amon­toá­-lo junto com os outros. Ali estão empi­lha­das pela ordem as folhi­nhas dos últi­mos trin­ta e dois anos.

Onze mil e sete­cen­tos dias into­ca­dos. Empoeirados, ama­re­la­dos, não uti­li­za­dos, con­ser­va­dos. Naquele cômo­do, entro uma vez por ano. Nunca tive­mos empre­ga­da. Adelaide sem­pre fez tudo, dizia iro­ni­ca­men­te que era a sua mis­são. Só há pouco con­se­gui con­tra­tar uma faxi­nei­ra sema­nal.

E isso por­que empre­ga­dos ganham pou­quís­si­mo. As pes­soas tra­ba­lham em troca de um prato de comi­da, um copo de água por dia. Não que­rem dinhei­ro, só comer e beber. Aí está a gran­de difi­cul­da­de. Se acei­tas­sem dinhei­ro, tudo bem. Mas comi­da? E que dizer de água então?

Os dias guar­da­dos. Armazenados. Neles, nenhu­ma marca. Nem sequer rasura. Conjunto, soma de todos os nos­sos ins­tan­tes. Agora sei. Cada momen­to era uma ante­ce­dên­cia para nós. Uma espe­ra que se subs­ti­tuía infi­ni­ta­men­te. Vivíamos na ansie­da­de pela oca­sião que have­ria de che­gar.

Assim, nossa vida se dis­ten­dia como um elás­ti­co. Esticava­-se ao ponto máxi­mo, atin­gin­do o esta­do de ten­são, incô­mo­da in­­quie­­­ta­ção. Quando o dia se aca­ba­va, a espe­ran­ça nas­cia outra vez den­tro de nós. Aguardávamos os ins­tan­tes que fariam o dia seguin­te reple­to­-vazio.

Instantes des­pi­dos daqui­lo que fal­ta­va. Algo que neces­si­tá­va­mos e não íamos pro­cu­rar. Ficávamos na expec­ta­ti­va de que acon­te­ces­se. Havia uma falta. Não somen­te den­tro do tempo. Porém um vazio real, con­cre­to. Lancinante. Em cada canto da casa se pro­je­ta­va a sua som­bra. Compacta.

Fomos preen­chen­do o apar­ta­men­to com obje­tos. Até que ele se asse­me­lhou a um bazar de arti­gos úni­cos, inven­dá­veis. Cristaleiras cheias de com­po­tei­ras, xíca­ras, salei­ros, copos, taças e lico­rei­ras. Paredes com qua­dros, repro­du­ções, flâ­mu­las, san­tos, retra­tos, reló­gios para­dos.

Vasos, bibe­lôs, cria­dos­-mudos, mesi­nhas de cen­tro, cin­zei­ros lim­pos, esta­tue­tas, ima­gens, porta­-retra­tos, toa­lhi­nhas de renda, tape­tes de bar­ban­te, cai­xi­nhas deco­ra­das, vidros vazios, gar­ra­fas cor­ta­das, pesos de papel, aba­ju­res, lâm­pa­das voti­vas, ces­ti­nhas de cos­tu­ra deco­ra­das.

E calen­dá­rios. Dois ou três em cada cômo­do, esco­lhi­dos por ela. Brindes ganhos nos Superpostos de Distribuição Alimentar. Comprados na igre­ja. Folhinhas que nos ensi­na­vam vários cos­tu­mes obso­le­tos. Como a boa época para se plan­tar e colher. Ou que pre­viam o bom e o mau tempo.

Depois de guar­dar os paco­tes, eu vinha olhar, uma a uma, as folhi­nhas novas. Estampas colo­ri­das. Moças colhen­do café. Laranjais em fila india­na sobre a coli­na. Trigais dou­ra­dos ao sol, homens com cei­fa­dei­ras. Casas à beira de lagos, incên­dios na flo­res­ta. Tudo tão anti­go.

Índios, onças, gatos na cesta, pai preto, anjos velan­do meni­nos à borda de abis­mos. Tudo, menos moças nuas. Dessas que se viam nas ofi­ci­nas mecâ­ni­cas. Loiras diá­fa­nas, more­nas rechon­chu­das, sor­rin­do em tan­gas míni­mas. Contemplava rapi­da­men­te, teria o ano todo para admi­rá­-las.

– Tem um fio de cabe­lo bran­co. O que é isso, pai­zi­nho? Mal fez cin­quen­ta anos. Seu pai com noven­ta ainda tem a cabe­ça preta!

A mãe dela cha­ma­va o mari­do de pai. Mas nós? Onde está nosso filho? Nem sei se tive­mos. Pode pare­cer um absur­do, mas é ver­da­de. Podem acre­di­tar. Pela minha honra. Tudo se con­fun­de na minha cabe­ça, o que foi e o que deveria ser. O que era real­men­te e aqui­lo que eu gos­ta­ria que fosse.

– Souza, sonhei outra vez.

– De novo? O mesmo sonho?

– Mudou um pouco. Não foram as sire­nes que não me dei­xa­ram dor­mir. Foi o sonho. Tão níti­do. Real como aque­la noite no porto.

Não. Adelaide, não. Basta! Já temos o infer­no no cora­ção. Há coi­sas que devem ser esque­ci­das. Vamos sepul­tá­-las. É pre­ci­so. Combinamos um dia não falar nunca mais sobre o assun­to. Afinal, para nós, viver sem­pre foi tão calmo, recon­for­tan­te. Éramos feli­zes. Ao menos, pare­cia.

– Souza, foi impres­sio­nan­te. O navio afun­da­va num mar ter­rí­vel. Não havia tem­pes­ta­de algu­ma, nem vento, só o silên­cio. Sabe o que me con­ge­la­va? O ruído das lâm­pa­das quen­tes estou­ran­do quan­do toca­vam a água fria. Os cor­dões de lâm­pa­das se arre­ben­ta­vam, sol­tan­do uma fuma­ci­nha bran­ca. O mar foi fican­do escu­ro, escu­ro, até que a últi­ma lâm­pa­da se apa­gou. Eu sem enxer­gar nada, só ouvin­do aque­las explo­sões. Nem mesmo um gemi­do. Elas mor­re­ram todas, não mor­re­ram, Souza? Você vai ter de me con­tar uma hora. Será que não era o baru­lho das cabe­ci­nhas estou­ran­do?

– Não seja louca, Adelaide. Como a cabe­ça delas ia estou­rar?

– Criança tem a cabe­ça tão fra­qui­nha.

– É tudo sonho, Adelaide, não tem nada a ver. Se acal­me.

– Não posso sos­se­gar, e você tem­bém não, até que eu saiba.

O navio, nossa afli­ção, esta­va esque­ci­do. Imaginei que jamais retor­nas­se. Antes, mais novos, tínha­mos capa­ci­da­de para supor­tar. Adelaide, prin­ci­pal­men­te. Está can­sa­da, acho que doen­te. Desassossegada. Para nós, o tempo não aju­dou a esque­cer, ao con­trá­rio, ali­men­tou lem­bran­ças.

Quatro para as oito; se não corro, perco o ôni­bus. Não fosse esta perna, eu teria uma bici­cle­ta, como todo mundo. Uma artro­se no joe­lho me impe­de de peda­lar. Tive de pas­sar por deze­nas de exa­mes, cen­te­nas de gabi­ne­tes, paguei gor­je­tas, conhe­ci todos os peque­nos subor­nos.

Escorreguei fichas de água nas mãos de fun­cio­ná­rios. Fichas que me fize­ram falta. Transferi cotas de ali­men­tos, e espe­rei até que saís­se a pra­ti­ca­men­te impos­sí­vel auto­ri­za­ção para o ôni­bus. Ganhei a ficha espe­cial de cir­cu­la­ção para o S­-7.58. O des­gra­ça­do é pon­tual, até irri­ta.

Abro a porta, o bafo quen­te vem do cor­re­dor. Já estou mela­do, quan­do che­gar ao cen­tro esta­rei em sopa. Como todo mundo. A vizi­nha varre o chão, furio­sa­men­te. Como se fosse pos­sí­vel lutar con­tra a poei­ra negra, a imun­dí­cie. Não for­ne­cem água para lavar as par­tes comuns.

Vou pela esca­da. Há muito desis­ti desse emper­ra­do ele­va­dor soli­tá­rio, mam­bem­be. Serve trin­ta anda­res, cento e cin­quen­ta apar­ta­men­tos. Somente os velhos e invá­li­dos espe­ram por esse apa­re­lho des­con­jun­ta­do, amea­ça­dor. O cor­re­dor da entra­da atu­lha­do de lixo. Uma ver­go­nha.

Lixo que aumen­ta dia a dia. Não pode­mos ati­rar na rua, e não há onde depo­si­tar. O cami­nhão car­re­ga o que pode quan­do passa. Se passa. Vem tão cheio que leva muito pouco. Ratos dila­ce­ram os sacos, o lixo se espar­ra­ma, espa­lha um fedor insu­por­tá­vel. Ora, um chei­ro a mais.

Nem sei por que paga­mos zela­dor, ele nunca está, se es­que­­­ce de ligar o Sônico Antirratos. Um zela­dor hoje em dia preci­sa ser polí­ti­co, nego­ciar com os Homens dos Caminhões de Lixo, com os Civiltares de Segurança, dia­lo­gar habil­men­te com For­ne­ce­do­res Oficiais de Água.

A bar­bea­ria está abrin­do. Antigamente, havia neste hall loji­nhas minús­cu­las, boni­tas. Existia até um café, com toa­lhas xadrez, chás e tor­tas, sonhos e bolos, sor­ve­tes, água gela­da, refri­ge­ran­tes e sucos. Fecharam, as vitri­nes estão cer­ra­das com pla­cas de plás­ti­co pre­ga­das aos baten­tes.

Lacrado por pla­cas pre­ga­das por fora. Assim me sinto. Contando os dias, deta­lhan­do meus pas­sos. Sensação de que me obser­vo em micros­có­pio, aumen­tado deze­nas de vezes. Quantas vezes não reco­nhe­ço este Souza que des­li­za num líqui­do vis­co­so. Sou, toda­via não pode ser eu.

No cor­re­dor, somen­te o bar­bei­ro resis­tiu. Sei lá como, ou por quê. Não enten­do. Os velhos des­cem de vez em quan­do para uma barba, um cabe­lo. Através dos vidros encar­di­dos, mal se per­ce­be o salão. Cumprimento com um aceno, Prata me faz um sinal, gosta de uma pro­si­nha. Inevitável, indo­lor.

– Tem água esta sema­na?

– E eu sei? Pergunte ao dis­tri­bui­dor.

– É que você tem aque­le sobri­nho.

– Não faço a míni­ma ideia.

– Desorganizaram as entre­gas, ou aumen­ta­ram os pra­zos.

Coceira nas mãos. Arde e no lugar está uma peque­na depres­são, como se eu tives­se aper­ta­do uma bola de gude por muito tempo. Fiquei pas­san­do o dedo pela depres­são, sen­tin­do cóce­gas. Será uma pica­da de inse­to? Não senti nada. Medo. Anda apa­re­cen­do cada bicho estra­nho!

O cami­nhão des­car­re­ga refri­ge­ran­tes fac­tí­cios no bar. Portanto um mês se pas­sou. Durante as fes­tas o tempo voa. Besteira, o que me inte­res­sa a cor­ri­da do tempo? Não exis­te nada a fazer com ele. Que impor­ta a velo­ci­da­de se já não tenho uso para minha vida. Quem tem?
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"

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