sexta-feira, setembro 4

Martín de Porres

Tocam fúnebres os sinos das igrejas de Santo Domingo. À luz das velas, banhado em suores gelados, Martín de Porres entregou sua alma depois de muito lutar contra o Demônio com o auxílio de Maria Santíssima e de Santa Catarina Virgem e Mártir. Morreu em sua cama, com uma pedra como travesseiro e uma caveira ao lado, enquanto o vice-rei de Lima de joelhos, beijava a sua mão e lhe rogava que intercedesse para que lhe abrissem um lugarzinho lá no Céu.

Martín de Porres tinha nascido de uma escrava negra e seu amo, cavaleiro de tradição e puro solar espanhol, que não a engravidou para dispor dela como coisa, e sim para aplicar-lhe o princípio cristão de que na cama todas são iguais perante Deus.

Aos quinze anos, Martín foi doado ao convento dos frades dominicanos. Aqui viveu seus trabalhos e milagres. Nunca o ordenaram sacerdote, por ser mulato; mas abraçando com amor a vassoura, varreu cada dia os salões, os claustros, a enfermaria e a igreja. Navalha na mão, barbeava os duzentos curas do convento; atendia os doentes e distribuía roupa limpa com aroma de alecrim.

Quando soube que o convento sofria penúrias de dinheiro, apresentou-se ao prior:

– Ave Maria.

– Gratia plena.

– Que o senhor venda este mulato cachorro – ofereceu-se.

Deitava em sua cama os mendigos ulcerosos da rua e orava de joelhos durante toda a noite. Ficava branco feito neve na luz sobrenatural; brancas almas saíam de seu rosto quando cruzava o claustro à meia-noite, voando qual divino meteoro, rumo à solidão de sua cela. Atravessava portas fechadas com cadeado e rezava, às vezes, ajoelhado no ar, longe do chão; os anjos o acompanhavam ao coro levando luzes nas mãos. Sem sair de Lima consolava os cativos em Argel e salvava almas nas Filipinas, China e Japão; sem mover-se de sua cela, tocava os sinos do angelus. Curava os moribundos com panos molhados em sangue de galo negro e pó de sapo e mediante exconjuros aprendidos com sua mãe. Com o dedo roçava um dente e suprimia a dor e convertia em cicatrizes as feridas abertas; fazia branco o açúcar escuro e apagava incêndios com o olhar. O bispo teve de proibir-lhe tantos milagres sem autorização.

Depois das matinas se despia e açoitava as próprias costas com um chicote de nervos de boi amarrados em grossos nós, e enquanto arrancava seu próprio sangue gritava:

– Vil mulato cachorro! Até quando vai durar tua vida pecadora?

Com olhos de súplica, lacrimejantes, sempre pedindo perdão, passou pelo mundo o primeiro santo de pele escura do branquíssimo santuário da Igreja católica.

Eduardo Galeano, "Os Nascimentos"

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