terça-feira, setembro 8

Coçando a palma da mão (aler­gia?), Souza obser­va, com fas­tio, a ope­ra­ção dos Civiltares

O ôni­bus che­gou, a cocei­ra vol­tou. Cruzei a bor­bo­le­ta, não havia luga­res vagos. Normal, a essa hora. Cumprimentei pes­soas que vejo aqui todos os dias, à mesma hora. Os novos são raros. Somos parte do S­-7.58, nos per­mi­tem este, nenhum outro. É o que dizem as fichas de trá­fe­go.

A ficha indi­ca onde posso andar, os cami­nhos a per­cor­rer, bair­ros auto­ri­za­dos, por que lado de cal­ça­da cir­cu­lar, con­du­ção a tomar. Assim, somos sem­pre os mes­mos den­tro do S­-7.58. Nos conhe­ce­mos todos, mas não nos fala­mos, rara­men­te nos cum­pri­men­ta­mos. Viajamos em silên­cio.

Sou exce­ção, grito meu bom­-dia, os ros­tos se viram afli­tos, per­ple­xos. Depois se vol­tam para a pai­sa­gem, as cal­ça­das con­ges­tio­na­das. Mais um louco, pen­sam. Todos têm cer­te­za, serei apa­nha­do ao des­cer. No dia seguin­te se sur­preen­dem, sem demons­trar, quan­do apa­re­ço, cum­pri­men­tan­do.

Três pon­tos antes do final (deve ser dez e vinte) senti uma comi­chão insu­por­tá­vel. Estava com­pri­mi­do. Não podia olhar, nem levan­tar a mão. Segurava a male­ta com a esquer­da, com a direi­ta me apoia­va ao varão. Empurrado para a saída, me des­pe­di. Claro que não res­pon­de­ram.

Acabei de des­cer, ouvi os estam­pi­dos. Secos, ocos. Tão conhe­­ci­dos. Joguei­-me rápi­do ao chão, con­for­me seve­ras ins­tru­ções. Num déci­mo de segun­do, todos em volta esten­di­dos. Vivemos con­di­cio­na­dos, nos­sos refle­xos agu­ça­dos. Como aque­les ratos que vão comer ao ouvir a cam­pai­nha.

Quantas vezes por dia me atiro ao chão nesta cida­de. Se alguém fil­mas­se duran­te algu­mas horas, sem regis­trar o som, veria uma daque­las velhas comé­dias de Harold Loyd, o Gordo e o Magro, Mack Sennet. Deita, levan­ta, deita, levan­ta. E os ros­tos? Todo mundo apa­vo­ra­do, tenso.

As pes­soas dis­pu­tam cen­tí­me­tros de cal­ça­da. Batem cabe­ças, se bei­jam, ficam rosto a rosto, chei­ram o pó, se levan­tam imun­das, xin­gam, pro­tes­tam. Teve um dia que levei duas horas para ven­cer duzen­tos metros até o escri­tó­rio. Deita, levan­ta. Foi tiro para tudo quan­to é lado.

Hoje, um tiro só. Os Civiltares são conhe­ci­dos e temi­dos pela exce­len­te pon­ta­ria e rapi­dez. O ladrão­zi­nho, ou o que quer que fosse, garo­to ainda (nunca fui bom para deter­mi­nar ida­des), esta­va esten­di­do, de cos­tas. A cáp­su­la enter­ra­da no meio da testa. Nenhuma gota de san­gue.

O ver­me­lho da cáp­su­la me per­mi­tiu iden­ti­fi­cá­-la como Cataléptica. Provoca um esta­do seme­lhan­te à morte duran­te duas horas. Quando o atin­gi­do acor­da, já está encer­ra­do no Isolamento. E aí, bau­-bau, Nicolau! Nunca mais. Tem quem afir­me que a Cataléptica torna a pes­soa idio­ta.

O Civiltar abai­xou­-se, apa­nhou a car­tei­ra, devol­veu a um se­­nhor, ao lado. O homem reco­lheu­-a tran­qui­la­men­te, reti­rou uma nota, entre­gou ao poli­cial. Os Acertos de Taxas de Segurança são fei­tos no ato. Acabou­-se a buro­cra­cia, papéis, reci­bos, gui­chês, filas, espe­ras.

O Civiltar acio­nou o wal­kie­-tal­kie, pedin­do carro trans­por­ta­dor. Puxou o atin­gi­do para um canto da cal­ça­da e gri­tou: “Podem se levan­tar”. Mas a gente sem­pre dá um tempo. Quando ocor­re um inci­den­te assim, seguem­-se uns qua­tro ou cinco, os mar­gi­nais apro­vei­tam a con­fu­são.

Se bem que não é fácil. Para cada homem em cir­cu­la­ção, exis­te pra­ti­ca­men­te um Civiltar ao seu lado. Eles andam giran­do a cabe­ça para todos os lados e se asse­me­lham a robôs. O trei­na­men­to inten­si­vo des­per­ta neles, com­pul­si­vo, o faro, o ins­tin­to. Não sei como, enxer­gam tudo. Verdade.

Parece que são trei­na­dos pelos mes­mos méto­dos com que se ensi­na­vam os anti­gos cães pas­to­res na polí­cia mili­tar. Ficam con­di­cio­na­dos e são uma bele­za na efi­ciên­cia. Por menos que se goste deles, é pre­ci­so reco­nhe­cer: evi­tam catás­tro­fes nesta cida­de. Pior sem eles.

Chegamos a esse ponto. Aceitar os Civiltares como neces­sá­rios, supor­tá­-los e chamá­-los de vez em quan­do. Para mim, ter de fazer isso um dia vai ser pior que tomar óleo de ríci­no. O quê? Óleo de ríci­no? Ainda exis­te? Cada coisa de que me lem­bro de repen­te. É engra­ça­do.

A refres­can­te Casa dos Vidros de Água. Chego à sua porta, todos os dias, às dez e qua­ren­ta. Tenho meia hora para pas­sear por den­tro dela, sen­tin­do a tran­qui­li­da­de que exis­te ali. Há dois anos não consigo come­çar o meu dia sem entrar e visi­tar a Casa. Cada dia uma seção, vaga­ro­sa­men­te.

Olhei a mão. A man­cha esta­va de um ver­me­lho vivo e juro que me pare­ceu per­ce­ber um aumen­to na depres­são. Bem funda. Aperto, não dói. Coça ainda, mas é uma cocei­ra agra­dá­vel, des­sas que dão pra­zer, me arre­pia todo. Loucura, na minha idade, ficar me arre­pian­do assim com cocei­ras.

Saio da Casa dos Vidros de Água sem­pre aba­la­do com o irre­pa­rá­vel. Não em rela­ção à minha vida. Ao mundo que me cerca, ao ponto a que as coi­sas che­ga­ram. Puxa! Não é resig­na­ção que me toma quan­do deixo a últi­ma sala e atra­ves­so o cor­re­dor, arti­fi­cial­men­te esver­dea­do.

Como se luz opaca atra­ves­sas­se flo­res­ta espes­sa, rom­pen­do com difi­cul­da­de a galha­ria, arbus­tos, ramos, folhas, cipós. Este cor­re­dor final me acal­ma, me recon­ci­lia. Talvez o mal este­ja aí. Nessa recon­ci­lia­ção. Há uma inter­rup­ção brus­ca quan­do passo do cor­re­dor para a saída.

Todo dia pas­seio pelo deser­to, broto no vazio de salas e cor­re­do­res. A sen­sa­ção de que tudo é meu é recon­for­tan­te. Egoís­­mo. Mas para mim é como se as pes­soas cons­pur­cas­sem este recin­to, quase igre­ja, cate­dral de nos­sos tem­pos, com seus san­tos, divin­da­des, ima­gens.

Certamente, do ponto de vista prá­ti­co, a Casa é inú­til e o que ela exibe tam­bém. Coisas per­di­das no tempo, irre­cu­pe­rá­veis. Tudo fun­cio­na em torno da uti­li­da­de, con­ve­niên­cia ou não. Esta Casa tal­vez tenha sido a últi­ma obra con­si­de­ra­da sem valor prá­ti­co para a civi­li­za­ção.

Não devia estar na Casa. Entro aqui me per­gun­tan­do o porquê de tudo. Sem ter o que res­pon­der. Mesmo assim, entro. Me forço a isso, acho neces­sá­rio. Se per­der essa luci­dez que come­ço a adqui­rir, esta­rei morto. Como os calen­dá­rios inal­te­ra­dos que dor­mem no quar­ti­nho de minha casa.

Encontrar uma saída. Se as pes­soas qui­ses­sem, have­ria pos­si­bi­li­da­des. Não há que­rer, nin­guém vê nada. Todos tran­qui­los, acei­tam o ine­vi­tá­vel. Os jor­nais não dizem pala­vra. Calaram­-se aos pou­cos. Mesmo que falas­sem, não têm força nenhu­ma. A tele­vi­são está vigia­da.

Ainda que não esti­ves­se, a ela nada inte­res­sa. Os noti­ciá­rios são inó­cuos. Novelas, inau­gu­ra­ções, pla­nos do gover­no, pro­mes­sas de minis­tros. Como acre­di­tar nes­ses minis­tros, a maio­ria cen­te­ná­rios? Quase per­pé­tuos, rema­nes­cen­tes da fabu­lo­sa Época da Grande Locupletação.

O povo ainda fala des­ses tem­pos inson­dá­veis. Eles sobre­vi­vem na tra­di­ção oral. Os livros de his­tó­ria omi­tem. Quem se der a um gran­de tra­ba­lho, encon­tra­rá nos arqui­vos de jor­nais alguns ele­men­tos. Distorcidos, é claro. Foi um perío­do de into­le­rân­cia, amor­da­ça­men­to, silên­cio.

Quando eu dava aulas, os estu­dan­tes per­gun­ta­vam sobre tais tem­pos. Eram alu­nos que as esco­las repu­ta­vam incô­mo­dos e ter­mi­na­vam afas­ta­dos dos cur­sos. A dire­ção ouvia as gra­va­ções das aulas e me cha­ma­va. Para que eu infor­mas­se quem tinha me inter­ro­ga­do. Denunciasse.

No iní­cio, recu­sa­va. Havia jus­ti­fi­ca­ti­vas. Naquelas clas­ses de qui­nhen­tos alu­nos e gran­des telões, eu ale­ga­va, era impos­sí­vel saber quem tinha feito a Pergunta Intragável, como dizia a dire­ção. Que tama­nho terão as clas­ses hoje? Mil alu­nos? Bem que gos­ta­ria de saber.

Depois, a situa­ção foi fican­do mais difí­cil, era sem­pre em minhas aulas que as per­gun­tas intra­gá­veis sur­giam. A dire­ção que­ria saber por quê. Que tipo de coi­sas eu anda­va dizen­do fora das clas­ses. Mandaram me seguir, plan­to­na­ram minha casa, gram­pea­ram meu tele­fo­ne.

Solucionaram obri­gan­do a pes­soa inte­res­sa­da em fazer per­gun­tas a se iden­ti­fi­car antes. Muitos se cala­ram, outros pre­fe­ri­ram enfren­tar puni­ções. “Essa época de locu­ple­ta­ção não exis­tiu. Foi calú­nia”, garan­tia a dire­ção. “Fala­-se muito, mas onde estão os docu­men­tos? Invenções, mitos.

Isso, mitos popu­la­res. O senhor conhe­ce os mitos popu­la­res? O saci exis­te? O cai­po­ra, a mula sem cabe­ça, o lobi­so­mem? Que espe­ran­ça. São fan­ta­sias cria­das que se per­pe­tuam para colo­car medo nas pes­soas. Está vendo como a tra­di­ção oral é coisa peri­go­sa, trai­çoei­ra?”

Por que os estu­dan­tes não recor­riam aos jor­nais, às biblio­te­cas públi­cas, aos arqui­vos micro­fil­ma­dos? Tudo em mãos do gover­no. Era (ainda é) neces­sá­rio per­cor­rer um longo cami­nho buro­crá­ti­co, bus­can­do papéis, carim­bos, selos. A tare­fa se tor­na­va com­ple­ta­men­te impos­sí­vel.

Impossível é o termo. Tive alu­nos que gas­ta­ram anos e, quan­do obti­ve­ram o últi­mo nihil obs­tat, os arqui­vos se muda­ram. Antigos fun­cio­ná­rios foram remo­vi­dos e os novos, avi­sa­dos, não reco­nhe­ce­ram as auto­ri­za­ções. Os alu­nos ten­ta­vam outra vez, a táti­ca do gover­no era clara.

Quando passo pelos bair­ros da Circunstancial Número 14, vejo os pré­dios imen­sos onde está guar­da­da a memó­ria nacio­nal. Ninguém sabe que fatos estão depo­si­ta­dos ali. Para não dizer das pas­tas carim­ba­das: A SEREM ABER­TAS DEN­TRO DE DOIS SÉCU­LOS. São docu­men­tos da Locupletação.

– Tio.

– Dois sécu­los, ima­gi­ne...

– O quê?

Meu sobri­nho, ins­tin­ti­va­men­te, antes de me esten­der a mão, ia erguen­do a palma em con­ti­nên­cia. Não acei­tei, inter­rom­pi, puxei­-o para mim e dei um gran­de abra­ço. Ele se con­ser­vou rígi­do, ainda que o rosto fosse sor­ri­den­te e cor­dial. Também sem­pre foi como um filho para nós.

– O que faz por aqui, tio?

– Visitava a Casa dos Vidros.

– Saudosismo?

_ Ééé, quem sabe?

– Fui pro­mo­vi­do, tio. Sou o pri­mei­ro do Novo Exército a atin­gir o posto de capi­tão aos vinte e três anos.

Fiz uma con­ti­nên­cia irô­ni­ca. Ele res­pon­deu, a sério. Sempre foi cir­cuns­pec­to, com­pe­ne­tra­do, com noções de dever e obri­ga­ções. Desde crian­ça. Estava sem­pre em casa, Adelaide dizia: “Você deve entrar para o Exército”. Foi quan­do enten­di como ela esta­va den­tro da rea­li­da­de.

Muito mais do que eu podia pen­sar. Adelaide sem­pre foi sur­pre­sa cons­tan­te. Observando nosso rela­cio­na­men­to, vejo que enten­di bem pouco a mulher que tive. Quando menos se espe­ra­va, ela fazia uma obser­va­ção justa, ade­qua­da. Será tarde demais? Diz o povo que nunca é.

Sim, por­que em outros tem­pos, no sécu­lo XVII, ou XVIII, teria dito ao sobri­nho: “Vá ser padre”. Naquele dia, quin­ze anos atrás, Adelaide come­çou uma surda e per­sis­ten­te cam­pa­nha para que o meni­no ves­tis­se farda. Mas não alme­ja­va um sim­ples praça, que­ria que ele fosse Militecno.

Os melho­res pos­tos do país se encon­tra­vam em mãos de Militecnos. Bancos, minis­té­rios, empre­sas Multis. E como era difí­cil rom­per as bar­rei­ras para se for­mar um Militecno. Além de supe­rar toda a car­rei­ra mili­tar, quem supor­ta­va as fan­tás­ti­cas anui­da­des cobra­das pelas uni­ver­si­da­des?

– Passo lá para come­mo­rar. Com o senhor e a tia. Posso?

– Eu é que insis­to. Nem vou dizer à sua tia. Vamos fazer sur­pre­sa.

– Tem comi­da?

– O nor­mal.

– Vou ten­tar algo na Subsistência. Ah, quer fichas para água?

– Sempre é bom, jamais con­se­gui me con­tro­lar, gasto mesmo.

– E não é para gas­tar?

– Mas tem o racio­na­men­to, para divi­dir melhor.

– Racionamento, tio? Pensa que é para todo mundo?

No fundo, não gosto dele. Uso suas faci­li­da­des. Penso que tenho direi­to a elas, con­tri­buo para que o Novo Exército exis­ta com todos os seus pri­vi­lé­gios. Devo explo­rá­-lo. Afinal, ele deve a mim e a Adelaide o posto, e a car­rei­ra. Quanta roupa ela não lavou? E as comi­das?

Eu acor­da­va todos os dias quin­ze para as seis, fazia café, arran­ca­va o pre­gui­ço­so da cama. Foram dois anos na Escola Superior de Integração. Os pio­res, até ele pas­sar por todas as pro­vas, prin­ci­pal­men­te as de fide­li­da­de, neu­tra­li­da­de ideo­ló­gi­ca e per­cep­ção sen­so­rial.

– Sabe o que vou fazer, tio?

– Não tenho ideia.

– Vou visi­tar essa tal Casa dos Vidros.

– Boa coisa.

– Quero ver como estão apro­vei­tan­do esse pré­dio enor­me.

Desta vez cor­res­pon­deu ao abra­ço, sol­tan­do o corpo. Como posso gos­tar desse sobri­nho quan­do sei ao que ele per­ten­ce? Se tenho plena cons­ciên­cia do que será o país na mão dele den­tro de alguns anos? Se hou­ver alguns anos. Tenho as car­tas dele, conhe­ço suas ideias.

Nenhuma von­ta­de de tra­ba­lhar. A cocei­ra volta, fico impres­sio­na­do. O cen­tro de minha mão está afun­dan­do. Só pode ser delí­rio pro­vo­ca­do pelo calor. Agarro o braço de um homem, ele se assus­ta. Sei o risco que corro, toda rea­ção é admi­ti­da quan­do se trata da pró­pria segu­ran­ça.

– Calma, meu senhor, calma. Olhe, me des­cul­pe, mas pre­ci­so saber. Olhe a minha mão. Tem um afun­da­men­to aí?

Ele pro­cu­rou se livrar. Viu a mão e tal­vez tenha se apa­vo­ra­do mais. Ninguém garan­te que isso não seja con­ta­gio­so. Só não saiu cor­ren­do por­que é impos­sí­vel cor­rer nes­tas cal­ça­das atra­van­ca­das. Para mim, a rea­li­da­de é este afun­da­men­to, sem dor, cocei­ra. Inexplicável como tudo hoje em dia.

Ir ao médi­co é boba­gem, melhor espe­rar. Estou des­men­tin­do Adelaide, ela me jul­ga­va hipo­con­dría­co. Não acre­di­ta­va em minhas dores de cabe­ça, nos mal­-esta­res do estô­ma­go. Ergui os olhos. Uma sen­sa­ção inquie­tan­te de alto a baixo. O homem ca­­re­­ca me olha­va penetran­te, amea­ça­dor.
Ignácio de Loyola Brandão, "Não verás país nenhum"

Nenhum comentário:

Postar um comentário