quarta-feira, setembro 2

Ari Nhotim em retiro espiritual

Ari Nhotim não era bem um intelectual, mas alguém que apreciava ser confundido com um. Colecionava citações que nunca entendia, frequentava eventos culturais em busca de evidências fotográficas e possuía o raro talento de transformar qualquer banalidade em supostas reflexões sofisticadas.

E, para ser justo, depois de tantos anos praticando, já fazia isso com impressionante competência.

Foi assim que, certo dia, decidiu fazer um retiro de silêncio.

A verdadeira razão não era lá muito nobre: postar depois uma foto em preto e branco acompanhada da legenda “De vez em quando é preciso escutar o que o ruído esconde”.

Não fazia a menor ideia do que aquilo significava, mas sabia que renderia curtidas.

O retiro acontecia numa pousada ecológica no alto de uma serra. Durante três dias, os participantes deveriam permanecer em absoluto silêncio.

Logo na chegada, Ari sentiu-se inspirado.

Recebeu um crachá com seu nome e uma pequena cartilha explicativa. Leu apenas o título. Cartilhas são muito literais para alguém acostumado a experiências mais sensoriais.

Antes do início oficial, uma senhora lhe perguntou:

— O senhor já fez algum retiro desses?

— Prefiro não compartimentalizar minhas experiências.

Traduzindo: nunca.

O problema surgiu poucos minutos depois.

Ari descobriu que ficar calado era mais difícil do que imaginava. Ele precisava que os outros soubessem que estava vivendo algo importante.

No segundo dia, a situação piorou.

Sem poder falar, Ari começou a desenvolver um complexo sistema de expressões faciais. Franzia a testa para demonstrar transcendência. Erguia uma sobrancelha para indicar iluminação. Fechava os olhos para sinalizar conexão cósmica.

Um participante comentou baixinho com outro:

— Aquele homem ali está passando mal?

À tarde, durante uma caminhada meditativa, Ari encontrou um lago.

Ali enxergou sua grande oportunidade.

Sentou-se numa pedra à margem da água e assumiu uma pose contemplativa tão elaborada que parecia a estátua O pensador, de Rodin.

Permaneceu imóvel por quase quarenta minutos. Até que um funcionário da pousada se aproximou.

— Senhor, o pesque-pague é no sítio ao lado.

Ari sentiu o golpe. Mas permaneceu em silêncio. Afinal, regras são regras.

Na última noite, os participantes foram convidados a escrever anonimamente suas reflexões num mural coletivo.

Era o momento que ele aguardava.

Enquanto os demais registravam pensamentos simples sobre autoconhecimento e serenidade, Ari escreveu: “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio, encontrei a gramática secreta da existência”.

Leu em voz alta a frase três vezes. Achou genial.

Na manhã seguinte, durante o encerramento, o coordenador comentou algumas mensagens deixadas no mural.

Ao chegar à de Ari, fez uma pausa.

Coçou a cabeça. Ajustou os óculos. E leu:

— “Entre a ausência do verbo e a presença do vazio…”

Depois veio o comentário:

— Bom, quem escreveu isso teve uma experiência bastante… específica.

Foi a primeira vez em todo o retiro que Ari sentiu verdadeiro crescimento espiritual. Confundiram sua frase com profundidade. Missão cumprida.

Na volta para casa, publicou uma fotografia em seu perfil do Instagram olhando para o horizonte.

Legenda: “Não voltei o mesmo”.

E estava certo.

Voltou com três mil novecentas e quarenta e sete curtidas a mais.

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